A Histria de Meu Filho


 Nadine Gordimer


Coleco Mil Folhas - 80


PBLICO


Digitalizao e Arranjo


Agostinho Costa


Este livro foi digitalizado
para ser lido por Deficientes Visuais


Em A Histria de Meu Filho, Nadine Gordimer descreve os conflitos 
com que uma famlia negra sul-africana se depara todos os dias. O 
pai, Sonny, procura encontrar um equilbrio entre o seu 
compromisso com a libertao dos seus irmos de raa e o seu amor 
por uma mulher branca. Esta representa aquela faco de cidados 
de origem europeia que so forados a viver num sistema que 
acreditam estar errado. Will, o filho de Sonny e de Aila, a 
esposa negra, tenta compreender, por sua vez, as difceis 
relaes mantidas por aqueles que o rodeiam.
Neste livro, a autora retoma o tema do apartheid, presente em 
muitas das suas obras, e apresenta o problema racial com crua 
veracidade e sem simplificaes. Tambm  a histria de uma 
famlia cujos membros partilham os mesmos ideais, mas apresentam 
formas diversas de enfrentar e resolver os problemas sociais.


"Estava com os ombros erguidos contra o frio e ria; pararam um 
momento, no sabiam em que direco iam, por aquela rua. Ele s 
trazia uma camisa e um casaco leve, mas ela tinha sempre roupa 
extra, era o seu estilo. Tirou o cachecol de malha s riscas."


A Histria de meu Filho


Nadine Gordimer


Ttulo original: My Sons Story


Traduo: Ana Patro


 1990 by Felix Licensing Bv


 Editorial Presena, Lisboa, 1991


 2003 MEDIASAT / Promoway Portugal Comrcio de
Produtos Multimedia, Lda. para esta edio.


Impresso
Printer, Industria Grfica, S.A. Barcelona


Data de impresso

Janeiro de 2003


PBLICO COMUNICAO SOCIAL SA

Rua Joo de Barros 265

4150-414 Porto


A Histria de Meu Filho


Traduo de Ana Patro


COLECO MIL FOLHAS


Um estudante que falta  escola tropea no seu venerado pai
que vem a sair do cinema com uma mulher. Um acaso
vulgar. Mas o pai no  um homem vulgar e a famlia,
ameaada pelo affaire, no  uma famlia vulgar.
 uma histria apaixonante. O amor entre um homem e duas 
mulheres, entre pai e filho e algo ainda mais imperioso
- o amor pela liberdade.  um drama extremamente
ntimo de conflito pessoal e luta pblica nos acontecimentos
evolutivos que, com grandes custos para pessoas como estas,
tm originado mudanas na frica do Sul.


Para Reinhold


Tiveste um Pai, que o teu filho possa dizer o mesmo.

WILLIAM SHAKESPEARE Soneto 13


Como  que eu descobri?
Eu estava a engan-lo.
Novembro. Estava de frias de ponto - pois duas semanas antes dos 
exames os alunos dos ltimos anos tinham autorizao para ficar 
em casa para se prepararem. Eu dizia que ia estudar para casa de 
um amigo e depois escapava-me para um cinema. Os cinemas 
tinham-nos sido abertos havia apenas um ano ou coisa assim. Era 
para mim uma liberdade dupla: faltar ao estudo e sentar-me no 
banco de veludo de nylon castanho de um cinema num subrbio de 
brancos. O meu pai no era rico, mas os meus pais queriam que a 
minha irm e eu tivssemos uma juventude menos limitada pelas 
restries de um bolso vazio do que a que eles tinham vivido, e a 
minha mesada era mais generosa do que a sua posio precria, na 
altura, permitia. Portanto eu estava no trio  espera da sesso 
das cinco, numa das salas de um novo complexo e o meu pai saa 
com uma mulher da sesso anterior de outra sala.
Ali estava o meu pai. No momento em que nos vimos fui eu que o 
descobri, no ele a mim. Ficmos parados enquanto as outras 
pessoas atravessavam a nossa linha de viso. Depois ele caminhou 
na minha direco com ela com o ar aturdido com que as pessoas 
emergem do escuro de um cinema para a luz do dia.
Ele disse:
- Lembras-te da Hannah, no lembras?...
Ela esboou imediatamente um sorriso nervoso para desviar o meu 
olhar dele - pois eu estava a concentrar nele a enorme avalancha 
de perguntas, respostas, constataes, credulidade e consternao 
que contraam a minha face e davam a sensao de gua gelada a 
retesar-me o pescoo - e disse imediatamente:
- Hannah Plowman. Claro que nos conhecemos.

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Eu disse ol. Ele arrancou-mo  fora; estvamos outra vez na 
nossa pequena casa, do outro lado da savana, de Benoni e estavam 
a incitar-me a vencer a timidez carrancuda de um menino de seis 
anos a ser apresentado a uma tia ou um primo.
- O que  que vais ver? - perguntou ele.
Enquanto falava comigo afastou-se para trs como se eu pudesse 
cheir-la nele. Eu no sabia. Eles foraram um sorriso, quase 
riram, quase conseguiram a troca de lugares-comuns. Mas era 
verdade: o ttulo do filme que eu tencionava ver j tinha sido 
varrido da minha mente, como este encontro teria de ser esmagado 
debaixo dos meus ps, enterrado com ele.
- O de Bertolucci, um filme italiano,  bastante bom - disse ele, 
evitando delicadamente as implicaes do natural prefixo ns 
achmos....
Ela acenou com a cabea entusiasticamente.
- Devias ver esse, Will - estava ele a dizer. E a voz era um eco 
de outra vida, onde ele era o meu pai a dar-me o seu habitual 
conselho modesto e ponderado. Depois fez um gesto de vai e 
diverte-te, ela murmurou uma expresso de delicadeza e 
deixaram-me de um modo to comedido como me tinham abordado. Eu 
observei-os enquanto se afastavam para poder acreditar que aquilo 
tinha realmente acontecido. Aquela mulher de pernas tortas 
descobertas e rosadas e sandlias grosseiras abaixo da roupa de 
algodo composta de uma confuso de estilos oriundos de 
diferentes culturas provincianas, ele com o seu nico bom casaco, 
que eu lhe tinha levado tantas vezes  lavandaria, transportando 
o formato dos seus ombros dobrado sobre o meu brao. Depois corri 
para fora do trio do cinema, com os olhos dirigidos sempre para 
a frente como o cavalo com palas, para no ver para que lado  
que eles iam, apanhei um autocarro para casa, casa, casa onde me 
fechei no quarto, a salvo entre os meus familiares livros de 
estudo.
Ele era professor numa das cidades que tinham crescido havia 
muito tempo ao longo do veio de quartzo aurfero, a leste da 
capital - Joanesburgo. No havia registo de onde o seu bisav ou 
av tinham vindo - as mos rudes dessas geraes no escreviam 
cartas nem tomavam notas; pedreiros e carpinteiros, a nica 
documentao das suas vidas eram os seus papis de trabalho e os 
vrios impressos tantas vezes dobrados que os autorizavam a 
trabalhar na cidade e a viver na zona,

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fora da cidade, designada pela municipalidade para os da sua 
raa. Ele pensava que o seu bisav talvez tivesse vindo das 
escavaes de diamantes em Kimberley. Uma fotografia tinha 
sobrevivido embora a histria oral da famlia se tivesse 
extinguido.
Entre um grupo de trabalhadores segurando crivos do tipo 
utilizado no peneiramento de diamantes aluviais l estava ao lado 
do capataz branco um rosto sorridente e desdentado com uma 
semelhana familiar. No havia qualquer identificao no verso da 
fotografia.
O pai do professor, possuindo um dos ofcios tradicionais no lado 
materno da famlia, de Cape Town, estabelece-se numa garagem como 
estofador. No havia nenhum carro; em vez disso, o seu filho 
pulava nas molas expostas das cadeiras e dos sofs e ficava com 
fiapos nos caracis. O rapaz foi o primeiro da famlia a deixar a 
terra, o cimento, a madeira e a sumama e a pegar na caneta e no 
papel. Foi o primeiro a fazer a escolaridade completa. Sonny(1) 
tornou-se professor. Ele era o orgulho dos pais e o diminutivo 
genrico atravs do qual o distinguiam como o filho, o 
primognito varo, haveria de acompanh-lo ao longo das diversas 
identidades que um homem atravessa, para o resto da sua vida.
Ensinou na mesma escola, conseguindo aumentos regulares pelos 
servios prestados e sendo promovido por competncia e por 
antiguidade durante os anos em que casou com a sua mulher, Aila, 
e em que nasceram os seus dois filhos, uma rapariga seguida de um 
rapaz. A rapariga, tal como o pai, tendo sido afectuosamente 
recebida como o beb, manteve o diminutivo genrico e continuou a 
ser chamada Baby(2), nunca seria conhecida por nenhum outro nome 
ao longo de todas as circunstncias da sua vida. O rapaz 
chamava-se Will, diminutivo de William. Deram-lhe o nome a partir 
de Shakespeare, cujas obras, numa edio completa e barata com 
encadernao de imitao de couro, se encontravam na estante de 
portas de vidro na pequena sala de estar e no eram meras 
pretenses ornamentais de cultura. Sonny lia-as e relia-as com 
devoo; embora os ttulos dourados tivessem sido comidos pela 
traa e o volume que ele queria tivesse de ser retirado s cegas, 
a sua mo ia sempre direita a ele.
O orgulho que os pais tinham nele no era apenas a altivez dos 
pobres e sem instruo, que se regozijam por aclamar algum


*1. Diminutivo de son (filho, em ingls). (N. da T.)
2. Beb em ingls (N. da T.)


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que subiu acima da classe deles e que, embora a sua arrogncia 
lhes esconda este aspecto, contm tambm, sempre, a 
inevitabilidade da mgoa: a sua desero. O orgulho decorria de 
um instinto em relao  superioridade de Sonny, semelhante ao do 
vedor de guas em relao ao estremecimento da sua varinha. E 
isto apesar de a pele dele se ter tornado mais escura (em vez de 
mais clara) do que o resto da famlia - o que, em condies 
normais, devia coloc-lo num grau inferior ao deles.
Tudo o que ele era e fazia evidenciava distino. O rosto 
definitivo que comea a emergir com a adolescncia era longo, 
esguio e ternamente sensvel por baixo de sobrancelhas espessas e 
grandes olhos pretos emoldurados por pele escura, como se numa 
manifestao fsica de profunda reflexo. At as mos que 
emergiram das mozinhas rechonchudas da primeira infncia 
assumiram uma forma desde logo extraordinria, os dedos 
tornando-se muito longos em proporo com a curva da palma, 
nervosos no seu toque ligeiro e na destreza, porm transmitindo 
calma ao repousar num aperto de mo ou numa carcia. Era natural, 
era o seu direito na perfeio de tudo o que fazia e atraa a si, 
que ele casasse com uma rapariga que parecesse ter sido escolhida 
para ele. No que fosse um casamento arranjado de acordo com o 
costume dos antepassados dela e que ainda pairava no seio da 
famlia, embora a religio que acompanhava esse costume tivesse 
sido negligenciada ou abandonada pela gerao mais nova. Aila era 
to calada que muitos pensavam com irritao que a beleza dela 
era imerecida. Um desperdcio. Os rapazes, os homens, no sabiam 
o que lhe dizer para lhe arrancar uma reaco. Aquele rio 
turbulento de cabelo preto brilhante parecia nunca correr na 
direco de nenhum deles. No era possvel ter pensamentos sobre 
como seria o seu pequeno corpo por baixo das roupas. Os seus 
lbios e dentes encantadores formavam um sorriso que saudava um 
homem exactamente da mesma maneira que uma mulher ou uma criana; 
ela no parecia compreender o que a abordagem de um homem lhe 
queria dizer.
Sonny era o nico que sabia o que  que ela rejeitava da nica 
maneira possvel para algum como ela: pelo silncio. Ela falava 
com Sonny. Quando ele foi visit-la pela primeira vez, tendo-lhe 
sido apresentado alguns dias antes por um dos irmos dela (a 
forma correcta de abordar uma rapariga, em famlias como a dela), 
pareceram retomar um dilogo que j tinha comeado, com ele, no 
silncio dela entre os outros.

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Eles confundiam a sua brandura com desdm. Talvez tambm ele a 
tenha confundido, de outro modo, tomando a brandura dela pelo que 
parecia ser, em vez da fora de vontade suavemente encoberta por 
essa brandura. Ningum sabe as reservas que permanecem mesmo no 
mais profundo entendimento entre um homem e uma mulher. Aila 
nunca soubera o que era namoriscar, nunca tinha aplicado um 
momento de ateno a pensar em qualquer outro homem como o ser 
singular, o amigo e amante para toda a vida, um marido que lhe 
fosse destinado. Se ela desse a Sonny tudo o que ela era, isso 
teria valido menos do que se no tivesse guardado para si mesma 
alguma fibra de personalidade como uma identidade separada. 
Talvez sem ele saber qual, fora esse elemento que acrescentara ao 
amor que nutriam um pelo outro esse respeito particular, no 
mencionado, que ele sentia por ela - uma qualidade sagrada 
exterior  subjectividade da paixo e da afeio.
Havia paixo e afeio. Casaram-se aps um noivado formal, ele 
at lhe comprou um anel com uma apara de diamante, e no foram 
amantes antes de serem marido e mulher. Nunca trocaram gestos 
ternurentos em pblico nem apresentaram o comportamento esperado 
das pessoas que esto apaixonadas uma pela outra, mas havia um 
corpo verdadeiro por baixo das suas roupas, um corpo encantador 
com todas as suas caractersticas,  espera dele. Os mamilos 
escuros como bagos de uva na boca dele, o ventre macio com a 
minscula cavidade do umbigo, a entrada do seu corpo, acetinada 
por dentro como o tecido da camisa de noite que a me lhe tinha 
dado para o seu enxoval de noiva. Todas as longas conversas 
sonhadoras sobre as suas vidas antes de se conhecerem, sobre a 
vida que iam construir juntos, acabavam com ele quase 
furtivamente a penetr-la e o prazer que os invadia aos dois 
sempre como uma surpresa. Comoviam-se fortemente um com o outro. 
A emoo expressava-se em sensibilidade, telepatia. Chegavam, 
muitas vezes sem discusso, s mesmas decises que afectavam as 
suas vidas; e na discusso em relao s questes do dia-a-dia 
desenvolveu-se timidamente entre eles a forma como queriam viver. 
Domesticamente ajustavam-se um ao outro como os gatos se enrolam 
acomodando-se diante de uma lareira.
Decidiram ter filhos, mas no mais do que dois. As famlias dos 
pobres, geradas sem planeamento, de onde eles provinham, no eram 
para eles. No entanto no planeavam privilegiar estas crianas 
para alm do que era decente em oportunidades e crescimento feliz 
e saudvel,

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que acreditavam ser direito de uma criana. Uma das primeiras 
doces intimidades entre eles fora que ambos tinham rejeitado 
quaisquer crenas religiosas, embora, para agradar aos pais, ela 
ocasionalmente seguisse rituais pblicos. Descobriram que para 
ambos o sentido da vida parecia estar contido, mesmo que 
misteriosamente, em viver vidas teis. Sabiam o que isso no era: 
no viver apenas para si prprios, ou para os prprios filhos, ou 
para o cl da famlia. No tinham a certeza do que era; por 
enquanto. Sabiam apenas que tinha que ver com responsabilidade 
para com uma comunidade. E isso s podia significar a comunidade 
a que estavam limitados, a que pertenciam porque a lei assim o 
dizia, em primeiro lugar, e a comunidade a que as ligaes e 
dependncias da vida quotidiana e a partilha das preocupaes que 
decorriam do facto de viverem no seu seio os faziam pertencer: a 
de si mesmos.
Sonny achava que a sua forma de ser til era obviamente atravs 
de uma responsabilidade especial para com as crianas na escola: 
comeava por uma conscincia no ensino das suas prprias normas e 
estendia-se a uma responsabilizao pelo bem-estar de todas as 
crianas da escola. Ele via a necessidade de aproximar a escola e 
a comunidade em que esta desempenhava uma funo isolada - a 
educao como um luxo, como um privilgio afastado da preocupao 
dos pais com a sobrevivncia. Comprava livros que o afastavam de 
Shakespeare. Lia-os vezes sem conta para aprender e adaptar a 
teoria que defendia a educao social da comunidade, dos pais e 
parentes e vizinhos dos alunos como parte da funo de uma 
escola. Criou uma associao de pais e professores e um servio 
consultivo para os pais, angariou dinheiro para equipamento 
especial para crianas deficientes, formou grupos de raparigas e 
rapazes dos ltimos anos para fazerem reparaes nas salas dos 
reformados. Que mais poderia fazer? Para elevar socialmente a 
comunidade, dirigiu-se empreendedoramente ao Rotary Club e ao 
Lyon's Club na zona branca da cidade solicitando-lhes de forma 
respeitosa que tivessem a amabilidade de mandar mdicos, 
advogados e membros do teatro amador e de grupos musicais para 
fazerem conferncias ou representarem no salo da escola.
No era to fcil de encontrar uma maneira para Aila. Ali estava 
ela, na atenta tranquilidade da sua disponibilidade. Tambm ela 
se tinha matriculado na universidade mas tinha sado do fechado 
crculo das mulheres de casa dos seus pais aos dezoito anos, para 
se casar,

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e nunca trabalhara fora de casa. Ele no queria uma mulher para 
cama e mesa e ela queria tornar-se no que ele queria, por isso 
tirou um curso de secretariado e estudou psicologia por 
correspondncia como preparao para uma vida til de trabalho. O 
parco salrio dele j era razo suficiente para ela precisar de 
ganhar dinheiro, mas no era essa a principal preocupao deles. 
Enquanto ela estava grvida do primeiro filho passavam os seres 
a estudar a matria do seu curso por correspondncia, ele 
ajudando-a nos trabalhos. Quando a Baby nasceu, a jovem me 
sentava-se  frente dos livros no intervalo das mamadas e das 
tarefas domsticas e o jovem pai sentava-se do outro lado da 
mesa, corrigindo os trabalhos dos seus alunos. Ele lia-lhe em voz 
alta os erros mais disparatados e riam juntos, em pausas roubadas 
 concentrao. s vezes a Baby interrompia-os com choro de 
clicas, s vezes a carcia dos longos dedos dele no pescoo da 
mulher, do outro lado da mesa, ou o toque casual da mo dela 
sobre a dele levava-os a fazer amor.
Compraram a moblia a prestaes. Aos sbados de manh iam de 
autocarro, e mais tarde no carro para que tinham poupado,  
cidade fazer compras. A Baby muito bonita de meias brancas com 
rendinhas e Will com o seu fato de safari de calas compridas, 
uma miniatura do fato de sbado do pai. Sonny e Aila 
transportavam as compras para a semana nos sacos de plstico cujo 
dstico dos bazares O. K. identificava as famlias como eles que 
povoavam as ruas, assalariados que tinham de comprar na loja mais 
barata, com a extravagncia semanal de cones de gelado ou 
amendoins para os midos e o luxo de fazer bicha para as cervejas 
de fim-de-semana na parte lateral dos cafs, separados do stio 
onde os brancos eram servidos. Como rebentos sbitos a romper 
depois da chuva, esta gente aparecia na cidade aos sbados, 
invadindo as ruas com crianas arrastadas pela mo e homens e 
mulheres de olhos fixos nas montras estudando os letreiros de 
reduo de preos em modelos de quarto e em suites com sofs 
com nomes destinados a conferir a casebres minsculos e em runas 
a dimenso dos palcios - Granada, Versalhes. Durante a semana a 
multido desaparecia obedientemente voltando a ser banida para as 
zonas reservadas para eles fora da cidade. Os operrios estavam 
nas fbricas, o professor ia para a escola que lhe fora 
designada; homens, mulheres, crianas,

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todos se limitavam aos caminhos quotidianos percorridos dentro 
dessa rea circunscrita. Na cidade, o advogado, os agentes 
imobilirios e os funcionrios municipais caminhavam  vontade em 
ruas largas, espaosas e limpas dos detritos dos sbados. Uma 
cidade branca.
Sonny e a mulher no cobiavam Granada ou Versalhes. Com o 
entendimento de Shakespeare libertamo-nos da ingenuidade que nos 
faz presa do grande comerciante que governa o mundo e nos 
venderia ao desbarato  iluso. (Valores falsos - mas s mais 
tarde  ele viria a chamar-lhes assim.) No entanto, o casal no 
destoava exteriormente da multido dos da sua raa, que vinha  
cidade todos os sbados comprar aos brancos. Com os filhos pela 
mo, passavam pelos dois cinemas da cidade sem notar 
particularmente que nunca l tinham entrado, que no podiam 
entrar. Quando a famlia de Sonny ficava com fome ele comprava 
batatas fritas na loja do grego e ele e Aila deitavam 
cuidadosamente o papel amachucado, molhado de vinagre, nos cestos 
do lixo municipais quando as crianas acabavam de comer enquanto 
andavam. O grego tinha algumas mesas enfeitadas com flores 
artificiais cheias de pintas de mosca e frascos de molho de 
tomate, onde as pessoas podiam ser servidas, mas no esta 
famlia. Se, como sempre, as crianas precisavam de ir  casa de 
banho, os pais levavam-nas em passo apressado  estao de 
comboios, onde havia as nicas casas de banho prprias para os da 
sua raa, embora o gabinete da administrao tivesse uma casa de 
banho para utilizao de outros clientes. Tal como um majestoso 
animal selvagem marca os limites do seu territrio de caa e de 
acasalamento que nenhum outro pode atravessar, era como se a 
municipalidade deixasse um cheiro de aviso, um perfume de 
autoridade imutvel nos stios que as pessoas do sbado no 
podiam ultrapassar. E elas compreendiam esse perfume; 
reconheciam-no sempre, tinha l estado desde sempre. No havia 
necessidade de letreiros onde o escrevessem; havia apenas alguns 
na cidade, nos bancos pblicos I por exemplo. No havia nenhum na 
biblioteca; mas ningum ia fingir no saber o que havia a saber 
sobre aquele edifcio de onde vinha o perfume, disfarado neste 
caso como cheiro de livros: o bafio fresco de papel a amarelecer, 
couro gasto e a fragrncia da madeira absorvida das prateleiras 
onde eram guardados, tal como o brande adquire o sabor dos cascos 
onde envelhece.
O admirador de Shakespeare nunca teve o direito de entrar na 
biblioteca municipal e portanto nem sequer pensava nisso enquanto 
os brancos que de l saam passavam por ele com livros debaixo do 
brao. No reconhecia o que o edifcio representava para ele, com 
o seu braso municipal e a sua divisa por cima da entrada 
colunar: CARPE DIEM.(1)


*1. Expresso latina que significa desfruta o dia. In Horcio, 
Odes, I, 11, 8. (N. da T.)


16 - 17


Ela  loura, a amante do meu pai. Claro. Que outra coisa poderia 
ser? De que outra maneira seria ele apanhado, este homem que se 
afastou tanto das humildes armadilhas dos da nossa raa, beber, 
snifar cola, bater nas mulheres, bebedeiras barulhentas, 
mendigagem servil (por favor, meu senhor, por favor, meu patro) 
e de todas as armadilhas sofisticadas do lacasmo, corrupo e 
nepotismo, que esperam por homens que obtm privilgios  custa 
da vida dos outros, e do seu amor-prprio. Amor-prprio!
Tem sido a religio dele, a sua divindade. Nunca o deixou ficar 
mal, sempre que quis saber que rumo tomar: o seu guia interior, a 
sua pedra-de-toque. Faz o que te permita manter o teu 
amor-prprio. Foi este o ensinamento que ele nos proporcionou,  
minha irm e a mim. Vinha com a morna onda de segurana que nos 
invade quando recebemos algo por que viver cuja prova est ali na 
pessoa do doador. Se algum cujo amor-prprio exigiu e recebeu 
tanto de si - perda do trabalho a que era dedicado, transformao 
da privacidade contemplativa em actividade pblica, fazer 
discursos, priso e julgamento -, se ele tiver de ser apanhado  
claro que ser pela mais vulgar, comum e batida das nojentas 
armadilhas, digna de uma mosca porca que entra na cozinha para 
comer a nossa comida e caga nela ao mesmo tempo.
Claro que ela  loura. Os sonhos molhados que eu tenho, um menino 
de escola que nunca dormiu com uma mulher, so louros.  uma 
infeco que nos foi trazida pelas leis que decidiram o que ns 
somos, e o que eles so - os louros. Acontece que todos ns somos 
portadores, tal como as pessoas podem ter na sua corrente 
sangunea uma doena que pode ou no manifestar-se nelas mas que 
ser transmitida. Ele apanhou-a apesar de tudo aquilo de que 
conseguiu libertar-se to admiravelmente - ah, sim, eu admirava, 
eu admiro o meu pai.

19


Costuma dizer-se que algum adoeceu com febre. Ele adoeceu com 
isto; para isto.
Claro que nos conhecemos. Ela veio a nossa casa quando ele 
estava sob priso preventiva. Eu mandei-a entrar. Eu prprio lhe 
abri a porta. Era sempre eu que ia abrir a porta, nessa altura, o 
menino de escola era o homem da casa para a minha me e irm, 
agora que ele no estava l. De todas as vezes, eu preparava a 
expresso que havia de pr no caso de ter de enfrentar a polcia 
que vinha revistar a casa mais uma vez. Mas era uma mulher loura 
com a cara descoberta e a apologtica e presunosa familiaridade 
no sorriso de quem vem ajudar. Era o seu trabalho. Era a 
representante de uma organizao internacional dos direitos 
humanos, enviada para controlar as detenes e julgamentos 
polticos e para prestar assistncia a pessoas como o meu pai e 
s suas famlias. Ns no precisvamos de mercearias e , as 
minhas matrculas estavam pagas. A minha me e a Baby (depois da 
escola) estavam as duas a trabalhar e no devamos renda porque 
quando nos mudmos para a capital o meu pai comprara aquela casa 
na zona que mais tarde passou a chamar-se uma rea cinzenta, 
onde as pessoas da nossa raa desafiavam a lei e se instalavam 
entre os brancos.
Por isso no precisvamos dela. Ela sentou-se na beira do sof, 
bebeu ch e ofereceu aquilo a que se costuma chamar apoio moral. 
Falou da probabilidade de o meu pai ser levado a julgamento, da 
iniquidade das acusaes provveis, do mau pressgio que os 
advogados de defesa tinham sempre, em casos assim, de que se 
apanharia um mau juiz, um membro secreto da Broederbond. Ela 
evidenciava - mas no exibia, era toda humildade face ao problema 
da nossa famlia - um conhecimento profundo que deve ter 
conseguido a partir de entrevistas com os advogados e de trocas 
de informao furtivas no tribunal com os acusados em julgamentos 
a que j assistira, trocas feitas atravs da barreira entre a 
assistncia e o banco dos rus durante o intervalo do ch do 
juiz. Ela era to enrgica que pareceu  minha calada me (de 
cabelo bem penteado e pernas esbeltas cruzadas com elegncia como 
se o marido estivesse presente para aprovar a divisa - o 
amor-prprio - que ela sustentava) ser a pessoa indicada para dar 
apoio e encorajamento.
Claro que a conheo. Aquela vasta extenso de cara rosada que 
eles tm, onde os traos no aparecem to vincados como os 
nossos, os nossos lbios escuros, as nossas abundantes e luzidias 
pestanas e
sobrancelhas pretas, as sombras que conferem profundidade aos 
contornos das nossas narinas. Rosados e branco-aveludados - 
esfumados. Os lbios dela cor-de-rosa e sem batom, a blusa 
bordada sobre uma espcie de almofada fofa e sem forma (ficava 
achatada quando ela andava) que devia ser os seus seios, a 
comprida saia de sarja com bolsos de fato de guerrilheiro - ser 
que no conseguia decidir se queria parecer ter acabado de sair 
de uma festa ao ar livre ou de um esconderijo de guerrilheiros a 
lutar pela liberdade, no mato? Tudo indefinido. Excepto os olhos. 
Azuis, claro. No muito grandes e dentro deles como que pequenos 
retoques de cor brilhante num esboo que de outro modo ficaria 
inacabado.
E mesmo que no a conhecesse, podia ter reconstitudo os seus 
traos como naqueles desenhos compsitos de criminosos procurados 
que se v nos jornais, um identikit.(1) O sonho molhado do menino 
de escola. A amante do meu pai. Mas nessa noite no tive nenhuma 
fantasia voluptuosa. Acordei no escuro.  duro para um 
adolescente permitir-se chorar, o som  horrvel, suponho que por 
ser a sua voz que se ouve irromper.
O professor tinha uma nsia - ele julgava que era de se 
aperfeioar. Isso no entrava em conflito com a questo da 
utilidade. Ele s podia melhorar a qualidade de vida na escola, 
na comunidade do outro lado da savana, se ele prprio 
enriquecesse a sua mente, na sua maneira de pensar. No podia 
participar em nenhum dos debates polticos que havia na cidade. 
No que tal facto constitusse grande perda, tinha conscincia 
disso, uma vez que, pelo que lia no jornal local, este debate 
consistia em disputas pelo controlo da Assembleia Municipal e do 
lugar de presidente da cmara entre dois grupos com preconceitos 
um em relao ao outro, o de lngua africnder e o de lngua 
inglesa, com objectivos comuns, principalmente no que respeita a 
manterem brancos os seus empregos, bancos de jardim, cinemas e 
biblioteca - a cidade. Ele no podia pertencer a nenhum dos 
crculos culturais da cidade - o grupo de teatro amador, a 
sociedade de msica de cmara criada por refugiados judeus 
alemes que tinham chegado durante a guerra, trazendo tanto 
cultura como bom caf,


*1. Identikit - retrato de uma pessoa procurada pela polcia 
feito a partir da reunio dos traos fornecidos pelas descries. 
(N. da T.)


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a uma cidade mineira que s conhecia Gilbert e Sullivan e uma 
mistura de chicria fervida. No podia pertencer ao grupo dos 
observadores de pssaros de domingo, embora se interessasse pela 
Natureza e s vezes levasse os filhos de comboio ao jardim 
zoolgico da capital no dia da semana em que estava aberto aos da 
sua raa, e  terra-de-ningum, a extenso de savana entre a zona 
onde vivia a sua comunidade e a cidade, para aprenderem os 
hbitos do mangusto e do besouro, que ali habitavam entre os 
despejos das minas. No podia pertencer ao clube de xadrez (outra 
iniciativa dos judeus alemes para criar vida intelectual numa 
cidade sem nenhuma).
No se podia dar ao luxo de comprar muitos livros. Achava que 
precisava de ter alguma orientao relativamente aos que eram 
importantes, aqueles que pudessem alimentar a sua nsia para cuja 
satisfao ele no tinha a certeza do que era realmente 
necessrio. Ou, melhor do que faltava. Tambm se inscreveu num 
curso por correspondncia. Escolheu literatura comparada e 
descobriu Kafka para acrescentar  sua fonte shakespeariana de 
transcendncia. Uma forma de fugir s salas de aula velhas, aos 
apertos da gente dos sbados,  promiscuidade das casas com 
paredes finas e ao mesmo tempo uma forma de voltar para tudo isso 
outra vez com uma compreenso mais profunda do que a vida podia 
significar. Kafka nomeava aquilo para que ele no tinha nomes. A 
cidade cujos muros eram percorridos pela multido dos sbados era 
o Castelo; a biblioteca diante de cujas portas ele parava eram os 
portes da lei junto dos quais K. se sentava, ano aps ano, 
sempre para lhe dizerem que tinha de esperar para poder entrar. O 
pecado pelo qual os da raa do professor eram banidos para uma 
zona prescrita, proscritos em tudo o que faziam, procriar, 
nascer, morrer, no trabalho ou no lazer, era o pecado por que 
Joseph K. era chamado a responder perante um poder imanente, sem 
saber qual era a acusao, sabendo apenas que se esse poder 
dissesse que ele era culpado de qualquer coisa, ento assim seria 
decretado.
Este filosofar resignava Sonny, uma forma profundamente 
derrotista de estancar aquela espcie de fluxo lento que  a 
nsia. Ele conseguia encontrar satisfao na indiferena de ver a 
municipalidade e a sala de ch grega onde a sua famlia no se 
podia sentar, nestes termos. Ficou fascinado, como um exerccio 
intelectual, com a ideia do poder como uma abstraco, um 
mistrio extra-religioso, j que as religies explicavam todo o 
mistrio na pessoa dos seres mticos,
uma religio mesmo desajeitadamente oferecendo um semideus, 
semi-homem, nascido de uma mulher virgem, de forma a tornar esse 
mito de certo modo mais credvel. E embora Kafka explicasse o 
contexto da vida do professor melhor do que Shakespeare, Sonny 
no chegava ao ponto de acreditar, como Kafka, que o poder que 
mantm as pessoas impotentes existe apenas na sua prpria 
submisso.
Ele sabia mais do que isso. Existiam mesmo os fazedores de leis, 
os procnsules e os gauleiters locais na sala do conselho por 
baixo das fotografias de anteriores presidentes e da divisa CARPE 
DIEM.
Penso que eles eram felizes quando a minha irm e eu ramos 
pequenos, naquele bairro nos arredores da cidade do Recife onde 
vivamos. Tanto quanto as crianas conseguem saber o que os pais 
so; pais discretos e ponderados como os nossos, no os violentos 
e bbedos, como alguns dos nossos vizinhos cujas vidas feias 
ecoavam atravs das nossas paredes e cujos filhos fugiam para 
nossa casa com medo do que lhes estava a ser revelado. Por vezes 
uma mulher pedia ao meu pai para falar com o marido. Eu andava 
de roda do meu pai, trepando pelas costas do seu velho cadeiro 
ou encostando-me s pernas dele quando havia estranhos e 
compreendendo fragmentos do que era dito: o homem tinha-lhe 
batido, embebedava-se todas as noites, ia perder o emprego na 
empresa de construo. Eu arregalava os olhos de curiosidade para 
o rosto desfigurado pelo medo e choroso que eu nunca vira na 
minha prpria casa.
No era apenas amor-prprio o que o meu pai tinha; as pessoas 
respeitavam-no, nem sequer um bbedo o insultaria. No sei o que 
fazia tantos homens e mulheres sentirem que ele lhes arranjaria 
uma sada para o desnorteamento devido a dvidas, ignorncia, 
promiscuidade e insegurana, coisas que os atordoavam, de tal 
forma que tropeavam constantemente em srdidos obstculos. Em 
parte era devido, suponho, ao que ele fazia na escola e mais 
tarde por ter conseguido que o presidente da junta o deixasse 
formar o clube dos jovens. As pessoas viam-no como um deles - 
impotente - que no entanto possua o tipo especial de 
amor-prprio (sim, isso outra vez) que torna possvel influenciar 
os outros, assumir responsabilidade pelas vidas deles de uma 
forma diferente da assumida por aqueles - os amos - que 
encontramos nos servios administrativos, nas salas dos tribunais 
e nas esquadras da polcia.

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Ele fazia coisas pelas outras pessoas da mesma forma que fazia 
coisas por ns, a sua famlia. Era isso. Dar era uma coisa to 
natural nele como neles receber.
E todavia os meus pais no tinham muitos amigos. No aquilo a que 
os vizinhos chamavam amigos. As reunies de domingo que ns as 
crianas vamos na casa das outras pessoas quando amos brincar 
com os filhos deles no eram habituais na nossa casa. No havia 
garrafas de cerveja nem de brande espalhadas pelo nosso quintal 
nem barulho de ps a danar e gargalhadas com a msica to alta 
que fazia o rdio transstor equilibrado nos degraus do terrao 
zumbir e estremecer. Tios, tias e primos por vezes vinham tomar 
ch a nossa casa e de vez em quando almoar ao domingo, depois de 
a minha me passar o sbado inteiro a preparar as receitas 
tradicionais que tinha herdado, tal como a sua beleza oriental 
semi-escondida por saias e blusas de bom gosto, enquanto o resto 
desse lado da sua herana ancestral tinha sido enterrado ao longo 
de geraes de casamentos com outras famlias e de outros tipos 
de alianas de cruzamento cultural de outros tipos. A maior parte 
das vezes fazamos coisas sozinhos juntos - a minha me, o meu 
pai e ns, as crianas. Antes de a Baby se comear a interessar 
por rapazes ajudava a minha me a fazer vestidos para ela. Havia 
um man em forma de ferradura que eu adorava utilizar, primeiro 
entornando a lata dos alfinetes no cho e depois atraindo-os para 
o metal em molhos cheios de picos, metendo-me no caminho das 
raparigas (como o meu pai afectuosamente lhes chamava). O meu pai 
ensinou-me a mudar fusveis e a substituir o fio do ferro a vapor 
da minha me. Ele mantinha tudo em ordem l em casa; no podamos 
dar-nos ao luxo de chamar um profissional para fazer reparos. Mas 
no me ensinou a dar assistncia mecnica ao nosso carro e nem 
ele prprio alguma vez aprendeu a faz-lo - havia um jovem 
aprendiz de mecnico, um primo que vinha aos fins-de-semana, 
ganhava uns dinheiros extra e mantinha o velho Ford em segunda 
mo a andar. Eu gostava do cheiro da sacola gordurosa das 
ferramentas pretas cheias de leo que ele abria no cho sujo do 
alpendre que o meu pai tinha construdo para albergar o carro. 
Fazia-me lembrar os eixos das enormes mquinas a vapor que o meu 
pai me tinha levado a ver num museu ao ar livre. Ele prometera 
descobrir! uma linha onde ainda estivessem em funcionamento e 
levar-me a dar um passeio. Foi a nica promessa de que me lembro 
que ele no cumpriu. Provavelmente achava que as pessoas da nossa 
raa no tinham permisso para usufruir tal prazer, e no me quis 
dizer.
Ns no tnhamos particular noo do que ramos, a minha irm e 
eu. Quero dizer, o meu pai transformou a limitao da nossa vida 
ao interior das reas que nos estavam abertas num crculo 
encantado. nico. Eu percebo que no quero admiti-lo, agora, 
porque o encaro como uma crtica, mas a verdade  que isso nos 
dava de facto uma espcie de segurana. Ele no nos escondia, em 
geral, o conhecimento de que havia stios aonde no podamos ir, 
coisas que no podamos fazer; mas nunca tentou expor-nos a esses 
stios, substitua-os por muitas outras coisas que podamos 
fazer. A minha irm tinha aulas de dana e ele ensinou-me a jogar 
xadrez. Era-me permitido ficar acordado at bastante tarde  
sexta-feira  noite - no havia escola no dia seguinte - e 
sentava-nos  mesa da cozinha depois de levantada a mesa do 
jantar, os seus grandes olhos pretos postos em mim, 
encorajadores, srios, insinuando-se um sorriso por trs da sua 
escurido, enquanto eu hesitava em fazer a minha jogada. Todos os 
sbados quando amos  cidade ele comprava um livro de banda 
desenhada para mim e outro para a minha irm - no daqueles em 
que o vocabulrio era limitado a exclamaes onomatopaicas de 
super-homens (esses eu pedia-os secretamente emprestados aos meus 
amigos), mas edies inglesas com histrias de pilotos corajosos 
e do rei Artur e a Tvola Redonda para mim e contos romnticos 
recontados em desenhos para a minha irm.
Por que razo digo que ele criou o crculo encantado no qual 
vivamos em inocncia? Tambm a minha me o construiu  nossa 
volta. Mas embora eles planeassem tudo juntos, se houvesse uma 
deciso a tomar relativamente a ns, ou a qualquer outro assunto 
que pudesse ser discutido na nossa frente, vamo-lo olhar para 
ela (da mesma forma que olhava para mim por cima do tabuleiro de 
xadrez) enquanto aguardava a opinio dela, tenho razo ao 
atribuir o traado do crculo de segurana das nossas vidas, na 
altura, ao meu pai. Era sempre como se ele soubesse o que ela 
queria, para ele e para ns, e como se ela soubesse que ele 
arranjaria maneira de articular os componentes da vida quotidiana 
de modo adequado. Porque o que ela queria era, no fundo, sempre o 
que ele queria. E isso no  nem to simples nem to meramente 
submisso como parece. Eu no tinha - no tenho - a pretenso de 
compreender como. Era algo entre eles, e no estar ao alcance de 
nenhum dos seus filhos, jamais.
O que  que interessava que os hotis  beira-mar, as praias e os 
recintos de diverses com piscinas no fossem para ns?

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Ns de qualquer maneira no tnhamos dinheiro para hotis. Uma 
feira de diverses para os da nossa raa vinha na Pscoa para a 
nossa zona, um circo vinha no Natal e fazamos piqueniques no 
baldio da savana entre os despejos das minas, onde no Vero um 
spruit(1) corria entre os canaviais e o meu pai nos mostrava como 
os teceles faziam os seus ninhos suspensos. Ali, em cima da 
nossa manta, sem sermos vistos por ningum, a salvo de toda a 
gente, dos vizinhos bbedos e da municipalidade da cidade, o meu 
pai deitava a cabea no colo da minha me e ns, as crianas, 
deitvamo-nos encostados a eles, sob o calor dos seus braos. Uma 
infncia feliz.
Mas aos quinze anos j no se  uma criana.
A meio caminho: o professor vivia, ensinava e levava a cabo os 
seus projectos de melhoramento da comunidade, com a Assembleia 
Municipal sentada sob o seu braso de um lado da savana, e os 
verdadeiros pretos - mais, muitos mais do que os brancos, os de 
cor e os indianos tambm contavam - do outro lado. A sua 
comunidade tinha um determinado tipo de comunicao com os 
verdadeiros pretos, tal como tinha com a cidade ao longo da 
dispensa de sbado; mas bastante diferente. Indefinida - e era 
esta ausncia de definio em si mesma que nunca deveria ser 
questionada, mas acatada como um tabu, algo que ningum, ao 
compreend-la, alguma vez poderia admitir. Os pretos apareciam na 
comunidade a apregoar tomates e cebolas, a construir uma cerca, 
cavar um fosso, at a estender a roupa nas casas um pouco mais 
opulentas do que a de um professor. As suas lnguas, as suas 
gargalhadas ecoando de quarteiro em quarteiro, soavam 
incessantemente ao longo do dia como o cantar montono das 
cigarras nas horas quentes. Voltavam para as suas zonas prprias 
depois do trabalho feito; reas afastadas da comunidade como a 
comunidade o era da cidade branca. Remotas. Era melhor assim. 
V-los provocava uma profunda irritao: era por causa deles que 
a comunidade do professor era o que era: uma comunidade banida. 
Necessitando de ser melhorada. Era por causa deles, daqueles cujo 
pigmento escurecia o sangue, procriando uma diluio escura nas 
veias da cidade branca, rejeitados pela cidade branca, por causa 
deles que a comunidade era desqualificada para o patrimnio do 
cinema,


*1. Riacho - em africnder no original. (N. da T.)


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da biblioteca, das casas de banho e do braso. Ser confrontado 
com as monumentais, amigveis ndegas bamboleantes das mulheres, 
com as cabeas dos homens feltradas de p, com a beleza dos bebs 
pendurados s costas das mes - era seguramente o mesmo que ver e 
saber que se queramos reivindicar uma personalidade prpria que, 
por direito, devia ser aceite pela cidade, tnhamos uma outra 
personalidade prpria com o mesmo direito - que era uma maldio, 
para esquecer - de ser reivindicada por eles. Associados a esse 
tipo de pigmento vinham mais interdies, um salvo-conduto para 
ser apresentado com mo trmula aos polcias, trabalho mais sujo, 
at stios mais pobres para viver e morrer. Era melhor mant-los 
 distncia, no reconhecer neles qualquer trao fisionmico. E 
no entanto eles eram teis. Essa personalidade prpria que 
reconhecia alguma coisa de si mesma nos privilegiados da cidade 
herdara com essa semelhana a pretenso de que os pretos existiam 
para fazer coisas que no queramos fazer, que estavam abaixo da 
nossa posio; pois nada estava abaixo da deles.
O professor sempre encarara os pretos de outra forma. Bem, isso 
provinha daquele vago, porm insistente, sentido de 
responsabilidade que ele tinha. Nos anos em que ele tirava dos 
caracis os fiapos do negcio do pai, levando os seus livros para 
a luz, para fora da escurido poeirenta onde os pufes e os sofs 
das grandes casas da cidade eram forrados com veludo novo como se 
fossem mulheres para quem o seu pai, de ccoras, era o 
costureiro, os pretos agrupavam-se em torno de grandes ideias. 
Igualdade. A tanto por dia; quando ele era mido isso era 
expresso dessa maneira humilde: uma libra por dia,  tudo. As 
pessoas da sua comunidade tambm eram mal pagas. Em adulto, ele 
ganhava menos do que um professor branco com o mesmo nvel de 
habilitaes. Mas estava determinado a estudar  noite para uma 
melhor qualificao, talvez mesmo tirar um curso universitrio; 
era assim que melhoraria a sua situao, no indo a reunies nem 
sendo preso nas marchas. Igualdade; recorreu a Shakespeare para 
encontrar uma definio com mais autoridade do que as que eram 
dadas nas plataformas improvisadas na savana. O problema era que 
ele no se sentia inferior - inferior a qu, a quem? Ele andava 
to preocupado com uma vida interior que reparava pouco nas 
humilhaes e desrespeitos com que o feriam e trespassavam assim 
que se aventurava a sair da comunidade. Se, como o resto dos da 
sua raa, ele era um Sebastio,
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as setas no penetravam a sua conscincia de si. Se o tivessem 
feito - se ele fosse realmente preto? - talvez se tivesse juntado 
a eles, erguido o punho. Admirando os verdadeiros pretos com este 
tipo de distanciamento deixava a questo com eles. Parecia mais 
ser um assunto deles; eles no tinham qualquer afinidade que 
pudesse de alguma forma, algum dia, promov-los no sentido de uma 
aceitao entre as pessoas da cidade. E nesta situao de 
espectador ele no estava sozinho; a comunidade tinha esperana 
nos pretos, e ao mesmo tempo era cptica em relao a essa 
esperana. Havia conversas ardentes nos terraos e nos quintais, 
eles vo pendurar as cordas, vais ver como h toda a razo em 
fazer com que os Boers borrem as calas l em Pretria, que 
histria essa de eles lhes irem pr uma corda ao pescoo  o que 
eles andam a arranjar de brao no ar e algemas, uma bala pelas 
costas, no se pode ganhar contra os brancos. Apenas alguns 
atravessavam a savana para se juntarem a eles.
Ele tinha primos em Cape Town que pertenciam a um movimento de 
resistncia dos da sua raa, e um deles veio com um companheiro 
ficar em casa dos pais durante um fim-de-semana, enquanto 
tentavam constituir uma clula na comunidade, mas perceberam que, 
por qualquer razo, embora ele fosse to inteligente, e a 
princpio tivessem sido encorajados pela clara adeso aos seus 
objectivos, no seria Sonny a encarregar-se da tarefa. Ele disse 
consigo mesmo - ao ver as expresses deles, ao ouvir pedaos das 
observaes deles na sua mente um ou dois dias depois - que 
primeiro tinha de conseguir o seu diploma do ensino superior e 
depois se veria. No comboio de volta para Mannemberg os primos 
rejeitaram-no entre si por ser um intil, um vendido, interessado 
em conseguir um insignificante pedao de papel que faria dele um 
agente pago de educao gratuita.
Ele seguia os julgamentos polticos pelo jornal. No conhecia 
pessoalmente nenhum dos acusados, embora os seus nomes se 
tivessem tornado familiares pelos terraos e pelos quintais como 
nomes marcados. Lera uma cpia da carta sada de uma grande 
assembleia quando ainda no tinha vinte anos, e cuja posse dava 
direito a priso. Chegou uma altura, no sendo possvel 
determinar exactamente quando, em que a igualdade se tornou um 
grito que no se podia manifestar, que, tendo sido mal ouvido ou 
mal interpretado, veio a ser outra coisa - melhor. Liberdade, Era 
isso. Igualdade no era liberdade, fora s a aspirao equivocada 
de se tornarem como as pessoas da cidade.

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E quem  que queria tornar-se igual queles que eram temidos e 
odiados? Inveja no era liberdade.
Depois de casar, enquanto os midos ainda eram pequenos, embora 
soubesse que o instinto da responsabilidade se estendia para alm 
do seu papel de preservar o sistema de segurana das famlias 
unidas por um casamento, ele achou que tinha encontrado os 
limites naturais desse instinto no tempo, na energia e na 
imaginao que punha nos seus projectos para a comunidade e na 
participao da sua famlia nestes. O Rotary Club e o Lyons 
financiavam Aila e o comit de donas de casa que ela tinha 
formado para criar uma creche, impressionados pela 
respeitabilidade do professor do outro lado da savana - pela sua 
distino, se  que podiam chegar ao ponto de utilizar aquele 
termo surpreendente na descrio de um dos que faziam do sbado 
um dia a evitar para fazer compras na cidade. Baby era membro da 
Cruz Vermelha Jnior (do ramo da comunidade, segregado do da 
cidade) e ia solenemente, de mo dada com uma pequena 
companheira, de porta em porta com uma caixa de colectas. E o 
pequeno Will era um lobito entusistico (do grupo de escuteiros 
da comunidade) na altura em que outro garoto, numa multido de 
estudantes mais velhos em luta contra a polcia, foi assassinado 
a tiro, e a fotografia que um reprter tirou do seu corpo, a ser 
levado por outra criana, se tornou apiet do sofrimento que 
acontecia por toda a parte do outro lado da savana onde viviam os 
verdadeiros pretos.
Quando  que a distino entre pretos e verdadeiros pretos, entre 
ele prprio e eles, se desvaneceu, para o professor? Aquele eco 
no ar - igualdade comeando a ser ouvido como liberdade - 
aconteceu sem uma consciencializao especfica, foi um 
reconhecimento do que realmente tinha estado ali para 
compreender, desde h muito tempo. Desde o seu tempo. No ano a 
seguir zpiet (ele tinha uma fotografia da de Roma, num dos 
livros da sua estante) ter sido restabelecida nas zonas pretas 
que havia por toda a parte do outro lado da savana fora das 
cidades, as crianas da sua escola comearam a no ir s aulas e 
a ficar pelo ptio com bocados de carto pendurados ao pescoo. A 
inscrio geralmente ocupava todo o espao antes de a mensagem 
estar completa, mas esta era to familiar, to vista em 
fotografias e artigos sobre o que estava a acontecer nas escolas 
dos verdadeiros pretos que podia ser lida, mesmo assim: NO 
QUEREMOS ESTA PORCARIA DE EDUCAO ESCRAVATURA DO APARTHEID. 
POLCIA FORA DAS NOSSAS ESCOLAS.

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Eles estavam a imitar os verdadeiros pretos, disse o director na 
reunio com o corpo docente, e ele no iria tolerar isso. Eles 
no iam crescer para andar com passes, as escolas deles eram 
melhores do que as dos pretos, eles eram favorecidos - no, no o 
disse: eles eram mais claros do que os pretos. Mas o elemento 
mais trabalhador e melhor do seu corpo docente estava a pensar 
como as crianas aprendem tomando os outros por modelo, a 
princpio imitando as formas de maturidade que vem nos seus pais 
e depois realizando - cognitivamente  medida que as suas 
capacidades se desenvolvem - por que razo no haviam de estar a 
aprender algo sobre eles prprios, por si prprios, atravs da 
imitao das responsabilidades assumidas precocemente por 
determinadas outras crianas, seus irmos? Reconhecer os 
verdadeiros pretos como irmos: j era algo que nenhum director 
zangado e irritado podia explicar como uma mania de ptio, como 
usar adereos feitos de caricas, fazer passar uma lista de 
direitos nas casas de banho.
O professor voltou para a sua sala de aula vazia; ficou de p 
junto  secretria, sozinho; depois agarrou num marcador vermelho 
de ponta grossa e saiu para o meio dos seus alunos e alunas. 
Houve uma agitao de bravata e medo; tinham recebido muitos 
pedidos de silncio de professores que vinham dar-lhes sermes e 
ordens e at apelar-lhes  razo. Mas ele foi de carto em carto 
corrigindo ortografia e acrescentando proposies que faltavam. 
Risos e gargalhadas sacudiam agora os midos, como um dos 
ps-de-vento que levantavam o p em espirais no ptio 
espezinhado.
- Vamos levar os vossos placares para a sala e reescrev-los. 
Quando queremos dizer alguma coisa s pessoas temos de saber 
exprimi-la como deve ser. Para que nos levem a srio.
E eles seguiram-no.
Mas nem sempre era assim to fcil. Sabendo que ele os levava a 
srio, esperavam muito dele. No s a sua prpria turma, mas 
tambm o resto dos alunos mais velhos da escola. Arranjaram 
rapidamente uma espcie de terminologia adulterada de retrica 
revolucionria que era a substituio dessa retrica pelo calo 
de estudante, e as suas exigncias bem como as suas aces 
tornaram-se cada vez mais estridentes. Foram ter com ele, 
esperavam que ele se interpusesse entre eles e o director. Ele 
persuadiu o director a deix-lo ir com eles quando decidiram 
marchar atravs da savana para demonstrar solidariedade com as 
crianas que tinham sido expulsas da sua escola pela polcia,

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aps um boicote s aulas; solidariedade preta. Ele assumiu a 
responsabilidade de no os deixar pegar em pedras. E conseguiu. 
Pela primeira vez, os pais viram a sua distino ratificada num 
jornal: no um dos dirios importantes, apenas um semanrio 
publicado para os interesses de gente como eles, mas l estava 
ele acima das cabeas das crianas, alto e magro com covas 
escuras da impresso do jornal no stio onde deveriam estar os 
olhos. A fotografia foi recortada e passada pelos primos, tias e 
tios. Foi tambm provavelmente a primeira vez que a sua 
fotografia foi parar aos arquivos da polcia. E quando a polcia 
foi de facto  sua escola porque algumas das crianas tinham 
incendiado um autocarro numa frustrao que encontrava expresso 
num ameaador fascnio pela destruio, as crianas esperavam que 
ele se interpusesse entre eles e a polcia; ele no tinha sido 
capaz de os impedir de pegar em gasolina e fsforos como tinha 
feito com as pedras. Foi  esquadra quando sete deles foram 
detidos; mas a nica coisa que conseguiu, ao tentar saber onde  
que eles estavam presos, foi ter de dar o seu nome e morada, e 
dessa forma a polcia obteve a confirmao da sua identificao 
para arquivar juntamente com a fotografia do jornal; no recebeu 
qualquer informao.
Estava a fazer tudo aquilo pela escola, pelas crianas da 
comunidade. Aila sabia disso. Ele no lhe escondia nada. Ela 
sabia que alguns dos pais tinham feito queixa por ele ter 
marchado com as crianas sobre a savana em direco  escola dos 
pretos: um professor no devia ter permisso para encorajar 
coisas daquelas. Ela sabia que quando o director o informou disso 
era um aviso. O director tinha o ar de quem ia dizer o que o seu 
professor do quinto ano estava  espera de ouvir; mas a sua 
autoridade vacilava sempre perante aquele elemento do seu corpo 
docente; no acrescentou nada. E Aila no precisou que o marido 
verbalizasse a sua tomada de conscincia de que incluir a 
comunidade entre as suas prprias preocupaes era atrair algo 
que a inocncia das boas intenes no tinha tido em conta: o 
risco para a modesta segurana da base de onde partira essa 
preocupao - o emprego, as prestaes do carro e do frigorfico, 
a reserva de artigos de mercearia trazida para casa todos os 
sbados. Depois de sinais como a entrevista com o director, 
continuaram com esprito objectivo a ocupar-se das tarefas do 
dia. Mas no quarto, o facto de a ver a dobrar as roupas e a 
escovar o casaco que ele usava na escola dizia-lhe que aquilo 
era, naquela noite, um ritual de defesa da famlia,

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afirmando a persistncia do familiar contra o desconhecido; e a 
conscincia, da parte dela, de que ele tinha baixado o livro e 
estava a olhar para ela (encontrou os olhos dele no espelho, 
estava atrs dela, deitado na cama) enquanto ela entranava o 
cabelo, era um pacto segundo o qual juntos se acomodariam ao 
imprevisto. No estavam propriamente com medo; era s por causa 
das crianas. Nem que fosse s uma questo de poder continuar a 
aliment-los e vesti-los! A Baby tinha quase doze anos; alguns da 
idade dela j andavam a correr com excitao no meio da multido, 
com pedras na mo, como havia feito a primeira criana a ser 
assassinada. Baby no demonstrava qualquer interesse por tal 
solidariedade - andava ocupada com as lies de dana, com as 
estrelas de msica de que era f e com os amigos do peito, mas 
sabia-se l por quanto tempo? Will era demasiado novo para estar 
em perigo - nesta comunidade, as coisas passavam-se de maneira 
diferente das comunidades pretas do outro lado da savana, onde 
ningum era demasiado novo para andar nas ruas, para ser apanhado 
entre fogo cruzado.
No admirava que os pais quisessem ver afastado da escola um 
professor, um dos da sua raa, que levava os seus filhos para l.
O que  que o levou a permitir-se ser visto com a amante num 
stio pblico? O que  que o levou a ir com ela quele cinema, 
num moderno complexo subterrneo de lojas e restaurantes, escadas 
rolantes e msica de fundo? Bem, o que me fez ir a mim: pensei 
que ningum me ia ver. Que ningum me ia conhecer. Um subrbio 
onde viviam brancos abastados, onde sempre tinham vivido; num 
cinema barato numa das zonas cinzentas para onde nos tnhamos 
mudado era provvel que houvesse gente que me reconhecesse. Que o 
reconhecesse. Que o visse com ela.
Por isso atravessmos ambos o centro da cidade, tentmos 
perder-nos em territrio estranho, enganando-nos um ao outro. 
Embora eu me sentisse lisonjeado; ele de certeza que no pensara 
em mim como eu, com quinze anos, pensara nele, o pai, quando me 
esquivei ao estudo naquela tarde. Ser que alguma vez nos 
esquecemos deles, dos pais, por um momento? Eles esto sempre 
presentes nas hesitaes - quer obedeamos ou desafiemos, as 
opinies, onde  que as arranjamos? - que decidem o que fazemos. 
Porque
mesmo quando desafiamos os pais, quando os enganamos, acreditamos 
neles.
E ento l estava ele. O que  que vais ver?, dissera. Mas eu 
tinha visto. Ele manteve-se afastado de mim porque pensou que 
devia cheirar ao brao e ao ombro dela encostados aos dele. 
Talvez tivesse estado a acarici-la no escuro. A mo dele 
introduzindo-se na manga dela e sentindo o seu seio. Ns tentamos 
fazer isso com as raparigas nas festas quando algum apaga a luz.
Ele tinha-me mostrado qualquer coisa que nunca me deviam ter 
mostrado.
Entrei na cozinha para jantar quando os outros j estavam  mesa. 
Tinha parado ao p da porta antes de entrar, todo o meu corpo a 
recuar. Ele estava ali no seu lugar habitual, como se fosse o meu 
pai outra vez, no o homem com a amante loira no trio do cinema. 
Eu deslizei para o meu lugar ao lado da minha irm no banco 
corrido que ele prprio tinha feito - e eu tinha ajudado - quando 
ele estava a montar o recanto de pequeno-almoo faa-voc-mesmo 
para a minha me. Estando  vontade na presena da famlia, 
muitas vezes no nos cumprimentvamos s refeies; seria como 
falar consigo mesmo. Por isso no tive de falar. Ele estava a 
agitar o saleiro por cima do prato, eu via a sua mo e no tinha 
de ver a sua cara. A minha me estava a falar em voz baixa, a 
fazer um comentrio sobre qualquer coisa que a Baby deve ter 
dito, enquanto andava entre o fogo e a mesa como um pssaro a 
voar de um lado para o outro com comida para deitar nos bicos 
abertos dos seus filhotes.
- Senta-te e come. Ele pode muito bem tratar de si. - O meu pai 
falou de mim assim; falou com amvel considerao pela minha me. 
Ento eu levantei os olhos para ele, talvez ele desejasse que eu 
o fizesse. Vimo-nos outra vez.
No aconteceu nada; como se nada tivesse acontecido. A minha me 
disse que eu parecia cansado.
- Acho que ele devia tomar Sanatogen.
- Oh, Aila, com certeza no acreditas nesse disparate! - Ele 
sorria para ela.
- Bem, toda a gente tomava isso para os nervos dos exames quando 
eu andava na escola. Will, no queres um copo de leite? No achas 
que j chega? Esteve a estudar o dia todo, Sonny, devia fechar os 
livros e ir para a cama cedo. Diz-lhe.
Embora o meu pai j no fosse professor, ela mantinha o hbito

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de se referir a ele como o especialista em questes relacionadas 
com a nossa educao. E aqueles olhos fundos fixaram-me do outro 
lado da mesa:
- Ora a est uma boa ideia. O sono  o melhor tnico. Qual  o 
exame que fazes na prxima semana?
Eu falei-lhe pela primeira vez.
- Biologia. Na tera-feira.
E assim se estabeleceu a cumplicidade entre ns. Ele arrastou-me 
para ela, como se no fosse meu pai (um pai nunca faria tal 
coisa). E no entanto, porque ele era meu pai, como podia eu 
resistir, como podia atrever-me a recusar?
Pode at ter acontecido que o director tenha protegido o 
professor durante algum tempo. A conscincia-a do director, que 
ele no seguia - ou a lealdade  sua prpria raa contra o poder 
da autoridade da cidade e do governo talvez o tenham incitado; na 
comunidade no havia ningum to determinado a manter-se afastado 
de sarilhos que no admirasse secretamente algum que no tinha 
medo de se meter neles. O professor no perdeu o seu lugar 
durante o perodo em que os alunos andavam a rebentar com a 
escola exactamente como se fossem mesmo pretos.
Mas ele aventurou-se fora das actividades inofensivas das boas 
obras, para as quais podiam ser pedidos fundos aos Rotarians e 
aos Lyons, e aprovados por eles nos seus almoos semanais num 
hotel da cidade. As pessoas das comunidades como a sua, em outras 
zonas do Transval, ouviram falar dele - provavelmente foi a 
fotografia do jornal que comeou tudo. Estavam a ser publicados 
no Dirio do Governo decretos para aquelas zonas - exactamente 
como o guio de uma pea  representado pelas vozes e movimentos 
dos actores, os decretos eram-no por camies do governo que 
levavam pessoas e haveres e por bulldozers derrubando o que tinha 
sido os seus lares. Comerciantes que no eram mesmo pretos mas 
tambm no eram brancos estavam a ser expulsos das lojas que 
tinham ocupado durante geraes nas cidades brancas. Havia gente 
como ele nestas comunidades, pessoas que sentiam responsabilidade 
para alm das suas famlias, e estavam ansiosas por recrutar 
algum que fosse revelado por um sinal: ele tinha marchado 
atravs da savana; estava marcado. Embora por enquanto ainda 
nenhuma famlia tivesse perdido a sua casa
na comunidade dele, era bvio que ele era o tipo de homem que se 
aperceberia de que todas as comunidades da sua raa eram na 
realidade uma s e que se uma delas fosse ameaada por uma cidade 
branca este ms ou este ano a outra podia ser a prxima. Foi 
contactado para formar um comit local, foi eleito para um 
executivo regional, estudou os livros brancos do governo nos 
arquivos das publicaes oficiais do municpio e os ttulos de 
propriedade que os velhos tinham guardado; de p sobre o soalho 
rangente de uma igreja ele fez o seu primeiro discurso.
Ele tinha contido as mos das crianas quando elas agarraram em 
pedras. Mas as palavras tambm so pedras. Ele agora tinha pegado 
na funda, outro David entre muitos escolhendo-se a si prprios 
para serem marcados - outra vez, pelos olhos de Golias.
Inesperadamente, revelou-se um dos melhores oradores do movimento 
e aos fins-de-semana era requisitado para falar em reunies por 
toda a provncia. O seu nome aparecia em cartazes pelas povoaes 
onde eram riscados com obscenidades ou arrancados pelos brancos 
da zona. Sonny, entre aspas, era impresso entre o nome e o 
apelido, nas listas de oradores, o nome de criana tornou-se uma 
vantagem poltica natural, sublinhando a acessibilidade e a 
proximidade s pessoas a quem se dirigia. E quando havia reunies 
conjuntas com os verdadeiros pretos, a sua prpria pele escura, 
em contraste com a cor mais clara da maioria dos da sua raa, 
ajudou seguramente a reduzir as diferenas superficiais entre 
aqueles que eram inteiramente pretos e os que tinham alguma coisa 
do homem branco nas veias. Os colegas, mais sofisticados 
politicamente do que ele, viam a utilidade destes atributos. 
Quanto a ele no tinha conscincia do facto de poderem ser 
utilizados de alguma forma; sentia-se apenas gratificado por os 
seus anos de leitura - aquela preocupao individualista e 
interiorizada como comeava a encar-la - estarem a ser postos 
directamente ao servio da comunidade, ao fornecerem-lhe o 
vocabulrio adequado ao que precisava de ser dito. As palavras 
vinham-lhe facilmente  boca como frutos dos seus prazeres 
privados. Quando lhe diziam que falava bem ele ria e respondia 
embaraado que era professor, um orador pblico na sala de aula 
todos os dias da sua vida de trabalho.
O director veio a casa do professor numa tarde de sbado. Aila 
abriu a porta e no seu rosto (o director sempre a tinha achado 
bonita, mas de uma beleza  maneira daquelas bonecas com fatos 
tradicionais trazidas de pases estrangeiros,

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demasiado tpica) ele viu uma compreenso e um medo to imediatos 
que, nunca tendo aparecido antes l em casa, o que lhe saiu foi 
uma coisa ridcula:
- Eu ia a passar...
Ela f-lo entrar, em silncio. Foi buscar o marido ao ptio das 
traseiras, onde ele, para ficar mais recatado, sob a cobertura da 
parreira que tinha plantado, se encontra reunido com os seus 
novos companheiros. Viram a cara dela. Puseram-se rapidamente de 
p.
- No, no  a polcia.  o director da escola.
Os companheiros voltaram a sentar-se; um deles fez um gesto de 
alvio, desculpando o professor pela interrupo, como ele 
prprio podia ter dado permisso a um aluno para sair da sala de 
aula.
O departamento de educao responsvel pelas pessoas da sua raa 
tinha informado o director de que aquele professor devia ser 
demitido.
O professor sorriu como costumamos fazer perante uma coisa 
esperada, temida e j encarada s quatro da manh de muitas 
noites, deitados muito quietos para no perturbarmos o sono da 
pessoa com quem partilhamos a cama.
- Homem, o que  que eu posso fazer. Tentei evitar isto.
O maxilar inferior do director sobressaa e empurrava-lhe os 
lbios e o bigode para o nariz; aquele trejeito cmico to 
familiar ao seu corpo docente sempre que tinha alguma coisa 
desagradvel a dizer e os msculos do seu rosto procuravam 
disfarar o nervosismo assumindo um aspecto temvel, da mesma 
forma que um animal indefeso muda de cor, ou eria o plo.
- No h problema.
- Sonny, eu tentei impedi-los... eu disse-lhes, tu s um dos meus 
melhores professores. Disse-lhes como s popular junto dos 
midos. O que fizeste pela escola.
Mas voltou a dizer aquilo que no devia. Fora exactamente o que o 
professor fizera pela escola que tinha aberto o dossier que 
levara quilo: a demisso. Angustiado, o director desabafou o 
pior:
- Sabes... no sabes... homem,  muito mau. O Departamento no 
vai autorizar nenhuma outra escola a dar-te um lugar.
Aila entrou com um tabuleiro de ch.
No olhou para nenhum dos homens e saiu sem romper o silncio por 
eles.
Benoni - filho da mgoa.
O meu pai, que no tinha um curso universitrio (ao contrrio 
daquela mulher que ele admira tanto) costumava ter facilidade em 
assimilar conhecimentos acidentais que s as pessoas 
inteligentes, cuja formao escolar  limitada, possuem. Ele 
atraa a si fragmentos de informao tal como eu atraa os 
alfinetes da minha me para o man em ferradura. Uma vez disse-me 
o que significava o nome da cidade. No sei onde o aprendeu. 
Disse que era um nome hebreu.
Eu nasci naquela cidade, o filho dele. Penso agora que esta mgoa 
comeou quando a deixmos. H todo esse tempo. Mesmo antes. 
Quando ele teve de deixar de ser professor e a sua profisso e o 
seu trabalho para a comunidade deixaram de ser a extenso um do 
outro, algo que fazia dele um todo. A nossa famlia, um todo.
Arranjaram-lhe um emprego num grossista indiano - as pessoas do 
comit contra as expulses, que era agora o seu trabalho para a 
comunidade, que o levavam a todo o lado, a falar em cima de 
estrados e a participar em reunies fora da comunidade das nossas 
ruas, da nossa zona. J no tinha uma profisso; a sua profisso 
tinha-se tornado as reunies, os discursos, as campanhas, as 
delegaes s autoridades. O trabalho - guarda-livros ou qualquer 
coisa do tipo que ele depressa aprendia - no era como ensinar; 
era uma necessidade que nos alimentava e que era realizada entre 
o apanhar do comboio para a capital todas as manhs e o regresso 
todas as noites. No tinha lugar na nossa vida. Ele no o trazia 
para casa, no estava presente connosco em casa como a sua 
actividade de professor sempre tinha estado. Eu tinha onze anos; 
ele saa todos os dias e voltava; eu nunca vi o tal armazm no 
outro extremo da viagem de comboio. Roupas para homem e rapaz, 
dizia ele: eu perguntara o que  que l havia. Imaginava-o 
trabalhando em caves atrs de caves onde havia sapatos sem ps,

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montes e pilhas de chapus de feltro cinzentos e castanhos, sem 
cabeas nem caras, ele que tinha estado rodeado de crianas 
cheias de vida. Ele costumava ler-nos  noite,  Baby e a mim, 
sempre que no havia reunies. A Baby no ouvia, ia para a 
cozinha com o seu pequeno rdio. Ele tinha-me ensinado a ler 
quando eu ainda no tinha cinco anos, mas eu continuava a gostar 
mais de o ouvir ler a ele. j vezes obrigava-o a ler-me o livro 
que ele prprio andava a ler, apesar de no o compreender muito 
bem. Aprendia palavras novas - ele parava de ler e explicava-as, 
se eu o interrompesse. Quando os adultos faziam a habitual 
pergunta idiota que se costuma fazer s crianas, a Baby 
respondia (dependendo se queria impressionar a visita ou ser 
atrevida) que queria ser mdica ou rainha de beleza, e eu no 
dizia nada. Mas ele - o meu pai - dizia: O meu filho vai ser 
escritor. A nica vez em que eu falei por mim toda a gente se 
riu. Tinham-me levado ao circo pelo Natal e o que eu queria ser 
quando fosse grande era palhao. A Baby disse logo - rapariga 
esperta, era o que toda a gente lhe chamava - porque j tens uns 
ps to grandes!. A minha me no me queria ver ferido no meu 
orgulho e tentou transformar a troa numa objeco racional. Mas 
os palhaos so tristes, Will, disse ela.
As caras que desenham por cima das suas caras, a grande boca da 
cantos virados para baixo e os pequenos pontos verticais por 
baixo e por cima ao meio de cada olho, que sugerem lgrimas 
derramadas. Quando ele se sentou  minha frente ao jantar naquela 
primeira noite, que cara  que ele viu em mim? Que cara me fez 
usar, a partir da, para o encobrir, ao que ele andava a fazer - 
o meu conhecimento disso - s nossas escondidas: da minha me, da 
minha irm, de mim prprio?
Talvez se nunca tivssemos deixado a nossa zona nos arredores 
daquela pequena cidade aquilo nunca tivesse acontecido. Nunca 
devamos l ter estado, no cinema. Ela nunca o teria encontrado, 
nem a ns - a sua amante loira. Tenho pensado em todas as coisas 
que tinham de ser evitadas para eu no ter encontrado o meu pai 
naquele cinema, numa tarde antes dos exames. Tenho-as pensado e 
repensado porque eu no sabia como viver agora que o tinha 
encontrado, agora que tinha visto, no o filme para que faltei ao 
estudo, mas o que a nossa prpria vida .
Embora ele trabalhasse na capital, tnhamos continuado a morar na 
nossa casinha no Recife durante algum tempo. Os meus pais estavam 
a pagar as mensalidades do emprstimo municipal com o qe tinham 
comprado;

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a minha me tinha o seu trabalho de dirigir a creche, para a qual 
tinha sido por fim garantido um subsdio pelos vereadores da 
cidade. Por isso ficmos onde estvamos. Excepto ele, tudo estava 
no seu lugar. O baloio que ele tinha montado no ptio das 
traseiras quando ramos pequenos, a casota que eu ajudei a 
construir para o nosso Mickey, o co que eu escolhi na Sociedade 
Protectora dos Animais. Enquanto ele estava fora nos seus comits 
e reunies durante os fins-de-semana, a minha me tentava fazer 
connosco as coisas que costumvamos fazer todos juntos. E o 
ltimo piquenique de domingo antes de deixarmos a nossa casa foi 
no Inverno. A ltima vez; no fim do Inverno. A savana tinha sido 
queimada para permitir que a nova vegetao rebentasse, o sol 
derretia a geada da noite, evaporada como um sabor fresco do 
cheiro a cinzas. Uma paisagem negra apenas com as nossas 
montanhas, os despejos das minas, amarelos sob luz sem sombras. A 
minha me estendeu uma folha de plstico por baixo da nossa manta 
sobre o restolho negro que se espalhava como fumo sob os nossos 
ps e nos sujava as meias. Havia as coisas que gostvamos de 
comer, naartjies,(1) cujas cascas cor de laranja brilhantes Baby 
dispunha em forma de flores sobre o preto do cho. Ele disse a 
minha filha vai ser uma artista? Porque ele estava l. Naquele 
ltimo piquenique que fizemos no nosso velho canto de savana 
entre os despejos, ele estava connosco. Fomos os dois passear, eu 
a esgaravatar com um pau em todos os montes e buracos  procura 
de no sei que tesouros e ele mostrou-me alguns, descobriu-os 
para mim; como sempre fazia. Encontrmos o esqueleto de um 
passarinho apanhado pelo fogo e ele disse que podamos lev-lo 
para casa e lig-lo com arame. Depois ele descobriu para mim o 
molde de uma songololo(2) da espessura do meu dedo mdio, 
levantei-a e pude ver o cu atravs dela no fim do seu estreito 
tnel. Um cu azul glido, despejos amarelos, savana preta, como 
as cores primrias de uma bandeira. O nosso piquenique queimado. 
Ela nunca teria descoberto onde nos encontrar, ali.
Mas quando foi l a casa em Joanesburgo, ela j o tinha 
encontrado. Nas suas misses de misericrdia e justia ela tinha 
visitado a priso.


*1. Tangerinas. Em africnder no original. (N. da T.)
2. Minhoca. Em africnder no original. (N. da T.)


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O ex-professor e a mulher discutiram a deciso, como sempre 
tinham feito tudo, antes de deixarem a cidade do Recife. 
Conversaram ao longo de meses, como fazem as pessoas que so 
muito unidas, ao mesmo tempo que continuavam a rotina, tanto do 
trabalho como do lazer,  esse o contexto da sua natureza comum. 
Ele estava a substituir a pea da chaleira e ela estava a cortar 
vegetais para um dos seus deliciosos pratos econmicos; ela 
estava no banho e ele entrou e retomou o que estava a dizer 
depois de a Baby e o Will terem ido para a cama; ele e a mulher 
tambm j estavam na cama, tinham dado as boas-noites e voltado 
costas, quando, devagar, a conversa recomeou.
Era a maior deciso das suas vidas at ento. Casamento? O amor 
tinha-os levado to suavemente a isso. Deixar o stio onde tinham 
namorado, onde as crianas tinham nascido, onde toda a gente os 
conhecia, sabia que ela era a mulher do Sonny, que a Baby e o 
Will eram os filhos do Sonny. Os silncios de Aila diziam coisas 
assim:
- Mas o que  esta casa? Um casebre para o qual trabalhaste! como 
um escravo para se tornar numa coisa decente. Durante quanto 
tempo ainda poder a Baby partilhar o quarto com o irmo? Ela 
agora j  uma rapariga crescida. A pagar a mensalidade  cmara 
durante mais vinte e cinco anos, trinta anos, para todo o sempre, 
no podemos sequer dar um quarto a cada um dos nossos filhos. No 
podemos votar para a cmara deles mas eles levam o nosso dinheiro 
pelo privilgio de viver neste gueto.
Ele nunca antes tinha utilizado aquele termo em conversa com ela, 
referindo-se ao lar deles. Um vocabulrio em mudana estava a 
acompanhar a transformao de Sonny em Sonny, a personalidade 
poltica definida por um nome intermdio, um diminutivo. Ela 
sabia que ele estava a conduzi-la para uma vida diferente, 
pacientemente, passo a passo, que nem um nem outro tinham a 
certeza de ela poder acompanhar. A sua contribuio oral para as 
discusses deles era constituda sobretudo por perguntas.
- Mas no encontraremos nada de muito melhor no stio para onde 
vamos, pois no? Onde  que vamos viver?
Ningum melhor do que um membro do comit contra as expulses 
sabia da escassez de abrigos para as pessoas da raa deles, havia 
dcadas, geraes. Habitao significava encontrar uma parte de 
um quarto dividido por cortinas, uma garagem, um bido deitado. E 
depois havia a questo do emprego dela. Onde  que arranjaria 
trabalho em Joanesburgo? O seu gnero de trabalho.

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- Acho que podia fazer outra coisa qualquer... arranjar maneira 
de me aceitarem numa fbrica.
Aila referia-se aos contactos dele na indstria do vesturio, ele 
sabia; isso alarmou-o. Era impensvel que atravs dele Aila se 
sentasse dobrada sobre uma mquina. Acotovelando-se com as 
operrias na rua. Ele arranjaria uma soluo qualquer, no 
mostraria a sua preocupao. De sbito ele viu exactamente, com 
preciso, o que ela estava a fazer,  sua frente, naquele 
momento: a cortar feijo verde na diagonal em pedaos do mesmo 
tamanho, a cortar malaguetas bellpeppers amarelas e encarnadas em 
lascas de espessura idntica, todos perecveis, todos bonitos 
como um mosaico. As mos de Aila no estavam speras nem secas 
pelo trabalho domstico que fazia; ia para a cama com ele todas 
as noites com elas cheias de creme e em luvas de algodo. A 
distraco momentnea no foi uma distraco mas um foco de 
atraco que o fez mergulhar, de cabea, na ordem orgnica e 
disciplina esttica da vida de Aila, que ele estava a 
desenraizar.
Ela sentou-se na banheira a ensaboar o pescoo. O seu cabelo 
estava puxado para cima e atado com o velho leno roxo que tinha 
o seu lugar num gancho entre as toalhas. Ele j vinha a ganhar 
flego para falar quando entrou.
- Porque  que hs-de estar agradecida pelo subsdio miservel 
que eles do de maneira a poderes dirigir uma creche para eles.
- No  para eles,  para as crianas.
- Ah, no, no, para eles. Para que eles possam sentar-se na sua 
Sala do Conselho e congratular-se pela melhoria das condies 
de vida no gueto onde os nossos filhos so criados. Onde  
suposto vivermos e morrermos. O stio a que nos limitam. Um zoo. 
Uma colnia de leprosos. Um asilo.  humilhante aceitar dinheiro 
deles. Aila. Eles que fiquem com ele.
As perguntas dela nunca eram objeces; eram a consequncia 
prtica da aceitao. Ela no se ops  mudana. Teve o cuidado 
de a apresentar aos filhos como uma coisa excitante e desejvel. 
E as crianas estavam prontas para deixar de corao leve os seus 
amigos, a sua escola, as quatro paredes e o pequeno quintal onde 
tinham brincado. Baby sentia a nsia adolescente da vida que 
imaginava existir na capital. Will s se preocupou em levar o 
co. Para Joanesburgo! Joanesburgo! Ningum perguntou para onde 
exactamente. O seu pai estava a tratar disso.

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Quando ele soube para onde iam viver, o deslizar do comboio sobre 
os carris, levando-o do armazm para casa, acelerou a sua 
excitao, mas  medida que percorria as ruas familiares todas as 
noites, de volta  velha casa, atravs dos papis gordurosos 
espalhados  porta da loja do peixe e batatas fritas, passando a 
taberna com as suas grades de ferro e a clientela de pedintes 
bbedos, passando a agncia funerria onde o enorme carro preto 
brilhante estava sempre pronto para levar os pobres 
grandiosamente numa ltima viagem, passando a sua antiga escola 
com as janelas partidas e os graffiti de liberdade, que ainda no 
tinha chegado - estando a abandonar tudo aquilo apercebia-se de 
que estava a abdicar de um certo abrigo para a famlia Miservel, 
degradante abrigo - mas um abrigo apesar de tudo. Quanto a ele, 
tinha a fora de uma misso de que se armar; a sua famlia - Aila 
seria diferente para eles. Por isso acalmou a sua euforia antes 
de lhe contar. E no foi na frente das crianas.
- Vamos mudar-nos para o meio dos brancos.  uma tctica que foi 
decidida e eu sou um dos que se ofereceu como voluntrio. Se 
concordares.
Ela sorriu indulgentemente, incrdula. O comit tinha debatido 
muitas tcticas de resistncia que no tinham dado em nada.
- Do que  que ests a falar? Conta-me. Como?
- J est feito. Ser num dos subrbios da parte sul, claro, no 
onde vivem os brancos abastados. Os africnderes da classe 
operria querem subir na vida e vo vender as casas por um preo 
muito alto.
- Ns no temos dinheiro para comprar nada! Em Joanesburgo! Onde 
 que vamos arranjar o dinheiro?
- Vo pagar por ns. Pagaremos uma renda, a mesma que pagamos 
aqui.
- Mas  ilegal, como  que se pode ter uma casa numa zona de 
brancos?
-  essa a ideia. Ns no aceitamos a segregao deles, estamos 
fartos de lhes dizer, vamos mostrar-lhes.
- Ns? - uma pausa. - Ento  essa a ideia.
Foi o mais perto que ela chegou de desafiar a presuno do comit 
de dirigir a vida da sua famlia.
-  uma casa muito bonita. Trs quartos, uma sala, mais um quarto 
que podemos utilizar para a tua costura e para os meus livros. J 
imaginaste? Vou poder ter uma secretria. Arranjamos a cozinha, 
eu construo-te um recanto para o pequeno-almoo. E tem um grande 
quintal.

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Um enorme damasqueiro. Will pode construir uma casa na rvore.
Aila inclinava a cabea a cada nova caracterstica, como se 
estivesse a dar baixa numa lista. Parava quando ele parava, 
olhando para ele com o seu olhar puro escuro, apreciativamente. 
Aila compreendia tudo, mesmo as coisas que ele no tencionava 
abordar logo de uma vez; ele no conseguia esconder-lhe nada, o 
silncio dela assimilava os seus meios-pensamentos subentendidos, 
as hesitaes, as expresses faciais disfaradas ou dissimuladas, 
e encaixava o sentido que faltava. Porque ela prpria falava 
pouco, no dependia das palavras para obter informao dos 
outros. Era como se ela l tivesse estado quando ele fazia o 
caminho para casa da estao atravs das ruas sombrias, como se 
ele tivesse falado em voz alta sobre a sua degradao tambm como 
uma espcie de abrigo. Aila disse:
- Vizinhos africnderes.
- Oh, os midos relacionam-se rapidamente. Os joelhos sujos so 
todos da mesma cor. Ele vai fazer amigos. Os pais vo 
evitar-nos... se tivermos sorte,  s isso que vo fazer. Mas 
tambm no precisamos deles.
- No.
Uma nica palavra tinha peso, dita por ela. O monosslabo 
reprimido foi pronunciado com tanta certeza; a habituao um ao 
outro tornara-os ainda menos expansivos do que eram no incio do 
seu casamento, mas ele sentiu-se impelido a ir para junto dela. 
Ela virou-se para fazer qualquer coisa. Estranhamente - ela 
tocava-o s no escuro, na cama - levantou a mo e pousou-a por um 
momento no pescoo dele. O vapor agridoce do Blsamo de Frade 
saa do boio de compota onde ela tinha deitado gua a ferver.
- Para quem  isso?
- Will apanhou uma constipao.
- Eu levo-lhe. Est na cama?
Saiu para ir falar ao filho da casa na rvore que iam construir 
juntos. Na casa nova, muito melhor, deixando o gueto para trs.



No compreendo como  que a Baby no sabe. Claro que o facto de o 
meu pai no estar em casa s mais variadas horas e s vezes 
durante vrios dias em si no significa nada. Muito antes de ir 
para a priso teve de se habituar a deixar-nos sozinhos muitas 
vezes. Tivemos de nos habituar a isso.

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Ele j no era professor, estava em casa todas as noites. No 
trabalhava no armazm desde o incio do primeiro ano em 
Joanesburgo porque o comit precisava dele como organizador a 
tempo inteiro. E depois o comit fez alianas com os novos 
sindicatos de pretos que tinham acabado de ser autorizados, e no 
sei que mais. Todo o tipo de pessoas; grupos activos contra o 
governo, era sempre dos que queriam unidade entre eles, andava 
sempre a falar nisso. Quando ele estava em casa havia reunies 
por vezes todo o domingo, pretos e os outros como ns - por sorte 
aquela casa foi construda como casa de brancos e havia espao 
para eles se fecharem, isolados.
E assim que ele saiu da priso comeou tudo outra vez - o pai no 
 homem para se assustar e deixar o seu trabalho poltico porque 
foi preso por isso. Ou no seria ele o homem; agora no sei o que 
ele . Ele sai, para fora, e quando volta, entra, faz as coisas 
que costumava fazer (enche um copo com gua fresca do 
frigorfico, pendura as chaves num dos ganchos que ele pregou 
quando nos mudmos para c, perguntando-nos como nos correu o 
dia) est a representar. A desempenhar o papel do que ele era 
antes. Ser que a minha irm no consegue sentir isso? No  algo 
que se veja - a questo  que tudo parece igual, soa igual. 
Excepto a sensao. O corpo dentro das mesmas roupas. O que quer 
que ele toque  com a mo que acabou de a deixar. Ele tem um 
cheiro diferente. Ser que a minha irm no consegue cheir-lo? 
No  de perfume nem nada assim, no  isso. Suponho que ele ia 
ficar certamente muito envergonhado, tornou-se demasiado fingido 
para isso. O seu prprio cheiro - da sua pele - que eu recordo de 
quando era pequeno e ele me pegava, ou que ele costumava ter at 
h bem pouco tempo, quando partilhvamos a casa de banho. 
Desapareceu. Eu no reconheceria o meu pai no escuro.
Porque  que tinha de ser eu a saber?  suposto ser alguma 
espcie de privilgio? (O que  que ele pensa!)
Ela  mais velha do que eu, porque  que h-de andar por a 
alegremente com os namoradinhos, a sair para a sua universidade 
comercial com as unhas pintadas de prateado e t-shirts a dizer 
Liberdade, a fumar secretamente marijuana todos os dias?
Eu quero contar-lhe, para que ela saiba como  saber. Porque  
que no h-de saber? Eu tenho tentado. Disse-lhe: Ele est 
diferente desde que saiu da priso - quero dizer, achas que o pai 
est bem?

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Ela riu-se, impaciente comigo. Anda sempre com pressa. Se est 
bem! Quem  que no se sentiria bem por ter sado! Esperavas que 
ele andasse por a aptico como tu?
E  claro que ela j no tem nada a ver com o corpo dele, anda a 
acariciar rapazes. A minha me tambm no sabe disso. Sou eu o
nico.
Outra coisa que ele costumava fazer, como ir direito ao 
frigorfico buscar um copo de gua, costumava chamar: Aila? 
Aila?, se ela no estava na primeira sala em que entrava. Ele 
no faz isso. Se ela est ocupada noutra sala ele s vezes chega 
a estar em casa meia hora ou assim antes de ela saber que ele l 
est. Na sua inocncia, ela encara isso como um dos benefcios 
que conquistmos para ns prprios para a causa, para a 
liberdade: esta casa tem privacidade, no  como a antiga no 
gueto onde estvamos juntos o tempo todo.  um espao que ele 
merece.  algo por que devemos estar-lhe gratos. Ele esteve na 
priso por princpios como este. Quando eles vieram busc-lo ela 
no parava de olhar  sua volta, como se um machado tivesse 
cado, como eu tinha visto desfazer a carcaa de um borrego um 
dia que ela me mandou ao talho, amputando uma parte dela que no 
conseguia sentir, por enquanto. Eu fui pegar-lhe na mo, mas a 
minha no era o que ela tinha perdido. Penso que eles tinham 
estado sempre juntos em tudo, ela no podia acreditar que ele 
estava a partir calmamente (como aconteceu) para uma experincia 
que nenhum dos dois alguma vez podia ter imaginado que lhes iria 
acontecer quando eram jovens. (Ela tinha apenas dezoito anos 
quando casaram, mais ou menos a mesma idade que a minha irm tem 
agora.) Todas as vezes em que estivera fora em reunies no a 
tinham preparado para aquilo; dessas ele tinha sempre voltado 
para casa e chamado Aila. E depois ele saiu da priso com uma 
experincia por que ela no tinha passado com ele, do modo como 
eu suponho que nos criaram - aos filhos - juntos, e como fizeram 
a mudana para Joanesburgo, nos ensinaram,  Baby e a mim, a 
sermos educados mas a no ter medo dos brancos que viviam na 
mesma rua, porque ter medo era aceitar que no tnhamos o direito 
de l viver. No se trata exactamente de a minha me parecer 
querer encontrar um meio de o compensar, pela experincia 
inimaginvel por que ele passou sozinho. (Quando se visita uma 
pessoa na priso s estamos com ela durante alguns minutos, a 
Baby e eu s vezes amos com a minha me e traziam-no da cela, 
nunca o vimos, ele falava atravs de um vidro.)

45


Trata-se mais do facto de ele, por ter estado na priso pela 
causa da liberdade, se ter tornado um eleito, que no deve ser 
seguido nos seus pensamentos privados por pessoas vulgares. Como 
ela. Como ns. Uma vez ela disse  Baby e a mim que se recordava, 
quando era muito pequena, de o av ter aparecido to diferente, 
usando um turbante branco quando regressou de Meca, que ela fugiu 
e se escondeu.
O que eu gostava de saber  se a priso d ao meu pai a liberdade 
de fazer o que ele anda a fazer. Se est tudo bem desde que ela 
no saiba. Era com isso que ele me queria levar a concordar 
quando me fez olhar para ele do outro lado da mesa, naquela noite 
depois do cinema. Mas isso funciona para os dois lados. Eu posso 
fazer gazeta s aulas sempre que me apetecer; ele no pode 
perguntar-me onde vou, nem onde estive. Porque eu sei onde  que 
ele vai, onde esteve. Ele  no me pode ordenar, durante as 
frias, que acabe de ler as obras para o prximo perodo. V-me 
com o Dia Desportivo, debaixo do seu nariz, em vez do Rei Lear de 
onde  capaz de citar pginas. Uma criana ingrata  mais 
venenosa do que um dente de serpente. Eu no quero estar por 
dentro com ele. No quero pedir-lhe nada... pode ele no poder 
recusar. Aposto que agora podia levantar a questo da mota outra 
vez, e talvez a conseguisse.
 fcil recusar-me a pedir coisas. Mas ele sabe que eu no posso 
falar com a minha me; no posso recusar-me a estar por dentro 
com ele.
No sou nenhuma criana. Se as pessoas saem da priso, se 
estiveram afastadas, perdidas, h amor. No h?  uma forma de 
compensar seja o que for,  o que dizem, desde que somos 
crianas. Adultos. Na igreja, na escola, em revistas de sexo. 
Como amar, todos os tipos, todo o amor. Ela sai da casa de banho 
e d-me um sorriso de boas-noites, j sou muito crescido para ser 
beijado a no ser no dia de anos ou noutra ocasio, e ela entra 
no quarto deles com o cabelo numa trana brilhante que lhe cai 
pelas costas sobre o roupo. Dormem na mesma cama, mas ser que 
ele faz amor com ela, depois de ter vindo da outra? Eu nunca 
tinha pensado neles - nele e na minha me - dessa forma. No 
quero pensar nisso agora. No quero pensar que ele finge que ela 
 rosada, cheia e suave; como eu finjo, em sonhos, que estou a 
fazer coisas com elas, as louras das pginas duplas que rasgo das 
revistas.
Sonny no estava preparado para uma visita concedida a algum que 
trabalhava para uma organizao de direitos humanos. A amigos e 
mesmo a familiares que tinham solicitado v-lo tinha-lhes sido 
negada permisso; os companheiros polticos no ousavam aparecer 
com medo de serem presos tambm. Durante trs meses no viu 
ningum do exterior. Depois via apenas Aila, e uma ou duas vezes 
os midos foram autorizados a acompanh-la. Era assim que ele 
tinha esperado. Sabia que estava a caminho da priso desde 
aqueles dias na reserva indgena para os mestios da sua cidade 
natal no Recife quando tinha conduzido os seus alunos atravs da 
savana para a reserva dos pretos, como ele ainda chamava queles 
stios, na altura. Ou, se no o sabia, devia sab-lo; ele 
apercebeu-se disso quando, adoptando instintivamente uma forma de 
aco poltica aps outra, compreendeu que o mistrio do sentido 
da vida que ele e Aila sabiam vagamente consistir em viver vidas 
teis no era nenhum mistrio. Para eles, os da sua cor, pretos 
como os outros, havia apenas um sentido: a luta poltica. (Como 
amava as magnficas escolhas da linguagem shakespeariana, os 
termos cruamente redutivos dos conceitos polticos eram um 
embarao para ele, mas tinha de utiliz-los, como toda a gente.)
Assuntos de famlia. Era regra da priso que s podiam ser 
discutidos assuntos de famlia durante as visitas. Bem, eram 
esses assuntos que sempre tinham sido discutidos entre Aila e 
ele. Ele perguntava se Will estava a conseguir aguentar-se, em 
Matemtica. Se Baby estava a ser prestvel ou se passava o tempo 
em festas. Aila tranquilizava-o; estava tudo bem. O prprio olhar 
dela transmitia-lhe isso; em casa, na verdade, estava tudo na 
mesma; o seu cabelo preto suavemente encaracolado, um colar 
escolhido a condizer com a cor do elegante casaco de fazenda que 
ela prpria fizera.

46 - 47


Os seus bonitos lbios cuidadosamente desenhados. Na mesma; essa 
monotonia parecia afastar-se dele quanto mais falavam nela, sobre 
os assuntos familiares. E ele esperava ter saudades de casa. Os 
silncios entre ele e Aila, que eram to confortveis, naturais 
na sua proximidade, em casa, era agora um verdadeiro silncio sem 
comunicao de espcie alguma. Tinham-lhe ensinado, nas tcticas 
da luta,! que era possvel utilizar uma linguagem oblqua e 
privada para receber informao dos mais ntimos, mas Aila no 
parecia compreender. Ela estava calma mas ele reparou que ela 
mantinha os braos encostados ao longo do corpo como que para se 
afastar da presena dos guardas que a flanqueavam. Que linguagem 
privada? Eles tinham tido nomes amorosos, eufemismos ternos e 
engraados pelo que era difcil de exprimir, palavras-chave que 
recordavam acontecimentos da sua vida juntos ou as cabriolas dos 
filhos - quem  que podia esperar que Aila pusesse conversas 
amorosas ao servio de um cdigo de priso?
A estranha da organizao dos direitos humanos no tinha assuntos 
familiares, com ele, a que tivesse de se limitar. Ele no sabia 
como  que ela tinha conseguido autorizao para tais visitas, 
mas era claro que ela a tinha obtido de alguma maneira e que j 
tinha visitado vrios dos seus camaradas. Transmitia-lhe isso 
engenhosamente num vocabulrio abstracto que os dois guardas, 
pestanejando de aborrecimento e at bocejando, no conseguiam 
seguir e rapidamente deixaram de escutar. Ele no sabia o que  
que lhe tinham dito sobre o que lhe era permitido falar; 
presumivelmente apenas perguntar-lhe se ele estava a receber 
alimentao adequada, perodos de exerccio e cuidados mdicos. 
Ao falar de alimentao ela estava na verdade a transmitir-lhe 
que noutra priso alguns dos camaradas estavam a fazer uma greve 
de fome e ao relatar com uma aparente inocncia o boletim 
meteorolgico ela era capaz de indicar - frisando quais as 
cidades onde se previa fortes chuvadas - onde estavam presos 
muitos outros camaradas. Quando comeou a dizer como, pelo 
contrrio, estava abafado em Pretria, ela notou logo que ele 
ficou confuso, com dificuldade em segui-la, e fixando os seus 
olhos nele numa pausa, um silncio carregado de vivacidade 
chegando at ele, levou-o a compreender que ela lhe estava a 
dizer ter estado no Supremo Tribunal onde outros que tinham sido 
detidos ao mesmo tempo que ele foram agora acusados.
- E em stios apinhados ainda vai ficar mais quente.
Ela tinha olhos azuis pequenos, do tipo que no tem muita 
profUndidade nem variedade de expresso, como os olhos com brilho 
de vidro colados to realisticamente nos bonecos de pelcia mas 
que no entanto chamam a ateno pela sua cor artificial. Ele 
compreendeu ansiosamente que ela estava a passar-lhe a mensagem 
de que podia esperar ir a julgamento em breve.
Um estranho no tem conversas amorosas, mas foi ela quem, sem o 
saber, encontrou uma forma de o ligar a casa,  possibilidade de 
voltar a casa. Foi uma observao casual a seguir a uma pergunta 
sobre o modo como ele estava a passar o tempo, a que no pde 
responder porque um dos guardas acordou e interveio, dizendo que 
no era permitido falar sobre assuntos da priso.
- Bem, suponho que descobre sermes nas pedras.
Um pouco ofegante por ter conseguido ao menos transmitir alguma 
da informao que os outros lhe tinham dado, sacudiu a cabea 
timidamente na direco dos limites das paredes.
Ele sorriu ao receber aquilo, outro tipo de mensagem, de que ela 
quase de certeza no tinha conscincia; exultante por conseguir 
reconhec-la.
- E foi muito gentil da sua parte ter vindo visitar-me.
A jovem no era graciosa nem se vestia bem - no da maneira que 
ele gostava numa mulher, que dava a uma mulher como a sua mulher 
classe e distino, mesmo no gueto. Mas o que  que isso 
interessa? Sonny j tivera que mudar de ideias em relao a tanta 
coisa, tal como mudar a sua vida, tal como mudara o sentido do 
seu nome ridculo - primeiro uma reminiscncia de uns pais 
sentimentais, depois um sobrenome para garantir s multides dos 
comcios que ele era um deles, depois uma adenda ao seu nome 
completo num dossier de priso: tambm conhecido como "Sonny". 
Um criminoso vulgar com alcunha.
Hannah. Ela apresentou-se assim imediatamente; uma sala de 
visitas de priso no  lugar para formalidades. Foi s mais 
tarde, quando ele a encontrou fora da priso, que ele viu como 
ela tinha ido da primeira vez que o fora visitar. Cabea e 
ombros, era o retrato que levava consigo para todo o lado, na sua 
mente, como uma fotografia entre documentos de identidade num 
bolso de dentro. Devia ser um dia frio de Junho l fora - mas a 
priso dava sempre a impresso de frio, de qualquer modo, limpa, 
nua, apenas com filamentos de cabelo

48 - 49

pairando num cone de luz, viva. Do peito para cima, como aparecia 
por trs do vidro acima da barreira de madeira, ela tinha-se 
percavido com camadas de roupa, coisas de mangas largas em tric 
por cima de uma espcie de colete de lona e vrias t-shirts cujas 
cores berrantes se sobrepunham na linha do pescoo. Tinha 
desatado um leno s riscas e libertado o seu pescoo branco e 
largo num acesso de calor (um retoque do retrato que resultava da 
subsequente experincia da sua presena sem a separao do vidro 
e da madeira). Os seus lbios estavam enrugados pelo frio seco e 
mais plidos do que a face levemente rosada cuja cor mudava com 
uma espcie de brilho desigual  medida que ela conduzia a 
conversa dupla na frente dos guardas. Uma cara grande cuja 
estrutura ssea no era evidente. Dos pequenos lbulos de orelha 
vermelhos de frio aparecendo e desaparecendo por baixo de cabelo 
encaracolado mal cortado. Loura. Claro, com aquela cor de pele. 
Muito loura. Mas sem conscincia disso (como tantas mulheres com 
esse atributo tendem a ser); com a sua ateno em coisas mais 
importantes.
Ele no conseguia reconstruir como  que ela parecia de corpo 
inteiro, ao afastar-se dele atrs de um guarda. As pernas 
ligeiramente sardentas que continuavam robustas at ao tornozelo, 
trazendo-a na sua direco, no eram nenhuma imagem fixa, mas 
repetida ao longo das suas reunies, em movimento. Sempre agora, 
no naquele tempo.
Ela foi ao julgamento. Era o seu dever profissional. Estava 
muitas vezes presente; quando ele e os outros com quem foi 
julgado apareceram em fila vindos da cela por baixo do tribunal e 
se viraram a sorrir  procura de familiares e amigos na galeria, 
ela levantou uma mo num aceno de confiana. Aila s podia ir 
ocasionalmente, era recepcionista de um mdico indiano na sua 
clnica da capital no extremo mais pobre da cidade e aos sbados, 
em que ele no dava consultas, o tribunal no reunia. O mdico 
era generoso em oferecer-lhe horas livres, mas Aila era 
conscienciosa, era um artigo de f entre Sonny e ela, parte da 
sua lealdade e do seu apoio para com ele, na priso, no deixarem 
que o Estado destrusse a disciplina das suas vidas dirias. 
Quando podia ir, ela levava-lhe casacos e calas acabadoS de sair 
da lavandaria - como j no era um prisioneiro, mas um acusado 
sem fiana em tribunal, eram-lhe permitidos tais privilgios 
humanizantes, e era uma tctica exibir perante o juiz um moral 
elevado, confront-lo dia aps dia com alegados revolucionrios 
com aparncia de homens de negcios. Aila conhecia Hannah 
Plowman,

50


que estava a fiscalizar o julgamento - a jovem tinha tido a 
amabilidade de ir l a casa uma vez, enquanto Sonny ainda estava 
detido,
para oferecer a ajuda da sua organizao -, mas no se sentaram 
juntas na galeria da assistncia; a jovem tinha os seus colegas, 
gente das igrejas, representantes de embaixadas estrangeiras, um 
colquio murmurando ao ouvido uns dos outros observaes e 
anlises sobre o modo como estava a correr o caso da defesa. Aila 
sentou-se entre as outras esposas, mes, pais dos acusados, 
camponesas corpulentas, com chapus de croch, que descansavam os 
ps deformados fora de sapatos gastos e tortos, jovens grvidas 
com perfis desafiadores sob as madeixas da testa enfeitadas com 
contas, homens velhos vestidos de l cinzenta usando distintivos 
da Igreja de Sio. Sonny v-la-ia imediatamente, usando uma das 
suas blusas brancas com um lao por cima do seu colar de prolas 
de cultura, o saco de plstico da lavandaria cuidadosamente 
dobrado no colo para no amarrotar as roupas dele.
No intervalo para o ch, quando o tribunal se levantou para o 
juiz se retirar, o grupo dos observadores chegou-se para a 
frente, associando-se aos familiares. Casais abraavam-se atravs 
da barra das testemunhas, mas no era costume de Sonny e Aila 
beijarem-se na boca em pblico, a sua intimidade tinha sido 
sempre demasiado privada para ser exibida. Ela debruou-se sobre 
a barreira e ele pegou-lhe nas mos entrelaando-as nas suas; e 
depois ela libertou-se, os seus olhos a transbordar de escurido, 
to brilhantes e solenes, e entregou-lhe o saco da lavandaria com 
explicaes sobre ndoas que no saam, como se isso fosse a 
questo mais importante entre eles. E falaram de assuntos 
familiares, embora no houvesse restrio, a no ser discrio 
poltica, quanto ao que podiam dizer em voz baixa um ao outro, 
durante aqueles minutos ali. A cada momento eram interrompidos 
com ele a estender o brao por trs dela para apertar a mo de um 
familiar de um prisioneiro, ou tinha de se voltar - agarrando-lhe 
o pulso ou o brao, atravs da roupa, para manter o Precioso 
contacto com o seu ser escondido - para falar com um dos 
observadores sobre alguma considerao importante que devia ser 
feita quando procurassem apoio para a defesa entre pessoas 
influentes no estrangeiro. Sonny tinha de partilhar assim o breve 
intervalo do ch do juiz porque se tinha tornado porta-voz dos 
seus comPanheiros acusados: o diligente ex-professor sabia como 
usar as Palavras.

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Will e Baby estiveram presentes quando o julgamento se prolongou 
pelas frias da escola, e Will, j to alto, as sobrancelhas 
comeando a juntar-se num arco, tal e qual as suas, beijou-o e 
abraou-o, ria-se, no queria larg-lo. Mas a Baby chorou e Sonny 
foi acometido por uma grande angstia. Ali, acompanhado das 
conversas sussurrantes do intervalo do ch, no tribunal onde a 
polcia estava em todas as sadas enganosamente indolentes como 
ces que atacaro ao primeiro movimento, ele foi acometido pelo 
que tinha feito, tinha-se metido naquele banco dos rus, ia ser 
fechado numa cela no final da audincia do dia. Subitamente foi 
possudo por um impulso - saltar a barreira, agarrar na sua pobre 
filhinha e fugir. Aila estava a trabalhar; os filhos tinham sido 
levados ao tribunal por um dos advogados. A jovem que estava a 
fiscalizar o julgamento, que tinha ido uma vez a casa da famlia, 
apareceu ao lado da menina e confortou-a, desvaneceu com um 
sorriso o embarao de Baby; e o pnico de Sonny esvaiu-se sem que 
ningum tivesse notado o seu momento de fraqueza, mais vergonhosa 
do que a emoo natural de uma filha cuja luta  apenas com a 
adolescncia.
Tal como o retrato da primeira vez em que a viu - a jovem que 
estava a fiscalizar o julgamento - s foi reconstrudo mais 
tarde,; tambm o significado do momento em que ela foi confortar 
a sua filha s foi interpretado por ele mais tarde, aumentando o 
seu poder sobre ele, um sinal. Foi nessa altura que aquilo 
comeou, que passou a ser inevitvel. A necessidade de Hannah. 
Ele no podia pensar no que lhe tinha acontecido como amor, 
apaixonar-se, a no ser por convenincia verbal, no mais do 
que a gria poltica exprimia para ele a sua deciso de 
sacrificar o ensino, a sua valorizao e ir para a priso pela 
sua raa. Um gesto espontneo na linha da sua preocupao 
profissional com os prisioneiros e as suas famlias: ela 
atravessou a galeria do Tribunal na direco da necessidade que 
se fechava clamorosamente em volta deles.
Foi o mito original daquilo que comeou entre eles. O facto de 
no ter sido imediatamente reconhecido por eles, contribua para 
a sua beleza. Ele era um activista poltico em julgamento por 
promoo de boicotes e por participao em ajuntamentos ilegais. 
Foram passados vdeos da polcia pelo delegado do Ministrio 
Pblico onde o acusado estava a falar na plataforma. Noutros 
ajuntamentos a sua identificao foi discutida pela defesa: o 
delegado fez toda a gente rir menos o juiz quando secamente 
chamou a ateno para o facto chapado na cara dele de o acusado 
ter um trao distintivo - as sobrancelhas. Mas os momentos mais 
leves dos depoimentos e a atmosfera alegre dos encontros no 
intervalo do ch eram a parte humanizada de um processo cujo 
objectivo era enviar estes homens, que j tinham passado muitos 
meses em deteno, outra vez para a priso como condenados; uma 
parte dos processos instaurados contra qualquer tipo de oposio 
ao Estado era reduzida  pena de priso. Sonny, como os seus 
camaradas, estava preocupado em escrever notas para os advogados 
usarem em sua defesa. No esforo de recordarem com preciso, com 
exactido, onde tinham estado, quem tinham visto, o que tinham 
dito em ocasies ao longo dos trs anos em que o Estado baseava o 
seu caso, todas as impresses imediatas, por muito indelveis e 
extraordinrias, eram rejeitadas.
Sonny foi condenado a cinco anos. No recurso, perante outro juiz, 
a sentena foi reduzida para dois.
-  suportvel. - Foi a primeira coisa que disse a Aila quando 
ela foi autorizada a visit-lo antes de ele ser transferido para 
uma priso de alta segurana. - Vai passar sem darmos por isso. - 
Tinha de haver objectivos para o fazer passar. - A Baby vai estar 
a trabalhar para o exame de acesso  universidade. Gostava que 
ela tivesse explicaes quando se aproximar a data. Eu com 
certeza tambm vou ter autorizao para estudar.
Deu instrues sobre muitas questes prticas - mas no queria 
que parecesse estar a fazer um testamento, estava a deix-la 
apenas por dois anos, no uma vida. Ela tomou as instrues como 
sustentculos para segurar, at ao regresso dele, a vida que 
tinham construdo juntos. Preencheram a visita com uma rpida e 
determinada troca de planos.
- Lembra-te que no so cinco anos. So s dois.
Sorriam um para o outro continuamente. Quando estava na hora de 
Aila partir ele ps de lado o ritual - expresses de confiana de 
que ela se sairia bem, avisos para cuidar bem de si - em que 
podia ter-se refugiado para disfarar a separao por um perodo 
definitivo das suas vidas. Aquela separao entre eles merecia 
mais do que isso. Ele disse:
- Escreve-me, Aila, tens de me escrever.
Ela no falou. Ps os braos  volta do marido e beijou-o na 
boca, na frente dos guardas. Ele viu que, para no o envergonhar, 
para lhe dar fora, ela fingiu no ver as lgrimas que lhe vieram 
aos olhos.

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tambm viu que ao sair ela levou uma mo  cabea para ajeitar 
uma madeixa de cabelo solto.
Feliz para lutar.
Aila escrevia todos os meses; sobre assuntos de famlia. 
Quinhentas palavras. Era o limite que o regulamento da priso 
permitia. As cartas terminavam sempre com Muitas saudades de 
todos ns. Num dia de priso igual ao anterior chegou uma carta 
num tipo de envelope diferente, com o endereo escrito  mquina. 
Era dela, de Hannah Plowman. L dentro, viu a letra dela pela 
primeira vez, aquela voz que fala na ausncia. S uma nota para 
dizer como todos tinham ficado aliviados (isto ele entendeu como 
referindo-se  sentena reduzida; estando por dentro, ela sabia 
bem que ele tinha tido sorte em no apanhar mesmo mais de cinco 
anos). Tudo o que pudessem fazer (a inferncia: a organizao 
dela) para suavizar a situao em que ele se encontrava, ou para 
dar assistncia  sua famlia, bastava dizer ao advogado. A 
ltima linha da nica pgina abandonava o ns colectivo. Esta 
carta terminava com: Eu sei que vai sair feliz para lutar.
Ele percebeu que a frase maravilhosa devia ser uma citao e 
ficou inquieto, intrigado por saber de onde, de quem. Havia uma 
mensagem para ele naquelas trs palavras mesmo para alm do seu 
sentido aforstico, que, em si, deslindava toda a sua vida - como 
 que ela, uma estranha, podia ter adivinhado que, na sua 
tranquila natureza de professor, ele sentira alegria pela 
primeira vez apenas quando sara conduzindo crianas a cantar 
atravs da savana para enfrentar a polcia! A mensagem para alm 
daquela extraordinria prescincia - que a extravasava, 
confirmava uma linguagem de referncia partilhada entre ele 
prprio e a autora da carta - era obviamente algo que ela 
presumira que ele compreenderia. Quem quer que as tivesse dito ou 
escrito, aquelas trs palavras deviam representar algo de 
particular no s para a sua situao presente na priso, mas 
para todo um contexto de pensamento e aco em que essa situao 
estava contida. A frase no era de Shakespeare. Pelo menos disso 
ele pensava que podia estar bastante seguro, embora no pudesse 
ir  prateleira familiar da estante com portas de vidro para 
verificar. Havia imensas lacunas na sua educao, embora esta 
parecesse espantosamente elevada aos pais que tinham o seu 
diploma de estgio de professor emoldurado na cozinha onde podiam 
sempre v-lo.
A frase preencheu, durante alguns dias, as horas que eram to 
difceis de preencher, que sobravam do programa disciplinado que 
ele tinha imposto a si prprio na sua cela-exerccios de 
respirao profunda, correr no mesmo stio, estudar, ler. Os 
prisioneiros eram obrigados a deitar-se  hora das galinhas e das 
crianas. As luzes da cela eram apagadas cedo e ele ainda no 
tinha conseguido chegar  fase em que teria permisso para manter 
a sua acesa para estudar de noite. Feliz para lutar. Ficava 
deitado na cama s escuras e revolvia na sua mente aquela frase, 
to simples, to profunda, audaciosa, uma gloriosa justaposio, 
to selvagem e chocante, de ameaa e exaltao, flores e sangue, 
pessoas sentadas ao sol e corpos desmembrados por carros 
armadilhados; o canto melodioso que vinha de uma das celas e o 
rosnar de um co-polcia a saltar-lhe para a cara, uma vez, numa 
multido.
Era Hannah quem lhe escrevia: quem sabia como dizer tudo em trs 
palavras, podendo usar quinhentas.
Ele escreveu-lhe e pediu-lhe que requeresse ao director dos 
servios prisionais uma visita, mas ela respondeu que no queria 
gastar uma visita da quota de visitas de que a sua famlia 
certamente necessitava.
A necessidade de Hannah.
Oh, Aila, Aila.
Porque  que Aila nunca falava? Porque  que nunca dizia o que 
ele queria que ela dissesse?
Assuntos de famlia. No chegara a construir a casa na rvore com 
Will e agora o mido estava demasiado crescido para se 
interessar. A Baby estava a ser iniciada nas coisas das mulheres; 
entre ela e a me. Pelo menos tinha conseguido dar a Baby um 
quarto s para ela para o processo de se tornar mulher.
Oh, Aila, Aila.
Durante no sei quanto tempo acreditmos que a minha me no 
sabia. Ele e eu. ramos to espertos; ele fez de ns uma equipa 
to boa, to cmica. Que bobo que ele fez de mim, o seu prprio 
filho, um atrasado, a tropear nos ps dele, a imitar as suas 
mentiras. Pobre Tom para o seu Lear

54 - 55


(eu devia ter-lhe dito isso, numa altura qualquer,  o tipo de 
sinal que ele apreciaria de que a minha educao no tinha sido 
tempo perdido). Acho que ele nunca disse mentiras directas, pelo 
menos quando eu estava por perto. Quando ele saa para ir ter com 
a amante, nunca dizia que ia para outro lado qualquer; no 
precisava de o fazer, a minha me respeitava o facto de um homem 
que faz trabalho poltico secreto (a sua ocupao clandestina a 
tempo inteiro depois de sair da priso) no poder revelar os seus 
movimentos sem envolver e pr em perigo a sua famlia.
As paredes da casa construda para ser de um branco no so como 
as da casa dos arredores de Benoni, atravs das quais ns no 
podamos deixar de ouvir as brigas e os gemidos sexuais dos 
vizinhos. No sei o que se passava - como  que ele se arranjava, 
sem mim, quando estavam sozinhos no quarto. O quarto deles com 
uma cabeceira da cama que se prolongava em ngulos rectos como 
cotovelos, de cada lado da cama, em duas pequenas 
mesas-de-cabeceira, cada uma com um candeeiro para os quais ela 
tinha feito um abajur, do lado dela o despertador e um boio de 
creme de limo para as mos, do dele um monte de jornais, uma 
lanterna, aspirinas num cinzeiro que a Baby lhe tinha feito 
quando era pequena e o livro que andava a ler na altura. Eu s 
posso imaginar. Inventar a partir do que eu conhecia dela, do que 
conhecia daquilo em que ele se tinha tornado. O que  que ele 
pensava em dizer-lhe enquanto estava a desatar os atacadores que 
tinha atado quando sara da cama com aquela mulher. Se calhar 
quando se est casado h muito tempo  como uma toca partilhada 
que se percorre conjuntamente, todas as suas caractersticas 
importantes, para um, so conhecidas pelo outro, todos os 
comentrios sobre o percurso antecipados pelo outro. Os quartos, 
as noites, so assim. Mas ele ia e vinha por passagens secretas; 
tinha coisas para dizer que nunca podia dizer. Ele deve ter tido 
que se acautelar com cada palavra.
E no s com as palavras. Uma vez quando entrei para o banco de 
trs do carro vi uma coisa estranha no cho. Tudo, qualquer coisa 
me alertava para o perigo. A minha me estava a entrar para o 
banco da frente ao lado dele; esperei at arrancarmos e eles 
estarem a decidir se era ou no necessrio ir ao banco antes de 
meter gasolina, e eu poder apanhar o objecto sem eles darem por 
isso. Era a cabea de um girassol. Apenas o disco duro de onde as 
sementes tinham cado. Exactamente como um favo de mel redondo. 
No sei como  que
pode ter ido ali parar. Porqu. Eu s sabia que ele no seria 
capaz de o explicar  minha me; no precisava de me explicar 
nada a mim, desde o cinema, quando me tinha dito o que ver e 
tornado claro o que eu no devia ter visto.
A minha me parecia-me como sempre tinha sido. S que, por causa 
daquilo em que eu estava metido, com ele, e com tanto medo - por 
ela -, parecia haver uma espcie de espao  volta dela que nos 
mantinha  distncia - a ele e a mim - e que eu sustinha a 
respirao com medo de l entrar. Eu no queria estar no quarto 
sozinho com ela, tambm. Mas se eu me afastasse dela, ela ficaria 
a saber que havia qualquer coisa errada, pensando, na sua 
inocncia, que seria alguma coisa relacionada comigo. E se eu 
tentasse estar com ela, para encobrir o facto de ele no estar, 
isso podia lev-la a pensar, e eu no queria que ela pensasse, eu 
no queria que a minha me pensasse nele de outra forma que no 
fosse a sua forma branda e confiante modificada desde os velhos 
tempos de Recife simplesmente pelo especial respeito e 
privacidade que ela nos ensinou, dando-nos o exemplo, que ele 
tinha adquirido atravs da sua peregrinao pela priso.
Foi s quando a Baby cortou os pulsos que eu soube que a minha 
me sabia acerca dele o tempo todo. Bem, no desde o princpio (e 
nem mesmo eu sei exactamente quando  que isso foi, se o cinema 
foi no princpio), mas h muito tempo. Ela de certeza que no 
sabia quando, algumas semanas depois de o meu pai ser libertado, 
ela e as mulheres de dois outros homens que tinham estado na 
priso com ele decidiram dar uma pequena festa de Ano Novo para 
eles e para os seus apoiantes. Quando ela e o meu pai fizeram a 
lista dos convidados ela sugeriu Hannah Plowman e ele escreveu o 
nome sem comentrios, como se fosse apenas mais um convidado. De 
certeza que no era nada da minha me ter includo aquela mulher 
por manha, um teste  reaco do meu pai, para saber se aquela 
mulher teria o descaramento de vir a nossa casa, agora?
Que ideia pensar isso da minha me. Mas quando estamos a mentir, 
na nossa presena  mesa, em cada expresso do nosso rosto, em 
tudo o que fazemos habitualmente, ir e vir da escola, brincar com 
toda a naturalidade ao telefone com amigos, j no conseguimos 
maginar nada que no seja tortuoso.
O mundo inteiro est a mentir, a fornicar e a mentir.
Eu estava nessa festa. A Baby e eu estvamos l, primeiro a 
ajudar a preparar a comida e a dispor a moblia de outra forma. A 
Baby, levando uns snacks de presente

56 - 57


foi com ele a casa dos nossos vizinhos para lhes dizer que ia 
haver msica at tarde nessa noite. Desde o dia em que nos 
mudmos, a minha me tinha estabelecido boas relaes, ainda que 
distantes, com estes brancos. Eles no sabiam da priso nem das 
actividades polticas dele - bastou olharem para a minha me e os 
seus medos africnderes de que a nossa pele significasse hbitos 
sujos e barulho que eles s tolerariam aos da sua cor, deixaram 
de fazer sentido. Toda a gente bebeu muito - o meu pai no e a 
minha me no bebe mesmo nada - e a Baby estava super-maquilhada 
e espantou todos com a sua dana louca. Ela danava bem, mas 
estava a exibir-se para os homens. Eu dancei algumas vezes, 
depois de uma cerveja, mas sentia-me irritado cada vez que alguma 
moreninha dizia que eu estava a ficar bonito como o meu pai, e eu 
podia v-lo, o rosto pintado com o suor da sua hospitalidade 
irradiando orgulho. No me lembro se ele danou com aquela 
mulher. Mal consigo lembrar-me da presena dela. No momento em 
que ela chegou, eu ia a passar com uma garrafa de vinho; era a 
primeira vez que eu a via desde o cinema e tinha pensado tanto 
naquele rosto que tive dificuldade em reconhec-lo - aquele rosto 
rosado, arejado, o cabelo louro puxado para trs, esticado como o 
plo de um co molhado, deve t-lo lavado mesmo antes de ter 
vindo para a festa. Estava a sorrir amigavelmente para os outros 
que a cumprimentavam, no para mim. Um momento em que eu de 
sbito no acreditei: ela tinha-se materializado, e a amante 
dele, que eu tinha - como ele, eu sei - sempre no meu pensamento, 
desapareceu. A minha me estava a fazer-me sinal do outro lado da 
sala para o grupo que estava  espera do vinho. A minha me tinha 
uma travessa muito bonita na coroa de cabelo brilhante e bem 
penteado, estava elegante e bonita, com o cuidado especial com 
que se vestia para festas; ela gostava tanto de receber pessoas.
A Baby cortou os pulsos quando foi passar uma noite de sbado com 
uma amiga. Nem sequer o fez em casa, onde tinha o seu prprio 
quarto. Pensamos em pormenores destes - loucos - quando no temos 
nenhuma explicao para o que aconteceu. Ela no morreu. Uma 
porcaria na casa de banho de outra pessoa e alguns pontos no lado 
de dentro dos seus pulsos onde se podem ver as linhas e as 
ligaes das veias logo por baixo da pele. A Baby tem a pele 
clara, como a minha me, no como o meu pai e eu. Quando estava 
de cama, tratada e medicada pelo doutor Jasood, para quem a minha 
me trabalhava,

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a minha me veio sentar-se na cozinha onde eu estava a ler o 
jornal porque no sabia o que devia fazer; ele, o meu pai, tinha 
feito a mala nessa manh e dito que tinha de se ausentar no 
fim-de-semana. Parecia que as pernas lhe pesavam, como se tivesse 
de se obrigar a ir; ela deve ter acreditado que havia qualquer 
crise poltica grave que o levava. Sentou-se na beira da cadeira 
e olhou para mim como se me tivesse conhecido durante toda a sua 
vida, no s o meio-palmo de mim que tinha germinado no seu 
corpo. Como se eu fosse filho dela e no fosse filho dela. Ela 
disse que o doutor Jasood tinha acabado de lhe dizer que era 
evidente para ele que a Baby se drogava, que a sua enorme 
vivacidade era uma profunda infelicidade. Ele tinha estado na 
festa.
Ela disse-me:
- O que  que ns podemos fazer por ela?
A ligeira nfase do ns denunciou, imediatamente, que a minha 
me sabia do meu pai. Que ela sabia - sem saber como - que eu 
sabia. Ela fazia pouco caso dele - no podia contar com ele, no 
podia chamar Sonny, agora, onde quer que ele estivesse, mesmo que 
estivesse escondido dela logo ali ao virar da esquina, estava 
demasiado longe. Eu compreendi. O que  que ns podamos fazer 
pela minha irm: a famlia em que nos tnhamos tornado? E nesse 
momento veio-nos a ambos a ideia: qual era a razo da profunda 
infelicidade de Baby que o mdico tinha diagnosticado.
Portanto Baby tambm sabia. S que ela geria de maneira diferente 
o que sabia. A maneira provocante como meneava as ancas nos 
cantos da rua (longe da vista da minha me; eu via-a); a maneira 
irreverente e vulgar como ela - criada ao som da voz calma da 
minha me e da poesia do Shakespeare do meu pai - falava; as 
exploses emocionais por ninharias, que a minha me atribua  
tenso nervosa de o meu pai estar detido e a ser julgado durante 
a altura em que o ciclo menstrual dela estava a formar-se; a sua 
maneira de se distanciar da infncia que ela e eu tnhamos em 
comum - tudo isto eram as suas tentativas de se aguentar.
Quando me tinha dito Esperavas que ele andasse por a aptico 
como tu? - estaria ela a tentar defender o meu pai? Ter ela 
pensado, na altura, que eu no sabia e que provavelmente 
descobriria? Meu Deus. Teria ela andado, todo este tempo, a tomar 
o partido dele contra a minha me? Enquanto eu tentava proteger a 
minha me contra ele? Fmea contra fmea. Macho contra macho. 
Ento o que podamos ter feito por ela.

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Impedi-la de cortar os pulsos quando no conseguiu aguentar-se.
O que podia a minha me ter feito por ela.
O que podia eu, o seu prprio irmo, ter feito por ela.
Que famlia que ele fez de ns.
O pobre Tom(1) est insensvel.


*1. Tom  o nome da personagem do romance de Harriet Beecher 
Stowe, Uncle Tom's Cabin (A Cabana do Pai Toms) que foi 
estigmatizada como a de um negro indignamente submisso. Tom 
significa, portanto, um negro servil, que adopta o comportamento, 
gostos e cultura da maioria branca. (N. da T.)

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E agora a alegria era frequente. Depois da priso, onde no havia 
nada para agradar aos sentidos, onde nem sequer havia luz 
suficiente para ler e estudar, veio esta ddiva. Brotava de um 
estmulo to ligeiro. Voltaram a encontrar-se numa reunio 
restrita. Chamava-se uma exposio; os que tinham estado presos 
relatavam a sua experincia de resistirem aos interrogatrios,  
intimidao,  solido, em benefcio daqueles que podiam um dia 
ser presos e de indivduos e organizaes que procuravam os 
melhores meios de apoiar os que iam a julgamento, que eram 
muitos. Ela estava sentada de joelhos afastados por baixo de uma 
das suas compridas saias, segurando no colo a pasta que servia de 
mesa para o bloco-notas. Escrevia seriamente. Enquanto os outros 
falavam, enquanto Sonny falava. Quando ele fez uma pausa, os 
olhos dela cintilavam para ele, azuis e pequenos, as pestanas 
louras encontrando-se nos cantos exteriores dos olhos enquanto as 
plpebras se franziam num ligeiro sorriso de encorajamento.
Alegria.
Hannah encontrou-se com Sonny para tomar caf, para continuarem a 
discutir - era possvel uma cara preta entrar num caf. E na 
companhia de uma mulher branca; puxar-lhe a cadeira e sentar-se 
em frente dela. Comeara a ser possvel havia algum tempo, 
embora, vindo de uma pequena cidade onde tais barreiras eram mais 
lentas a desaparecer, se  que desapareciam, e depois de dois 
anos numa priso segregada, Sonny ainda tinha uma sensao 
estranha: de que no estava realmente ali, de que um encontro 
vulgar daquele tipo no lhe estava a acontecer. Depois beberam 
caf e ela fumou e disse, atravs dos fantasmas que ondulavam 
entre eles, que ele no tinha mudado. Em dois anos.
- Ests com muito bom aspecto. ptimo. Pensei isso na reunio.

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A aprovao dela foi sol na cara dele. Ele fechou os olhos por um 
momento enquanto sorria.
- A Aila estava preparada para me encher de comida. Mas como 
podes ver... Aumentei de peso na priso. Mas no estou gordo, a 
srio? Nunca fiz exerccio to regularmente na minha vida! Nunca 
tinha tido tempo antes.
- Ests com muito melhor aspecto do que quando te vi na priso.
- Ah, bem... a deteno  terrvel. Muito pior do que uma 
sentena, em que se tem a certeza de quando chega o fim, mesmo 
que seja da a anos, sabes to bem como eu.
- No to bem como tu. Nem como ningum que tenha estado preso. 
S sei a partir das consequncias, quando consigo ver as pessoas.
- Nunca mais quero voltar a passar por aquilo - era uma 
confisso; ambos sabiam que ele podia ser detido outra vez.
- De qualquer modo  maravilhoso encontrar-te em to boa forma 
depois de dois anos do outro tipo de priso. Suponho que no 
teria sido to surpreendente se te tivesse visto durante esse 
tempo.
De repente ele achou fcil dizer-lhe, na sua reconfortante 
presena:
- As cartas eram quase como visitas, para mim. Em alguns 
aspectos, melhores... porque podemos l-las outra vez. Uma visita 
termina rapidamente. Ns e a outra pessoa nunca dizemos o que 
queremos dizer. Diz-me, h uma coisa que nunca te perguntei 
quando te respondi por carta, queria perguntar-te assim, como 
estamos agora... quero dizer, realmente presentes. Quando me 
escreveste aquela primeira carta, disseste uma coisa... sabias 
que eu sairia feliz para a luta.
- Bem, saste, no saste? - Foi dito com simplicidade, 
admirao, sem lisonja.
Houve um baque de silncio.
Durante esse momento, Sonny olhou para o rosto dela sem uma 
reserva decente, como nunca antes se tinha dado  liberdade de 
fazer. Feies cheias, a pele cor de prola que ficava marcada 
por uma ligeira vermelhido, aqui e ali, quando a sua unha ou um 
tecido spero a roava; a presena definida na cor dos olhos, 
como os olhos esmaltados davam vida  pedra bege das figuras 
coloridas do seu li' vro sobre a arte do antigo Egipto. Ele 
estava ciente de que havia saliva naquela boca

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e de que aquele cabelo louro tinha um perfume prprio.
- Feliz para lutar. - Ele repetiu isto num murmrio. - Queria 
perguntar-te de onde , queria descobrir quem o disse. - Ele riu, 
excitado com a ideia. - Ler o resto, por mim prprio. - Ela 
observava-o, satisfeita com o entusiasmo dele, o seu queixo 
recuado sublinhado pela carne do seu pescoo.
- Rosa do Luxemburgo, numa carta a Karl Kautsky. Vou trazer-te o 
livro. Ah, h tanta coisa nas cartas dela! Fico ansiosa por saber 
o que vais ter para dizer.
Alegria. Era o que aquilo trazia. A luz da alegria que ilumina 
longas discusses ideolgicas, no as lmpadas de 60 watts que 
iluminam os assuntos de famlia.
Tinha passado muito tempo desde que a sua actividade poltica 
tinha sido limitada  sua raa - a subdiviso de pretos decidida 
por lei - e  simples questo das expulses. Na priso ele 
aprendera mais do que nos cursos por correspondncia sobre 
governo local que Aila lhe tinha arranjado. Tinha sido instrudo 
pelos seus companheiros presos polticos nas vrias estratgias 
que provm de princpios de libertao, e no modo como elas so 
continuamente alargadas, adaptadas e postas em prtica  medida 
que cada problema, por muito grande ou pequeno, proporciona a 
oportunidade, seja onde for e como for. Onde as pessoas viviam em 
condies miserveis num gueto ele era um dos que seria enviado 
para as ajudar a formar uma associao de moradores; quando eles 
entendiam que um boicote s rendas era uma boa forma de protesto, 
ele estaria entre os que os ensinavam a organizar a campanha. 
Onde houvesse mineiros ou trabalhadores municipais, ou 
trabalhadores de uma fbrica de doces ou de tijolos em greve, 
tinham de ser feitas reunies para os apoiar, t-shirts e 
autocolantes tinham de ser vistos nas ruas at provocarem uma 
proibio oficial e mesmo depois, por aqueles que estavam 
preparados pelo menos para uma pequena provocao exibida sobre o 
Peito de homens ou mulheres. Dias de comemorao eram organizados 
em honra dos que tinham morrido em rebelies, greves, boicotes a 
escolas e a rendas, batalhas de rua com a polcia e com o 
exrcito. E tudo isto tinha de ser feito anonimamente, 
clandestinamente, esperando escapar  vigilncia da polcia, em 
dias e noites em que era melhor ningum saber do paradeiro de um 
membro ausente da famlia.

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Sonny no era uma figura de primeiro plano mas era frequentemente 
um dos principais oradores quando era possvel fazer uma reunio 
pblica na semi-legalidade de uma igreja ou universidade. Hannah 
estava sempre l. Num dia excepcionalmente frio de Abril (neve no 
Drakensberg demasiado cedo para o Inverno) a aglomerao de 
pessoas do grupo com quem ele vinha a descer da plataforma do 
trio de uma igreja da capital convergiu com algumas filas da 
audincia que vinham a sair por uma porta lateral, e Sonny e 
Hannah deram por si a caminhar juntos. No era inesperado, apenas 
uma questo de sorte; ele tinha-a visto na quinta fila de 
cadeiras. Saram do trio para o vento glido e cortante, ficando 
ao alcance das cmaras da equipa de filmagens da polcia, que 
esperam as pessoas que participam em tais reunies, tal como em 
outros pases equipas de televiso esperam pelas galas para 
filmar a chegada de estrelas de cinema.
Viraram a esquina na direco oposta  tomada pela multido! O 
rosto dele estava contrado pelo vento, sorriu para ela.
- Ento agora tiraram-nos um instantneo.
- Achas que nos vo enviar uma cpia?
Estava com os ombros erguidos contra o frio e ria; pararam um 
momento, no sabiam em que direco iam, por aquela rua. Ele s 
trazia uma camisa e um casaco leve, mas ela tinha sempre roupa 
extra, era o seu estilo. Tirou o cachecol de malha s riscas.
- Por favor. Pe isto, vais apanhar uma pneumonia. V l. Era 
tudo objectivo. Entre camaradas.
- Obrigado.
Ele enrolou o cachecol  volta do pescoo, enfiou as pontas com 
franja dentro do casaco. O cachecol estava quente do calor dela. 
No pedregoso frio da rua, a sensao cobria a sua nuca.
Alegria. Por uma coisa to insignificante.
Foram amigos durante algum tempo antes de serem amantes; Antes da 
fundamental alegria de fazer amor com algum que tambm est na 
luta, para quem as pessoas que esto na luta so a sua nica 
famlia, a sua vida, a felicidade como ela a entende - como ele 
agora a entende -  a nica possvel. Ela disse-lhe mais tarde 
que sabia que seria duro para ele permitir-se tornar-se seu 
amante; ela contentava-se em ser amiga dele enquanto isso o 
satisfizesse. Mas quando se deitaram nus juntos pela primeira 
vez, ela imps uma condio solene.

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- Eu queria isto. Porm no o quero de maneira nenhuma se
isto vier substituir a nossa amizade por outra coisa.
Ele ergueu-se apoiado no cotovelo na cama dela para a olhar com a 
honestidade que no pertence  cama. Ela pensou que ele ia 
aproveitar a oportunidade para lhe dizer imediatamente que amava 
a mulher, a sua bonita mulher que ela tinha visto, visitado, com 
quem tinha partilhado preocupao pelo bem-estar dele, e para lhe 
dizer que, quanto a ela, devia conhecer os estritos limites desta 
parte dele que ela aceitava. Ele voltou a deitar-se.
- s a nica amiga que alguma vez tive.  isso que eu sinto. 
Agora. Foi isso que fazer amor contigo me disse.
A imensa confiana levou-a a aventurar-se mais profundamente no 
territrio da intimidade. Ela usava um anel de filigrana e 
comeou a limpar o sabonete seco dos seus recortes com a unha do 
polegar.
- E quando conheceste Aila...
Ela no exclua Aila; era uma das coisas que ele achava admirvel 
nela, comovente, que no quisesse expulsar Aila - da cabea dele, 
quando estavam juntos. Ela imaginava Aila como uma igual, no uma 
adversria derrotada: no se referia a ela como a tua mulher. 
Ele estava cheio de... gratido, sim. Nenhuma culpa, nenhuma 
dissimulao entre eles, com ela; tudo o que tinha ficado por 
saciar, atrofiado, semi-realizado, jorrava na direco dela 
atravs de comportas abertas.
- ramos to simples. No podes imaginar. No bairro de cor em 
Benoni. Pessoas to simples. E jovens. Eu acho, sabes, que o 
nosso entendimento era demasiado fcil. A primeira camada... e, 
acreditas,  tudo,  isso. Pela minha parte, diria que no sabia 
do que  que necessitava.
Necessidade de Hannah. E agora ela estava ali, ela tinha revelado 
Sonny a si mesmo. Ela era uma euforia natural como uma pulsao, 
com ele para onde quer que fosse, em casa com ele quando chegava 
depois de a ter deixado, fazendo-o esquecer a hostilidade do 
rapaz 'depois da histria de chocar com ele num cinema, tornando 
possVel representar como pai e como marido. Um marido! Aila no 
era uma mulher emocionalmente exigente - imagine-se Aila! Mas 
estava acostumada  tranquila ocorrncia do acto conjugal de 
fazerem amor, que,  medida que as crianas foram crescendo, se 
tornou cada vez menos frequente, mais perifrica ao amor.

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Quando uma filha comea a ter seios e a voz de um filho comea a 
ser confundida, ao telefone, com a do pai, surge uma espcie de 
inverso do namoro clandestino que os casais tm de praticar em 
casa dos pais: casados h tanto tempo, sentem agora uma inibio 
em fazer amor na presena, separados apenas pelas paredes do 
quarto - dos filhos que, eles prprios so agora capazes de 
sentir os mesmos desejos sexuais. Claro que isso nunca fora 
falado abertamente entre Aila e ele; mas deve ter estado 
presente, e significava que ela no esperava - no esperava que 
ele esperasse fazer amor com ela mais do que ocasionalmente. E 
esta periodicidade fora certamente alargada pelos dois anos na 
priso. Isso no significava que no houvesse contacto fsico 
entre eles. Pelo contrrio, quando estavam no escuro, sem falar, 
Aila aconchegava-se sempre a ele, contra o seu peito ou  volta 
das suas costas, e nenhum deles se excitava com o calor dos 
rgos genitais dele encostados a ela ou com a forma dos seios 
dela nas mos dele. Adormeciam; afastavam-se um do outro apenas 
no sono, como tinham feito durante anos, como lavavam os dentes 
antes de se deitarem e ela punha creme nas mos.
A primeira vez que teve de fazer amor com a sua mulher depois de 
ter comeado a fazer amor com Hannah - no tanto por ter passado 
muito tempo, mas por ter aprendido depressa, como um mentiroso 
caloiro, que evit-lo era a forma mais certa de se denunciar - 
tremeu de mgoa e de nojo de si prprio depois de se ter retirado 
do corpo dela. As carcias eram fceis de representar, ensaiadas 
no hbito do casamento, sem sentimento, com a funo de agradar a 
Aila, mas o incontrolvel frmito animal do seu orgasmo foi 
horrvel. Ele queria sair daquela cama e daquela casa e ir ter 
com Hannah. Evitar tudo, a si prprio, manchado contra o ser de 
Hannah. E de vez em quando, com a vida cuidadosamente planeada e 
protegida que levava, quando achava que era altura de se 
aproximar de Aila outra vez - de fingir que desejava a pobre 
Aila, oh, meu Deus - o acto arrasava-o de vergonha.
Durante meses o aspecto mais precioso da sua nova vida com Hannah 
foi o facto de ser clandestina. Como a vida poltica secreta, no 
tinha nada a ver com o dia-a-dia. Possuam-se um ao outro porque 
o tempo que passavam juntos no era partilhado com ningum. Nem 
sequer podiam estar no pensamento de mais ningum que pudesse 
chegar a eles e tocar-lhes, porque ningum sabia onde  que eles 
estavam quando estavam juntos. Para Sonny, que nunca antes tinha 
usado as mentiras vulgares,

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- as reunies a que era suposto ele ir, a visita a Pretria que 
ela deveria fazer no decurso do seu trabalho -, estas eram uma 
espcie de magia que os tornava invisveis para o mundo vulgar 
onde ele tinha habitado toda a sua vida. Algo que ele nunca tinha 
pensado ser possvel. Quando os dois se encontravam ao mesmo 
tempo na companhia de outros em pblico, fazia - para eles - 
parte da sua maravilhosa magia ntima no haver a mnima 
possibilidade de mais algum dos presentes ficar a saber do 
secreto conhecimento mtuo que s aqueles dois, eles prprios, 
tinham. Eram to bem sucedidos que de vez em quando algum os 
apresentava: Acho que ainda no se conhecem... esta ....
Sonny e Hannah: apresentados um ao outro, como estranhos, por uma 
terceira pessoa. Que prazer secreto, ocultar o desejo que isso 
excitava neles! Sonny tinha descoberto como parte da necessidade 
na sua vida fora um sentido da brincadeira ertica. Deixarem, 
separadamente, uma reunio onde cada um tinha dado toda a sua 
ateno a decises srias (pois o estado de excitao criado pelo 
xtase amoroso, entre homens e mulheres mutuamente dedicados a um 
ideal e luta poltica, aumenta a sua concentrao e aplicao em 
relao a estes) e quinze minutos depois estarem a despir-se um 
ao outro: que requintada diversidade de reaces variveis que 
uma tarde assim proporcionava! Tanta coisa que ele nunca teria 
descoberto ser capaz de sentir, jamais. Que era necessria a 
secreta (secreta em todo lado) presena daquela mulher, daquela 
corpulenta rapariga - ela era mais jovem do que parecia-para ser 
possvel para ele. Durante meses quando conversavam depois de 
fazerem amor era sobre os stios longnquos onde gostariam de ir 
juntos. Ilhas deste ou daquele continente. Florestas nas 
montanhas. Apenas gaivotas ou corujas. Como todos os amantes, no 
sabiam que estavam a tentar prolongar pela transformao em 
palavras, no tempo futuro, a iluso fsica da liberdade pessoal 
que desaparece quando os sentidos serenados e saciados regressam 
e repem a conscincia do tempo a passar com rapidez: trabalho, 
perda, fome e dor, andando l fora nas ruas: as outras Pessoas.
Mas mesmo que as ilhas e florestas s existissem nos devaneios a 
dois, depois de fazerem amor, tinham o chal de Hannah, a cama de 
Hannah, que era diferente de todas as outras camas que Sonny 
alguma vez tinha conhecido, no s por causa do que se passava 
nela entre eles os dois,

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mas porque no era cama nenhuma - um grande colcho assente 
directamente no cho. Ele pensou, quando o viu pela primeira vez, 
que isso queria dizer que ela ainda no estava convenientemente 
instalada; ou talvez fosse alguma ideia japonesa. Havia tantos 
gostos que ele, com as suas origens, no conhecia. Futon,(1) 
sugeriu ela, e riu-se. Ah, no, era s que ela gostava de estar 
perto da madeira do cho com a terra por baixo. E como ela estava 
certa. Como era desnecessrio ter mesinhas-de-cabeceira com o 
abajur dos candeeiros tricotado  mo, com os quais era preciso 
ter cuidado para no derrubar durante o sono. Por baixo da 
suavidade do colcho apenas a prpria lei da gravidade.
Se a sua necessidade de Hannah era terrvel - de uma forma 
magnfica - ento no havia necessidade de mais nada nem ningum. 
Ela sabia muito de poesia - o Shakespeare dele era uma pobre 
reserva, comparada com a dela. Ela ensinou-lhe um poema de amor 
de que ele nunca tinha ouvido falar, no sabia que era um poema 
extremamente conhecido que qualquer pessoa com o primeiro ano de 
um curso universitrio de literatura inglesa era capaz de 
recitar. Descrevia perfeitamente aqueles meses em que a nica 
diviso de Hannah, para eles, era toda a parte.
Este isolamento perfeito existiu enquanto Sonny e Hannah tiveram 
a sensao de estar a escapar ao impossvel. A sua prpria 
intensidade era garantida pela condio de no poder durar. Tudo 
o que era exterior estava pronto para romper a relao. A 
circunstncia, a conscincia - havia um esgar de extremo pavor, 
ao admiti-lo - podia afast-la dele, afast-lo dela, qualquer 
dia. Mas os meses passavam. O seu encobrimento mtuo perante o 
mundo continuava a ser bem sucedido. E agora passavam  segunda 
fase da sndroma que Sonny, nunca tendo tido aquela experincia 
antes, no reconheceu. O fascnio de viver algo totalmente 
afastado do amor domstico com a sua dimenso social dos vulgares 
prazeres vividos entre as outras pessoas dava lugar  
insatisfao de no poderem fazer juntos essas coisas vulgares. 
Porque essas pertenciam a Aila, a Aila e aos midos. Ele podia 
visitar os amigos com Aila, e v-la ali sentada a dizer 
trivialidades no canto habitual com as mulheres enquanto ele 
estava numa discusso no outro extremo da sala, uma discusso em 
que Hannah participaria, para a qual estariam a contribuir 
juntos,


*1. Termo japons que designa um certo tipo de colcho. (N. da 
T.)


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complementando as ideias um do outro. Podia ir ao teatro (desde 
que se tinham mudado para a capital, ele tinha encorajado a 
famlia a aproveitar a oportunidade de desfrutar o teatro negro) 
com Aila e o filho e filha mas eles no produziriam o tipo de 
comentrio, desafiando as suas prprias ideias, que ele teria se 
Hannah estivesse consigo. E comeou a nascer nele, nela - ele 
sabia que era contra o bom senso e a razo -, um desejo 
desafiador de parecerem pertencer um ao outro. Mostrarem-se um ao 
outro. No admitiam esse desejo mas sabiam que estava presente, 
como sabiam tudo um sobre o outro enquanto estavam no seu 
isolamento escolhido.
Uma vez foram tomados por uma obstinada, irresistvel nsia de 
ver um filme juntos. Uma coisa vulgar assim, que qualquer outro 
casal podia fazer. Em vez de passarem a tarde a fazer amor, 
atravessaram a cidade at um complexo de salas de cinema num 
subrbio onde nenhum deles conhecia ningum, um subrbio de 
brancos ricos que nunca assistiam a manifestaes de protesto nem 
conheciam, nunca tinham visto em carne e osso, ningum que 
tivesse sido preso poltico. E ali,  claro, eles podiam 
descobri-lo. Ao nico encontro que jamais podiam ter previsto, 
algo absolutamente fora de qualquer probabilidade. Saram do 
escuro do cinema directamente para o brilho intenso da tarde e 
para o filho dele. Mostraram-se um ao outro. Ao filho dele.
O instinto levou-os a irem para a casa dela e esconderem-se. 
Sonny estava calado, escondendo os seus olhos de Hannah, conforme 
podia, baixando as espessas sobrancelhas em torno da sua profunda 
escurido. Ela estava com medo. Mas ele no a deixou, no disse 
destruste a minha famlia. Ela via como ele tinha mudado; como 
ela o tinha mudado sem saber. Falaram do filme italiano e no 
sobre o rapaz. Ele abraou-a apaixonadamente antes de a deixar ao 
cair da noite e voltou para a sua famlia; j devia ter decidido, 
calmamente, como havia de lidar com o filho. Disse apenas:
- No te preocupes. Nem com o Will.
E como quer que ele se tenha arranjado, ficou claro, mais tarde, 
que o rapaz nunca disse nada - nem  me, nem a ningum.
- Ele no te falou nisso?
- No.  como se nada tivesse acontecido.
Tudo o que Hannah disse foi:
- No pode ser.

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Aquele espao no era toda a parte porque no podia conter as 
trivialidades de uma vida de casal, os enfadonhos prazeres da 
monotonia, o prprio estado da parada vida quotidiana a que a sua 
relao escapava e a que era superior, o estado do casamento?
Da certeza de terem tudo, eles passaram a querer tudo. At isso. 
Comearam a fazer mais pequenas excurses fora da cama dela e da 
casa. Ela tinha um amigo que era um rendeiro absentista. Foram 
fazer um piquenique na quinta. No princpio do percurso, na via 
rpida passaram ao lado da cidade do Recife em cuja zona para os 
da sua cor ele tinha crescido, ensinado, ido s compras com os 
filhos nas manhs de sbado... quando virou a cabea para olhar o 
cintilar do lago de gua tirada  bomba das minas, os declives 
amarelados dos jazigos mineiros abandonados, ele teve uma 
sensao de formigueiro da inexplicvel familiaridade de um pas 
estrangeiro. Ela prometeu-lhe campos de girassis porque ele 
gostava tanto da reproduo de Van Gogh que estava pregada na 
minscula cozinha dela entre os desenhos feitos por crianas 
pretas. Mas tinha-se enganado na estao. Os campos de girassis 
eram uma vasta companhia dos mortos, com rostos pretos curvados. 
Virou-se para ele, contrita, enquanto caminhavam atravs da 
savana; riram-se e beijaram-se. Ele ficou com fragmentos de fibra 
nas mos ao apanhar uma das flores mortas para ela, uma 
recordao.
Ele tinha libis to bons. Como todos os amantes, ansiavam por 
dormir juntos uma noite inteira, noites. Sonny podia ausentar-se 
de casa sem dar explicaes e as antigas restries de cor tinham 
sido abolidas na maior parte dos hotis e estncias. Por isso 
eram livres; uma vez passaram dois dias deste tipo de liberdade 
algures na zona oriental do Transval, e estiveram mesmo no meio 
de famlias brancas domingueiras com avozinhas e crianas aos 
gritos, observando a ninhada de crocodilos recm-nascidos num 
viveiro. Depois de intervalos impostos pelas obrigaes polticas 
de Sonny - e nunca ele nem ela negligenciaram o seu trabalho -, e 
quando outro tipo de ausncia de casa podia ser justificado por 
estas exigncias, partiam juntos, mesmo que por vezes fosse s 
por uma noite. Ele tinha-lhe prometido um fim-de-semana inteiro 
outra vez e conseguira-o, no sem algumas embaraosas mentiras a 
dizer, aos seus camaradas - uma desculpa, tambm para eles -, de 
que estaria incomunicvel devido a alguns contactos que tinha de 
fazer e sobre os quais no podia falar. Quando saiu de casa no 
sbado de manh, sentiu, pela primeira vez, em vez de uma euforia 
interior, um horrvel mal-estar; houve um momento, quando passou 
pelo filho no corredor, em que quase voltou para trs e pousou 
aquela pasta (pasta!) e no partiu. Mas o momento foi esquecido 
mal saiu de casa. Numa estncia de rondveis(1) entre laranjeiras 
em flor, perto de Rustenburg, Sonny e Hannah foram 
indescritivelmente felizes. Diz-se que uma pessoa pode morrer de 
tanta felicidade mas tambm se pode matar por ela, matar todas as 
outras reivindicaes da sua pessoa, feitas por pessoas que no 
foram capazes de as revelar. O perfume das laranjeiras em flor 
era o prprio ar, noite e dia, cada inspirao como a manifesta 
emanao da felicidade, o aroma da secreo dos seus corpos, 
unidos a fazerem amor.
Quando Sonny regressou no domingo  noite soube que a filha tinha 
cortado os pulsos.


*1. Rondvel - palavra aportuguesada comummente usada em 
Moambique, por inflUncia sul-africana - cabana em colmo, 
normalmente redonda, com uma nica diviso, alojamento de 
turistas em estncias de lazer, a que costumamos dar o nome de 
bun-SaW (M. da T.)


70 - 71


Esse facto no ps um fim quilo. O que Baby fez daquela vez.
Estvamos sentados na cozinha, a minha me e eu - como se 
tivssemos voltado  antiga casa de Benoni -, quando o ouvimos 
entrar em casa. Ouvimos a pasta ser pousada e o chiar dos sapatos 
dele, estvamos to calados porque Baby estava a dormir ao fundo 
do corredor com os pulsos ligados fora do lenol. A minha me 
levantou-se e foi impedi-lo de entrar na cozinha onde eu estava. 
Ouvi-a dizer-lhe em voz baixa - e depois, subitamente, alto:
- No! - quando os seus passos irromperam com fora e rapidez ao 
longo do corredor.
Voltou para trs devagar e entrou na cozinha. Ele tinha visto a 
minha irm mas no a tinha acordado. A minha me sentou-se outra 
vez. Eu estava com ela, tinha estado com ela desde que aquilo 
tinha acontecido, ele teve de me encarar. E eu de encar-lo. Foi 
vagarosamente at ao frigorfico e encheu o seu copo de gua. 
Apeteceu-me rir e arranc-lo das suas mos. Ele ficou ali parado 
a beber e a sua cabea movia-se, no estava exactamente a 
aban-la, ela movia-se vagamente como o movimento involuntrio de 
um velho. Mas no vale a pena representar para mim, ele no era 
nenhum pobre velho perturbado, era apenas bastante forte e 
saudvel, um fornicador. O que  que o meu pai podia dizer? Se a 
Baby tivesse morrido no sbado ele no teria estado presente. No 
podia ser contactado. Ele certificara-se disso. Ningum sabia 
onde ele estava. Foi a minha me quem viu o sangue. E eu.
- Vai ficar com cicatrizes.
Foi tudo o que se atreveu a dizer.
E aquilo no o fez parar, no os fez parar. S me tornou cruel. 
Naquele domingo  noite. Apeteceu-me ir ao meu quarto e tirar de 
trs das minhas velhas botas de futebol e dos patins de rodas - 
coisas de criana que nunca se deitam fora

73


- a cabea murcha de um girassol e agit-la na sua frente.
Ele nunca tentou explicar nada. J no se importava connosco o 
suficiente para sentir necessidade disso - tentar fazer-nos 
entender o que lhe tinha acontecido. Oh, ele ficou arrasado 
naquela noite e no havia ningum para o ajudar. Estvamos os 
trs juntos na cozinha, e ele estava sozinho. Eu tinha pensado - 
tinha? - que ele ia sucumbir e confessar, choraramos, ia acabar 
tudo, ele tomaria a minha me nos seus braos, ela tom-lo-ia nos 
seus braos. Ficar com cicatrizes: foi tudo. A nossa presena, 
da minha me e minha, impeliu-o a ir sozinho para a sala, de que 
ele e a minha me se tinham orgulhado tanto, um stio decente 
para ela, finalmente. Sentou-se l sozinho no escuro. Ela ps 
leite a aquecer no fogo e eu observei-a a fazer o cacau e a 
lev-lo l dentro, a ele. No sei se ele lhe disse alguma coisa. 
Ela parecia saber que ele no ia comer. Ainda to atenciosa com 
ele, a minha me; ainda com tanto respeito por este marido e pai 
que tinha ido para a priso pelo futuro da nossa raa.
Baby era a filha favorita dele - eu sempre soube disso -, a sua 
filha era a sua querida, a sua menina bonita, apesar de ser a mim 
que ele citava Shakespeare e de querer que eu lhe trouxesse 
glria tornando-me escritor s para lhe agradar. Mas apesar de a 
criana de quem ele gostava tanto ter querido agora, mesmo que s 
por um momento de loucura, morrer, e ningum se atrever a faz-la 
dizer porqu, ele no conseguiu regressar para ela. Ele no 
conseguiu ficar em casa connosco. Quando a minha irm ficou 
melhor - o que tinha feito consigo mesma tornou-se uma doena 
ou um acidente que lhe tinha acontecido, era a nica forma de 
podermos lidar com isso em nossa casa - ela e a minha me e o meu 
pai discutiram o que ela queria fazer. Foi tudo resolvido como 
uma questo de ocupao certa. E  ele quem sabe tudo sobre 
orientao, orientao profissional, em tempos tinha sido 
professor. O futuro todo  sua frente, era a conversa do costume 
dos pais, como se eles fossem os pais do costume. A minha irm 
aderiu ao esprito da representao. Eu ouvia-a dizer, oh, que 
estava farta de estudar. Queria arranjar emprego. Durante uns 
tempos; mais tarde voltaria a estudar. (Esta foi lanada, eu sei, 
para o querido paizinho e suas velhas ambies de que os filhos 
fossem cidados teis, portanto instrudos.) Ela sabia que a 
minha me no acreditaria nela, a minha me sabia que ela 
encontraria uma outra vida qualquer, no planeada para ela. Ele 
sabia, com certeza que alguma coisa a tinha afastado;

74



no ficou para descobrir o qu. Voltou a escapar de casa com 
aquela pasta - ser que o meu pai guardava nela uma escova de 
dentes ou era to ntimo daquela mulher que utilizava a dela?
E o que eu no conseguia entender era porque  que a minha irm 
lhe facilitou as coisas. Talvez o tenha feito pela minha me, 
tambm, mas o facto  que isso teve o efeito de o deixar 
libertar-se da infelicidade a que tinha sido condenado durante 
aqueles primeiros dias; ela permitiu que essa infelicidade fosse 
banida juntamente com as suas ligaduras. Apareceu com pulseiras 
de madeira pintadas com cores vivas em cada pulso - artesanato 
africano. Ele no teve de ver as cicatrizes. Ela tem um bonito 
cabelo liso brilhante, como o da minha me, e mandou-o frisar; 
durante a sua convalescena andava pela casa, com uma das 
minhas camisas velhas atada por baixo dos seios nus, de barriga 
descoberta, o seu walkman preso a um largo cinto e enfiado nas 
orelhas, mexendo as ancas e a cabea ao som de um ritmo que mais 
ningum podia ouvir. Foi tacitamente aceite que aquilo era um 
sinal de uma independncia natural prpria das raparigas; ela 
queria ganhar o seu prprio sustento, ofereceu-se para isso.
Ela falou comigo sobre aquela noite de sbado como se se tratasse 
de uma brincadeira de festa particularmente ousada de que se 
vangloriava. Eu no percebia porque  que ela queria faz-lo; 
devia era ter falado com ele, de facto, era um caso seu 
exactamente como o seu outro caso. Ela estava determinada a 
revelar-se a mim.
- Tu nunca abres a boca, mas suponho que te perguntas como  que 
algum pde fazer uma coisa to estpida.
- Como por exemplo? - Mas ela sabia que eu estava a implicar; e 
tambm no queria dizer explicitamente - tentar matar-me.
Tive uma zanga com a Mrcia, ela  sempre to bisbilhoteira, a 
meter-se em tudo, dedos pegajosos a enfiarem-se no meu cabelo. De 
qualquer modo, no sei porque  que a deixei importunar-me para 
Passar l a noite. E a quantidade de gente que apareceu l em 
casa porque sabiam que os pais delas estavam fora, Jimmy e Alvin 
e aquela malta toda. Eu no os suporto, a srio. Ela disse que a 
Jackie e o Uawn e eles (quantos anos  que o meu pai tinha 
perdido a tentar que a sua Baby abandonasse a pssima gramtica 
dos companheiros) vinham mas ela  uma grande mentirosa, disse 
aquilo s para me convencer a ficar com ela, porque eles no 
vieram. O que  que havia ento

75


para fazer a no ser fumar. Portanto eu estava bastante pedrada, 
e ainda por cima, quando quis fugir deles e daquela gritaria 
horrvel e daquela dana que fazia lembrar uma data de gnus 
bbedos, havia um casal ocupado na cama. Nem sequer tinham 
fechado a porta.
Eu acenei com a cabea e continuei virado para o lado. Ela 
percebeu que eu no queria ser presenteado com esta verso, esta 
representao - mais uma, na nossa casa.
- A casa de banho era o nico stio para onde fugir.
O pacote de lminas Gillette, a dagga(1) e a auto-compaixo. Quem 
me dera no ter tanta imaginao, quem me dera que as vidas das 
outras pessoas me estivessem vedadas.
- Eles meteram-me nojo. Nojo deles.
Agora eu percebia o que  que Baby estava realmente a dizer-ma Eu 
sabia quem eram eles. Se ambos os conhecamos, no era a malta 
da casa da Mrcia num sbado  noite que no era a minha malta.
Ela queria uma reaco que a ajudasse a levar-me - o seu inocente 
e estpido irmo - a tomar a atitude que ela queria que eu 
adoptasse. Ela estava a tentar ser minha compincha.
Eu limitava-me a ouvir; tinha de ser ela prpria a dizer aquilo 
que esperava que eu dissesse.
- Suponho que podia ter vindo para casa. No  longe. Mas ests a 
imaginar a confuso, com a me, eu chegar s duas da manh quando 
ela est a pensar que eu estou aconchegada na cama aos risinhos 
com uma amiga do peito.  esse o problema de no termos a nossa 
prpria casa. Viver com a famlia. Os pais, pronto. Mesmo os 
melhores pais do mundo, ns somos diferentes, no somos como 
eles. Quando crescemos temos de nos esquecer da vida deles. Temos 
de os deixar viv-la,  da conta deles e ns temos a nossa 
prpria vida para viver. Precisamos de ter um stio. - Ela olhou 
para mim para ver se estava a conseguir. - No podemos correr 
para eles, eles tm uma vida s deles.
Agora desviava o assunto do que tinha conseguido dizer, 
tagarelando sobre o apartamento numa outra zona cinzenta que ela, 
Jackie e Dawn, mais dois colegas indianos provavelmente iam 
partilhar; eles levavam-na para l assim que ela arranjasse um 
emprego, e eu entendi o que ela me tinha estado a dizer quando 
era suposto estar a confeSsar


*1. Marijuana. Em africnder no original. (N. da T.)


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porque  que queria morrer num sbado  noite no meio de 
estranhos. Baby estava a encobri-lo mais uma vez. Ao meu pai. Ela 
estava a avisar-me de que devia afastar-me: da vida dele. Pobre 
Baby. A sua Baby, ainda.
Ele fora capaz de esquecer to depressa.
Ela encorajou-o - ela  igualzinha a ele, afinal, embora se 
parea com a minha me,  falsa e mentirosa como ele. Arranjou um 
emprego num agente de seguros (acho que era um dos tipos que 
partilhava o apartamento e talvez ela andasse a dormir com ele) e 
aparecia de fugida l em casa quando lhe dava jeito trazendo 
flores ou uma bainha descosida para a minha me remendar, 
pendurando um brao  volta do pescoo do meu pai e beijando-lhe 
a orelha, se ele por acaso l estava, e telefonando se ele no 
estava-quando partia, com a boca cheia de alguns dos doces da 
minha me que ela levava:
- No se esqueam de dar saudades ao pai!
Ela era bonita, faladora e divertida, parodiando e rindo e 
querendo saber mexericos sobre a famlia e os amigos que nunca 
mais vira.
No sei se a minha me alguma vez contou ao meu pai o que o 
doutor Jasood dissera sobre a vivacidade dela. A sua vulgaridade 
atingia a minha me. No entanto, ela disse-me mais do que uma 
vez: Desde que Baby ande ocupada e feliz. A minha me, tambm, 
estava a dizer outra coisa: j que nada podia ser feito em 
relao ao diagnstico do doutor Jasood quanto ao estado da minha 
irm, a minha me estava grata por ela se revelar suficientemente 
forte para se virar para os seus prprios objectivos.
Podia pensar-se que nada tinha acontecido. Assentmos numa 
espcie de sinistra normalidade, uma aceitao da reorganizao 
das nossas vidas segundo a convenincia dele. Eu sei, de certeza 
que ele levou vrias vezes a minha me a reunies em casa de uns 
brancos onde aquela mulher sua amante tambm estava presente. A 
minha me teve de se sentar e comer com ela.
E eu estive onde ela mora. Onde ele se encontra com ela. Ele 
mandou-me l. Podem acreditar nisto?
Havia algum que sabia sempre onde Sonny estava. A Polcia de 
Segurana. Ele sabia disso, Hannah sabia disso. No contava como 
testemunha, como intromisso.

77

A Polcia de Segurana trabalha to secretamente como qualquer 
relao amorosa Um homem que foi condenado por crime contra o 
Estado continuar a ser vigiado enquanto a sua vida ou o Estado 
que o condenou durar. Seja qual for a durar mais tempo. Uma 
mulher que se associa a um homem assim ser vigiada. A terceira 
presena na privacidade dos amantes  a Polcia de Segurana. 
Annima, oculta: uma condio da intimidade dos activistas 
polticos. Os homens que tinham levado Sonny e o tinham detido 
sabiam. Sabiam acerca dele. Estavam metidos naquilo com ele. No 
era do interesse deles pr a descoberto este tipo de capa. Se ele 
fosse uma figura revolucionria importante eles (facilmente) 
teriam combinado com o hotel de provncia uma maneira de pr o 
rondvel sob escuta e fornecer cassetes  imprensa de domingo 
para difamar o seu carcter. Podiam fazer com que o ministro 
aplicasse uma interdio oficial aos seus movimentos. Mas no o 
fizeram, porque enquanto ele andasse sem restrio, correndo para 
os encontros com a sua namorada, podia tambm conduzi-los aos 
encontros com os seus companheiros secretos, que eles ainda no 
conheciam.
Depois do que quase tinha acontecido naquele sbado  noite (esta 
era a nica forma que ele se podia permitir formul-lo), Sonny 
capacitou-se de que mais algum tinha de saber onde  que ele 
podia ser encontrado. No caso de acontecer de facto alguma coisa. 
L em casa. Mas a quem devia dirigir-se? A quem  que ele podia 
dizer, se a minha filha estiver a esvair-se em sangue na casa de 
banho, vai buscar-me a este endereo? Se Aila desmaiar naquela 
cozinha, se ele - o Will - for electrocutado ao arranjar uma 
tomada elctrica, vai chamar-me  cama de Hannah, junto  terra. 
Ia a conduzir sozinho e ao dirigir-se para os guetos do Tringulo 
do Vaal,(1) onde o boicote de rendas das organizaes da 
comunidade se estava a tornar numa campanha principal, ele estava 
a pensar na melhor forma de dar resposta aos problemas 
decorrentes da violncia espontnea contra os membros do conselho 
corruptos - e, de sbito, teve um impulso de levantar as mos do 
volante. Deixar-se ir. O carro a resvalar, a toda a velocidade, 
capotando, levando-o com ele. Recuperou o controlo de si mesmo 
alagado em suor. No se deixara ir. No deixara o seu esprito 
voltar atrs ao que podia ter acontecido naquele sbado  noite


*1. Tringulo do Vaal - regio geogrfica tambm conhecida por 
Tringulo de WitWa tersrand, situada na provncia do Transval. 
(N. da T.)


78


- Hannah no soube daqueles momentos - foi talvez a primeira 
coisa que ele alguma vez lhe escondeu - mas ela teve o instinto, 
para sua prpria proteco, de que ele tinha de ser encorajado a 
falar sobre a filha - Baby. O prprio nome da rapariga soava 
desajeitado dito por ele: Hannah percebeu que ele estava a 
ouvi-lo agora tal como imaginava que ela ouvia - sentimentalismo 
barato, idiota, piegas, de classe baixa, dos ignorantes pobres no 
gueto de uma pequena cidade onde nem sequer se podia utilizar a 
biblioteca. Embaraou-o aperceber-se de como realmente era 
estpido, grosseiro, o substituto do nome ligado  rapariga 
crescida.  mulher; uma mulher, agora, como Aila e como Hannah.
- Lembras-te dela, a danar, na noite em que foste a minha casa a 
uma festa?
- Claro.
Como  que podia no se lembrar de cada pormenor daquela festa, 
apenas a segunda vez em que estivera em casa da famlia a que ele 
pertencia por direito, e quando ele era ainda, acabado de sair da 
priso, uma materializao de que ela no conseguia afastar os 
olhos.
- A festa que as mulheres organizaram, com msica e tudo o resto.
- Sim, tu convidaste-me ...
- Eu vi os homens a olharem para ela, sabes ... da forma como os 
homens olham para as mulheres, e eu tambm olhei e vi as suas 
pequenas ndegas redondas, as bochechas, andando para cima e para 
baixo dentro daquela saia ou vestido, ou l o que era, e os 
mamilos a aparecerem por baixo do tecido fino quando se mexia.
- E a maneira fantstica como ela se mexia! - Hannah queria 
lev-lo a rir-se com ela e a aceitar com leveza aquilo que estava 
inocentemente a confessar: que tinha sido sexualmente excitado 
pela sua filha.
- Aquela menina que costumava fazer-me cinzeiros com lama do 
quintal, embora eu nunca tenha fumado. Era uma jovem encantadora. 
Apesar de ser eu a diz-lo, ela era bonita, hein, e tinha uma 
maneira de falar graciosa, tambm. To cheia de humor.
- Mas ests a falar dela como se ela tivesse morrido! - Hannah, 
angustiada, ria estranhamente. - Sonny, ela est viva. No era! 
Ela , ela !
O que  que eu faria se no te tivesse, disse Sonny a Hannah 
quando estava seguro, ainda dentro dela depois de fazerem amor

 79


- ela gostava de o ter assim, preso nas suas ancas largas que 
estremeciam quando andava nua pelo quarto. E tranquilamente, 
porque vinha a dar no mesmo, para eles, passaram das carcias a 
uma discusso preocupada sobre a aco de agents provocateurs(1) 
da polcia entre grupos de igreja nos boicotes s rendas.
Havia o Will. O que  que ele teria feito se no tivesse sido o 
Will. S ao Will  que ele podia arranjar uma maneira de indicar 
onde poderia ser encontrado se acontecesse alguma coisa. Como a 
Polcia de Segurana, Will ficaria por dentro. Will j estava por 
dentro no mistrio das suas ausncias. Will no podia evitar ser 
empurrado mais para dentro.
Sonny no tinha escolha. A necessidade de Hannah.
Fui na mota. J a tinha na altura. Deram-ma pelo meu aniversrio. 
Ele disse-me com aquele sorriso de pai dedicado a esconder uma 
bela surpresa, agora j podes tirar a carta aos dezasseis, no 
podes? Por isso eu sabia que ele me ia comprar uma mota. Eu nunca 
pedi mas eles deram-ma. Com o modelo mais recente e mais caro de 
capacete para minha segurana; ele deve ter tido de prometer isso 
 minha me.
Eu fui com o capacete, o protector de queixo e os culos 
protectores a esconder-me a cara. Da rua no se consegue ver o 
stio, onde ele vai. Havia ces ao porto, e um jardineiro preto 
teve de vir abrir-me o porto; suponho que eles abanam o rabo a 
quem vem frequentemente, a quem conhecem bem pelo cheiro. Havia 
uma grande casa mas no  a que ele vai. Ela mora num chal por 
trs de umas rvores no fundo do jardim. Talvez at haja uma 
entrada particular de que eu no tenho conhecimento, de que ele 
no quis falar-me. Tudo parece estar  vista, olhando atravs da 
entrada principal.
Ele deve ter-lhe dito, ela estava  minha espera. Ah,  o Will, 
no  - como se o capacete e o resto a impedissem de me 
reconhecer, de se lembrar do cinema daquela vez. A frase 
insinuava tambm, a brincar, que eu, que estava determinado a ser 
amistoso, era mal-educado, por no tirar o capacete. Por isso 
tirei-o. Para que ela pudesse ver que era eu, o Will, sim. 
Dei-lhe o que quer que fosse que ele me tinha mandado entregar. 
Era um embrulho, livros ou qualquer coisa assim,


*1. Agentes provocadores. Em francs no original. (N. da T.)


80


De que a menina Plowman precisava urgentemente, segundo ele me 
disse. - Agora s o Mercrio da famlia, com essa tua maravilhosa 
mquina, vai-te l embora, filho, mas no vs em excesso de 
velocidade como um Anjo do Inferno, hein. - Uma actuao perfeita 
na frente da minha me.
Era aqui que ele vinha. Devia ser-lhe to familiar como a nossa 
casa, aquela onde moramos agora e a outra onde morvamos quando 
estvamos em Benoni, porque a nossa casa  onde ns estamos, a 
nossa moblia, as nossas coisas, as obras completas de 
Shakespeare dele, os cheiros dos cozinhados da minha me e das 
flores que ela pe na mesa. Mas isto no se parece nada com uma 
casa; bem, est bem, um chal, mas no  sequer como nenhum stio 
onde se esperaria que um branco vivesse. A porta de rede cheia de 
buracos. O cho nu e um quadro enorme semelhante a tinta 
entornada que encadeia os nossos olhos, um processador de texto, 
uma aparelhagem de alta-fidelidade a dar msica de rgo, pontas 
de cigarros em cinzeiros, fruta, pacotes de farelo e de germe de 
trigo, cordas enroladas com roupas interiores de mulher a secar 
num radiador - e uma cama, no cho. Ali estava a cama, apenas um 
colcho muito grande e largo no cho, coberto por uma manta com 
elefantes e flores bordados e aplicaes de pequenos espelhos - a 
cama, exactamente assim, ali mesmo na sala onde qualquer pessoa 
pode entrar, a sala onde eu me encontrava de p com o capacete na 
mo.
Portanto agora j sei.

81


Quem  Hannah Plowman?
No  apenas a loura do seu pai. No  a amante escolhida pelo 
filho adolescente como uma desculpa para uma atitude de 
hostilidade defensiva, para o desdm e para o cime. No era 
apenas a namoradinha companheira de viagem de um homem de cor com 
um cadastro subversivo, conhecida pela Polcia de Segurana. 
Aquilo que cada indivduo sabe acerca das suas origens  na 
realidade a nica coisa segura, e remonta apenas at onde chega a 
memria do prprio indivduo. A dela comeava com o av materno e 
ela sabia, pelo menos, que tinha o nome da me dele, que era 
quacre,(1) embora ele fosse anglicano - um missionrio num dos 
protectorados britnicos nas fronteiras do pas. Aps alguns 
membros menores da realeza britnica terem vindo ver o pavilho 
britnico descido e a bandeira da independncia hasteada, o 
missionrio continuou depois de reformado entre os velhos negros 
baputi,(2) cujas almas ele estava convencido de ter salvo e cuja 
lngua se tinha tornado a que ele mais usava. Fez algumas 
tradues de obras religiosas para as escolas locais de domingo e 
gostava de ouvir e contar coisas do passado com antigos chefes. O 
seu irmo tinha ido para a frica do Sul vindo a ser presidente 
de uma sociedade financeira, com directorias na indstria 
mineira, produtos derivados do milho e indstria de embalagem. O 
irmo pagou a educao de Hannah em Inglaterra quando esta 
terminou a escola da misso da aldeia, que frequentava com os 
midos pretos que l viviam; pois a me dela tinha estudado 
enfermagem no que era ento a Rodsia e tinha voltado para a 
misso grvida de uma menina, como veio a revelar-se. Disseram a 
Hannah que o seu pai tinha sido um soldado, e, como ela sabia que 
os soldados morriam nas guerras,


*1. Quaker. Adepto de uma seita religiosa. (N. da T.)
2. Clrigos, em africnder no original. (N. da T.)


83



presumiu que ele tinha morrido. Mais tarde descobriu que ele era 
um polcia de Bulavaio(1) que j tinha uma esposa. A me de 
Hannah casou com um mdico judeu que conheceu quando era 
enfermeira assistente de sala de operaes no hospital da misso 
dirigido pelo governo independente, e foi viver para Cape Town. 
At a me dela ter emigrado com ele para a Austrlia, Hannah 
passava uma parte das suas frias da escola na casa de tijolo e 
colmo do av na misso e a outra parte no subrbio de Cape Town 
no meio da coleco de pinturas modernas do padrasto.
Uma vida individual, a de Hannah, mas uma vida que acompanhou as 
mudanas do poder das comunidades onde nasceu. De forma que 
aquilo que ela  de facto  uma questo de naquele tempo e 
naquela altura; de qualificaes e incertezas. O seu padrasto 
teria pago para mand-la para a Escola de Arte Michaelis, j que 
ela revelava uma ignorncia to inteligente ao observar os 
quadros dele, mas ela ansiava pelas deambulaes ao cair da tarde 
na aldeia da misso que se tornara a periferia de uma cidade, a 
falar com os rapazes que sempre conhecera, que agora usavam 
t-shirts distribudas pela fbrica de cerveja, e com as raparigas 
com quem tinha brincado, que agora voltavam do turno como 
empregadas da limpeza no Holiday Inn. E quando estava com o av e 
ele sugeriu que ela talvez gostasse de estudar para vir a ser 
professora na sua antiga escola, fundada por ele, recebeu a ideia 
sem entusiasmo. Em Cape Town ela tinha conhecido jovens, 
estudantes universitrios, filhos e filhas de famlias brancas 
cultas e abastadas como a do padrasto dela, que estavam a 
trabalhar em sindicatos, gabinetes de assistncia jurdica, 
programas de artes da comunidade, projectos de direitos humanos 
em terrenos ocupados ilegalmente enquanto ela estaria a ensinar 
crianas apenas o suficiente para os preparar para emborcar 
cerveja e limpar a sujidade dos rebordos das banheiras dos 
turistas. Ela no era uma diletante mas no se podia dizer que 
estava programada socialmente; tinha de escolher onde se situar 
mais realisticamente do que naquela sua infantil noo geral de 
que toda a frica do Sul era a sua casa: havia limites, tratados, 
arame farpado e postos fronteirios fortemente armados.
A frica do Sul  uma fora centrpeta que atrai a si as pessoas, 
no s por necessidade econmica mas tambm pelo fascnio do 
empenhamento na luta poltica.


*1. Nome de uma cidade da Rodsia. (N. da T.)


84


O fascnio invadiu-a nos tijolos e colmo da misso, no p que 
tinha arruivado o seu cabelo nrdico e orelhas rosadas: a partir 
do empenhamento do seu av na luta contra o mal nos homens, por 
Deus. Para ela o caminho era lutar contra ele pelo homem - pelos 
seres humanos. (Ela era uma feminista, cautelosa com os gneros. 
Mas no teria pensado nele como o mal - termo demasiado 
pretensioso, demasiado beato para ela, embora no o fosse para o 
av.) Ela trabalhou para esse fim numa srie de organizaes por 
toda a frica do Sul. Algumas eram proibidas, e ela tinha de 
mudar para outro trabalho semelhante de cariz social noutro stio 
qualquer. Foi casada durante algum tempo com um jovem advogado 
que ficou clinicamente deprimido devido s ab-rogaes do governo 
quanto ao regime legal e convenceu-a a emigrar; ele foi  frente 
para Londres mas a recuperou e apaixonou-se por outra pessoa, 
ela nunca chegou a ir ter com ele. A aparelhagem de 
alta-fidelidade, os discos e os livros foram-lhe enviados por 
barco. Ela ficou s com o colcho da enorme cama (porque com isso 
podia-se viver em qualquer lado) e um quadro de um seguidor de 
Jackson Pollock que o padrasto lhe tinha dado quando partiu para 
a Austrlia. Os consrcios e as fundaes que a empregavam 
pagavam muito pouco, por estarem dependentes de donativos 
provenientes do estrangeiro. Mas no podemos ser considerados 
pobres quando somos pobres por opo. - Se ela tivesse querido, 
podia ter-se empregado numa butique ou seguido uma carreira de 
relaes pblicas atravs do ramo da famlia do seu av que 
tinha feito o bem, embora no da forma que ele lhe tinha 
ensinado.
A natureza do trabalho que ela fazia desenvolve emoes elevadas. 
Resulta de crises. Lida apenas com ruptura, separao - com 
circunstncias na vida das pessoas que no encontram resposta nas 
situaes que servem a continuidade. Monitorar julgamentos  
monitorar o grfico descendente e ascendente de sentimentos que 
levam os homens e as mulheres a agir, pondo em perigo as prprias 
vidas; os altos e baixos da bravura, da perda do sangue-frio, da 
traio; a astcia aprendida com a coragem, a coragem aprendida 
com a disciplina - e outras coisas que excedem a capacidade de 
registo de qualquer grfico, que derreteriam a agulha do aparelho 
no auge da intensidade: o registo de pessoas que, ao serem 
sentenciadas a uma prolongada pena de priso, declaram ao 
tribunal que no se arrependem de nada; dos que, ao ser-lhes 
oferecida amnistia na condio de a aceitarem como liberdade

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em vez do ideal pelo qual foram para a priso, escolhem passar a 
vida na priso. Tais inconcebveis decises esto para alm da 
capacidade de quem no as toma. Carregar o peso do mundo no 
esprito, tal como os msculos de Atlas carregaram o peso fsico 
do mundo. Essas pessoas no podem ser monitoradas. Mas o facto de 
as conhecer e s suas famlias, que tm essa anormal - Hannah, ao 
falar disso uma vez com Sonny, corrige-se a si prpria - no, 
anormal no, no se pode utilizar esta palavra para isso - essa 
divina fora, aumenta os recursos emocionais de um indivduo 
vulgar (como Hannah) pelo simples facto de verificar que ela 
existe realmente.
O convvio com pessoas que so presas por questes de conscincia 
cria um clima especial que favorece este estado emocional. 
Assistir a julgamentos em tribunais, enquanto o sacrifcio das 
vidas dessas pessoas pelo homem contra o mal  progressivamente 
distorcido pela lei atravs de avalanches de palavras gravadas, 
nos vdeos da polcia, nas bocas de testemunhas do Estado, at 
ser transformado numa acusao por terem praticado o mal; tocar 
as mos dos acusados atravs da barra enquanto eles dizem piadas 
acerca dos seus carcereiros; visitar as mulheres, os maridos, os 
pais, os filhos, os companheiros de muitos tipos de alianas 
quebradas pela priso - tudo isto aumentava os sentimentos de 
Hannah de uma forma que ela no imaginava ser possvel. 
Apaixonada. Ela estava apaixonada. No como o termo  entendido, 
como tinha estado apaixonada aos vinte e trs anos pelo seu 
advogado, e tinham deixado de se amar. Apaixonada, uma 
temperatura e uma presso atmosfrica de tenso partilhada, 
resposta, o entendimento cmplice da confiana em vez de carcias 
e a importante, orgulhosa responsabilidade de fazer tudo o que 
fosse pedido, mesmo as tarefas mais humildes, em vez de 
confisses privadas apaixonadas. Um estado de amor.
Era neste estado que ela desenvolvia a persistncia, as mentiras 
descaradas, a falta de escrpulos em ameaar a aco 
internacional para pressionar as autoridades prisionais a 
autorizarem-na a ver os detidos. E era neste estado que ela 
entendia a sua misso de visitar as famlias deles.
Ela conduzia um Volkswagen Beetle atravs das ruas que eram 
campos de batalha do Soweto  procura de velhos que no sabiam se 
haviam de confiar nela, era recebida nos agradveis subrbios 
segregados de Bosmont e Lenasia por mulheres que no sabiam como 
iam continuar a pagar as prestaes

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da moblia envernizada, perdia-se nos terrenos ocupados 
ilegalmente onde no havia moradas e as nicas estradas marcadas 
no estrume lamacento eram as sulcadas pelos carros de mo de 
pessoas que iam buscar os seus fornecimentos de cerveja  taberna 
na rua principal. A casa no subrbio branco de classe baixa, para 
onde um dos detidos tinha mudado a sua famlia ilegalmente, tinha 
um porto de ferro forjado com floreados e um pelicano em gesso, 
sem dvida deixado pelos proprietrios brancos, como a carapaa 
de uma criatura que a revela exactamente. A esposa era bonita e 
correcta, bem vestida, collants e saltos altos - tinha o efeito 
de fazer com que Hannah se sentisse no intrusa mas 
desnecessria, e se pusesse a falar para esconder isso. A mulher 
continuava a ouvir com simpatia aumentando a confuso de Hannah. 
Esta mulher calada parecia estar acostumada a ser obedecida. 
Havia ch que ela mandou fazer por uma filha em que a beleza da 
me era reproduzida com uma graa espevitada. Uma estudante de 
liceu que trabalhava aos fins-de-semana; e a mulher tinha um bom 
emprego, ela com delicadeza deixou perfeitamente claro que no 
queria que ningum se metesse nas solues que eles prprios 
tinham encontrado para se arranjarem sem o pai. A me, com o seu 
sorriso delicado, lento (que dentes to perfeitos para uma mulher 
de meia-idade; os de Hannah tinham sido muitas vezes arranjados e 
s tinha trinta anos), ps uma mo no ombro de um rapaz com 
aspecto de ter crescido muito depressa que tinha feito Hannah 
esperar  porta por um momento, desconfiado, antes de a deixar 
entrar.
- O meu filho  o homem da casa agora.
Uma casa que cheirava a cozinhados temperados com ervas secas. Na 
parede, os textos de Kahlil Gibran de um caixeiro-viajante. Mas 
na estante de portas de vidro uma pequena biblioteca 
surpreendente, no s os clssicos de bolso com capas a imitar 
couro, que eram normalmente sinal de fome de conhecimento, e no 
s Marx, Lenine, Fanon, Gandhi e Nkrumah, Mandela e Biko, que 
eram sempre sinal de auto-educao poltica, mas Kafka e D. H. 
Lawrence - ela reparou nisto em olhadelas de relance, enquanto 
falava, falava, falava daquela maneira.
Tinha l estado mais uma vez. Mas isso foi depois. Foi quando ela 
foi invadida por risos e msica, com tudo o que existira da 
primeira vez posto de lado, como a moblia o tinha sido para se 
danar. O estado de amor em que ela se tinha sentado com a bonita 
esposa,

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a filha, o filho, tambm foi posto de lado, assustadoramente 
transformado em outra coisa: conscincia apaixonada do anfitrio 
ex-prisioneiro. Da primeira vez em que ele e ela fizeram amor, 
ela tinha sentido uma estranha ameaa de perda no meio do prazer, 
e tinha tentado explic-la a si mesma ao tentar diz-la, por 
outras palavras, a ele. Ele no compreendeu de facto; mas o amor 
sexual tem a vantagem inigualvel de a carne ser uma confirmao 
de qualquer coisa, de tudo, naquele momento. O corpo fala e tudo 
 silenciado.
Por isso, tudo naquela casa de que ela se recordava daquela 
primeira visita foi acarinhado porque fazia parte dele. Era tudo 
o que ela tinha daquela parte dele que ela no podia realmente 
conhecer, que ela tinha transformado num amante. Era o que ambos, 
ele e ela, ignoravam entre eles, no quarto dela.
Ela teria gostado de ser a confidente mais velha da rapariga (ela 
parecia precisar de algum) e o adulto-que-no--pai, to til a 
um adolescente, na vida do rapaz, o filho dele. At a 
pseudo-filosofia dos textos de moldura barata se tornaram 
evidncia terna das qualidades do homem que tinha deixado para 
trs falsas consolaes de elevao social conseguida pelos 
impotentes e pelos pobres. Ela conservou a viso do primeiro dia 
da casa dele, como se fosse um caracol do cabelo da criana que 
se tinha tornado homem.
Faz parte da estratgia vulgar do adultrio aparecer em pblico 
em stios onde a mulher e a amante esto presentes.  aceite 
meramente como uma forma de esconder, mostrando que no h nada a 
esconder. Mas Sonny era to inexperiente que no sabia como 
eliminar, nele prprio, o verdadeiro impulso que tinha descoberto 
estar na base de tais confrontaes. Ficou a saber que no eram 
ocasionadas por nenhuma inevitabilidade social que parecesse 
suspeito evitar; no eram arranjadas para tranquilizar e proteger 
Aila nem para garantir que se ele e Hannah fossem por acaso 
vistos em pblico juntos isso parecesse um encontro inocente no 
seio de um crculo poltico comum. Ao dar a sua opinio sobre 
como conseguir que a juventude que fazia boicote voltasse para as 
escolas sem comprometer o seu objectivo poltico estava a ser 
ouvido por um advogado e dois especialistas em educao, 
camaradas do Comit de Crise da Educao Nacional, quando ouviu 
algures atrs de si, misturadas numa conversa de grupo, as duas 
vozes que ele melhor conhecia no mundo. Dois pssaros a cantar na 
sua comoo: no ouvia a tagarelice das outras mulheres, o 
gorjear de pardais. Tornou-se eloquente, as suas narinas redondas 
de convico, nunca se tinha exprimido mais vigorosamente do que 
quando, pela primeira vez, em vez de manter as duas mulheres 
fastidiosamente afastadas dentro dele, possuiu ambas ao mesmo 
tempo. A exaltao era o reverso do seu medo de que Aila 
descobrisse.
Mais tarde, sozinho, desolado, envergonhado, ele entendeu. Ele 
procurava, inventava mesmo, formas de aparecer com a sua mulher 
em casas para onde a sua outra mulher fosse convidada.
A excitao sexual de juntar as duas mulheres penetrava nele como 
uma tinta, movendo-se em espiral dentro de um copo de gua.
Ela faz-me lembrar um porco. Os nossos antepassados no comiam 
porco.
Alguns plos claros parecem filamentos de vidro cravados na carne 
rosada  volta da sua boca.
Tenho pensamentos terrveis. Sobre ela. Sobre o meu pai com ela. 
Eu imagino-os... alguma vez eu podia imaginar a minha me assim! 
Tenho nojo de mim prprio. O que ele me faz pensar.
Para que  que ele me mandou l? No consigo deixar de pensar no 
stio. O que eu vi, o que ele me fez ver. As cuecas e o suti 
dela em cima do radiador. A cama, logo ali,  entrada. No sabem 
o que  a privacidade? As pessoas como ela, to dedicadas  nossa 
liberdade, insinuando-se para conseguirem ver os nossos presos, 
pondo-se  nossa porta. Eu nunca a devia ter deixado passar. Que 
mido to estpido que eu fui. O homem da casa. Educam-nos para 
sermos correctos e depois colocam-nos em situaes que no nos 
disseram que alguma vez podiam acontecer.
Para que  que ele me mandou l? Continuo a pensar nisso e  
medida que mudo, que fico mais velho - todos os meses fazem 
diferena quando somos jovens e estamos a descobrir-nos a ns 
prprios-, as minhas respostas mudam. Porco proibido. Porco 
cor-de-rosa. Tenho pensado que o que ele queria era misturar-me 
naquilo. No que os homens sentem. D-lhe jeito, agora, pensar em 
mim como um homem como ele prprio. Que quer fornicar. Que se 
sente culpado disso; ele conta comigo, num mido como eu, que se 
sente culpado de ter estas loucas sensaes estouvadas. Quando eu 
era ainda um garoto,

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ele disse-me exactamente o contrrio: eu tentei esconder os 
sinais da masturbao nas minhas cuecas e ele disse-me, filho, 
no tens nada que te sentir culpado - o que eu tinha feito comigo 
prprio era natural. Agora ele quer que eu a veja, que veja o que 
ele goza e que me sinta culpado juntamente com ele do que ele 
sente porque eu compreendo isso em mim prprio. Um lao. Atado. 
Pai e filho mais como dois bons amigos.
 o que eu tenho pensado.
E depois acabei por compreender outra coisa. Acho eu. Surgiu do 
meu corpo, sim. (Se ele acreditava que eu aprenderia a partir do 
meu prprio corpo, tinha razo, nesse ponto.) Penso que o que ele 
quer  exibir a sua virilidade. A mim. A prova da sua virilidade. 
Aquela loura mal feita. A cama onde ele faz aquilo, a msica 
intelectual ao som de que ele faz aquilo, o quadro espampanante 
na parede que ele v enquanto est a fazer aquilo, a roupa 
interior que ela tira daqueles stios onde ele pode toc-la - 
ele, no eu, no eu. (Eu no - corrigir-me-ia ele.) Ele mandou-me 
ir ter com ela para me mostrar que ainda no  a minha vez. Ele 
no anda a sair do corpo das mulheres para eu me pr l. Eu que 
no pense que, l porque sou to alto como ele e tenha a mesma 
coisa entre as pernas que ele tem, e (as moreninhas no mo deixam 
esquecer) estou a ficar bonito como ele, nem sequer fui privado 
daquelas malditas sobrancelhas grossas que tornam os olhos dele 
to sexy- eu que no pense que ele precisa de desistir em meu 
favor. O velho boi ainda  o dono das vacas, ele ainda  capaz de 
servir o seu harm, a minha me e a sua loura.
Acho que o meu pai no sabe nada disto sobre si prprio. S eu  
que sei, s eu.

Quando o professor conduziu as crianas atravs da savana, f-lo 
pelo seu prprio impulso e responsabilidade. Essa ingenuidade j 
no era possvel.
- No h liberdade em trabalhar para a liberdade.
Ele podia diz-lo a Hannah e riam-se os dois. Havia orgulho e 
cepticismo no riso. No se podia dizer aquele tipo de coisas a 
Aila; entre Aila e ele havia o velho hbito da simples reverncia 
por viver vidas teis. Ele tinha de manter essa imagem, tal como 
outras coisas tinham de ser mantidas, perante ela. Bem quando ele 
estava na priso ela evidentemente no tinha alterado os seus 
hbitos, de certo modo mantidos como se nada tivesse acontecido; 
agora ela encarava o modo de vida dele - com as suas estruturas 
clandestinas, as suas actividades dirigidas por comits e 
gabinetes, os seus perigos constantes - como se ele continuasse a 
ser o professor e tivesse recebido uma colocao noutra escola. 
Um inimigo do Estado: e quando ele lhe contava as poucas coisas 
do seu trabalho que podia contar-lhe (tinha de falar com ela 
sobre qualquer coisa, tinha de arranjar qualquer coisa que 
quebrasse o silncio entre Aila e ele) ela ouvia com ateno como 
fazia com as histrias daqueles insignificantes problemas que ele 
costumava ter quando ensinava, quando viviam no gueto fora de 
Benoni-filho-da-mgoa, recm-casados.
Ele participava nas decises polticas algures abaixo do nvel 
mais alto e mais tarde um grupo, onde ele prprio participava na 
distribuio das actividades de outros grupos, ficou por sua vez 
sob as suas ordens. O quanto qualquer um deles se expunha era 
sempre um clculo preocupado baseado no nmero actual de 
camaradas detidos ou a cumprir penas de priso - quantos, c 
fora, podiam ser poupados. Havia decises desesperadas sobre quem 
devia aparecer onde, quando as ocasies pblicas exigiam uma 
presena se o movimento quisesse

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manter o seu poder popular. Ele no era nenhum Tutu nem Boesak 
nem Chikane, e podia ser mais preto, mas como um dos melhores 
oradores, marcado pela priso, ele tinha de ser utilizado apenas 
onde fosse mais eficaz com o menor risco. Mas quem  que podia 
calcular o risco? Uma coisa para se rir, outra vez, com Hannah. 
Os guetos de negros eram acampamentos militares e os ces da 
polcia guiados pela trela por homens armados substituam as 
senhoras brancas com ces-de-gua nas ruas comerciais. As sedes 
dos sindicatos e das organizaes militantes da igreja eram 
regularmente invadidas por batidas da polcia. Algumas explodiam 
misteriosamente ou eram queimadas. Junto a bloqueios de estrada 
por toda a cidade havia carros blindados e todos os condutores 
pretos eram mandados parar e revistados. Como os boicotes s 
escolas combinados com os boicotes das rendas se revelaram 
excepcionalmente eficazes, subtraindo comunidades inteiras ao 
controlo do governo, Sonny era utilizado sobretudo em ocasies em 
que era necessrio que algum do Comit de Crise da Educao 
Nacional dos Negros atacasse o sistema educativo do Estado. Nos 
campus universitrios e nos congressos de guetos o seu simptico 
cognome j no aparecia nos cartazes - ele era anunciado 
anonimamente como um proeminente especialista em educao. Pelo 
menos a polcia no teria conhecimento prvio da sua chegada a 
uma plataforma pblica, se estivessem a planear apanh-lo.
Mas acontecia muitas vezes que um acontecimento - e eram os 
melhores - era organizado  pressa, antes que a reunio proposta 
pudesse ser proibida. O pedido de um orador chegava quando no 
havia outra escolha seno mandar quem quer que estivesse 
disponvel na zona.
Sonny dizia s duas. A Aila e a Hannah.
Mencionou em casa a cerimnia do cemitrio do bairro negro, e 
quando disse  mulher, a filha estava l - ela no aparecia 
durante semanas e de repente entrava pela porta da cozinha s 
horas mais estranhas. Estava sentada a comer os seus cornflakes, 
a sua linda menina. O rapaz evitava refeies com ele; o 
pequeno-almoo de domingo era uma delas.
Ele estava confusamente perturbado com a presena da sua Baby, 
onde ela costumava ficar, no seu lugar. Como se numa repentina 
anulao da conjuntura tudo tivesse voltado a ser como era. Mas a 
sua menina vestia uma blusa de cetim preto enrugada

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debaixo dos braos e a desnecessria pintura  volta dos olhos 
(eles j eram suficientemente atraentes) escurecia as partculas 
do sono nos cantos -  mais provvel que tenha passado toda a 
noite fora do que se tenha levantado cedo para aparecer para o 
pequeno-almoo na sua antiga casa. Uma sensao de mau humor 
devido  angstia surgiu e foi engolida. No era altura de tratar 
disso. Nunca era a altura certa, agora.
- Onde  esse stio, pap?
Antes de ele poder dizer, Aila desviou a cabea do jacto de gua 
com que enchia a chaleira.
- Do outro lado de Pretria. No Norte.
- Ah a. Mas no vais conseguir l entrar. O exrcito est por 
todo o lado.
Ele viu que Aila estava a fazer ch novo. Ela enchia sempre a 
chaleira com gua fria quando fazia ch, nunca voltava a aquecer 
a que j tinha sido fervida.
- Eu bebo o que est no bule. No tenho tempo.
- Desde quando  que s padre, meu querido pap. - A coquetaria 
era inata, na sua Baby, mesmo, e j que ela era um beb, quando 
se dirigia ao pai. - De qualquer modo, tu s nico, vo 
reconhecer-te no teu disfarce de sotaina e o resto. As tuas 
sobrancelhas! Queres que te arranque as sobrancelhas? Pap? Sim! 
- Ela levantou-se de um salto e correu para ele com os dedos 
esticados como pinas.
- No sejas tonta, no vou disfarado de nada.
A ameaa brincalhona da rapariga transformou-se num abrao, com o 
brao pendurado  volta do pescoo do pai. Estavam a rir, 
refilando um com o outro, e depois pararam abruptamente; ela 
beijou-o furiosamente na face. Ele sentiu a vibrao do seu 
maxilar contra o osso.
- E a purificao das sepulturas dos nove jovens assassinados 
pela polcia na semana passada  porta do Jubilee Hall. Foram 
enterrados ontem. Os comits da rua pediram uma espcie de 
orao. Os midos eram camaradas.
Enquanto ele dizia orao o filho entrou, afinal. No olhar de 
cumprimento que lanou ao filho sentiu um tique de embarao, como 
se tivesse sido apanhado a citar Shakespeare como costumava fazer 
para dar ao rapaz a liberdade, pelo menos, da grande arte.
Sentaram-se todos em volta da mesa de pequeno-almoo

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que Sonny tinha construdo com a ajuda de Will, tal como tinham 
feito coisas juntos em Benoni; as compras do sbado, o amor do 
professor por uma virgem, a felicidade do primeiro beb e depois 
o filho designado para ser um gnio - tudo isto estava a 
comprimir-se contra as suas coxas. Aila levantou-se e deslizou 
para o seu lugar outra vez com a graciosidade que no roava na 
chvena nem na toalha, apanhando o iogurte e voltando a encher a 
manteigueira. Baby estava a contar outra vez a histria muito 
favorecida do exame de conduo que tinha acabado de fazer, e 
tentava enervar o irmo para recomearem as velhas trocas de 
insultos tpicos entre irmos.
- Oh, estou perfeitamente confiante. At guiei um camio quando 
ainda andava a receber lies. Sabes que mais? A nica coisa que 
me irrita  o vosso comportamento de brbaros em cima das vossas 
bicicletas a motor, saindo a toda a velocidade no se sabe donde. 
Pensam que basta manterem os faris acesos para toda a gente ter 
de sair do vosso caminho, como se fossem o carro dos bombeiros, 
no sei porque  que o pai cedeu s tuas insistncias para teres 
uma coisa destas, a srio, Will.
Ele hesitou, escolhendo uma ma.
- Eu nunca a pedi.
Havia um tom de aviso nos olhos dela, grandes, com sombra escura, 
quando ele olhou para ela de frente, embora tivesse rapidamente 
desatado a rir:
- Ah no, est-se mesmo a ver que no! Nunca sonhaste em pedir! 
Nunca te passou por essa cabea cheia de caracis, irmozinho!
Bules e chvenas passavam quentes de mo para mo, algum leu um 
ttulo em voz alta, a me combinou com o filho que ele lhe 
fizesse um recado, o apito da chaleira, o rudo das facas a 
barrar as torradas e o barulho do ch a ser servido preenchiam o 
vazio entre os comentrios do pequeno-almoo. Tinha sido tudo 
ensaiado vezes sem conta. No estava realmente a acontecer; era 
um eco, uma frmula a ser seguida. A conversa inconsequente 
estava contida no silncio entre eles que todos ali reunidos 
podiam ouvir.
Sonny tinha dito que estava cheio de pressa, para poder escapar 
antes de o filho chegar. Tinha de manter a mentira. Levantou-se 
da mesa mas Aila levantou-se ao mesmo tempo e saiu da cozinha 
antes dele.
- Ciao, Will.
Adeus, disse ele. O rapaz tratava sempre de fazer com que Sonny
sentisse que o seu filho queria que ele fosse preso outra vez: 
alguma coisa que o detivesse. At  vista. Vai e no voltes.
A encantadora rapariga tinha limpado os olhos com o pano da loua 
da me, e agora estava sem a mnima marca do que quer que a sua 
noite tenha sido.
- Tem cuidado pap. Toma, atira esta flor por mim. - Tirou uma 
rosa, criada no jardim de Aila, da jarra da mesa do 
pequeno-almoo.
Ele tinha a flor de Baby na mo quando Aila foi ao seu encontro 
no corredor com um saco de fecho. Ele sabia o que continha. 
Escova, a pasta de dentes, toalha, sabonete, pijama, uma muda de 
meias e cuecas, uma camisola. As coisas essenciais que era 
permitido levar se se tinha a sorte de ser detido ao sair de casa 
e no enquanto se estava a falar na purificao das sepulturas. 
Tinha sado da cozinha havia menos de um minuto.
- Como  que fizeste isso?
- Est sempre pronto. - Estava a sorrir. Encolheu os ombros como 
que fazendo pouco caso de si mesma, desculpando-se por estar a 
interferir.
- No  necessrio. Vai correr tudo bem.
Ela ficou ali parada. Lambeu os lbios. Ficou ali parada.
Ele agarrou no saco com a mesma mo com que segurava a flor.
-  da Baby, para pr nas campas. - Olhou  volta, por hbito,  
procura da pasta, pegou-lhe com a outra mo, e ela abriu-lhe a 
porta da frente.
Nenhum ciao, nenhum adeus.
- No te preocupes, Aila.
- Eu vou l estar. Vou ouvir-te. De qualquer forma ia com o DPSC 
e com o Black Sash.(2)
Ele teve tempo para tomar o pequeno-almoo, com Hannah. Uma 
chvena de caf e metade da torrada dela barrada com pasta de 
Peixe.
- Porque eu j tenho esse sabor.
Ela ainda estava com a t-shirt larga com que dormia,


*1. Detainee's Parents Support Committee (Comit de Apoio s 
Famlias dos Detidos). Uma organizao de mulheres 
anti-apartheid.



94 - 95


e a ligeira abertura ao longo da parte de baixo do seu brao 
carnudo, desde o sovaco at ao cotovelo, quando o erguia para 
alcanar os objectos sobre a mesa, atraiu o seu olhar e f-lo 
inclinar-se para saborear a boca dela. Os seus seios e ventre 
estavam to perto sob o tecido de algodo que a sua carne aqueceu 
a mo dele como se tivesse estado junto de uma lareira 
adormecida.
- No podes vir comigo?
Ela inspirou profundamente, sorrindo, para retomar o controlo de 
si mesma.
-  melhor no, no achas?
- Claro. Talvez te possa dar uma boleia de volta. Arranjas uma 
desculpa qualquer.
O prazer de fazerem juntos aquela curta viagem era tentador; ela 
sorriu e brincou com as mos dele, que tinha recentemente 
pincelado com aguarela cor de cereja e impresso numa folha de 
papel agora pregada na parede.
- No. A no ser que consiga que eles me deixem em Pretria, isso 
podia ser, e encontrvamo-nos num stio qualquer?
-  porta do Palcio da Justia? - Era naquele ponto de encontro 
que ele tinha sido julgado. O seu sorriso negro, confiante, que 
trouxera da priso, feliz para lutar, deliciava-a. - Infelizmente 
vou ter de me despachar a regressar. H uma reunio por volta das 
cinco, suponho que a cerimnia ter terminado s quatro e meia... 
se a polcia no acabar com ela muito antes. No  melhor 
vestires-te? A que horas  o teu autocarro?
- Oh, eu demoro menos de dez minutos... isso  para mim? Ele 
tinha atirado o saco para o porta-bagagens do carro, mas, 
distrado, tinha trazido a rosa juntamente com a pasta.
- Para as campas.
- Que gesto to encantador. Ele no lhe podia mentir.
- Foi a minha filha que me deu. Foi l a casa esta manh.
-  bom para ela. Tambm tenho de apanhar umas flores, pelo 
caminho.
O rosto de uma mulher que no usa maquilhagem tem unidade com o 
seu corpo. Vendo as pestanas loiras a brilhar ao sol matinal e o 
brilho dos raros plos do buo que apareciam, a esta inocente 
claridade da manh, nos cantos superiores da sua boca, ele estava 
a v-la por inteiro; compreendeu porque  que

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nas reprodues de quadros sobre os quais tinha meditado 
profundamente nos tempos da sua auto-educao, Picasso 
representava frontalmente todos os traos de uma mulher - cabea, 
seios, olhos, vagina, nariz, ndegas, boca, como se estivessem 
sempre presentes ao olhar. O que  que ele saberia, sem Hannah!
Ela tinha-lhe pegado na mo e enterrado nela o seu largo rosto 
macio, beijando-lhe a palma. Quando levantou a cabea, as suas 
faces latejavam, afogueadas pelo orgulho.
- Estou to contente por teres sido tu o escolhido para falar.


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Paz de domingo.
As carrinhas que, soltando ondas de msica gravada, reggae e 
mbaqanga,(1) para o trfego, transportam pretos para trs e para 
a frente entre os bairros perifricos e a capital trazem agora 
uma estranha carga de brancos. Os comits de rua da cidade 
satlite avisaram de que essa era a melhor forma de os fazer 
entrar, pois a prpria natureza dos veculos dava o sinal s 
pessoas de que estes enviados do exterior do cerco eram 
autorizados.
Atravs dos subrbios brancos. Passando relvados de bowling onde 
silhuetas que parecem colegiais adultos com bons de pala se 
ajoelham sobre as bolas; passando a fantasia de Robin dos Bosques 
de um clube de arqueiros; as exclamaes de parceiros habituais 
de tnis de domingo em jardins particulares; os folhos de nylon e 
os fatos pretos da congregao saindo de uma Nederduitse 
Gereformeerde Kerk,(2) e as raparigas com armrios cheios de 
roupa que preferem andar descalas e com calas de ganga rasgadas 
na coxa. Passando portes controlados electronicamente encimados 
por guias de gesso, muros com espiges de ferro e arame farpado 
no topo, por trs dos quais caudas de pavo de gua se abrem 
sobre flores e pssaros cantam. Paz de domingo. Se no fossem os 
nomes das cidades satlites e as moradas dos proprietrios das 
carrinhas pintados nos veculos, a coluna podia ser tomada por 
uma excurso de caridade a caminho de um piquenique. De vez em 
quando  obrigada a abrandar por pessoas que fazem jogging e vo 
ficando para trs sem darem por isso.
Cavaleiros mecnicos - veculos de viseira descida blindados a 
ao e revestidos por uma cota de malha grossa - barravam o desvio 
para a cidade satlite.


*1. Ritmos africanos. (N. da T.)
2. Igreja Reformada Holandesa. (N. da T.)


99


Na frente deles havia polcia montada e militares com espingardas 
automticas e carabinas R4, de p com as pernas afastadas.
Para a maior parte dos brancos dentro das carrinhas, os carros 
amarelos blindados, os toscos carros castanhos blindados a que os 
pretos chamam zoomorficamente hipoptamos, as figuras 
impassveis com o poder da morte nas suas mos estavam alinhadas 
como os brinquedos de guerra que as crianas montam. Ou era como 
se algum subitamente carregasse no boto de um selector de 
canais de televiso e aparecesse uma cena de alguma mini-srie. A 
violncia era uma manifestao to pouco convincente que a sombra 
da cabea de algum que atravessasse a sala era o suficiente para 
a eclipsar. Bom, agora, podamos ver os plos do brao de um 
polcia. Mesmo que a pessoa do banco do lado se levantasse; 
quando voltasse a sentar-se, os carros blindados, as armas da 
polcia estavam l. Os cabos de ao das antenas balouavam ao 
sol. Os lobos-de-alscia - em tempos animais de estimao 
adorveis e bonitos, agora de caudas baixas e enroladas em 
posio de ataque - eram armas presas  trela nos punhos dos 
polcias.
Toda a gente tinha sido instruda sobre o modo como se comportar. 
Cada carrinha tinha o seu chefe. Aceitar a provocao da polcia 
com calma, deixar as conversaes para os que tinham sido 
indicados para o fazer. Algumas pessoas saam para esticar as 
pernas, provando que no tinham medo, e eram mandadas de novo 
para os seus lugares. Advogados e lderes dos direitos civis 
entre os grupos estavam a conferenciar com os camaradas da cidade 
satlite que tinham vindo ao encontro da coluna num velho carro 
americano com a suspenso em baixo. Outros estavam a negociar com 
a polcia. O grupo separava-se e voltava a juntar-se, 
afastavam-se para se aproximarem de outros, voltavam a correr. O 
grupo deslocava-se ao sabor das discusses, percorrendo toda a 
extenso do bloqueio, sem conseguirem entender-se entre si; era 
uma pantomima que as pessoas fechadas nas carrinhas se esforavam 
por interpretar, espetando o pescoo. Olha para aquilo! Aquele 
polcia a ameaar com o punho! No vs? Ao lado daquele 
hipoptamo. Est a bater-lhe, ele bateu-lhe! Oh, meu Deus... No, 
no, no, ningum foi ferido! Olha-me s para aqueles 
brutamontes, aquele era capaz de puxar o gatilho com a mesma 
facilidade com que se est a coar... Oh, no te preocupes, eles 
pensariam duas vezes antes de atirar sobre ns, ns somos 
brancos...

100


O major ou l o que  est a ir-se embora. O que  que se est a 
passar? No, no est, est s a dar instrues. Esto a prender 
algum! Quem? No consigo ver - oh, meu deus,  o Dave! O Dave 
Seaton. No, no  o Dave...
O alarme e a excitao desvaneceram-se em impacincia e um novo 
tipo de aborrecimento: era possvel estar aborrecido numa 
situao extraordinria? Numa das carrinhas uma freira leiga de 
soquetes oferecia gua de uma garrafa de plstico e ouvia-se o 
barulho de papis de pastilhas de hortel-pimenta a serem 
desembrulhados. A diferena  que, se fssemos pretos, estaramos 
no mnimo a cantar. Bem, vamos a isso! Disseram-nos para no o 
fazermos... Cantar! No cantar! Bem, canes de liberdade podiam 
ser uma provocao... Quem  que sabe a letra... Alguns 
estudantes sabiam, pertenciam  nova gerao que aprendia com os 
pretos. Mas canes de liberdade precisam de volume, e as pessoas 
mais velhas da igreja e dos movimentos de direitos civis s 
podiam participar com um sorriso de solidariedade.
Uma jovem da organizao corria para cima e para baixo com o seu 
walkie-talkie. Tudo nela estava em movimento, o cabelo comprido, 
os seios e as sandlias de tiras de borracha a saltitar, 
rodopiando, em contraste com a polcia plantada com armas nos 
seus postos. Ofegante e sorridente esticava-se para as janelas de 
cada carrinha.
- Eles dizem que no podemos entrar. Mas o Allan e o Dave 
mostraram-lhes o estatuto, no  contra a lei, eles no nos podem 
impedir!
Saltava e afastava-se antes de as perguntas lhe chegarem. As 
pessoas tagarelavam fazendo suposies; no silncio de outros 
ocultava-se desapontamento, ou alvio. Quem  que podia saber, 
olhando para as suas caras? Passados uns minutos a rapariga 
estava outra vez de volta, puxando o cabelo para cima com os 
dedos abertos.
- Eles dizem que vamos ser mortos. Vamos entrar por nossa prpria 
conta e risco.
Ela estava a lutar contra a sua prpria exaltao. Desatou s 
gargalhadas. As pessoas da carrinha levantaram-se dos seus 
lugares - mas ela j tinha desaparecido. Alguns saltavam para 
fora das carrinhas e agrupavam-se numa troca de boatos e 
opinies, temeridade e prudncia. Os organizadores corriam como 
ces de rebanho entre os grupos, fazendo-os voltar para as 
carrinhas. Ningum se sentava onde se tinha sentado antes, toda a 
gente queria chamar a ateno,

101


eu penso, eu disse, eu acho... E depois os advogados fizeram a 
ronda. Fez-se silncio.
- Decidimos avanar. Os camaradas dos comits de rua vo 
escoltar-nos, tm muitos mais camaradas das suas fileiras l 
dentro e estaro connosco durante o percurso todo. Mas se algum 
sentir, por causa da famlia ou de quaisquer outras 
circunstncias, que no pode ignorar o aviso da polcia, deve 
sentir-se livre de nos deixar agora. H transporte para aqueles 
que desejarem voltar para a cidade. Por favor. E no ficar 
marcado por qualquer estigma, seja qual for a razo da sua 
escolha... Garanto-vos. Nenhum de ns tirar quaisquer concluses 
erradas. Por isso...
Mas no era possvel a ningum arranjar coragem para se levantar 
e ir embora; no havia medo que os levasse a isso. Houve um 
momento de respirao contida. E depois todos os rostos se 
viravam para ele:
- Vm?
E a companhia aplaudiu; aplaudiram-se uns aos outros, a si 
prprios. Se nunca mais voltassem a encontrar-se, cada um teria 
aquele momento de amor-prprio ratificado entre eles. Os 
hipoptamos, a polcia, soldados, cavalos e ces, armas, abriam 
um caminho. Os condutores pretos que tinham estado a conversar e 
a fumar com o destacamento de observadores contratados, 
habituados a lidar com a polcia todos os dias, saltaram para 
dentro dos seus veculos e conduziram os seus passageiros para 
onde muitos deles nunca tinham estado antes.
Para o outro lado da savana.
Hannah estava numa das carrinhas.  claro que ela j tinha 
atravessado a savana a partir de muitas cidades, 
cidades-satlites e povoaes, muitas vezes antes. Ela estava 
calmamente sentada na iluso que os culos-de-sol do de que se 
est por trs deles numa espcie de esconderijo, podendo pensar 
naquilo que  mais secreto, certamente, entre todos os 
pensamentos secretos das pessoas  sua volta - a sua ansiedade de 
saber se Sonny tinha ou no escapado  polcia ao escolher outro 
caminho para entrar na cidade-satlite, e - o mais inimaginvel 
de tudo, para aquelas pessoas cujos ombros estavam a tocar os 
seus - aquilo que o homem que ia falar-lhes junto das sepulturas 
representava para ela. Por isso a experincia para ela era 
seguramente diferente do que poderia ser para qualquer outra 
pessoa. Ela j tinha encontrado a interferncia da polcia muitas 
vezeS antes,

102


ela era uma das estrelas de cinema deles... se um polcia a 
reconhecesse (ela tirou os culos-de-sol) no conjunto de brancos 
da coluna, ficaria a saber que o ex-preso poltico que ia falar 
junto das sepulturas era o amante dela. Por vezes acontecia que 
havia aquele louco ar de confirmao nos olhos deles quando os 
dela se encontravam com os de um homem vestido  civil.
As carrinhas mergulharam na cidade - no vale onde a 
cidade-satlite tinha proliferado ao longo de trs geraes - e 
na densa presena humana de domingo, quando toda a vida que se 
encontra dispersa do outro lado da savana nas zonas industriais e 
na capital durante a semana volta a concentrar-se. Estava toda a 
gente em casa, em casa, nas ruas; a habitao sem barreiras, as 
paredes rachadas das casas a transbordar de moradores, as 
vedaes a ameaar runa com os seus componentes - lata, jantes 
de carros, tbuas podres - apanhados em montes de lixo totmicos. 
Os fatos-macaco dos operrios eram as bandeiras hasteadas, 
estendidas a secar em forma de cruz com os logotipos de 
companhias de construo e fbricas de bebidas no alcolicas 
bordados nelas, o batuque de tambores no adro da igreja martelava 
atravs da confuso dos anncios da rdio e dos cantares roucos 
da cervejaria. A coluna passava s cegas sobre os escoadouros que 
eram as ruas e tambm sobre os parques de areia para as crianas, 
os rios dos esgotos, o cho coberto de comida dos porcos, 
galinhas e ces.
Se o caminho no estava demarcado por valetas ao longo de 
passeios, como os brancos estavam habituados a ver, ele era 
definido por pessoas que corriam em direco s carrinhas e se 
juntavam de ambos os lados da estrada. Uma avenida de caras 
pretas olhava atravs das janelas, aproximando-se muito, de forma 
que as carrinhas tinham de andar ao ritmo do passo destas pessoas 
para no as esmagar debaixo das rodas. No era nenhum passeio 
para um piquenique. Os brancos viram-se de imediato rodeados, 
observados, observando os rostos daqueles pretos que tinham 
apedrejado condutores brancos na estrada principal, que tinham 
tirado o controlo daquele stio das mos da autoridade branca, 
que se recusavam a pagar pelo direito de existir nas runas 
decadentes da guerra de desgaste contra a presena deles 
demasiado prxima, do outro lado da savana; estas pessoas que 
matavam colaboradores da polcia, na sua impotncia de impedir 
que a polcia lhes matasse os filhos. Uma coisa era ler acerca 
deles nos jornais, mostrar empatia em relao a eles, do outro 
lado da savana;

103


Hannah sentiu o medo dos seus companheiros como uma subida de 
temperatura dentro do veculo. Abriu a janela do seu lado. Em vez 
de pedras entraram mos pretas, encontraram e tocaram primeiro as 
dela e depois as de todos os que iam l dentro que estendiam as 
mos para eles. As janelas foram abertas. Os passageiros 
empurravam-se uns aos outros pela bno das mos, o toque de 
salvao. Alguns nunca viram as caras daqueles cujos dedos 
seguravam por um momento antes de o andamento da carrinha separar 
as mos agarradas. Na multido l de fora surgiam de repente 
rostos radiosos a dar as boas-vindas. Ouviam-se os gritos 
Amandla! Viva!(1) e havia alegria quando eram repetidos pelos 
brancos, e ouviam-se as entoaes nostlgicas das saudaes dos 
velhos tempos, nkos de pessoas demasiado velhas para entender 
que aquilo, concedido aos brancos, representa agora uma 
vergonhosa servido. Na sorridente confuso dos bbedos de 
fim-de-semana a procisso de brancos era parte das iluses que 
suavizavam as realidades da semana de trabalho, e que faziam o 
improvvel parecer possvel. A multido comeou a cantar, claro, 
e toyi-toyi, meio dana, meio procisso ao longo da coluna, entre 
os punhos erguidos da maior parte das pessoas que estavam nas 
carrinhas, e houve uma espcie de embaraado cumprimento papal ou 
real que foi a graciosa resposta dos outros.
No cemitrio Hannah viu-o. Sonny, o detido numa cela, a 
personalidade poltica, o suave amante - todas estas pessoas 
estavam presentes para ela ao v-lo. Estava com o seu amigo, o 
padre Mayekiso, e alguns jovens brancos da Campanha pelo Fim do 
Recrutamento. Enquanto admirava os negros cabelos frisados de 
Sonny, agitando-se sobre a sua cabea com o vento poeirento, 
avanando com o grupo das carrinhas sobre campas esquecidas, 
tropeou numa cpula de plstico partida com flores de papel e 
foi rapidamente apanhada e levantada por um homem preto de roupas 
rasgadas e sujas: desculpe, desculpe. Estavam todos ali, aqueles 
que tinham seguido a coluna, e os que afluam vindos de todos os 
lados da cidade para o cemitrio. O fumo das fogueiras a cozinhar 
ao entardecer pairava com o seu incenso acre sobre eles. As 
campas velhas e as cruzes derrubadas desapareciam sob os ps dos 
vivos. Pararam junto de nove montes recentes. Hannah queria dizer 
- mas apenas a ele, ali ao p com o padre Mayekiso - isto ainda 
no so campas, ainda no,


*1. Grito que incita  unidade usado nos comcios do ANC. (N. da 
T.)


104


 demasiado cedo, so leitos, com a forma de corpos adormecidos 
com uma suave cobertura desta terra vermelha, macia, sobre as 
cabeas. Ela sabia que os jovens ali enterrados tinham entre 
quinze e vinte e seis anos; no sabia o que fazer com a sua 
emoo. Retirou alguns lrios do ramo que tinha comprado e 
distribuiu-os pelas pessoas  sua volta.
Os pretos estavam habituados  proximidade. Nas filas de espera 
para os transportes, para as cartas de trabalho, para a 
distribuio de casas, para todos os papis timbrados que 
autorizavam as suas vidas; enlatados dentro dos comboios e 
autocarros superlotados que os levavam para c e para l atravs 
da savana, encaixando uma famlia numa nica diviso, eles no 
conseguem guardar o limite de espao - uma outra pele, invisvel 
- que os brancos projectam  sua volta, distanciados uns dos 
outros em tudo excepto na intimidade sexual e com os pais. Mas 
agora no cemitrio as pessoas das carrinhas tinham-se afastado 
umas das outras e da aura espacial que instintivamente 
conservavam, e tinham sido integradas num nico, vasto e vibrante 
ser juntamente com o povo da vila. A freira estava encostada ao 
peito de um homem. Uma criana preta, com o seu pequeno pnis nu 
a baloiar debaixo da camisa, colou-se  perna de um professor 
universitrio. O perfume francs de uma mulher e o suor de um 
bbedo fundiam-se como se um nico hlito exalasse deles. E no 
entanto no era alarmante para os brancos; na verdade, o antigo 
medo de proximidade, dos cheiros e do calor de outros corpos 
tinha desaparecido. Um essencial corpo de corpos estava a inalar 
e a exalar numa nica distole e sstole, e por cima estava a 
liberdade do extenso cu aberto da tarde.
A um gesto de algum, os brancos voltaram a cabea; na colina no 
lado do cemitrio oposto ao da vila, tinha-se reunido a fora 
inteira de polcias e soldados. Os blindados amarelos e os 
hipoptamos castanhos formavam um horizonte, a cavalaria  frente 
deles, e na primeira linha, a infantaria. Mas estes j no 
estavam impassivelmente estacionados como no bloqueio da estrada. 
Estavam meio inclinados, as espingardas e metralhadoras apontadas 
na direco deste corpo, o corpo do ajuntamento. Os pretos no se 
deram ao trabalho de olhar.
A polcia, misturada com recrutas armados dos quais a maior parte 
das vezes no se distinguia, porque frequentemente usavam o mesmo 
fato de camuflagem, estava acampada h semanas nos campos de 
futebol da cidade.

105


No havia maneira de lhes escapar. Eles eram vida; e morte. 
Tinham assassinado a tiro os nove rapazes que jaziam nas campas 
onde a terra ainda no tinha assentado.
O padre dizia oraes em twsana e pedi, e hinos, estandartes de 
som, eram lanados para os cus, sobre as linhas de batalha na 
colina. Um dos jovens brancos que tinham recusado recrutar-se 
para se juntar queles, e que estavam dispostos a ir para a 
priso por causa dessa deciso, explicou  multido a razo por 
que os brancos tinham vindo juntar-se ao povo da cidade-satlite. 
Estamos aqui para vos mostrar que os brancos no tm de vir para 
matar. Vimos partilhar a vossa raiva e tristeza pelo assassnio 
destes nossos irmos. Vimos dizer-vos que no faremos parte do 
exrcito ou da polcia que vos fazem estas coisas. A traduo do 
intrprete para uma das suas prprias lnguas desencadeou canes 
de liberdade entre as pessoas mas os camaradas do comit de rua 
conduziram habilmente a sua transformao em hinos; os 
espectadores armados na colina no podiam ter nenhum indcio de 
que este ajuntamento fosse subversivo.
Hannah conhecia o discurso de Sonny. Isto , ela conhecia o seu 
pensamento, a sua maneira de expressar uma linha poltica de 
certo modo indo to longe quanto possvel,  sua maneira, que em 
parte tinha sido desenvolvida nas suas longas conversas com ela, 
em parte provinha de alguma fonte dentro dele tal como o mar est 
no sangue humano desde o tempo em que os seres humanos eram 
criaturas de um outro elemento. Ela no o conhecia ali no seu 
antigo elemento, nem ele se podia dar a conhecer a ela. Talvez 
tivesse mesmo vergonha desta base por ser demasiado ignorante e 
simples; no podia saber que ela a observava nele como uma 
qualidade que a atraa para ele mais do que tudo o que 
partilhavam. Ela guardava para si algo que nunca diria a ningum, 
certamente no a ele - o mistrio dele: Ele  um homem bom.
Sonny vestia a camisa beringela tingida  mo que ela lhe tinha 
dado e a cor forte acentuava a escurido dele - ningum podia 
dizer que Sonny no era suficientemente preto para ser o 
porta-voz do povo, fosse em termos de pele ou de aces! Quando 
ele falava agora de detenes e priso, ele tinha l estado; 
quando falava agora da morte dos nove jovens vtimas da 
brutalidade da polcia, ele prprio tinha-se arriscado a uma 
morte semelhante na sua prpria vida. A existncia dele dava-lhe 
segurana a ela: era isso que autoridade significava, no era a 
autoridade das armas na colina. Se utilizava o vocabulrio da 
poltica,

106

porque certas palavras e frases eram cdigos que toda a gente 
entendia - no era necessrio nenhum intrprete, mesmo no ingls 
em que eram formulados eles aumentavam ao ouvido de cada um para 
acolher o significado das suas prprias frustraes, necessidades 
e desejos -, Sonny no adoptava os maneirismos habituais que esse 
vocabulrio produz. Ele no tinha uma forma calculada de estar de 
p ou de utilizar as mos, quando os olhos de uma multido 
estavam postos nele. Quando fazia alguma pergunta retrica, os 
seus olhos, todos pupila na sua intensidade, dirigiam-se, como 
que numa conversa vulgar, para uma pessoa em busca da reaco que 
influenciaria as suas prprias reflexes. Quando fazia uma pausa 
antes de explicar um ponto, no ficava atrapalhado com o momento 
que criava, confiante de que haveria uma aceitao deste, e 
utilizava um gesto, mais em jeito de ajuda para clarificar o 
pensamento, utilizado em discusses privadas - talvez virando a 
palma da mo para cima e olhando para baixo para traar nela um 
movimento circular com o polegar da outra mo. Tambm tinha o dom 
da espontaneidade, trazendo para o seu prprio discurso a sua 
reaco aos oradores anteriores, de modo que o que dizia nunca 
parecia preparado antecipadamente, mas sim que lhe ocorrera a 
partir dos seus colegas e da vitalidade da multido na sua 
frente. Observando Sonny, ouvindo Sonny, ela sentia por fim que 
podia definir sinceridade, tambm - era nunca falarmos a partir 
de uma ideia nossa. E franqueza: franqueza, algo perigoso e 
bonito. Os subterfgios de um amor ilcito tornavam a franqueza 
das suas emoes possvel; os subterfgios da resistncia 
tornavam a franqueza possvel numa sociedade mentirosa. Sonny 
disse uma vez que aquilo a que os opressores chamam subverso  a 
denncia da podrido no Estado.
Qual  o significado da morte dos nove camaradas a que hoje 
prestamos honras? Nove jovens que ainda mal tinham crescido para 
serem homens mas que foram homens na sua resistncia queles que 
vos tm cercado e aterrorizado nas vossas casas. Estes jovens 
camaradas e milhares de outros que tm sido assassinados por 
agentes do apartheid, pela polcia, pelo exrcito, os 
witdoeke,(1) deram  luta a sua parte do futuro que a luta vai 
ganhar para ns. Eles nunca partilharo com todo o nosso povo a 
prosperidade do pas,


*1. Caciques brancos. Em africnder no original. (N. da T.)


107


em vez de trabalharmos para dar a treze por cento da populao o 
nvel de vida mais elevado do mundo, enquanto a maioria do povo 
no consegue alimentar os seus filhos. Eles nunca sabero o que  
sair de guetos como este e ir viver para onde h electricidade e 
gua corrente limpa em casas decentes. Eles nunca conhecero o 
tempo em que os nossos doentes j no ficaro deitados no cho de 
hospitais do apartheid, enquanto h enfermarias cheias de camas 
vazias em hospitais para brancos; em que os nossos velhos pais e 
mes j no tero de morrer fome com penses que so uma migalha 
das que os brancos recebem. Eles nunca conhecero a educao 
nica e aberta para todos, independentemente da cor ou raa, a 
nossa educao democrtica ser instaurada e eles no sabero que 
o sistema de trabalho migratrio, que agora separa maridos e 
mulheres, pais e filhos, e que criou as prostitutas, as crianas 
das ruas sem casa, e o alastramento da terrvel doena chamada 
sida, ser um horror do passado. Eles nunca caminharo sobre a 
nossa terra, a nossa terra restituda ao povo, em vez de serem 
mandados embora depois de um dia de trabalho para montes de lixo 
urbanos como este e para bairros de lata rurais criados em reas 
do nosso pas a que deram nomes tribais e chamam foreign 
states.(1) Eles nunca vivero no pas unitrio, no racial e 
democrtico que a nossa luta vai criar. Eles morreram sem 
liberdade; mas morreram pela liberdade. Pela nossa liberdade. 
Ouvimos que um jovem camarada no est l em cima na colina a 
apontar-nos uma arma, embora seja branco. A presena dos nossos 
camaradas brancos da capital aqui hoje  certamente prova de que 
os nove morreram tambm pela liberdade deles. Eles morreram pela 
liberdade de todo o povo deste pas que quer ver a opresso 
destruda e que esto dispostos ajuntar-se  luta do povo para o 
conseguir. esse o significado da morte dos nove, para ns.
Quando jovens como estes morrem  habitual falar de uma morte sem 
sentido. Sente-se raiva por uma vida ser to curta e brutalmente 
acabada. Bem, para os que dispararam e assassinaram estes nove 
jovens camaradas na semana passada, estas so realmente mortes 
sem sentido, porque esta matana, e todas as outras matanas do 
nosso povo nos guetos e nas prises, no nos impedir de ganhar a 
nossa liberdade. Esse , para este governo, o significado da 
morte dos nove jovens camaradas que aqui jazem enterrados.



*1. Estados independentes. So na realidade bantustes, 
territrios pseudo-autnomos da Repblica da frica do Sul 
reservados para o desenvolvimento separado da populao de raa 
negra que habita na zona. A independncia destes territrios s  
reconhecida pela Repblica da frica do Sul. (N. da T.)


108


essa a mensagem. So mortes sem sentido porque nenhuma 
quantidade de mortes significar que a opresso do nosso povo 
pode ser mantida. Nenhuma violncia contra ns pode matara luta 
pela paz e pela justia.
Quantas destas palavras voaram com o vento at  formao na 
colina no se sabe, mas a litania de gritos de liberdade que 
interrompeu Sonny em determinados pontos (ele sabia quando fazer 
uma pausa para isso) de certeza que sim. A orao final do padre 
Mayekiso no conseguiu, por um minuto ou dois, silenciar os 
gritos que ainda vinham daqui e dali. O men que ressoou 
profundamente atravs da multido, parecendo faz-los inclinar-se 
sobre as campas. Os camaradas mantiveram-nos afastados; fez-se 
silncio. Rajadas de vento esculpiam os montes de terra macia. O 
silncio vinha de l, l de baixo fora do tempo, de forma que 
Hannah no sabia se durou segundos ou minutos, s sabia que ao 
longo desse tempo ela no tinha tido conscincia dele, de Sonny, 
ele no existira nesse tempo. E ento a freira avanou e 
ajoelhou-se na terra, pousando uma flor. Uma densa fila irregular 
passou lentamente ao lado dos nove montes com as suas chapas 
numeradas brilhantes de novas. O povo da cidade-satlite 
espalhava-se por todo o lado  procura de flores. As crianas 
pequenas achavam que eram presentes para elas. Os lrios de 
Hannah foram pousados por muitas mos. Rapidamente os montes 
ficaram transformados por um encantador disfarce temporal; cores 
e fragrncia e ptalas que no durariam. Ela viu Sonny outra vez. 
Estava a entregar a rosa da sua filha aos mortos. Olhando-se 
furtivamente atravs das campas, tomavam conscincia da sua 
atitude de desconhecidos.
A multido comeou a rarear junto s orlas, afastando-se 
lentamente das campas. As crianas pequenas corriam com o tesouro 
da sua nica flor. Os jovens estavam a cantar Ns saudamos-te, 
Mandela, chama-nos, Mandela... ao ritmo de uma cano de marcha, 
brandamente harmnica em vez de vibrante, afastando-se dos mortos 
com respeito. Hannah e os outros brancos seguiram o seu caminho, 
fluindo com as pessoas, as pessoas que dispersavam, a vida que se 
escoava para fora do cemitrio. Algures l atrs, Sonny, o padre 
Mayekiso - o grupo oficial - eram apanhados de surpresa por 
elementos dos comits de rua e velhos e bbedos que queriam 
segurar as mos deles para receberem a vaga bno que 
acreditavam emanar das pessoas importantes. Ento, uma espcie de 
tremor ssmico fez-se sentir atravs da multido agrupada.

109



No se ouviram gritos mas toda a gente comeou a chocar uns 
contra os outros, alguns pararam abruptamente: l do alto, 
descendo a colina, os homens com as armas apontadas vinham a 
correr sobre eles. A larga corrente de pessoas desfez-se numa 
correria confusa com os jovens a fugirem  frente. Enquanto 
corriam, as pessoas puxavam por panos que tiravam da sua roupa, 
pelos doek(1) das suas cabeas, e atavam-nos aos narizes e bocas. 
Os brancos andavam a passo largo e com embarao: no estavam 
habituados a ter de fugir de nada nem de ningum. Uma tola ideia 
de dignidade, uma pouco convincente noo de coragem inibia-os. 
Nem mesmo Hannah tinha experimentado aquilo para que os pretos, 
com aqueles trapos que acompanhavam as suas pessoas como 
proteco contra o gs lacrimogneo, da mesma forma que os 
brancos trazem sempre cartes de crdito, estavam preparados 
todos os dias. Latas explodiam na cauda do agrupamento; a nuvem 
de gs venenoso perseguia-os e um tiro - para o ar, talvez 
disparado casualmente pela polcia ou pelos soldados ao tentarem 
abrir caminho atravs do lixo e das moitas - foi como o estalar 
de um chicote em cima deles.
Hannah era jovem e as suas fortes pernas sardentas conseguiam 
correr depressa, mas um doloroso travo de resistncia lutava 
contra o instinto. Ela queria parar as suas pernas; parava e 
corria, parava e corria, esbarrando no caminho dos outros, 
olhando para trs, olhando para todo o lado. Ento, ouviu-se um 
grito; a polcia tinha penetrado dentro da multido, longos 
gritos de terror eram interrompidos pelas slabas secas dos 
tiros, um som duro como o ao que voa e perfura carne e osso, 
atinge o corao que est prestes a rebentar com o esforo de 
fugir e a garganta de onde se ergue o grito. Ela estava a correr 
para trs, para os lados, empurrada para o lado, s vezes 
agarrada por algum determinado a ir numa direco, respirou uma 
baforada do gs, o vento tinha-o empurrado para a colina, os 
olhos dela lacrimejavam e l estava ele, l estava Sonny, os seus 
brilhantes caracis pretos, a faixa das sobrancelhas sobre uns 
olhos desesperados semelhantes a buracos negros na sua cabea. 
Ele agarrou o brao dela de tal modo que quase o arrancou da sua 
cavidade; ela pensou que estava a chorar por ver Sonny, as 
lgrimas do gs lacrimogneo eram diferentes.


*1. Leno branco amarrado  volta da cabea usado pelas negras - 
em africnder no original. (N. da T.)


110


- Vai para a carrinha! Vai para a carrinha! Vai!
Ela puxava-o para no o deixar, ele empurrava-a; e ento entre 
tiros e gritos ele comeou a correr com ela, a correr como se 
estivesse acorrentado a ela. As pessoas corriam a toda a 
velocidade e voavam para os seus abrigos na cidade. De l vinha o 
olhar espantado de centenas de outras pessoas amontoadas em cima 
dos muros, dos telhados, l longe, o murmurar das suas vozes era 
um lamento tumultuoso. Mayekiso apareceu ao lado de Sonny e 
Hannah. Com os braos levantados, estava a gritar, salmodiando na 
sua prpria lngua; as pessoas irrompiam por todos os lados 
passando a correr pelo representante do crucificado, mas nada 
podia expulsar o seu medo. Houve um tiro igual a todos os outros 
tiros: desta vez um jovem caiu virado para baixo no caminho de 
Sonny, Hannah e do padre Mayekiso. As pessoas soltavam gritos 
agudos e recuavam, debatendo-se para fugirem do stio que se 
tornara um alvo; uma nica mulher caiu de joelhos ao seu lado, 
gritando o seu nome, esforando-se por vir-lo. Apareceu sangue a 
brilhar atravs da carapinha preta e, quando ela lhe mexeu, o 
sangue correu, tapando o slogan da sua t-shirt do sindicato, Uma 
ofensa a um  uma ofensa a todos.
Recebendo encontres por todos os lados, Sonny e Hannah foram 
empurrados para a frente, tentaram resistir, voltaram-se 
debatendo-se para furar caminho para onde o rapaz estava 
estendido. Mayekiso estava com ele, a mulher batia no cho 
histericamente. Viram isto num segundo e no seguinte ficou 
obliterado pela avalanche das pessoas em fuga, apareceu outra 
vez, desapareceu. Eles estavam a tentar caminhar contra a 
corrente de ombros, costas, braos que se agitavam 
descontroladamente, e agora ouviam-se os tiros estoirando mesmo 
ao lado das suas cabeas. Sonny de repente ps-se a olhar para 
ela como se estivesse a fazer uma terrvel descoberta. O seu 
rosto estava desfigurado pela angstia e incoerncia. Empurrou a 
cabea dela para baixo com o brao levantado e correram, correram 
para longe com a multido.
No carro de Sonny, Hannah sentou-se arquejando, saliva aos cantos 
da sua boca aberta.
- Os outros vo andar  minha procura... a carrinha no parte sem 
mim.
- Os condutores viram-nos. Eles dizem-lhes que foste com outra 
pessoa.
- Receio que eles pensem que me aconteceu alguma coisa.

111


Ele no respondeu por um momento. Deixou cair a sua cabea nas 
mos, sobre o volante. Depois voltou a si.
- No te aconteceu nada, Hannah.
A mo dela tinha uma marca lvida no stio onde ele tinha 
apertado.
Ela tinha a certeza, como os amantes imaginam nesses momentos, de 
que iria reviver a sensao daquele aperto at ao fim da sua 
vida.



O que  que ela andava agora a dar-lhe  socapa? O que estavam a 
dizer no corredor? No tm nada a esconder de mim, agora. Ela no 
tem o direito de falar com ele nas minhas costas.
Fui  janela da cozinha e ento vi - ah, ela deu-lhe o saco de 
viagem, ento era disso que se tratava. Vi-o atirar o saco para 
dentro do porta-bagagens antes de entrar no carro.
A minha irm empurrou o meu prato para longe de mim quando eu 
voltei para a mesa.
- Para que  que andas a espi-lo? O que  que pensas que ests a 
tentar fazer, meu, a insinuar... Eu nunca a pedi.
-Ah, eu sei que ests muito feliz por receberes subornos, ele 
deixar-te sair e ir viver fora de casa. Deixares a mam. 
Deixares-me com eles.
- Se s assim to puro, porque  que a aceitaste, ento! - Outra 
vez a mota.
- Deixa-me em paz. Tu no moras c. S vens beij-lo todo e 
trazer os teus malditos vestidos para a me coser como se fosse 
tua criada.
- Ouve, meu. O teu problema  que nunca mais cresces. Ah, um 
grandalho com plos no queixo, mas um caso de... de paragem de 
crescimento. Voluntria.
Agora  que eu no conseguia evitar rir-me da minha irm, como  
que eu podia dar-lhe a satisfao de a levar a srio?
- Caramba, onde  que descobriste isso? Arranjaste um namorado 
novo que estuda Psicologia? Ou ser Medicina?  esse gnero de 
tretas que discutes com os teus amigos da discoteca? Ena, ena.
- Tu no tens amigos,  esse o teu problema. Andas por a 
carrancudo pela casa. Obcecado. - Ela fez uma pausa, ameaadora,

113


com os olhos fixos, insolentemente abertos e postos em mim, para 
dizer: - H mais coisas para alm da famlia.
- Pois h, fumar marijuana e dormir por a e cravar toda a gente. 
No acredito que trabalhes sequer metade do tempo. No sabemos o 
que andas a fazer.
A agressividade dela caiu como uma arma deposta.
- Tens razo.
Perguntava-me o que  que se passava com ela. Sentou-se a partir 
as cdeas que tinha deixado; a mim, a me obrigava-me sempre a 
comer as cdeas. O pensamento veio-me de maneira surpreendente, 
sensatamente:
- No ests grvida, pois no, Baby?
Ela riu-se da maneira afectada que tinha adoptado desde os 
catorze anos, atirando o cabelo e a cabea para trs como fazia 
quando estava com um homem - incluindo at eu.
- Claro, que outra coisa podias imaginar que me acontecesse! Oh, 
Willizinho! - Eu ri-me, tambm, de alvio; pela minha me.
Mas quando a minha me entrou acabada de sair de no sei que 
discusso com o meu pai antes de ele sair numa das suas 
importantes misses (h tantos funerais, tantas purificaes de 
sepulturas entre os pretos, que ele tinha uma boa oportunidade 
de ir-se embora com este libi de domingo) eu no olhei para ela, 
para que ela no pudesse ver a minha repugnncia. Ela sabe - ns 
sabemos - que se eu me torno reservado ela fica desamparada - no 
 que eu possa guiar a minha me, sou demasiado novo e ignorante 
para isso, mas a minha ateno  um pouco como uma vulgar 
lanterna velha de bolso que eu seguro, andando s arrecuas  
frente dela enquanto ela tenta manter-se no seu caminho sob a sua 
luz. Nessa manh de domingo eu no consegui faz-lo. Eu sei o que 
estava dentro do saco de viagem. Quando ela no est em casa - e 
ele est quase sempre fora - espio as coisas deles.  uma forte 
compulso; tem de ser forte porque uma das regras de respeito que 
ele ensinou  Baby e a mim foi nunca abrir gavetas ou ler cartas 
de outras pessoas. (Como resultado, costumvamos denunciar-nos um 
ao outro quando roubvamos os brinquedos ou livros um do outro, 
dando ocasio para uma outra lio de tica contraditria, acerca 
de no trair. A nica coisa que ele me deixou para descobrir por 
mim mesmo foram as suas prprias contradies.)

114


Ela guarda o saco de viagem dentro da mesinha-de-cabeceira do 
lado dela da cama - coitada, deve t-lo ali mesmo ao lado para 
poder deitar-lhe a mo mal ele seja chamado a meio da noite. Na 
prateleira de cima esto os cremes com que ela cuida da pele - 
para ele. Eu costumava sentir o perfume das mos dela quando 
vinha ao nosso quarto - meu e da Baby, na casa de Benoni - quando 
um de ns tinha um pesadelo. No saco de viagem ela guarda pasta 
de dentes e uma escova nova ainda no invlucro, lmina e 
sabonete, cuecas lavadas, meias, pijama, um pulver. A lista  um 
cdigo dos seus medos de que ele possa ser levado da prxima vez, 
como foi da primeira, sem ter meios para se manter limpo - os 
meios de amor-prprio, to importantes para ele - e quente: o 
pulver-os meios de amor, para ela, quer isso seja importante 
para ele ou no. E ela d-lhe o saco de viagem para ele levar 
juntamente com aquela pasta! Como  que eu podia olhar para ela.
Eu podia sentir a sua consternao perante a minha rejeio, 
ouvir os seus esforos timidamente determinados em reconstituir, 
para sua filha e filho e para si mesma, um calmo domingo, 
demorando-se ao pequeno-almoo, servindo ch a si mesma, 
perguntando num murmrio se algum queria outra fatia de po 
torrado. Mas Baby estava de olhos fixos nela, eu vi a Baby 
respirar fundo para comear a falar, duas vezes, pestanejando, 
antes de o fazer de facto. E quando o fez, eu olhei rapidamente 
para a minha me, pelo menos eu estava com a minha me quando a 
Baby falou.
- Me, quero dizer-te uma coisa. No quero voltar a pregar-te um 
susto...
Aila encontrou o saco de viagem no porta-bagagens do carro quando 
quis l meter um saco de batatas que tinha comprado. Retirou a 
escova de dentes nova, a pasta de dentes, a toalha, o sabonete e 
as roupas e guardou-os onde estariam para o uso dirio: os 
artigos de higiene no armrio da casa de banho da famlia, as 
roupas do marido no roupeiro comprado a prestaes em Benoni - 
tinha feito parte das sadas familiares ir fazer o pagamento 
regular com o salrio do professor, no primeiro sbado de cada 
ms.
Ele observava o que Aila estava a fazer, andando de um lado para 
o outro, esvaziando o saco de viagem.
-  surpreendente que ela te tenha dito quando eu no estava.

115


Aila no conseguia meter o espesso pulver numa gaveta j cheia. 
Estava a dobr-lo outra vez lenta e cuidadosamente.
- Depois de eu ter sado, quero dizer.
Aila calcou o pulver dentro da gaveta e fechou-a.
- No sabias j. - Era uma afirmao. Ela olhou para ele com um 
ar definitivo.
- Se eu soubesse, no te teria dito!
Que coisa para deixar fugir da boca - como se ele lhe contasse 
alguma coisa, agora.
- Como  que eu podia saber? O que  que queres dizer com isso? 
No achas que eu tive alguma coisa a ver com isso! Ou achas?  
isso que achas?
Aila estava de p no meio do quarto. Era ridculo - Aila, to 
calada e digna e inofensiva -, mas ele sentiu que no conseguia 
passar por ela, se tentasse sair ela atravessar-se-ia na sua 
frente.
-  o gnero de coisa que eu pensei que tu sabias.
- Bom, no sabia. Quanto menos os grupos sabem das actividades 
dos outros melhor. Mas tu sabes perfeitamente disso, tu sabes. 
Particularmente em matria de recrutamento para actuar no 
exterior. As pessoas com quem trabalho no lidam com esse tipo de 
coisas. H outras. Ela deve ter estado com elas, talvez durante 
todos estes meses, e ns no sabamos. Foi bem ensinada, no h 
dvida. No te quis envolver: a ns. - Fez uma pausa 
ansiosamente; mas no havia nada a partilhar com Aila, ali de p. 
- Uma rapariguinha esperta, afinal.
- Talvez ainda a possas ver. No saberemos quando ela vai.
- Queres que a convena...
Aila abanava devagar a cabea, inclinada para um lado, no em 
sinal de negao mas de dvida quanto ao sucesso dele.
Ele sentiu um impulso de correr o risco de falar com Aila, falar 
verdadeiramente com ela, sentia tudo a fazer presso contra o seu 
diafragma: fala, fala.
- No sei o que hei-de sentir em relao a isto, a isto tudo.
- No se trata do que tens de sentir em relao a isto, mas como 
sentes.
- Acho que no consigo acreditar. A Baby. Portanto no sinto. Ela 
tem estado fora de casa, tenho saudades dela por causa disso, 
tenho tido saudades dela o tempo todo, no  a mesma coisa... sem 
ela... E agora no vai estar presente, por outra razo. - Mas 
tudo o que ele estava a dizer

116


parecia ser outra coisa; calou-se com uma falta de respirao 
semelhante a um gemido. Sentia-se em grande perigo; um passo para 
se afastar de Aila, Aila...
Ela agarrou no saco de viagem vazio e comprimiu-o debaixo do 
brao direito. Estava  espera; mas seria apenas a sua 
delicadeza, que nunca tinha sido negligenciada, mesmo nos tempos 
de intimidade deles? Aila, Aila. Uma terrvel tentao de lhe 
rasgar as roupas, desfazer-se em lgrimas, penetr-la, 
destruir-se to seguramente quanto a sua Baby podia ter feito 
quando cortou os pulsos.
- No ests muito abalada, Aila? O que eu podia fazer era... Eu 
podia tentar conseguir que ela no tenha de se meter em nada 
demasiado arriscado... Mas tu pareces estar a encarar as coisas 
bastante bem...?
Ela olhou para ele com uma grande tristeza no rosto. Ele nunca 
tinha visto aquela cara antes, embora soubesse que a tinha 
merecido. E agora havia a dor que ele no podia ter a certeza se 
era por causa dele.
- No  to mau como da outra vez.
Aila, Aila, o que  que ela disse. Da outra vez, ele no estava a 
fazer um discurso num cemitrio, estava na cama com a amante. Ele 
recordou-se da nica coisa que tinha encontrado para dizer a 
Aila. Vai ficar com cicatrizes? Agora ela acredita, acredita 
mesmo, acredita mesmo, que ele transformou a filha numa 
revolucionria, que a mandou para o exlio, para viver num 
acampamento, para nunca mais voltar para casa, talvez para morrer 
mesmo no tendo sangrado at  morte da outra vez. Foi ele que 
fez isto, embora fosse verdade que ele nem sequer sabia que ela 
se tinha alistado na ala militar do movimento. Essa verdade no  
toda a verdade.
O perigo deixou-o. O seu corao hesitava a cada batida. Aila 
saiu com o saco de viagem debaixo do brao e ele saiu atrs dela. 
Ela guardou o saco no armrio da entrada onde punham jornais 
velhos, utenslios de limpeza e as malas baratas onde tinham 
mudado as coisas que possuam para a cidade. Ele agarrou na pasta 
e foi ter com Hannah, a necessidade de Hannah.
Uma tempestade assolava o cu. Lanava raios sobre eles na tarde 
escura e afastava-se, arrastando enormes acumulaes de trovoada.

117


Assim tinham adormecido: o olhar dele estava fixo nos lrios. 
Flores que ele lhe tinha comprado a um vendedor de rua no dia 
antes de aquilo ter acontecido - a purificao das sepulturas. Na 
semana passada tinham sido rosas. Rosas vermelhas, enroladas como 
guarda-chuvas; as rosas tm o cheiro do sexo, disse ela, os 
lrios tm a forma: ele descobria todas estas delcias enquanto 
estava com ela. Aproximavam-se um do outro, sob sentidos 
amplificados.
Nenhum dos dois estava j a dormir, mas ainda no se encontravam 
suficientemente acordados para falar. Quando ele chegou ao chal 
dela a sua disposio transformou-se: a perda da sua filha - o 
seu totalmente inesperado empenhamento na revoluo - tinha-se 
tornado uma fonte de orgulho e at de excitao.
- Sozinha! Ela tomou a grande deciso sozinha! A minha menina!
Esta constatao libertou-se subitamente de onde tinha estado 
oculta, com Aila; pela prpria existncia de Aila.
Hannah ficou emocionada - e orgulhosa, por ele, tambm. As 
emoes de Hannah eram as do mundo do empenhamento que os dois 
partilhavam, emoes alteradas, por circunstncias adversas, para 
possibilitar a uma pessoa lidar com toda uma ordem de situaes 
no includas nas questes familiares. Hannah tinha confortado 
aquela mesma rapariga, agora a caminho de um campo de treino dos 
combatentes da liberdade, quando ela era uma criana chorosa no 
julgamento do pai; confortara-a no como uma me, no, mas como 
uma camarada que nunca  uma estranha para a angstia de outra 
pessoa (de Sonny). Havia um filamento de continuidade desde 
aquele dia at hoje. Com Hannah ele sentia aquilo que devia 
sentir. A sua Baby j no era a frgil filhinha de um professor. 
Aila tem de perceber que j no estavam a viver humildemente na 
casa que lhes fora designada nos arredores de Benoni...
A sua grande emoo em relao a Baby evoluiu para um desejo 
entre Hannah e ele e no houve qualquer conflito a contamin-lo 
porque para ela - da a necessidade de Hannah - a felicidade 
sexual e o empenhamento poltico eram um s. Fizeram amor meio 
vestidos e adormeceram.
Ao acordar ele relacionou impresses desconexas e reminiscncias, 
enquanto os olhos permaneciam fixos nos lrios. A rosa de Baby.

118


O esplendor das ptalas e das folhas nas sepulturas. Hannah... a 
voz dela, um dia quando estavam a conversar, a criticar algum do 
movimento...
- Mas talvez toda a aco provenha da auto-preservao, 
paradoxalmente? Se algum estiver a afogar-se e eu saltar para o 
salvar, o que  que est por detrs da minha compaixo (que - 
tudo bem - dispara a minha coragem, porque estou assustada)? No 
ser o medo de que se eu me estivesse a afogar algum pudesse 
passar e ignorar-me Com um aperto  volta do corao ele foi 
subitamente acordado (o brilho intenso da lmpada que o vigiava 
na priso) e atirado para aquilo que tinha sido completamente 
evitado pela preocupao com a Baby. Que no tinha vindo  
superfcie, nem em palavras nem nos silncios, antes de terem 
feito amor e adormecido. O homem atingido com a bala caiu de novo 
 frente deles, e o prprio corpo de Sonny obedecendo a 
princpios que lhe tinham sido instilados, desde os velhos tempos 
do gueto de Benoni, voltou-se para o levar para trs como 
pudesse, atravs da multido, para levantar o homem cado, e 
ento uma bala passou junto  cabea dela a no mais de um 
centmetro do seu cabelo loiro e ele desobedeceu e correu com 
ela. Mayekiso estava ao p do homem; a estrutura ssea da testa 
de Mayekiso brilhava sob o suor, a persistncia daquela imagem 
irrelevante era uma confirmao de como aquilo tinha realmente 
acontecido. O homem estava provavelmente morto, de qualquer modo. 
E Mayekiso parou morto,(1) como diz a expresso, ningum pensa 
no sentido que ela pode ter, e podia ter sido morto a tiro 
enquanto estava ali debruado sobre o homem morto. Por sorte (por 
vontade de Deus, como Mayekiso, que trazia consigo uma cruz, 
acreditava) as balas no acertaram em Mayekiso, tambm, embora 
ele no se tenha virado.
Os princpios defendidos desde os velhos tempos do gueto de 
Benoni. No viver para si mesmo, etc, etc. No viver s para si 
mesmo, era essa a qualificao. Ela no era ele mesmo; nem ela 
nem o homem que caiu. A outra - a outra vida, exterior a si mesmo 
- era qualquer deles. Correr ou parar: uma escolha a fazer. Quem 
 que podia dizer qual era a mais acertada?


*1. Traduo literal da expresso idiomtica stopped dead que 
significa imobilizou-se. (N. da T.)


119



Mas esta mulher com a mo enroscada contra o seu pescoo no era 
ela ele mesmo, a sua necessidade?
Tinha-se salvo a si mesmo.
Agora ele tinha algo que nunca contaria a ningum, certamente no 
a ela.
Para qu, se ela interpretou aquilo presumidamente como uma prova 
de amor? Um triunfo de fmea. Que consequncias  que isso teria 
para ele? No seu julgamento de si mesmo. Na sua crena de que ela 
no era como qualquer outra mulher e que a relao deles era 
formada numa moralidade especial e diferente: a dolorosa 
renovao do significado do amor na luta, que fazia com que ele 
celebrasse um tipo particular de separao da sua prpria filha.
Mas o esprito dela emergiu na periferia do dele, talvez atravs 
do contacto dos seus corpos, sem adivinhar o que ele estava a 
sentir ali ao lado dela, mas isolando instintivamente o perigo no 
seu contexto.
- Quando as pessoas fazem da violncia a derradeira prova de quem 
est certo e de quem est errado, nesse caso, tu sabes o que eu 
quero dizer, a luta no  melhor do que a opresso, porque a 
violncia dos oprimidos nunca pode ser justificada, rebaixa-os 
ao nvel do opressor e por a fora... as pessoas assim so to 
ingnuas... eu quase diria inocentes. No quero dizer que isso os 
desculpe. Mas pairam como bebs que no sabem o que esto a 
dizer, porque no viveram o suficiente para relacionar as 
palavras com a realidade dos actos. A maior parte dos brancos no 
viveu aqui, no viveu o que a vida  realmente aqui... se 
definirmos a vida de um pas pela experincia mais geral. Se eles 
pudessem ter estado l no outro dia, s por um momento, ter visto 
a polcia a descer sobre ns, sem nenhuma razo, estvamos todos 
a ir embora, de qualquer modo... limitaram-se a disparar, e trs 
pessoas mortas... Aquele homem, morto. Se eles pudessem l estar 
quando acontece, apenas uma vez, e acontece sempre todos os dias 
em qualquer stio. Eles compreenderiam porque  que as pessoas 
matam informadores com quaisquer armas que tenham  mo.
Ela tinha-lhe oferecido uma passagem segura para o mar aberto da 
generalidade.
- Sim, mas  mais do que isso. Se defines quando  que a 
violncia  uma necessidade, ento ests a aceitar que no se 
pode passar sem ela neste mundo. E isso  difcil de aceitar, 
mesmo aqui, mesmo agora.
- Oh, Sonny, pelo menos sabemos uma coisa quando somos
forados, no nosso ntimo, a aceit-la. Sabemos que a habilidade 
das instituies militares  escamotear o facto de que a guerra  
sangue, agonia, podrido e merda. Foi sempre assim. A alta 
tecnologia do jirmscor(1) de que o Magnus Malan se gaba. A 
maravilhosa sofisticao do ltimo assassino, como  que se 
chama, o Rooikat, o tanque que eles dizem ultrapassar em alcance 
e potncia tudo o que os russos e os americanos tm feito. O 
grandioso exrcito de Napoleo arrastando-se, batendo em retirada 
de Moscovo, com os ps congelados. Os japoneses esfolados vivos 
pela coisa que foi lanada sobre Hiroxima.  essa a famosa 
tradio militar. As nossas guerras, as guerras de guerrilha com 
a sua atamancada improvisao puseram fim  mentira. Acabaram-se 
as partidas para o combate com uma charanga  despedida. Se 
explodes juntamente com a bomba que ests a colocar, s a polcia 
 que vai apanhar os bocados. V at os assaltantes de avies e 
os que tomam refns: eles disparam sobre as suas vtimas ou sobre 
si prprios quando so vencidos; ou fazem ambas as coisas. No 
passa de sofrimento. Qualquer tipo de guerra, qualquer um. Por 
isso, ao menos, se temos de aceitar a violncia, sabemos o que 
estamos a fazer, no andamos a enfeit-la. Eu acho que isso 
ajuda.
- A mim no. Eu nunca pensei aceitar a violncia, mesmo que no 
tivesse de a praticar eu prprio... Mesmo que outros o fizessem 
por mim. Eu sento-me em reunies, eu participo em decises em que 
 tida por certa a contraviolncia... a nossa violncia... tem o 
seu papel absolutamente necessrio.  assim que se chama, um 
papel;  o que eu lhe chamo. Como numa pea; e eu no estou a 
representar esse papel particular mas estou no elenco.
- Eras capaz de a praticar tu prprio?
Mas era um mistrio; Sonny no podia sequer dizer que no sabia. 
Um mistrio que o professor no tinha considerado, sonhado, 
durante o perodo em que, afastado da induo, ele andava 
filosoficamente a meditar sobre o mistrio extra-religioso do 
poder: o poder da vida e da morte. Ele podia ter dito apenas: 
tudo o que eu tive foi a coragem de ser uma vtima. At agora.
Uma aberta na chuvosa tempestade fez brilhar cada prega dos 
lrios. Pareciam ser de mrmore branco molhado, com os pistilos a 
despontarem de uma sombra esculpida.


*1. Indstria de armamento estatal. (N. da T.)


120 - 121


- No tm cheiro. - Ela estava a lembrar-se da rosa da dele.
Agora ele agredia-a.
- Como  que podes saber, fumas tanto. Um longo momento de paz 
entre eles.
- Eras capaz de me fazer parar?
- Como? Se me dissesses como.
Ela virou-se sobre o cotovelo, no seu modo habitual, ergueu-se 
para ver de novo o sorriso negro, os traos vincados rodeados de 
caracis pretos, os olhos em busca de alguma floresta da 
imaginao que ela tinha descoberto pela primeira vez atravs da 
barreira das visitas numa priso.
Para ele, a carne do rosto dela era um pouco descada, 
enchendo-lhe as bochechas. Os olhos dela... tendo vivido toda a 
sua vida entre suaves olhos escuros, ele nunca deixava de reparar 
na estranheza do azul, resultado do modo como a sua percepo 
fora treinada.
- Diz-me.
- No sei. S tu  que podias descobrir.
Descobrir onde? Nos seus seios pendentes que se moviam 
ritmicamente sobre ele, nos seus plidos lbios grossos, nos 
plos cor de alga debaixo dos seus braos e no caracol, 
semelhante  onda penteada para cima na cabea loira de um beb, 
sobre o stio onde ele a penetrava? Em nenhum desses stios. Em 
outro lugar, nele prprio.
Embora falassem muitas vezes da famlia dele, ela raramente 
falava do ex-marido; isso acontecia porque, e ele entendia, ela 
s raramente pensava nele. Neste momento ele tinha vindo  
superfcie da mente dela.
- Dereck bebia... muito. Ele queria escrever qualquer coisa, 
sempre quis faz-lo, e ento, quando j estava farto da 
advocacia, tentou. Foi interessante de ver. Bastava beber e isso 
- parecia, no sei - dilatava a sua sensibilidade. Dizia coisas 
maravilhosas. Dizia-me o que ia escrever. Mas no dia seguinte 
desaparecia tudo. Aparentemente, quando se bebe tem de se 
escrever imediatamente aquilo que se obteve. Trata-se de uma 
breve chama no crebro. Desaparece mal o lcool arde todo. Ele 
no conseguia lembrar-se no dia seguinte. Nunca chegou a escrever 
aquilo. Eu vi como a bebida destri a memria; abre uma porta e 
depois fecha-a. Era assustador.
- Tu no conseguiste que ele deixasse de beber.
Sozinha, por hbito, a mo dela agarrou no mao de cigarros

122


no cho ao seu lado, tirou um e colocou-o na boca, depois, num 
segundo de confuso, retirou-o e pousou-o acanhadamente na 
almofada.
- No. Estava tudo acabado. Eu no consegui descobrir como.
Mo podia fazer nada por ele.
Sonny ficou apavorado; e dessa fria lama que o sugava a nica 
fuga era rejeitar o ressentimento - mulheres, aquelas duas 
mulheres com a sua capacidade para ferir, para ameaar. E a 
inocente capacidade desta de ser simplesmente necessria, 
pousando a sua calmante boca sobre a dele, agora, de modo que ele 
se contorceu num emaranhado de roupa de cama para se deitar sobre 
ela.

123


Eles esto mais orgulhosos da Baby do que de mim. At a minha 
me. Ela chorou quando recebemos uma mensagem de Lusaka 
informando-nos de que Baby tinha partido, Baby estava l, e eu 
no sabia o que fazer a no ser o que se v na televiso: pus o 
brao  volta dela e dei-lhe palmadinhas no ombro. A mensagem 
veio atravs dele, um dos seus contactos, mas ela s chorou 
quando ele saiu de casa. E no voltei a v-la chorar.
Ganhei trs distines e um carto de estudante universitrio, e 
ele vai arranjar-me uma bolsa de estudo atravs dos seus 
companheiros de viagem brancos. O que  que eu vou estudar 
(quando deixamos a escola, os adultos perguntam-nos isso, j no 
nos perguntam com um ar condescendente o que  que vamos ser); 
ele no diz nada, eu sei que ele tem esperana que eu faa uso 
das suas velhas obras completas, mas eu concorri para a Faculdade 
de Comrcio. Serei um comerciante instrudo com uma licenciatura 
de uma escola comercial, que tal, um comerciante, na tradio de 
alguns dos familiares da minha me que tm barracas de fruta e 
legumes e impingem aos pretos produtos estragados. Qual  a 
diferena?  negcio, o mesmo que o grossista que lhe deu emprego 
por caridade, e o grande apoiante da causa que s vezes vem a 
nossa casa - aquele que ganhou a sua fortuna com a venda de 
roupas de trabalho s massas exploradas que ele e o meu pai vo 
libertar -, ele fornece aquelas camisolas castanhas que vemos 
sobre o peito das enfermeiras pretas.
Os meus pais queriam dar uma festa para comemorar o meu xito. E 
ser que pensaram em convidar a amante loira dele?
Ainda temos os grandes lanches ocasionais da minha me para as 
tias e primos e as duas avozinhas da nossa antiga casa nos 
arredores de Benoni - os meus dois avs j morreram. Se j no 
existe nada entre a minha me e ele,

125


por alguma razo no consigo compreender porque  que eles 
colaboram neste manter de aparncias. Ele esfora-se para estar 
presente nesses dias. Pergunto-me o que dir aos seus camaradas 
se precisarem dele, pergunto-me o que lhe dir a ela quando o 
espera naquela sala onde os seus soutis e cuecas sujos esto 
espalhados. (A minha me passa a ferro as nossas camisas, as dele 
e as minhas, e dobra-as to bem que parecem ter acabado de sair 
da loja.)
Eu tambm tenho de estar presente nessas tardes de sbado. 
Digo-lhe que acho que vou a qualquer lado, s para ver o seu 
rosto encantador dando-me total ateno, confirmando que, sem 
mim, ela fica abandonada - mas  claro que no vou. No vou fazer 
o que a sua filha fez, deix-la a chorar.
A conversa de famlia  roda de bolos e biscoitos de fantasia 
envolvidos em coco  constituda por perguntas e respostas - que 
idade  que tem este agora, se aquele casou, se fulana de tal 
teve um beb, onde  que fulano de tal mora - que chegam a 
concluses banais: que bom, ai sim, que maravilha, oh, que pena. 
E onde  que est a Baby, Aila? No vamos ver a Baby, ai da 
ltima vez que a vimos estava a ficar mesmo muito bonita, 
encantadora, n, estou-te a dizer, disse  ma, tvamos a ver 
uma fita, aquela actriz no  a cara chapada da Baby de Aila...
A minha me tem a sua resposta pronta. A Baby est fora. No 
estrangeiro.
No estrangeiro! Ah, isso  bom. E os mais velhos, orgulhosos do 
nosso ramo da famlia superiormente instrudo e com uma vaga 
noo de que os stios para aprender so designados de uma vez 
para sempre tal como a Montanha o  para o Sermo, Meca para a 
Pedra Negra (segundo as suas crenas religiosas), pensam ter 
ouvido que Baby est em Londres ou mesmo na Amrica - pois se se 
seguir outra pergunta, e o que  que ela est afazer, o meu pai 
responde: a prosseguir os seus estudos.
E assim foi a minha me que disse a mentira, no ele. Ele estava 
a dizer a verdade, Baby est a aprender o que  necessrio, no 
nosso tempo e para o nosso lugar no mundo. Ele  um professor - 
embora saibam que ele esteve na priso devido s suas actividades 
polticas, a maioria acredita sem dvida que ele ainda pratica a 
profisso que eles respeitam como o ponto culminante da 
realizao intelectual - e perante a resposta dele sentem-se como 
passeantes junto aos portes,

126



que se abrem sobre as espaosas avenidas a perder de vista na 
paisagem imensa onde eles jamais entraro, enquanto ele e os seus 
filhos desaparecem livremente em longnquas perspectivas.
Eles no falam como ns (como  que podiam, no tm tido um 
professor em casa para lhes corrigir a gramtica), e na famlia 
do lado do meu pai bebem muita cerveja -  essa a sua maneira de 
se divertirem. A nossa casa desperta durante uma tarde para o 
corrupio para trs e para a frente a caminho da casa de banho, as 
inocentes gargalhadas grosseiras, os gritos de alegria e os 
queixumes chorosos das crianas, as risadinhas dos namorados de 
mos dadas, o ruidoso sectarismo do futebol e a troca de 
receitas. Eles so a nossa gente, eles so aquilo que ns 
podamos ter sido: os nossos pais  que melhoraram a sua 
situao. Baby e eu. Como  que se podia comparar o meu pai com o 
tio Gavin, que veste de um modo galante, mesmo em casa, o seu 
chapu de palha com a faixa de padro colorido, aquele homem cor 
de mel, astuto, de vista apurada, rindo amavelmente e descobrindo 
uma extenso de gengivas vazias, que cumprira tempo pelo trfico 
de carros roubados que passava para a Suazilndia e que teve 
lucro suficiente para se estabelecer no seu negcio de 
transportes? Cumprir tempo no  s um eufemismo para: cumprir 
uma sentena de priso, coisa que o meu pai fez:  uma atitude 
completamente diferente em relao ao sentido da vida. Eu vejo 
isso, quando os nossos parentes esto connosco - ou melhor, 
quando ns estamos com eles. O meu pai foi para a priso por eles 
- por estas tias e tios e primos e midos que vivem l no gueto 
de onde ns vimos. E eu vejo que o meu pai gosta realmente deles 
- mais, ele respeita-os, no os abandonou por nenhuma ambio 
prpria. Ele no tem carros e camies para alugar como Gavin, 
para mostrar pelo tempo que cumpriu. O que  que eu hei-de fazer? 
Quando vejo o meu pai assim, tal como quando me sento, sem que 
ele alguma vez tenha sabido, no fundo de uma sala, quando ele 
est a fazer um discurso, eu amo-o - de novo; esqueo tudo. A 
minha me, a mim prprio; aquela mulher.
Os nossos familiares ficam circunspectamente impressionados com 
esta casa onde vivemos ilegalmente numa rua entre os brancos. O 
primo Vyvian (a nossa gente d muitas vezes nomes extravagantes 
aos filhos, um privilgio que aqueles que no tm importncia 
entre os brancos podem ainda assim reclamar),

127


que foi criado na mesma casa com o meu pai, cheio de cerveja, faz 
um discurso aos homens, assumindo uma atitude imaginada dos 
filmes degangsters apesar de ser repositor num supermercado.
- Ouve, minha linda, deixa que te diga: Sonny vai fazer uma boa 
coisa por ns, ek s...(1) uma boa coisa. - Ele olha pasmado  
volta da arcada sobre pilares estilo colonial na entrada para a 
nossa sala de estar, mas as pretenses imperiais de um 
proprietrio branco que viveu aqui, muito antes de a vizinhana 
ter descido de nvel o suficiente para ns nos arriscarmos a 
mudar para c, no representam os objectivos que, gaguejando, ele 
tenta exprimir na sua bebedeira de frustraes. - Nada de merdas, 
minha linda. No vou aguentar isto toda a vida, ay.(2)
- Faz isto porque sim, no faz aquilo porque no. As coisa vai 
ser muito diferente. Eles no vai ficar de rabo sentado 
enquanto eu esfolo o meu por cento e cinquenta dlares por 
semana. Yesuss!(1) Nem por sombras, minha linda, e eu estou-te a 
dizer... uma boa coisa. Deixem-nos ir aonde eles quer, ns 
chegamo e metemo-los fora. Ay, Sonny, nada de merdas, ay, uma 
boa coisa por ns.
Deixa-te disso homem, Vyv, caramba, v l, que boca to grande. 
Pra com isso velho Vyv, ele  bom homem.
Mas o meu pai mantm firme o brao do homem ignorante e 
desnorteado com quem partilhou a cama (disse-nos isso muitas 
vezes) quando era mido, e agradece-lhe; no  um homem sbrio a 
segurar um bbedo,  uma troca de apoios. Eu no compreendo.
Puxo para trs as argolas de abertura das latas de cerveja 
compradas para a ocasio, sirvo o ch e os bolos por ela. Quando 
me perguntam o que estou a fazer, digo que vou estudar para a 
universidade. Entre os brancos: claro.  o que eles esperam do 
filho de Sonny. Sonny foi sempre o mais esperto, o que iria 
longe. E a minha me mostra a cozinha s mulheres; elas ficam 
cheias de uma inveja admirativa, podem ver como ela tem sorte, 
sempre teve, to requintada, uma verdadeira senhora, e 
merecendo-o, escolhida por Sonny, destinada a ir longe com ele.
Foram-se todos embora, a representao acabou. Ele saiu do cinema 
para a fulgurante luz do dia; e para mim.
Imagine-se o prestgio que ele tira disso entre os camaradas,


*1. & 2. Eks... e ay: Interjeies de expresso oral. Em 
africnder no original. (N. da T.)
3. Yesuss! (Jesus!) Em africnder no original. (N. da T.)


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sua filha fugiu do pas para se juntar aos combatentes da 
liberdade. Dedicada, na tradio do seu pai, que recentemente 
escapou por pouco  morte, segundo diziam os jornais, quando a 
polcia carregou sobre uma cerimnia funerria onde ele estava a 
falar. Sonny a figura popular da poltica de resistncia, cujo 
paradeiro  muitas vezes desconhecido j que por vezes  obrigado 
a ficar clandestino. Durante a campanha de boicote a mais umas 
eleies em que podemos votar para pr gente da nossa cor em 
conselhos cujas decises podem ser anuladas pelos brancos, ele 
no dormiu em casa durante a noite porque  o stio e a hora em 
que a polcia iria  sua procura; calha-lhe mesmo bem - ah, mas 
nesse caso suponho que a polcia sabe to bem como eu onde 
encontrar aquela cama grande ali na sala da entrada. E assim ele 
no poderia usar o seu perfeito libi para passar noites com ela. 
Suponho que ela de qualquer modo no o deixava. Ela  aquilo a 
que os camaradas chamariam uma boa rapariga, e eles no querem 
dizer que ela no  fcil com homens. Eles querem dizer que se 
pode confiar nela para saber as prioridades. A minha me no est 
na luta, por isso a minha me no  uma prioridade. Quando ele 
olha para mim como faz por vezes,  suposto que eu me lembre 
disso.
Se a sua amante no fosse uma boa rapariga no fazia mal que eu a 
detestasse.
Consegui que os meus pais me pagassem uma semana fora como 
comemorao do meu sucesso no exame de aptido  universidade. 
Fui para Durban na mota e engatei uma mida na praia no primeiro 
dia. Foi fcil. Algumas das praias esto abertas a todos ns 
agora. Por isso vivi com uma mulher durante seis dias, 
forniquei-a e dormi na mesma cama com ela, e nunca mais quero 
voltar a v-la.
Sonny percebia perfeitamente que estava em vantagem. Aila, sendo 
Aila, no se podia esperar que aceitasse o sacrifcio da filha 
(era assim que ela via as coisas) como ele. Aila no conseguia 
aceitar como ele a escolha de Baby para comear a sua vida; ele 
descobrira em si a fonte de onde vinham as suas reaces, agora: 
o seu empenhamento poltico. Ele percebia muito bem: para Aila, 
era tudo perda. No havia ganho. Embora os seus olhos tivessem 
mudado - ele reparou que as suas plpebras raiadas de escuro 
estavam ligeiramente descidas, ela j no tinha aquele olhar vivo 
da jovem Aila -,

129

ela ainda via o no viver para si prprio em funo das 
actividades extracurriculares de um professor, destinadas ao 
melhoramento social numa pequena comunidade algures do outro lado 
da savana. Ele tinha-a deixado para trs, nesse ponto.
Pobre Aila.
Mas ningum amava Baby mais do que ele, ningum! O rapaz era o 
menino dela; Baby era a menina dele; estas coisas nunca eram 
admitidas na virtuosa conveno da obscura familiazita de um 
professor no dorp guetto.(1) Mas tinha sido sempre assim; j 
nessa altura ele sabia que no era o varo socialmente impotente 
cuja nica contribuio positiva para o seu povo banido  gerar 
outro varo para continuar um nome de famlia. O que  que Aila 
tinha feito para aliviar a angstia dele perante a tentativa de 
Baby de acabar com a vida antes de esta ter comeado? Nada. 
Silncio. Silncio sobre o outro silncio. Conforto e compreenso 
ele tivera de procurar noutro lado. Eu no consegui fazer nada 
por ele. Estava tudo acabado. O flash de percepo de Hannah 
passou subitamente do foco agoirento que tivera para ele na 
altura e arrancou da sua escurido Aila. Acendeu-se sobre ela. 
Aila no conseguia fazer nada por ele. Ele no conseguia fazer 
nada por Aila. Graas a Deus que ela tinha o rapaz. Sendo uma 
decepo to grande noutros aspectos, pelo menos havia isso a 
dizer dele.
Primeiro tinha sido a descoberta de Sonny de que a deciso 
individual de dirigir uma manifestao de protesto de crianas  
apenas um comeo de amador, um sinal meio consciente de que se 
est pronto para aprender a aco poltica disciplinada. Depois, 
nesse processo (e ele mantinha uma f de pedagogo no processo de 
aprendizagem como um processo interminvel) veio a satisfao 
inspiradora da aco que nasce das decises de pessoas com a 
mesma opinio. A seguir, a priso, uma irmandade que aqueles que 
vivem no exterior, livres de perigo, s podem imitar em provas 
fictcias tomando o hbito, fazendo voto de castidade ou 
embriagando-se at ao vmito. Na priso no h outra escolha 
seno a castidade e a absteno. Nenhum sacrifcio nem 
celebrao. Os sinais secretos entre iniciados so mensagens 
batidas com os ns dos dedos para serem recebidas por um ouvido 
encostado ao outro lado da parede. A irmandade de sangue  
firmada quando hinos se elevam


*1. Cidade. Em africnder no original. (N. da T.)


130


de cela em cela para acompanhar um desconhecido at ao cadafalso. 
Sonny tinha ouvido este coro assustador. Ele tinha contado a 
Hannah sobre aquelas manhs negras, enquanto ele e ela estavam a 
acordar ao som do canto dos pssaros. Confessou-lhe tudo sobre 
elas.
- O que  que sente um homem quando aqueles hinos no significam 
nada para ele? O que me aconteceria se eu sasse da cela para 
morrer daquela maneira, sem oraes nem Deus... Fico ali deitado 
enquanto vai amanhecendo...
- Disseram-me que eles cantam canes de liberdade.
- Nessa altura os guardas vm e do pontaps nas portas das celas 
e praguejam. No estou a falar de medo... Normalmente, as pessoas 
como ns nunca pensam nestas coisas porque, no que nos diz 
respeito, os criminosos, assassinos, so enforcados. Ns no. Mas 
aqui, onde os presos polticos so enforcados, quando estamos 
presos e ouvimos os cantos, pensamos em coisas que nunca antes 
nos haviam passado pela cabea.
O processo de aprendizagem continua.
Embora um movimento de libertao se esforce por agir em vez de 
reagir, porque a sua existncia  um fenmeno de oposio ao 
poder, ele  constantemente forado a dar resposta quilo que os 
que esto no poder fazem, a actuar na pressuposio do que o 
poder planeia fazer, e a prever o que pode ou no obter-se 
atravs de qualquer aco. Ter em conta as circunstncias 
variveis  uma doutrina como a do agricultor que tem em conta o 
tempo, e cobre tantos factores quantos os sinais que aparecem nos 
cus, variveis com os quatro ventos. O tardio desenvolvimento do 
sentido poltico de Sonny, lentamente sado de uma pedante e 
subserviente moralidade, permitiu que o seu julgamento nunca 
perdesse o contacto com os princpios, enquanto o seu decidido 
regresso  luta depois da deteno e priso era uma garantia de 
que ele era capaz de um arrojado pragmatismo. Com estas 
credenciais somadas  sua inteligncia e ao seu dom da palavra, 
ele sobressara de entre outros passando para o grupo dos lderes 
de opinio. A, essa combinao de elementos na sua personalidade 
reflectia-se na sua posio: considerado como um dos radicais, 
tranquilizava, contudo, os cautelosos; por intermdio dele 
impunham-se decises numa forma aceitvel para eles. Havia uma 
vigorosa vontade de consenso, prpria de tempo de guerra, quanto 
 estratgia e tctica de atacar o governo

131


e os seus suportes militares e econmicos por todo o mundo, bem 
como no prprio pas.
Os camaradas que eram presos eram imediatamente substitudos por 
outros prontos a continuar o seu trabalho; a permutabilidade de 
liderana vencia vezes sem conta as proibies oficiais e as 
detenes. Sob as incessantes quebras provocadas por um Estado 
persecutrio - ficheiros apreendidos, sedes queimadas, camaradas 
transformados em nmadas polticos a dormir quando e onde podiam 
-, os enormes problemas de organizao de massas continuavam a 
ser debatidos e enfrentados. Como favorecer um eleitorado de 
enxadas e fatos-macaco sem perder a oportunidade de captar as 
pessoas que o governo andava a aliciar com benesses de classe 
mdia a troco dos seus direitos? Como se livrarem de vereadores 
corruptos, protegidos pelo governo, sem que as pessoas tomassem a 
deciso nas mos da sua prpria raiva e os matassem? Como manter 
bons contactos com a juventude e com os comits de rua que usam 
as t-shirts e as cores mas ultrapassam os mtodos de luta 
aprovados e do ao Estado a oportunidade de acusar a liderana de 
incitamento ao assassnio. Que aces - retirada da populao, 
greves, permanncia em casa, boicotes - seriam mais eficazes, a 
serem desenvolvidas onde, em que perodo?
Havia tambm problemas internos. Sonny trazia-os todos para casa 
- ou seja, para Hannah. Hannah fazia inferncias a partir das 
posies que os vrios indivduos tomavam; os dois discutiam 
sobre eles e resolviam-nos juntos. Camaradas que estavam unidos 
numa mesma linha de pensamento por vezes, inexplicavelmente, 
pareciam divergir. Algum de quem Sonny tinha estado seguro:
- Ele no voltou atrs, apenas se desviou para o lado.
Era uma questo de alianas; ele e Hannah estavam sentados no 
exterior do chal, no jardim, que tinham s para si porque as 
pessoas que viviam na casa principal estavam no estrangeiro.
- No posso concordar que devamos encarar cada caso s pelos 
seus mritos enquanto no decidirmos exactamente quais so as 
reas mnimas de acordo poltico necessrias antes de um grupo 
ser aceite. - As narinas dilatadas de Sonny era a sua habitual 
manifestao de tenso. - S quando confrontarmos essas pessoas 
com as nossas exigncias  que podemos avaliar se esto a aderir 
com um empenhamento genuno ou com a inteno de influenciar de 
algum modo os nossos objectivos.  tudo sorrisos e a seguir tens 
um golpe, alis  esse o problema de uma aliana alargada: que 
ns desejamos, que procuramos, que temos de alcanar. Cada 
organizao tem o direito de trabalhar  sua prpria maneira, mas 
isso no significa uma autorizao para se infiltrar e subverter. 
J tm servido esse objectivo, vo tent-lo de novo. No podemos 
passar por isso. No podemos arriscar.
Os seus seios macios subiam e desciam no vestido decotado que ela 
tinha vestido para desfrutar o sol, uma leve maquilhagem coloria 
o seu rosto loiro, mas ele estava espantado com a reaco dela e 
no
avia.
- Acho que isso pode ser um exagero. No  como se este grupo 
representasse um grande eleitorado. Para tentar qualquer coisa 
desse tipo, eles tinham de ter um forte apoio no executivo, 
tinham de ter pessoas com influncia: pessoas prximas de ti.
- Mas  exactamente isso que me preocupa. Porque  que uma pessoa 
do executivo com quem eu discuti a questo toda dos princpios 
vezes sem conta, antes de a situao actual ter surgido, e 
tnhamos exactamente o mesmo ponto de vista, porque  que ele 
hoje no diz nada?
- Mudou de ideias. No significa necessariamente que algum lhas 
tenha mudado.
- Significa sim. Porque sempre fomos to francos, tu sabes, entre 
ns, seria natural que ele me dissesse que tinha mudado de 
ideias. Que dissesse porqu, discutisse o assunto.
Sentou-se direita e ps-se a tirar formigas da manga dele.
- Com quem  que ele estava?
- Com um grupo de pessoas de quem no era particularmente 
entusistico antes. Se  que se pode dizer que estava com eles; 
 o que eu digo, ele atraioou-se por no dizer nada. Suponho que 
isso corresponde a estar com eles.
-  melhor tirares a camisa. Est cheia de formigas, olha. - Ele 
levantou os braos e ela ajudou-o a desembaraar-se das mangas. 
Enquanto ela sacudia e batia na camisa, ele passava a mo para 
trs e Para a frente sobre os plos do peito, metido consigo 
mesmo.
- Toma, meu amor. - Mas ele no segurou na camisa e Hannah 
sentou-se com ela no colo. - No queres dizer o que ests a 
pensar.
- Pois no, no quero. Mas ele  ambicioso... J te tinha dito 
isso antes. Ah, da maneira correcta, quero dizer. Ele acredita 
que podia ser utilizado mais eficazmente,

132 - 133


ele pensa que sabe melhor como lidar com algumas das foras que 
se levantam contra ns. Ele acha que s ele  que percebe dos 
assuntos srios. E ele conhece a mentalidade dos africnderes... 
mas gostava de aparecer nos jornais mais vezes... Sabias? - Ela 
riu-se da relutante constatao que ele fez. - Se ele conseguisse 
reunir apoiantes, uma faco em volta dele, podia simplesmente 
sentir-se justificado para empurrar outra pessoa qualquer para 
fora, nas cpulas. Ela continuou por ele:
- E talvez haja uma forma de o fazer.
- E que forma!  esta a gente que queria apresentar candidatos 
para as eleies do conselho regional! Tnhamos de trabalhar para 
persuadi-los a anul-las.
- Vais falar com ele?
- No quero faz-lo antes de falar com os outros... Se  que h 
outros... entusiasm-los.
- Tem cuidado. Nada de golpes palacianos, mas tambm nada de caa 
s bruxas. Muito menos conduzida por ti.
Nestes dias em que conversavam assim num jardim, no por direito 
a estarem nele mas por calcularem aproximadamente a ausncia de 
outra pessoa, como se os encontros deles fossem clandestinos como 
os outros a que ele tantas vezes ia, no faziam amor. Agora, 
enquanto Hannah continuava, enunciando os pensamentos dele, bem 
como os seus, no seu modo particular, perceptivo, a conscincia 
que ele tinha do lugar onde estava ganhou uma estranha 
intensidade. Era fsico. Ficou sensvel  prpria superfcie da 
sua pele, do seu peito e braos nus, bem como atravs da vista e 
do olfacto, quilo a que chamavam o jardim, pairando sobre ele 
e oprimindo-o. A cor de malva, sem sombras, do jacarand em flor, 
ectoplsmica, junto ao seu rosto, fetos arbreos arejando as 
folhas verdes abertas sobre o tanque forrado de azulejos, com 
folhas de lrio, a nvoa de calor que se evolava da relva 
cortada. Uma paz que lhe entorpecia os nervos, como um zumbido 
nos ouvidos, murmurada continuamente por quaisquer aves de caudas 
cinzentas que se agitavam numa figueira. Quando estava sentado 
com Hannah, o confuso avano do tempo fora detido por momentos. O 
absoluto da existncia: um pinheiro alpino, crescendo acima da 
terra sombria em busca de luz, as pequeninas traas brilhantes 
das primeiras estrelas voando para longe do brumoso esplendor do 
cu - nuvens escurecendo como sombras;

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a rvore do Norte tremendo nas extremidades dos seus ramos cheios 
de penas  medida que ondas de calor solar se desprendiam da 
terra. O alpendre envernizado a vermelho e as janelas de madeira 
apodrecida, o quarto ali, com a cama, as formas caticas, 
desintegradas do quadro - tudo estava parado, como se obedecendo 
ao gesto de uma mo. Durante aquele momento ele v a rvore 
estrangeira, o elemento que como ele prprio no pertence ali, 
inclinar-se majestosamente, seguindo a sua sombra gigante que se 
abate sobre o homem e a mulher neste jardim, agora. No stio onde 
a serra cortou atravs do seu robusto tronco, os anis dos seus 
anos so revelados sob o p de serradura.
Aquilo que estava sensualmente prximo afastou-se subitamente; 
Sonny foi separado de tudo isso e o isolamento da sua presena 
evidencia o seu significado. O domnio de tranquilidade e beleza 
que era pertena de um branco rico, protegido pela verdura dos 
gritos de medo e cnticos de raiva, dos bairros feitos de ferro 
velho e da simetria destroada de corpos assassinados; ele no 
tinha lugar ali. No sabia o que estava ali a fazer.
Levantou-se da cadeira e foi para dentro do chal; para a tal 
nica diviso.

135


Agora h coisas que ele no sabe. Desta vez eu no estava a 
bisbilhotar. Estava sozinho em casa e ouvi uma das mulheres que 
vm das quintas a apregoar milho na rua. O prego dela abriu-me 
um buraco no estmago; quando ramos midos, o milho era um dos 
nossos petiscos favoritos, a minha irm e eu adorvamos todos os 
alimentos que pudssemos segurar na mo e comer enquanto 
brincvamos. Eu ouvi aquele antigo prego MI-LHO VE-EE-RDE, 
atravessando o ritmo reggae dos UB-40 no meu gravador de 
cassetes, e corri l para fora para apanhar a mulher antes que o 
prego ficasse demasiado distante. Ela tirou a saca de cima da 
cabea; toda ela era atarracada e curta, feita para carregar 
pesos - ps descalos sapudos, corpo volumoso, pescoo como um 
fronto, rosto e crnio largos para carregar fardos. To pretas 
que elas eram sempre, aquelas mulheres; de um preto escurecido 
pelo trabalho ao sol, como se a Natureza, que dotou os nossos 
antepassados com o grau de pigmentao adequado para habitar este 
continente, tambm os tivesse dotado com a camuflagem sob a qual 
parecem submeter-se  escravido. Quando somos mestios no temos 
essa proteco. Ela despe as folhas verdes e retira a maaroca 
das espigas, enterrando a unha suja de terra para fazer esguichar 
o leite de uma fiada de gros, porque eu lhe peo milho novo, e o 
seu rosto preto no se identifica comigo, com a minha cor meio 
preta e esta rua meio branca onde ns vivemos como um dos actos 
polticos do meu pai. Ela no sabe que eu tenho alguma coisa a 
ver com ela. Tanta coisa, pela solidariedade dele com o povo.
E depois descobri que no tinha dinheiro suficiente no bolso para 
lhe pagar. Ela tem o mesmo cheiro, a gordura besuntada nas 
bochechas vermelho-escuras e a fumo de fogueiras na roupa,

137


mas o milho subiu de preo desde os tempos de 
Benoni-filho-da-mgoa. Uma das nossas vizinhas africnderes 
tambm tinha vindo c fora para comprar, e ofereceu-se para pagar 
por mim.
- Ora, no te preocupes, podes pagar-me depois, no  nada. 
Quando conseguimos fazer com que um deles faa de ns uma
excepo, no h limite para a sua sociabilidade. A dignidade e a 
beleza da minha me tornam a nossa famlia uma excepo, embora o 
meu pai diga que as excepes no mudam nada, limitam-se a 
sublimar o racismo das multides. Para ele, ns estamos nesta rua 
para desafiar o que  geral.
Voltei a correr a casa para procurar o reservatrio de moedas 
pequenas da minha me, como a minha irm e eu costumvamos fazer. 
Mas no havia nenhum pote na prateleira da cozinha. Ela estava a 
trabalhar e devia ter a mala consigo; pensei que talvez houvesse 
outra bolsa ou dinheiro solto nas gavetas do toucador dela. Eu 
conheo a minha me; os seus lugares seguros para as coisas, 
inocentes, fceis de encontrar. Debaixo do estojo de plstico 
onde estavam arrumados os seus cosmticos havia uma nota de cinco 
rands e um envelope timbrado com o logotipo de uma mquina de 
fotografias tipo passe.
Corri outra vez na direco da preta que estava sentada com 
indiferente pacincia sob a saia de panos e a jovem esposa 
africnder, com as pernas assentes em saltos altos, de braos 
cruzados por baixo dos seios, a sorrir para mim como se eu fosse 
um atleta a correr para a meta. Era mais uma rosa-e-amarelo.
Mas no emancipada, como a outra, no uma visitante de prises ou 
uma amante. Ela cumprimentou-me com um pequeno movimento 
sarcstico do sorriso na direco da vendedora de milho.
- Elas cobram-te aquilo que acharem que podes pagar. Eu 
disse-lhe, cinquenta cntimos cada, no, quarenta cntimos. Por 
isso, no, espera, ainda  demais, s deves vinte por cada uma.
O passaporte do meu pai (ele foi a uma conferncia na Alemanha 
antes de ser detido) foi confiscado, Baby partiu ilegalmente, eu 
nunca tive nenhum. Nem a minha me. Voltei ao quarto deles para 
ver o que  que ela tinha posto debaixo do estojo de cosmtica. 
As fotografias no so como as cartas, toda a gente as pode ver. 
Havia seis. L estava ela, o pescoo na posio que pomos quando 
nos sentamos direitos na cabina quando vem o flash. O embarao 
ligeiramente provocador que aparece na fotografia, porque nunca 
sabemos a
quem, no mundo, a nossa imagem se destina. O cabelo alisado um 
momento antes; usando as suas prolas de cultura.
Aonde  que ela vai? Vai deix-lo? Que ideia louca... minha me! 
Para onde  que podia ir. H um primo contabilista que emigrou 
para Toronto h alguns anos, nos lanches de sbado tivemos 
notcias que ele vai bem.
Portanto no sei nada sobre ela. Como ele, no conheo a extenso 
da infelicidade nela; a devastao deixada por ele e pela sua 
filha.
No tenho nenhuma fotografia da minha me. Se eu tirasse uma 
destas, ela daria pela falta?
Aila tem passaporte. S contou ao marido depois de ele ter sido 
autorizado e emitido.
Ele teve a curiosa impresso de que ela devia ter mencionado, 
dado a conhecer, a sua inteno. Uma folha de papel arrancada, 
metida entre uma pilha de problemas documentados na sua cabea; a 
nova srie de interdies impostas aos seus camaradas tinha 
provocado uma crise e uma remodelao na distribuio de 
responsabilidades.
Houve uma pausa de um momento. A sua mulher decidiu evidentemente 
- decidiram ambos sem um olhar - aceitar o lapso como natural. 
Que ela desse os passos necessrios para o requerimento com o 
mnimo possvel de referncia a ele era o que ele teria 
aconselhado; era como se ela tivesse agido de acordo com isso. 
Aila estava isenta de culpa, inocente. Ela no tinha feito mais 
do que visit-lo na priso como mulher dele e guardar um saco de 
viagem com artigos de higiene, prevenindo uma nova deteno. Mas 
claro que havia culpa por associao, por lealdade. Aila tinha de 
mostrar que no estava envolvida; uma esposa caseira. O 
diminutivo afectivo pelo qual ela conhecia o nico amor da sua 
juventude, o nome ntimo pelo qual as multides o conheciam - o 
alias Sonny dos arquivos da polcia - e no tinha de ser 
encaixado entre o primeiro e o ltimo nome em impressos que 
exigiam o nome de marido. A melhor hiptese de Aila obter um 
passaporte era distanciando-se dele, do seu cadastro, das suas 
actividades, da sua vida.
Uma esposa caseira - e me. Tambm havia a questo da Baby. A 
Polcia de Segurana de certeza que sabia da Baby; mas talvez 
no, os movimentos ilegais de jovens que se presumia serem 
errticos e aventureiros podiam passar despercebidos at, a no 
ser que algum fosse apanhado e revelasse nomes, sob 
interrogatrio.
Sonny sabia onde  que Aila iria.

138 - 139


- E um visto? - Ele falava quase humildemente.
J tinha um; tinha sido tudo arranjado atravs de um advogado que 
ambos conheciam bem. Os advogados tm o hbito da discrio por 
vezes ao ponto do absurdo ou de cometerem uma desconsiderao no 
intencional; ele via esse homem frequentemente, era um 
conselheiro dos sindicatos, e no tinha feito qualquer meno a 
um passaporte para Aila. Bem, o advogado, tambm, tinha outras 
coisas em que pensar. De qualquer modo, era necessrio ter a 
certeza de que Aila tinha estado em boas mos.
Como me e pai de Baby, discutiram acerca de dinheiro.
- Pensei levar algumas roupas. Estou a fazer coisas quentes, 
dizem que l faz muito frio no Inverno.
Sim, ultimamente a mquina de costura tinha de ser afastada 
quando a mesa era utilizada para refeies, j tinha reparado, 
sem atribuir qualquer significado  preocupao de Aila.
- Ela h-de precisar sempre de dinheiro. Onde quer que estejamos 
- impediu-se de citar a sua experincia na priso, a inferncia 
seria alarmante para Aila. - S sabemos o valor do dinheiro 
quando passamos por determinadas situaes.
Ele riu-se, como uma explicao, uma confisso: ele e Aila tinham 
comeado a sua infncia numa situao em que o dinheiro estava 
associado  cobia.
Ele percebia mais de assuntos polticos; eles tinham algumas 
pequenas poupanas que ela levantaria do banco e levaria consigo.
- Quanto  que h l exactamente?
Ela foi buscar a caderneta de poupana e ficaram de cabeas 
juntas a ler os nmeros.
- Oh,  mais do que eu pensava. Tinha-me esquecido dos juros.
Aila estava a sorrir quase como era costume.
- No podes levar isto tudo. Vai exceder o montante autorizado 
pelo controlo de divisas, tenho a certeza. O montante autorizado 
 mais pequeno para pases vizinhos do que para pases de outros 
continentes.
- Como  que eles vo saber? Eu levo o dinheiro em notas.
- Aila... - Tinha voltado  sua actividade de recortar artigos de 
um jornal, passando uma lmina ao longo das colunas.
- De alguma maneira. Eu era capaz.
A impacincia era uma coisa nova nele; como o bigode que tinha
deixado crescer para mostrar que era outra pessoa, agora. Esta 
pessoa ainda tinha responsabilidade sobre ela, apesar de tudo.
- Aila, pelo amor de Deus, no podes fazer as coisas assim. Sabes 
o que  que acontece se fores apanhada? Ests a imaginar-te na 
priso? Vai l visitar a Baby e diverte-te. Esquece o que eu 
disse sobre o dinheiro. Leva os vestidos e no sei que mais. Esse 
tipo de jogo no  para ti.
Ele virava as pginas do jornal sem as ver, depois obrigou-se a 
ler e comeou a carregar na lmina a direito ao longo da margem. 
A sua mo tacteou  procura de uma caneta para marcar a data; ela 
ainda estava na sala, ele sabia-o apesar do silncio - pensou na 
qualidade especial da presena de Aila que costumava sentir 
quando entrava em casa a chamar pelo nome dela.
- Tens tanta sorte em ir ver a Baby.
O que  que ela estava a fazer - a olhar para ele? Virou-lhe as 
costas? Ele no levantou a cabea e a lmina cortava secamente 
atravs das fibras do jornal, um dbil eco domstico das serras 
elctricas que destruram as rvores de onde ele era feito. Mas 
as palavras dele eram to dbeis quanto um eco da inveja 
crescente que ele sentia - da opo dela de se distanciar da 
luta, do passaporte, do direito de ir ter com a rapariga como a 
pessoa que l tinha estado para lhe ligar os pulsos.
- Eu sei.
Era tudo? Tudo o que podia esperar da sua mulher quando estavam a 
falar da sua primeira filha? Quem  que conseguia tolerar a 
tranquila inculpabilidade de Aila!
Ele ouviu os seus passos, saltos altos tocando no cho antes de 
as solas baixarem com leveza, e pensou que ela tinha sado da 
sala. Mas ela tinha feito uma pausa.
- Gostava que pudesses ir.
Com ela? Com Aila? Sozinho? No lugar dela? Aila nunca teve grande 
gosto por viagens, no sabia como lidar com as questes oficiais, 
tinha at achado difcil falar na presena do guarda dele.
Ou ela preferia que ele no tivesse feito tudo o que tinha feito, 
tudo aquilo de que ela jamais o acusaria ao rapaz, a Baby, a ela 
- de modo que no seria s a sua falta de passaporte, o seu 
empenhamento na aco poltica que lhe retiravam o direito de 
estar no lugar dela.

140 - 141


Ser por minha causa?
Desde que a minha me est fora que ele anda a passar mais tempo 
em casa. At foi buscar o tabuleiro de xadrez. Temos jogado 
juntos algumas vezes. Mas eu sou cuidadoso. No sei no que  que 
ele pode estar a tentar meter-me, desta vez. Fao o jantar para 
ns. Uma vez arranjei coragem para dizer uma coisa:
- No tens nenhuma reunio?
Ele esperou um momento, mostrando-me que sabia, estritamente 
entre ns, a minha verdadeira pergunta, e respondeu:
- No. No tenho nenhuma reunio. Vou estar em casa.
Fui imediatamente buscar o capacete e as chaves da mota e 
espreitei com a cabea pelo meio da porta:
- Bem, vou sair.
Ele estava a ouvir o disco de que gosta tanto, uma abertura 
qualquer de Mozart, ele pensa que s tem de montar o cenrio e 
ficamos a fazer qualquer coisa de educacional juntos ou ficamos a 
ver futebol na televiso, o paizinho e o seu rapaz. Mas ele 
tambm sabia que eu no ia a lado nenhum.
Quando cheguei a casa, tarde, as luzes ainda estavam acesas. 
Pensei que ele estava a p  minha espera e atravessei o corredor 
directamente para o meu quarto. Mas a apercebi-me de que havia 
vozes, vozes de homem, dentro de casa. Tornaram-se mais audveis 
- a sua insistncia, a conversa cruzada -, quem quer que fossem 
saram da sala de estar e pararam na entrada. Ouvi o som da porta 
da frente a ser fechada e trancada por ele, o chiar dos sapatos e 
os rudos amortecidos dos seus movimentos, arrumando as coisas, 
apagando as luzes. Bateu  minha porta. Outra vez atrs de mim. 
Eu no disse entre, disse, sim?
Ele olhou lentamente  roda do meu quarto. Suponho que tinha 
passado um ano, ou mais, desde a ltima vez em que ele l tinha 
estado. Vi formar-se uma ruga  volta dos olhos, afirmao mais 
do que reconhecimento, perante o que eu tinha guardado, e depois 
ele entrou e ficou parado um momento, a cabea para trs, como se 
estivesse numa galeria de arte, no no quarto do filho, em frente 
de um pster de um deserto.  novo. Apenas espao. No sei que 
deserto, nem onde - esperava que ele no estivesse a pensar que 
eu lhe dissesse.
Ele sentou-se na ponta da minha cama e o seu peso apertou os 
cobertores sobre os meus ps, senti-me preso.
- Afinal houve uma reunio. Aqui.
O meu pai tem um sorriso to maravilhoso, todas as superfcies 
planas do seu rosto so to fortemente definidas, to 
encorajadoras, os sentimentos abertos esculpidos to 
profundamente - no admira que ele seja atraente para as 
multides e para as mulheres. A minha me e a outra. Sou parecido 
com ele mas o meu rosto  uma mscara moldada a partir da sua e 
eu apenas olho atravs dela, no a habito como ele faz. De 
repente fiquei alarmado de que ele fosse falar sobre ela, da sua 
amante, do cinema, sim, por fim, a histria toda, fora para isso 
que ele tinha ido ao meu quarto, a Baby  que tinha razo, no se 
pode viver com eles, temos de nos afastar deles.
Eu tinha de falar depressa.
- Ouvi algum sair.
- Eu sei.  azar. Aconteceu uma coisa logo depois de teres sado. 
Eu estava a instalar-me para ler, finalmente... quando  que foi 
a ltima vez que acabei um livro. Chego a meio e na altura em que 
posso voltar a ler j esqueci a primeira parte. Tens lido alguma 
coisa, Will?
Tudo o que dizemos um ao outro tem um sentido para alm do que  
expresso.  isso que faz com que seja difcil estar em casa com 
ele. Agora ele estava a admitir que no sabe grande coisa sobre 
mim a no ser que eu sei da amante, quem ela  e onde mora. Ele 
j no tem mo no enriquecimento da minha vida (como ele diria). 
Embora no pudssemos frequentar a biblioteca quando vivamos do 
outro lado da savana, no posso esquecer-me de que ele comprava 
livros para crianas e lia para ns.
No lhe disse que durante o ltimo ano tinha lido quase tudo da 
estante dele. Se ele estivesse suficientemente interessado, se 
ele viesse ao meu quarto por outra razo qualquer que no os seus 
prprios interesses (como sem dvida desta vez, o perigo da 
confisso estava afastado, mas devia haver mais qualquer coisa), 
talvez tivesse encontrado o seu Gramsci ou o seu Kafka no meio da 
desordem em cima da minha secretria. Abri a mo na direco da 
Macroeconomia de Dornbush e Fisher, da lista de leituras das 
cadeiras do segundo ano.
- Bem, isso  essencial. Claro que eu fiz ao contrrio... Sabes, 
o outro tipo de livros primeiro. Poesia e coisas assim. Eu tinha 
uma ideia diferente do que  necessrio. Quando tinha a tua 
idade. Ao contrrio do que seria correcto. - Ele levantou as 
mos, parecia prestes a colocar uma no alto dos meus ps, 
tocar-me, mas no o fez. - Ignorncia.

142 - 143


Eu estava a bocejar incontrolavelmente, no tinha inteno de ser 
mal educado com ele. No sei se estava ansioso por me livrar dele 
ou se queria que ele ficasse.
- Will, tu no ouviste ningum aqui esta noite. No ouviste 
ningum falar nem ouviste ningum sair.
Depois de ter dito ao que tinha vindo, continuou sentado comigo - 
durante quanto tempo - alguns momentos, pareceram um longo 
perodo de silncio. Depois levantou-se e saiu devagarinho, como 
se eu estivesse a dormir.
Ento era isso. Algum em fuga, ou um infiltrado do lado de fora. 
Ou houve uma reunio com alguns dos do seu grupo e no quer que 
os outros saibam; desde que passa mais tempo em casa, percebi que 
ele est metido nalgum sarilho com a sua gente: essas emoes no 
tm de ser escondidas da mesma maneira que o seu caso amoroso. H 
longas discusses com este e com aquele - que vm aqui 
abertamente, eu no tenho de fingir, para minha prpria segurana 
e dele que no os vi. H artigos nos jornais a especular sobre 
mudanas e remodelaes nas organizaes, incluindo na dele, que 
representam o movimento. Isso  problema dele; ele no precisa de 
nenhuma cumplicidade comigo, para alm do aviso de me manter de 
olhos fechados e boca calada. Que  aquilo que ele j me ensinou 
a fazer por outras razes. O que acabou por ser o seu nico 
contributo para o prosseguimento da minha educao.
Talvez a minha me lhe tenha dito qualquer coisa do gnero de 
ficar de olho em mim enquanto ela est fora, e ele sente que deve 
fazer ao menos isso por ela. Por isso est a sacrificar as noites 
que podia estar a passar na cama grande no cho. Como se alguma 
vez eu soubesse a que horas ele entraria sorrateiramente,  
meia-noite ou de madrugada, sou novo e quando durmo, durmo. S as 
pessoas mais velhas esperam acordadas.
Em casa todas as noites. Ser possvel que seja por querer estar 
comigo? Ser por mim?




De trs em trs dias,  hora combinada, ele esperava sozinho na 
sala por uma chamada de Lesotho, onde ela tinha ido porque o av 
tinha morrido. O chal estava fechado. Ela tinha-lhe deixado a 
chave. Claro que ela estava muitas vezes sozinha naquela sala, 
mas ele nunca l tinha estado antes sem ela. Tentou ler mas no 
conseguia; a sala distraa-o, acenando-lhe com isto e com aquilo. 
Ele era um espectador da sua prpria vida ali; a borda da mesa 
com que ele chocava tantas vezes quando ia, aturdido de sono 
depois de fazer amor,  cozinha ou  casa de banho; a forma do 
processador de texto visto de um determinado ponto, agora 
observado de uma perspectiva diferente; o enorme quadro com todas 
as suas cores a escorrer que era mais uma sensao familiar do 
que algo visto, pois quando estendia um brao atrs da cabea, na 
cama, ficava em contacto com a superfcie rugosa daquilo que ela 
lhe tinha dito ser o empastamento. Um quadro feio, sem 
significado, para ele; h sempre qualquer coisa em relao  
pessoa amada-um pequeno hbito, uma expresso ou gosto - de que 
no gostamos e sobre a qual no dizemos nada, ou mentimos. Ela 
tambm podia ter tomado em considerao as origens dele - falta 
de contexto cultural para a compreenso de um trabalho como 
aquele, por isso ele tivera de fingir (para proteger a ideia que 
cada um tinha do outro) que o achava bom. Agora ele estava 
sozinho com aquela grande mancha de incoerncia que alastrava por 
cima da cama, de onde, pelo menos, ficava fora de vista.  claro 
que, para ela se tratava de algo herdado, como a velha fotografia 
de estdio de uma senhora de culos com cabelo curto branco - 
provavelmente a sua av - que estava numa pequena moldura em cima 
da estante. Aquelas coisas pertenciam a uma vida no prosseguida, 
uma continuidade posta de lado; por alguma razo, ele nunca 
pensava nela ligada a uma famlia. Ela no estava colocada, como 
ele estava,

144 - 145


independentemente do que sentia ou fazia, com mulher, filho e 
filha nos chs de sbado  tarde.
Havia dias em que a chamada se atrasava. Ela utilizava uma cabina 
dos correios por discrio e tinham combinado que ele no lhe 
devia telefonar para a casa do av, onde era possvel haver 
outras pessoas a escutar a conversa. Ele via, atravessado na cama 
vazia, a faixa de sol que costumava avanar como o ponteiro de um 
relgio atravs das tardes deles, sobre os seus corpos. Uma vez 
ele descalou ordeiramente os sapatos e deitou-se em cima dos 
minsculos quadrados espelhados e flores bordadas da colcha. Ele 
tem de utilizar o tempo para voltar aos problemas das suas 
relaes com os seus camaradas; afinal aquela era a sala, a nica 
sala, onde tais assuntos podiam ser examinados abertamente; sem 
medo de que algum se aproveitasse da franqueza ou de confisses. 
Mas sem ela, Hannah, era a sala de um estranho, uma testemunha; 
enquanto a casa sem Aila ficava inalterada, como se Aila 
estivesse simplesmente numa outra parte da casa - talvez fosse 
por o rapaz ainda l estar, ele e o rapaz entre todos os 
ornamentos familiares de Aila.
Ele deitou-se na cama, como um vagabundo que ali tivesse 
penetrado. Levantou-se e andou por ali, olhando para os 
apontamentos com a letra de Hannah, mas no leu cartas abertas 
dirigidas a ela. E depois, o telefone: e com o seu croo-croo 
croo-croo era outra vez a sala deles que ele percorria 
descontraidamente, descalo, para a ouvir. No usavam o nome um 
do outro (por discrio); havia sempre muitos sorrisos e 
gargalhadas, e de certeza que ela devia perceber pela voz dele 
que ele ficava imediatamente excitado ao ouvi-la, mas naquele dia 
depois do prazer inicial houve uma pausa urgente, aps a qual ela 
lhe disse:
- No fiques alarmado... no tenho boas notcias. Fui declarada 
I.P.,(1) acho eu.
- Oh, meu Deus. Como  que sabes?
- Chegou ontem uma carta. Estou devidamente informada de que 
tenho de pedir um visto. Mas tenho a certeza de que vai correr 
tudo bem.
- J disseste para Londres?
- Falei para o meu director imediatamente. Eles j esto a tratar 
disso. E vrias pessoas aqui... Na altura em que tiver resolvido 
as coisas


*1. Imigrante proibida. (N. da T.)


146



tenho a certeza de que isso j estar tratado. Eu de qualquer 
modo no podia voltar durante mais algumas semanas, tenho de 
decidir o que fazer com a velha casa, os livros, vou dar a 
moblia tal como est, mas os livros... e os jornais... os 
jornais tm de ser preservados. O que  que achas? Eles 
querem-nos para o pequeno arquivo daqui, mas... estou inclinada a 
pensar que tenho de tomar conta deles.
A agitao estava a invadir todo o corpo dele.
- Ouve. Tem de se fazer alguma coisa deste lado. Hei-de 
descobrir.
- No, no. Por favor no faas isso. No quero que te 
envolvas...
Uma luta surda tomou lugar entre eles atravs da distncia. Ele 
ps-lhe fim pelos dois.
- Mas tens de voltar, tens de voltar.
Quando ele pousou o auscultador, aquilo apoderou-se dele: por 
causa de mim. Por causa deste quarto, aconteceu isto. Mas ela no 
estava l. Ele estava desesperado por no poder pegar no telefone 
imediatamente e dizer-lhe  por causa deste lugar ter sido toda a 
parte e eles sabem disso e eles pensam que foste seduzida - no 
para te deitares naquela cama, mas para servires de correio ao 
cadastrado e  sua causa.
Mas quando voltaram a falar trs dias depois ele no conseguiu 
dizer-lhe; ele no conseguia dizer nada ao telefone. No lhe 
conseguia dizer como, ao jogar xadrez com o filho para acalmar os 
nervos e conseguir pensar racionalmente (graas a Deus que Aila 
no estava, graas a Deus que no estava sozinho), ele examinou e 
rejeitou diferentes maneiras de fazer com que a determinao de 
no a readmitir fosse cancelada. Experimentou, na sua cabea, 
tomar um dos camaradas como confidente, um padre militante, cuja 
teologia da libertao inclusse uma compreenso da 
responsabilidade de um homem em relao ao amor, dentro ou fora 
da moralidade convencional. Padre, preciso de conselho. Mas no. 
Como preso poltico, sentamo-nos sob custdia, no julgamento, 
condenados pela liberdade de todo o nosso povo. Essa conscincia 
tem prioridade sobre qualquer forma de conscincia em relao a 
uma esposa e  proteco da famlia, e sobre qualquer mulher de 
que tenhamos necessidade. Talvez os camaradas soubessem dela; 
provavelmente sabiam. Mas como qualquer coisa irrelevante. A luta 
 o que interessa. E ele e eles esto de acordo quanto  
dedicao

147


que lhe  devida. Nada que pudesse ser encarado como desviando a 
ateno dele da luta deveria evidenciar-se nele, que chegou at a 
entregar a sua filha pela libertao. Particularmente na presente 
fase, de facciosismo. Ele pensou no comerciante que, pela cor, 
era um dos seus, que dava dinheiro - como segurana para um 
futuro ou talvez por verdadeira convico, um Bakunin -, mas que 
tambm devia conhecer altos funcionrios governamentais que 
tentavam conquistar o seu apoio para a sua poltica de 
privilegiar a classe mdia; talvez ele fosse o homem a contactar. 
Pensou no director do jornal branco que estava a desafiar o 
governo, nas primeiras pginas e nos editoriais, por causa da 
supresso da liberdade de imprensa, e era demasiado influente 
entre os brancos para que lhe fossem recusados encontros com 
ministros. Podia-se pedir-lhe um pequeno favor... Mas os 
jornalistas farejam o perfume de uma mulher como certas criaturas 
(o professor tinha apanhado cada informao excntrica nos tempos 
em que lia) conseguem detectar a presena de trufas debaixo do 
cho. Sonny o orador ex-preso poltico e Hannah Plowman, 
representante de uma organizao internacional dos direitos 
humanos. A seguir haveria um jornalista  porta, e se ele no 
estivesse l, bem, o filho tambm lhes serviria. Perguntariam ao 
Will se podia dizer alguma coisa sobre a recusa de um visto 
quela amiga da famlia que monitorava julgamentos polticos.
Como um hipocondraco corre para o mdico com cada problema 
pessoal transformado numa dor ou sofrimento diagnosticveis, ele 
foi ter com o advogado que o tinha representado durante a sua 
deteno e julgamento. Metkin parecia um rabi e ouvia como o seu 
cliente pensava que um psiquiatra ouviria; na presena desta 
sabedoria, ao mesmo tempo contempornea e antiga, forma de 
adivinhao, sobrevivendo entre o telefone e o intercomunicador a 
uma secretria, Sonny sentiu humilhao como poderia estar a 
sentir uma necessidade fsica. Ele estava a explicar que queria 
entregar a questo toda ao advogado; ele prprio no podia fazer 
nada para ajudar quem quer que estivesse em conflito com as 
autoridades. Aquela pessoa no tinha mais ningum que falasse por 
ela, dentro do pas; no estava em contacto com os seus poucos 
familiares, e eles no eram o gnero de pessoas que agissem neste 
tipo de questo. O que quer que o governo fizesse, eles 
acreditariam que era justificado.
Mas ele viu no rosto do advogado que no tinha explicado nada, e 
tentou uma vez mais evitar que ele compreendesse na totalidade. 
Recostou-se na cadeira do outro lado da secretria e olhou uns 
olhos to negros como os seus, os olhos das antigas raas.
- Ela  uma pessoa inestimvel.
Apesar de no lhe agradar que o advogado compreendesse, sentiu-se 
aliviado - quando estamos num julgamento poltico, temos de 
confiar cada motivo escondido, cada vestgio de contradio, cada 
hesitao nas nossas intenes, para podermos ser defendidos 
mesmo contra os nossos elevados princpios, a perigosa 
permissividade da confidncia no pode ser posta de lado. O 
assunto estava a ser tratado - tranquilizadora frase do advogado. 
Quanto aos resultados, uma pessoa tem de ser paciente; e como ela 
prpria disse, de qualquer forma no podia voltar durante algumas 
semanas...
Logo desde o primeiro dia que ela tinha ficado menos alarmada do 
que Sonny: ele percebeu que no tinha sentido preocupao pelos 
sentimentos dela em relao  perda do av, que tambm tinha sido 
um pai e uma me para ela. Ela estava ali de novo, seleccionando 
os papis e os simples haveres do velho missionrio, 
seleccionando coisas da sua infncia, e era-lhe impossvel 
mostrar-lha ao passar, tal como ele lhe havia mostrado a casa na 
savana nos arredores de Benoni, quando passaram por l de carro. 
Estavam a ser tomadas providncias a favor dela no pas e em 
Londres. Ele manteve-se ocupado a planear e a dirigir oficinas - 
educao de resistncia (o nome que ele inventou, aprovado) - 
em choupanas e igrejas feitas de lama, sob a capa de reunies do 
clube local, j que o Comit de Crise de Educao Nacional fora 
limitado por uma proibio oficial, e no escasso tempo livre que 
ele poderia passar com ela havia a casa silenciosa, graas a 
Deus, apenas com o rapaz. E Will estava menos hostil, s vezes 
parecia at possvel tocar-lhe. Ah, sem mulheres, aquilo que est 
sempre subliminarmente tenso entre homens afrouxa. O rapaz estava 
um homem, quase um homem. Podia-se confiar nele; no tinha ele 
provado que se podia confiar nele, nem sequer o olhava nos olhos 
para mostrar que se lembrava. Se lhe dissessem para esquecer que 
ouvira algum l em casa ele fazia o que tinha a fazer.
Os homens que tinham vindo naquela noite procuravam formar uma 
cabala (como o vocabulrio poltico era pobre e melodramtico) 
para expulsar certos cabecilhas. Andavam a mandar batedores

148 - 149


para sondar indivduos de diversas organizaes para ver quem era 
da mesma opinio - eufemismos evasivos. Eles no tinham 
conseguido ganhar um novo membro; mas interpretaram uma certa 
distraco em Sonny como motivo para acreditarem que ele se 
permitiria esquecer que eles tinham vindo, e no falar disso a 
ningum.
Havia qualquer coisa no alpendre. Um fardo.
Quando parou, ao passar sob as buganvlias que ocultavam a 
entrada lateral para o jardim, ele viu um objecto; com um ar 
suspeito - fardos explosivos bem como excrementos podem ser 
colocados  porta de amigos de presos polticos. Aproximando-se 
mais, descobriu um homem a dormir-algum bbedo metodista deve ter 
achado que o chal desabitado era apropriado para acampar 
encostado a ele -, depois, vendo que o saco-cama era novo e que a 
mo de um homem (jovem, branco, com um daqueles relgios como os 
que os militares usam, com as vinte e quatro horas, no pulso) era 
visvel por cima da cabea escondida, parou outra vez.
Quem era Sonny para interceptar um intruso. Como podia ele 
responder por si prprio, ao aproximar-se do chal, de chave no 
bolso. O melhor que tinha a fazer era ir-se embora. Voltar mais 
tarde. O telefone tocaria e no seria atendido; ele gritou como 
se o stio lhe pertencesse.
- O que  que pensa que est aqui a fazer! Eh!
A mo voou para longe da cabea. Um jovem debatia-se para sair do 
saco-cama, sem se mostrar embaraado, com um sonolento olhar de 
reconhecimento, confirmao.
Sonny nunca o tinha visto antes na sua vida.
O jovem descrevia crculos com os ombros para aliviar a rigidez e 
respirava profundamente. Tinha o cabelo cor de plen cortado 
rente, demasiado curto para ser despenteado no sono, um nariz 
bonito de mulher, olhos cinzentos de longas pestanas, e uma viril 
barba de alguns dias escura e forte. Ele esboou um meio sorriso 
e acenou, como se o seu homem tivesse chegado como previsto, a 
tempo.
- Isto  uma propriedade privada. O que  que quer daqui? - 
Aquela pessoa conhecia-o; devia t-lo visto em fotografias de 
jornal.
Ou podia ter sido num vdeo, como umas das estrelas dos filmes da 
Polcia de Segurana. Acreditava que tinha aprendido a estar 
alerta sem se tornar paranico,

150


mas o stio onde aquele intruso estava  espera -  espera dele, 
evidentemente -, o chal dela, o quarto deles, onde ele voltaria 
vezes sem conta, incapaz de ficar longe, e aquela jogada - a 
proibio de entrada calculada para se livrarem dela sem terem de 
a prender ou deportar -, todas estas circunstncias o habilitavam 
a interpretar que as peas tinham sido reunidas pelas pessoas que 
sabiam tudo sobre ele, os majores e os sargentos que o tinham 
interrogado, que o tinham observado atravs do olho de Ciclope da 
porta da sua cela na priso e sabiam, sem terem visto, que ela o 
tinha recebido no seu corpo naquele chal. Ele, como todos os da 
sua raa, educados na luta poltica, tambm os conhecia; os 
majores e os sargentos. Ele sabia o que  que podia esperar a 
seguir: uma nova deteno, chantagem - no com dinheiro, entre 
polcias e revolucionrios h uma troca mais valiosa, a venda da 
confiana. No no sentido domstico, fazendo queixinhas  esposa 
de que andamos no engate (o tipo de vocabulrio deles) se no 
respondemos s perguntas satisfatoriamente. Eles sabem que 
Sonny no trairia os seus camaradas por isso; a mulher sabe da 
loira e  do tipo submisso que o perdoaria, mesmo assim. Ento o 
qu? O qu? A sua amante no Lesotho; mas se eles quisessem 
assumir uma das suas horrveis trocas com ele (vamos det-la 
pelas confidncias polticas que lhe fizeste, a no ser que nos 
faas a ns algumas confidncias), se eles quisessem fazer isso, 
t-la-iam mantido dentro do pas, no a reteriam l fora!
O jovem estava ali de p, os jeans, os tnis, o corte de cabelo, 
como qualquer vulto na beira da estrada pedindo boleia; mas 
diante da porta dela.
-  melhor entrarmos.
Sonny deu uma gargalhada estridente, que soou com autoridade.
- Oua, apanhe o saco-cama e ponha-se a andar. V-se embora.
- Tenho uma coisa para lhe dizer. Mas l dentro. De uma amiga 
sua. Estive com ela anteontem.
- No estou  espera de recados de ningum e quero-o daqui para 
fora. No quero saber quem  nem donde vem.
O jovem escutava com firmeza e condescendente compreenso.
- Muito bem. Tenho uma espcie de senha extravagante. Sermes em 
pedras,  bom em tudo.

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O jovem ficou a viver no chal enquanto ele ficou em casa com o 
filho, Will. Era o que Hannah tinha pedido a Sonny, a sua 
mensagem: deixar aquela pessoa ficar no chal, dar-lhe a chave. A 
chave? Esperou numa loja de ferragens, enquanto faziam um 
duplicado, e uma lenta depresso mergulhou o seu olhar fixo nas 
ferramentas e aparelhos que forneciam a vida de outras pessoas - 
a sua prpria vida, parte das compras de sbado, quando ela fazia 
reparaes domsticas na primeira casa, o lar do gueto.
O homem dava pelo nome de Nick, j que tinha de haver qualquer 
coisa para se dirigir a ele. Ela deve ter pensado que a 
clandestinidade do chal poderia tambm servir outros interesses: 
um bom stio para um informador. Como se sabia que ela estava 
fora, ningum teria razo para se aproximar dela. E as pessoas da 
casa principal? O que fazer em relao a elas? Sonny ficava 
sufocado com estas perguntas durante os telefonemas, 
impossibilitado de lhe perguntar o que quer que fosse, 
impossibilitado at de indicar que o convidado tinha chegado e 
estava no quarto enquanto eles falavam pelo telefone, uma vez que 
s saa  noite. Ela compreenderia que era perigoso para o seu 
amante estar no chal com aquele convidado mesmo durante o 
telefonema? Se se descobrisse que o homem estava no pas, se 
fosse seguido e preso, Sonny seria preso com ele e detido para 
interrogatrio sobre a sua ligao com ele, acusado de ajudar e 
ser cmplice do que quer que ele andava a fazer - e o que era 
isso, Sonny no podia perguntar. A disciplina da luta prevalecia 
entre eles; cada um com a sua prpria tarefa. Mas quando o jovem 
estava a dormir (ele dormia durante o dia) Sonny percorria os 
armrios e stios provveis onde armas e explosivos podiam ter 
sido escondidos; ele no permitiria que esse tipo de material 
estivesse ali para comprometer Hannah com qualquer acusao de 
que a sua cabana era de facto um esconderijo de armas. Ele no 
podia avis-la de que ela se arriscava a regressar e entrar 
directamente para um veculo da Polcia de Segurana. Ele s 
podia dizer: no tenhas pressa em voltar, demora o que for 
preciso...
O jovem dormia na cama grande no cho. Ele no acordava, quando 
era observado. As suas meias estavam penduradas no radiador onde 
as roupas interiores dela haviam estado. Sonny deixava-lhe comida 
na cozinha cada vez que l ia e ia-se embora por mais dois dias. 
Quando chegava a casa chamava, Will? Mas ele sabia sempre se
o rapaz estava ou no em casa; como a da sua me, a presena dele 
podia ser sentida.
Todos os ces gostam de mim, no h problema, tinha-lhe dito o 
jovem quando ele perguntou se os ces no dariam o alarme quando 
um estranho entrava e atravessava o jardim. Mas as pessoas da 
casa principal deviam mesmo assim notar que havia algum a entrar 
e a sair do chal. Algum para alm dele, o homem que elas devem 
pensar que  o homem dela. Se calhar, ao contrrio dele, elas 
esperavam que uma mulher como ela, com uma vida livre, sozinha, 
desempenhando umas tarefas boas de esquerda, satisfeita em alugar 
as instalaes transformadas dos criados, tivesse homens 
sucessivos. Se calhar tinham sabido de mais algum homem antes 
dele prprio.
Uma tarde o jovem desapareceu. Quando Hannah ligou,  hora 
habitual, ele tambm no lhe pde dizer isso, mas o alento na sua 
voz e o envolvente modo como falou com ela deve ter-lhe dito por 
ele. Ele sentia-se fortemente seguro de que ela voltaria em 
breve. Ele nunca tinha feito uma limpeza de casa antes - no seu 
tipo de famlia as mulheres cozinhavam e limpavam, s o filho, 
querendo ser diferente em tudo, ajudava na cozinha -, mas tirou a 
roupa da cama, varreu a sala, encontrou o produto para lavar a 
casa de banho. O homem tinha deixado ficar, espalhada, a sua 
roupa de viajar  boleia. Deve ter mudado de personalidade para o 
passo seguinte da sua misso. Na casa de banho estava um frasco 
aberto com descolorante de cabelo com o retrato de uma loura 
sorridente a pentear tranas esvoaantes. Mas a Hannah de Sonny 
no precisava de nenhum aclarador ou tinta. Deitou fora o frasco 
com o fardo de roupas, era o dia da semana em que os homens do 
lixo vinham buscar objectos velhos dos subrbios brancos e ele 
viu, no caminho, ao sair do chal pelo porto escondido, um dos 
pretos remexer nas roupas no meio da confuso de jornais e 
detritos de cozinha e considerar uma utilidade dessas peas de 
roupa, que no era a de disfarce. Sonny sorriu, sentiu que estava 
bem assim. Uma concluso que devolveu o equilbrio a algo que ele 
tinha achado desagradvel e aberrante, um meio que ele no queria 
para os seus fins. Sermes em pedras,  bom em tudo; aquilo no 
era para ser usado como palavra de passe, na boca de uma terceira 
pessoa.

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Ela cortou o cabelo.
Eu tinha chegado das aulas  casa vazia e estava a arrumar a 
minha mota sob o alpendre, como fazia sempre por segurana, e 
quando abri a porta estava ali algum de p. Ela tinha-me ouvido 
a bater com a mota pelos degraus acima e ficou  espera, 
pressentindo a surpresa do seu regresso. Reconheci-a como se 
reconhece algum numa fotografia tirada num tempo e num stio 
quando ainda no a conhecamos, ou depois de estar tal como 
quando a conhecemos. A forma do seu rosto estava modificada pelos 
caracis curtos que o emolduravam, as pequenas orelhas sempre com 
algum enfeitezinho pendurado do lbulo tinham desaparecido, a 
curva brilhante da testa estava escondida por uma franja macia. 
Ela lanou os braos  roda do meu pescoo e abraou-me. Uma 
linha vincada entre os seus bonitos olhos pela alegre intensidade 
com que olhava para mim abarcou-me. A minha me nunca era assim 
to expansiva. Mas os olhos dela eram.
- O que  que aconteceu? Ela estava a rir com prazer.
- Oh, est tudo bem. Baby est a florescer. Nem a reconhecias, 
to crescida, completamente responsvel...
- O que  que fizeste? Porque  que fizeste isso?
- Referes-te a isto? - ela enfiou os dedos atravs dos caracis. 
-- Ah, isto. Aqueles anos todos j chegava. No gostas? No achas 
que est bem, Will?
Eu s conseguia sorrir e encolher os ombros; no sou o marido 
dela, ela no tem de tentar agradar-me.
Fomos para a cozinha, o nosso velho local para conversar. Ela 
ocupou a cadeira da minha me  mesa, fez ch. Estava a contar-me 
onde Baby vivia, os bons amigos que ela tinha,

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pessoas responsveis que cuidavam dela, nada do que se pensava 
que seria, tendo em conta algumas das pessoas com quem andava 
aqui.
- Fizeram-me sentir to bem-vinda. Ela partilha a casa, claro mas 
podes imaginar, ela plantou ervas no jardim. A Baby!
- Mas ela no se foi embora para fazer jardinagem. O que  que 
ela faz? Ou no pde dizer?
- Bem, no se faz perguntas, claro, mas ela foi muito franca, 
parece andar ocupada com a recepo de refugiados - no so 
exactamente refugiados, so pessoas como ela, que saem de c. Tm 
de ser investigados. Tu sabes. - Os olhos grandes incidiram sobre
mim.
Ento a minha me entende as ambiguidades da libertao, agora, o 
exame minucioso e o interrogatrio levados a cabo no pela 
Polcia de Segurana mas pela sua filha. A Baby instruiu-a.
- Foi ideia da Baby? - Ela sabe que me refiro ao cabelo.
- Will! Ficarias to satisfeito de ver como ela est... Ela 
estava a ver-me escov-lo um dia e disse: quantos anos  que tu 
tens agora, m?. Ela nunca se lembra! Pensa sempre que sou mais 
nova do que sou. Por isso lembrei-a. Ela disse, e quanto tempo 
da tua vida  que levaste a fazer isso, ento no dia seguinte 
fomos ao cabeleireiro e cortei-o.
Ela virou-se de perfil para mim como para me deixar ver o efeito 
completo.
Eu no disse nada.
- Sinto-me muito mais leve. - Ela estava a olhar para mim 
timidamente para ver se eu no estava contente com isso. - E por 
c correu tudo bem?
No nos referimos a ele pelo nome, ainda no. Ela est a pensar 
em batidas da polcia, sem dvida; na segurana dele. Podia 
dizer-lhe mais uma coisa, que esteve imenso tempo em casa, at a 
jogar xadrez comigo? Mas no posso porque isso seria um 
comentrio quilo que  suposto os dois no sabermos, a realidade 
de que eu a protejo.
- Oh, o costume. Excepto o quintal que est um bocado em 
desordem. Cheguei a dar uma volta para cortar a relva uma vez, 
mas tenho trabalhado muito, tenho tido muito que ler.
- Comeram?
E agora sorrimos os dois.
- Eu cozinhei. Parece que ficava bom.
Ela sabe que eu o alimentei, ela podia contar comigo, agora quer 
que eu goste do que a Baby lhe fez ao cabelo.
- Tenho mais coisas para contar mas vamos esperar at o pai vir. 
Ento l est ele, mencionado em voz alta, entre ns.
- Para que  isso? Porque no agora?
- S porque eu ia ter de repetir tudo outra vez.
Esta mulher com uns estpidos caracis de permanente. Ela nunca 
nos tinha posto na mesma categoria antes, a ele e a mim; desde 
quando  que as nossas mudas confidncias so a mesma coisa que o 
tipo de silncio entre eles?
Ela nunca mais voltou. Cortou de raiz. Tinha partido para sempre: 
a minha me.
A misso de Aila era do gnero que se esperava dela; ela trouxe 
notcias de mulheres, informaes de uma me. A Baby casou. Mas 
por razes de segurana nem essa informao domstica podia ser 
transmitida por telefone ou por carta; no para esta casa. Baby 
no tinha dito ela prpria ao seu pai. No podia. Sonny foi 
informado, juntamente com o filho, pela mulher. Um assunto de 
famlia.
Devia ter havido beijos, apertos de mo, um lanche de sbado  
tarde com cerveja para os tios, Aila com o seu brilhante 
carrapito de cabelo, com um vestido novo feito por ela para a 
ocasio.
O rapaz no disse nada, como de costume. Aparentemente no tinha 
sentimentos pela sua irm. Aila tinha conhecido o homem, Aila 
achou-o simptico, estvel, suficientemente bom para a filha 
deles - de Sonny -, a sua Baby; no lhe tinham pedido. Pelo 
contrrio, o facto foi consumado sem ele e agora era ele que 
fazia perguntas humildemente. Aila confirmou que o jovem era 
algum que a Baby tinha conhecido antes de partir: portanto 
partiram juntos, naquela altura, e isso era mais uma coisa que 
no tinha sido confidenciada ao pai. Ela partira com um homem, 
ela tinha estado a viver com um homem enquanto ele estava com a 
sua amante na cabana. To discreta, no s politicamente, como o 
prprio pai.
O jovem - marido! - era da raa deles, no era nenhum estrangeiro 
branco (aparentemente a pobre Aila tinha receado isso?) que se 
podia ter esperado que a filha dele escolhesse. Estvel - como 
se os padres de Benoni se pudessem aplicar  vida de uma 
combatente da liberdade...

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pobre Aila! Ele era conhecido pelo seu nome de cdigo, o que era 
algo extremamente importante entre os membros mais jovens do 
movimento, que no se perguntava, ele e Baby no falavam sobre 
isso, talvez nem ela prpria saiba exactamente. Ele foi treinado 
noutras partes de frica e alm-mar. Tem famlia aqui na ptria, 
mas acha melhor que eles no sejam contactados para festejar a 
aliana - por razes de segurana.
- A famlia dele no est envolvida de forma alguma.
Aila est bastante auto-confiante em relao  questo toda, 
finalmente ela assumira a responsabilidade de uma coisa sozinha, 
foi ela quem deu a aprovao neste assunto relativo ao futuro da 
filha dele.
No meio da sua dor, Sonny sentiu um forte sentido de falta de 
oportunidade neles os trs, Aila, Will, ele prprio. Fez um 
esforo na frente deles, para eles.
- Bem, so boas notcias, esperemos que sejam felizes... e fortes 
no seu trabalho.
A presena do rapaz faz com que tudo o que ele diz soe falso; no 
momento em que a me do rapaz est de volta ele afasta-se outra 
vez de qualquer cumplicidade masculina. E Aila dava instrues:
- No vamos falar do casamento a ningum.
Que ideia era aquela? Desde quando  que Aila decidia o que era 
politicamente conveniente? Desde quando  que ela pensava que 
percebia dessas coisas? Acreditaria ela realmente que a Polcia 
de Segurana no sabia onde Baby estava e o que andava a fazer?
- Porque no?
Ela sentia o tom sarcstico na observao do marido e desviou a 
cabea dos dois homens.
- Tenho de conseguir voltar l.
O dia do regresso dela acabou como acabam todos os dias num 
casamento, com eles sozinhos no seu quarto. Sonny e Aila. No 
interessava o que tinha acontecido durante o dia, no havia modo 
de escapar quela horrvel concluso. Cumpriam os rituais de 
preparao para ir para a cama que tinham precedido todo o tipo 
de noites, durante anos, para eles; puxar cortinados, lavagens, 
escovar dentes como haviam feito para ser agradvel o sabor dos 
beijos, despirem-se  frente um do outro como tinham feito sob o 
delicioso olhar do desejo. O volume de sexo dele pendia como algo 
que no pertencia ao seu corpo. Ela dobrou as suas roupas uma por 
uma
em cima da cadeira, as meias com a forma das suas pernas e ps. 
Ela comeou a retirar os artigos de higiene de um saco com padro 
florido.
- Eu no quis dizer na frente do Will.
Aila estava de p em camisa de noite no meio do quarto como se 
estivesse noutro stio onde tivesse entrado sem bater. Ele estava 
a marcar a hora no rdio-alarme da sua mesa-de-cabeceira e olhou 
por fim para ela.
- Ele no  nenhuma criana. O que  que se passa? O que ? 
Atravessou-o um arrepio de medo por Baby que o deixou impaciente.
- Ela est de esperanas.
O elegante eufemismo que j vinha dos mexericos no quintal das 
traseiras na sua vida de antigamente. Ele riu-se, corrigindo 
brandamente:
- Ela est grvida. No acho que Will no tenha conscincia 
dessas possibilidades... Ora. Ento  essa a razo do casamento.
- Ah, no. - Ela fez uma pausa para lhe dar conhecimento de outra 
possibilidade. - Teriam casado de qualquer maneira. Eles amam-se.
Ele afastou os cobertores para trs do seu lado da cama e 
sentou-se.
- Vida familiar, bebs, isso no combina l muito bem com o 
activismo deles. No combina de facto, em lado nenhum, mas 
particularmente no exlio.
- Bem, eles tm autorizao para viver fora do campo.
- Sim, tu disseste-nos. O canteiro plantado por ela.
- Ela est muito contente com o beb. No imaginavas que ela 
tivesse instintos maternais to fortes, pois no?
- Quando eles crescem... O que  que se pode saber sobre eles?
- E at j tm a certeza do que vai ser, um rapaz. H um teste 
que se pode fazer, hoje em dia, imagina s!
Sim, Aila tinha sido despertada para a vida -  assim que ele v 
a questo - pela ideia de um nascimento, uma nova vida que surgia 
da vida antiga onde ele a deixara enterrada. Aila parece-se com 
qualquer outra mulher, agora, com o mesmo cabelo - ser que o 
usam para parecerem mais novas? Ela nunca mais voltar a 
sentar-se ao toucador antes de ir para a cama, a escovar aquele 
longo, liso, cabelo brilhante. Ele libertou-se de Aila. Livre.

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Devagar virou as pernas para cima da cama e puxou os cobertores 
para cima at ao peito. Com os olhos fechados, por um momento, 
ouviu-a andando pelo quarto, viu Baby a danar, vir beij-lo na 
orelha, viu os seus olhos brilhantes borrados de rmel. Casada. A 
Baby. Como  que ela podia conhecer-se a si prpria, to 
deslocada, to longe de casa. Mas na luta ningum  precoce, sem 
preparao para o que quer que seja, as crianas atiram pedras e 
so assassinadas a tiro.
- Ela  to nova.
Ele mal percebeu que tinha falado alto: Aila ouviu-o como um 
momentneo deslize para a intimidade. Ela disse:
- Tambm eu era.
Ele abriu os olhos. Muito mais nova. Dezoito anos. Aila tinha 
retirado uma longa trana preta brilhante do saco de higiene. 
Estava atada com um pedao de fita no stio onde o cabelo tinha 
sido cortado. Houve o rudo da folha de papel de seda que Aila 
alisou antes de enrolar a trana dentro dela e arrum-la numa 
gaveta.
A outra mulher voltou na mesma semana. Ele tinha sentido a sua 
falta to sofridamente que parecia por vezes no conseguir 
aspirar oxignio suficiente para os pulmes, a respirao era 
constrangida pela intensidade do medo de que ela no fosse 
autorizada a atravessar a fronteira, e de que ele nunca 
conseguisse um passaporte de modo a poder ir ter com ela. E no 
entanto o seu nico alvio da tenso provocada pelas ambiguidades 
e intrigas que estavam a nascer no movimento era virar-se para 
esta angstia, a sua necessidade de Hannah. E dessa angstia 
virava-se outra vez para a preocupao com a posio para que 
estava a ser manobrado por certos camaradas.
Quando ela lhe disse ao telefone que tinha sido autorizada, que 
tinha recebido um visto e que ia chegar no fim-de-semana, ele 
implorou, insistiu para que ela o deixasse ir esper-la ao 
aeroporto apesar de isso ser um pecado contra a discrio bem 
como contra a segurana - esse cdigo moral que ele e ela tinham 
rigidamente imposto a si prprios.
Ele no subiria ao trio terminal das chegadas, ficaria ali no 
parque de estacionamento subterrneo, ela caminharia com a sua 
mala na direco dele na luz crepuscular daquela caverna de 
cimento a
cheirar a fumo de tubos de escape... O chal vazio onde ele 
segurava o auscultador do telefone j estava reabitado por ela. 
Ele estava louco de expectativa: o que Hannah conseguia faz-lo 
sentir! Nunca antes na sua vida - cinquenta anos, meu Deus - 
tinha sido capaz de tais emoes. Tinha sido velho quando era 
novo, era isso; uma inverso: s agora  que ele sabia como devia 
ter sido ser novo. Na noite anterior  chegada de Hannah tomou um 
comprimido para dormir para atenuar a sua excitao; para apagar 
a presena de Aila ao lado dele na cama.
Enquanto estava  espera na semi-escurido, no subterrneo, 
rodeado dos despojos inertes em que os veculos se tornam quando 
esto estacionados, de passos desvanecendo-se, passos 
aproximando-se, na periferia dos seus sentidos, ele sentiu de 
repente toda a vida e determinao abandonarem-no. Tudo ao mesmo 
tempo. Como se revivesse o momento em que, viajando de carro 
algures no Tringulo do Vaal, cheio de determinao se dirigia 
para o encontro onde ia falar, quando sentira o horrvel impulso 
de largar o volante, e se vira a si mesmo dentro de um carro fora 
de controlo, encaminhando-se a toda a velocidade para um fim, um 
abandono. Agora na garagem saiu do carro para se controlar, 
ps-se de p, preparado para ir ter com ela quando ela 
aparecesse. No parava de engolir e as suas mos pareciam grossas 
e pesadas. Aquele stio era frio, uma extensa cmara funerria. 
Um homem velho preto tirando um esfrego de um balde passando-o 
sobre um carro de luxo era um lacaio sepultado juntamente com um 
fara. Ela apareceria com a sua mala; nada impediria esse 
acontecimento. L estava ela, como tinha de estar: tinha-o visto, 
avanava na direco dele devagar, cerimoniosamente, solenemente, 
depois de uma separao to longa e difcil, caminhando 
vigorosamente sobre as suas pernas brancas sardentas, o corpo 
inclinado para o lado pelo peso da mala, o cabelo loiro iluminado 
por trs pelo raio de luz que vinha das escadas. Ele no sentia 
nada. Ficou ali a sorrir e tentou afastar as suas mos do corpo 
para se dirigir para ela; no havia nada por trs destes gestos. 
Ela interpretou o seu silncio e o firme e brusco abrao como o 
excesso de emoo reprimido por prudncia neste estranho local 
pblico onde parecia no haver testemunhas excepto o velho 
empregado de limpeza; mas  claro que ela estava de novo aqui, 
onde uma pessoa nunca podia ter a certeza de no estar a ser 
observada. Quanto a ela, estava a rir e a chorar.

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No caminho para o chal ela contou todos os pormenores do caso do 
visto que tivera de omitir, ao telefone. A sua mo veio 
pousar-se, estendida brandamente e com firmeza, na perna dele 
enquanto guiava; o seu direito sobre ele.
Quando estavam de novo dentro da cama foi como se o que tinha 
acontecido naquela caverna nunca tivesse acontecido. Junto  
terra; Sonny estava de volta  terra, humano e em luta, capaz de 
tocar e sentir e cheirar a maravilhosa erupo da vida.
- ... Ele dormiu aqui. Eu costumava entrar e v-lo a ressonar 
aqui na tua cama... - Ele abanou a cabea, e ela sorriu e 
beijou-lhe o pescoo. - Mas porque  que lhe deste aquela palavra 
de passe, Hannah? Porque  que no podias ter pensado noutra 
coisa qualquer?
- Que outra coisa  que eu podia enviar que te desse a certeza 
absoluta? O que  que h mais que seja s nosso?
- Bem, agora h uma terceira pessoa.
- Ah, nunca. Para ele  como qualquer outra coisa. Quando o 
objectivo foi atingido, acabou. Tu sabes. Ele j se esqueceu.  
s para ns... para ele, tem mais em que pensar. Ele  
absolutamente extraordinrio... O que ele j conseguiu... a 
entrar e a sair, aqui, vrias
vezes.
- No me digas. E esquece-se de tudo, de ti prpria. No sei se 
foi assim to bem sucedido. Se alguma vez foi seguido, se eles 
usaram o velho truque de o deixarem conduzi-los aos seus 
contactos, incluindo este chal. Como  que eu sei? Eu no podia 
estar a vigiar o stio o tempo todo... e ele era to pretensioso 
e descontrado, no se ralava, nunca disse nada. E esse telefone 
era frustrante. Eu no te podia dizer, perguntar-te nada sobre o 
tipo. Ele podia ter sido apanhado e eu juntamente com ele e tu 
no terias sabido.
Ela ficou a pensar, por um momento, se aquilo seria uma censura. 
Mas entre eles isso no era possvel; no viviam um para o outro, 
o amor estava contido na causa, e no haveria amor se recusassem, 
por causa do risco pessoal, algo que a luta esperava deles. Ela 
no sabia como dizer isto por palavras; no teve de o fazer 
porque ele estava a falar outra vez.
- Espero que o tenhas investigado completamente antes de o teres 
deixado utilizar-nos. Sabes que, comigo, no se trata s de mim, 
h sempre o risco de o movimento ser infiltrado atravs de mim; 
qualquer um de ns.
- Meu amor, no confias em mim?
- J te disse antes o que tu s para mim.
Ela escondeu a cara contra ele, abafando a sua voz.
- s o nico amigo que alguma vez tive.
Ele puxou a cabea dela, comprimindo as macias faces cor de 
pastel entre as suas longas mos, pressionando-as contra os 
brilhantes olhos azuis, e beijou olhos, nariz, boca como se 
quisesse apag-la. Fizeram amor outra vez, o tipo de amor que 
traz o medo de no se poder viver, nunca mais, sem ele.
Quando estavam deitados, imveis, ela fez o seu usual 
reconhecimento do limite das suas exigncias.
- Como  que esto as coisas em casa? A Aila j voltou?
- Chegou h uns dias. O Will portou-se bastante razoavelmente 
comigo... at cozinhou algumas refeies...
Ela apertou a mo dele.
- Claro, ele  um bom rapaz, ele  igualzinho a ti, no fundo. 
Vais ver no que  que ele vai tornar-se.
Ela podia ser uma esposa a tranquiliz-lo em relao aos seus 
filhos. Os jogos que so praticados, entre amantes!
- A minha filha casou-se, talvez fiques surpreendida. Eu fiquei. 
Hannah riu-se.
- No, absolutamente nada surpreendida. Ela  uma rapariga muito 
atraente. No to bonita como a me, mas encantadora mesmo assim. 
Com quem  que ela casou? Algum de Lusaka, claro?
- Mas  originrio dos guetos, como todos ns. Nunca o conheci. 
Aila gosta dele. Por isso espero que no seja um grande erro.
- Porque  que havia de ser um erro?
- Casamento, hoje em dia. Na situao deles, a instabilidade, o 
exlio, sem casa, para qu? O casamento implica certas estruturas 
sociais, e ns andamos ocupados a destruir as existentes, temos 
de o fazer,  a tarefa do nosso tempo, do tempo dos nossos 
filhos. No sei porque  que ela se meteu nisto, uma rapariga 
inteligente, nova como . Pelo menos era assim que eu a via.
- Achas que eles deviam s viver juntos?
Olham um para o outro: o pai da Baby olhando para a sua amante.
- Sim, enquanto podem. Haver longas separaes, cada um ter de 
ir para onde  enviado. O casamento  para um lugar, uma forma de 
vida.  um erro para eles. Viver juntos enquanto se pode, o 
mximo tempo possvel, e depois, bem...

162 - 163


- Aila de certeza que no concordaria. Ela no est contente? Ele 
ergueu as mos, colocou-as sobre o rosto por um momento e
respirou atravs dos dedos.
- Est contente.
Ele no continuou o que estava a dizer; no contou a Hannah qUe a 
sua filha ia ter um filho.
Pergunto-me o que  que ela sente a fazer amor com um avozinho. 
Isso tambm no o fez parar. Pergunto-me como  que ele podia 
continuar a fazer aquilo sabendo que era to velho - quantos 
anos? Mais de cinquenta - e outro homem qualquer tambm estava a 
fazer a mesma coisa com a sua filhinha querida.
A fornicar com a sua loura cara de pudim (manjar-branco 
cor-de-rosa, como a minha me costumava fazer-nos, de pacote, 
quando ramos midos) enquanto devia era estar a baloiar o neto 
no joelho.  nojento pensar assim dele, eu sei, mas foi ele que 
provocou isto. Foi esta a oportunidade educacional que o 
professor progressista arranjou para mim.
Devo ter pensado - pensei mesmo, quando a minha me me contou 
acerca do beb da minha irm - que isso, finalmente, seria o fim 
de tudo, para ele. Mesmo que no tenha parado quando a minha irm 
se tentou matar, por causa dele, a sua antiga obsesso com o 
amor-prprio devia t-lo detido agora. Um avozinho, o grande 
amante! O meu pai, que nunca fez figura ridcula em toda a sua 
vida. Se no pelo seu famoso amor-prprio, ento por auto-estima, 
vaidade, devo ter pensado - de manh na casa de banho reparo que 
tem uma grande pana, tem os plos do peito brancos. Quando ele 
boceja, tem mau hlito. Deve ter ainda alguma dignidade, apesar 
de tudo.
Mas no. Continua tudo como tem sido desde h - h quanto tempo 
j? Continuo a pensar nisto como um interldio, uma coisa que 
acabar; mas  a nossa vida. Quando eu tiver a idade dele e olhar 
para trs para a minha juventude, ela ser isto.
Claro que ele nunca viu o beb. S as fotografias que a minha me 
traz. Ela diz-lhe que o beb se parece com ele, tal como eu 
quando nasci, diz ela. J tem umas sobrancelhas muito marcadas. 
Mas ele diz que os bebs so todos iguais. O amante no quer 
reconhecer nenhuma paternidade, nem a minha nem a do neto; teve 
com as sobrancelhas... e a minha me to inocentemente orgulhosa 
da prova de sucesso, uma coisa que nenhuma outra mulher lhe pode 
tirar. Talvez no seja assim tanta inocncia: talvez as mulheres 
queiram realmente os homens s para lhes darem filhos. Quando 
essa funo biolgica foi cumprida at  segunda gerao, e elas 
prprias j no podem gerar filhos (a minha me deve estar perto 
dessa fase agora? Tal como Baby, eu penso sempre nela como uma 
jovem), deixam de precisar de ns. Tomo conscincia de que no 
sei o suficiente sobre mulheres. No  um tema educacional que o 
entusiasme abordar.
A minha me vai visitar a minha irm e o garoto em Lusaka com 
frequncia. Claro - ela disse: Tenho de conseguir voltar l. 
Antes do nascimento andou ocupada a fazer tric e a costurar 
enquanto ele andava fora nas suas reunies e reunies  noite. 
Prendia com alfinetes os moldes de pequenas roupas  tbua de 
engomar almofadada e passava-as debaixo de um pano hmido; o 
cheiro a l aquecida subia no vapor. s vezes eu ia estudar para 
a cozinha para lhe fazer companhia. No havia ningum para 
apanhar os alfinetes com o man em forma de ferradura.
Ela foi a Lusaka mais uma vez antes de o beb nascer e outra vez 
pelo nascimento. Ela no tem problemas com as autoridades. Porque 
 que haviam de incomodar a pobre mulher: revistaram a bagagem 
dela no aeroporto de Jan Smuts nessa terceira sada - ela era, 
afinal, a mulher de Sonny-e como devem ter-se sentido idiotas ao 
ficarem com o balco coberto pelas suas roupas de beb lindamente 
confeccionadas, emblemas de coelhos bordados em vez de documentos 
subversivos, riscas azuis e brancas em vez das cores de uma 
organizao poltica proibida. Ela disse que eles foram muito 
simpticos com ela; felicitaram-na por estar prestes a tornar-se 
ouma.(1) O meu pai observou que, sim, o sentimentalismo  o 
reverso do banditismo. Ele sabe isso dos seus dias de priso. O 
mdico para quem a minha me trabalha  muito compreensivo e 
aceita tudo - ele no parece levantar objeces s frequentes 
ausncias dela do consultrio. Suponho que se trata de licena 
sem vencimento; mas a minha me est habituada a arranjar-se com 
pouco dinheiro, ela no faz economias connosco, em casa, e no 
entanto aparentemente consegue poupar o suficiente para as suas 
viagens.


*1. Av - em africnder no original. (N. da T.)


164 - 165


Suponho que  por isso que ela j no tem o aspecto que tinha - 
no  s aquele cabelo, agora - ela no se veste com o mesmo 
cuidado, vai naquelas viagens para visitar a minha irm de calas 
e sapatos rasos, as roupas e os brinquedos para o beb 
atafulhados na minha mochila. Quando volta no pergunta como  
que ns - eu me arranjei. E ela parece ter feito mais amigos 
aqui. Amigos s dela, no do meu pai, com quem ficava sempre  
margem. Est muitas vezes fora de casa quando eu chego, para alm 
do seu horrio de trabalho no consultrio. Na outra noite, ele 
entrou e ouvi-o chamar da cozinha como no fazia no sei h 
quanto tempo: Aila? Aila?
Mas estava enganado; perdeu o instinto de sentir a presena da 
minha me noutra diviso. Estavam todas vazias. Ela no estava 
l. Nem para ele, nem para mim.





Tal como Sonny acreditava ter encontrado em Hannah a nica amiga 
que alguma vez tinha tido, tambm tinha acreditado que tinha 
encontrado nos riscos da libertao, em plataformas pblicas e em 
encontros clandestinos, na priso, os nicos camaradas que alguma 
vez tinha tido. Se essa amizade significava para ele uma feliz 
integrao da sensualidade e da inteligncia, ento essa 
camaradagem significava que todos os que partilhavam dos mesmos 
ideais viveriam ou morreriam juntos. Eles no diziam os nomes uns 
dos outros sob interrogatrio. Tendo vencido essa prova, nenhuma 
outra forma de traio poderia dividi-los.
Tendo sido em tempos um grande leitor de Shakespeare, um 
reverente amador do poder das palavras, Sonny devia saber que 
quando um termo  inventado este cria novos sentidos e, ao mesmo 
tempo, frmulas para se lidar com ele. Dissidente foi inventado 
na gria poltica para lidar, com luvas profilcticas, com o tipo 
de homens que tinham ido ter com ele uma noite quando ele estava 
sozinho em casa. Ele mandou-os embora; como tinha a certeza que 
outros fariam. Era melhor deix-los fracassarem por falta de 
apoio. A confirmao de qualquer tipo de dissidncia no 
movimento apenas servia os interesses do governo. As pessoas 
discutiam individualmente essas visitas, de forma confidencial, 
eles eram conhecidos; o assunto no estava na agenda do 
executivo. Mas vrios desses visitantes nocturnos se encontravam 
inofensivamente entre os membros desse executivo. Talvez 
estivessem a aguardar uma altura mais propcia para agir, em vez 
de afirmarem submisso contrita, um lapso - s uma vez - aceite 
pela liderana como tal. Estas opes causavam conflito. Alguns 
pensavam que os homens deviam ser convencidos, em privado, por 
personalidades fortes; precisavam de ser trabalhados, que lhes 
fizessem ver,

166 - 167


mais uma vez, que a unidade era a nica condio da resistncia - 
com a mensagem implcita de que no tinham hiptese de se safarem 
levando avante os seus projectos. Alguns achavam que isto devia 
ser conduzido com o maior cuidado, eles no deviam sentir-se de 
maneira nenhuma em perigo de expulso - isso encoraj-los-ia a 
precaverem-se e a anunciarem uma ciso para salvarem a cara. E  
claro que a descontente cabala farejou esta indeciso e 
apressou-se a tirar vantagem disso. Eles intrigavam (esse termo 
imprprio para um movimento que teve origem porque todo o seu 
enorme eleitorado estava excludo do Parlamento) entre os outros 
membros do executivo onde viam que a preocupao com a prudncia 
podia tornar-se apoio. Havia fugas interpretadas pela imprensa: 
RAMIFICAO NA LIDERANA - A VELHA GUARDA AGUENTA-SE.
Sonny tinha tido sinais de aviso havia muito tempo; por alguma 
razo, parcialmente mal interpretados. Antes do Lesotho; aquele 
homem a dormir na cama junto ao cho; antes do regresso com 
notcias de Lusaka - meses antes Sonny tinha comentado com Hannah 
a atitude estranha de um camarada com o qual sempre tinha estado 
de acordo. - Todo sorrisos, e a seguir tens um golpe palaciano. 
- Ele tinha dito isto sem saber completamente o que dizia. E 
Hannah, ela tinha garantido que quaisquer potenciais elementos 
perturbadores teriam de acreditar que podiam conquistar o 
executivo antes de poderem tentar o que quer que fosse. Nem ele 
nem ela tinham pensado que eles podiam j estar convencidos do 
xito. Por muito bem que se conhea um ser humano, nunca se sabe 
o que est a incit-lo na direco de um acto decisivo, algo que 
ningum esperaria dele, no se pode ver o modo como est a 
acontecer lentamente, como est a preparar-se: a mudana de 
direco, a traio. Como se se abandonasse um homem moribundo.
Sonny tinha de admitir que aquele fenmeno de dissidncia no ia 
desaparecer. O processo de aprendizagem  infindvel. Um dos 
colegas (como ele ainda, por vezes, na tradio da fraternidade 
entre professores, pensava nos seus camaradas) que tinha estado 
detido com ele fazia agora parte do golpe palaciano. Era 
incrvel; um grande golpe para Sonny. Era um dos camaradas que 
Hannah tinha visitado.
- E costumava escrever cartas to boas, cheias de talento.
- Tambm lhe escreveste a ele?
- Sim, a todos,  a nossa poltica, manter o contacto o mais 
possvel. Sabes disso.

168


Sermes em pedras,  bom em tudo.
Embora Sonny, com as suas credenciais e a sua clareza, tivesse 
sido a escolha de muita gente para disciplinar os dissidentes, 
foi decidido que todos os que tivessem sido abordados por eles 
eram excludos para determinados fins. Os candidatos tinham de 
estar entre os que ainda no tinham mostrado a porta da rua a 
esses homens. A base do entendimento no deve ser a da 
hostilidade assumida. Mas ele andava em reunies com lderes 
sindicais e era delegado nas reunies secretas com outros grupos 
radicais filiados para discutir o seu apoio nesta matria. Entre 
reunies e viagens de centro em centro, por todo o pas, para 
consulta, havia necessidade de estar disponvel para este ou para 
aquele que precisassem de falar com ele em privado; os boatos a 
serem considerados, os relatrios daqueles que estavam no outro 
lado, que estavam de facto a trabalhar como informadores para o 
movimento; e, por outro lado, a suspeita de que este ou aquele 
andava a espiar as deliberaes do movimento para entregar aos 
dissidentes. Ele raramente tinha tempo ou cabea para as suas 
outras responsabilidades-a ateno devida quilo que ele 
assumira, as duas estruturas que ele mantinha, a casa e o chal. 
Felizmente Aila andava ocupada com os preparativos para as suas 
visitas para ver o neto ou estava de facto fora numa dessas 
visitas, e Hannah sabia o que eram prioridades. Por isso Aila no 
pareceu reparar quando ele se esqueceu da data em que ela ia sair 
outra vez e olhou sem expresso, por um momento, quando ela 
entrou na cozinha com o rapaz atrs levando a bagagem, para se 
despedir.
- A que horas  o teu avio? Eu levo-te ao aeroporto.
No, estava ali o Will, Will levava-a e trazia imediatamente o 
carro.
- Tens a certeza de que no precisas dele agora?
A habitual deferncia de Aila f-lo subitamente lembrar-se de que 
ela lhe devia ter perguntado na noite anterior se isso lhe trazia 
algum inconveniente; ela sabia que ele andava preocupado apesar 
de no lhe contar grande coisa.
No chal, aps alguns dias de ausncia, ele apareceu para passar 
uma hora;  uma da manh Hannah acordou instantaneamente ao ouvir 
o carro parar no caminho e correu aos tropees at  porta. Ele 
estava num estado de grande tenso e exausto, e o contacto com a 
pele dela, quente da cama, f-lo estremecer e arrepiar-se. As 
rbitas dos seus olhos estavam roxas como se tivesse levado um 
murro. No fales, no fales mais, disse Hannah, embora fosse com 
ela que

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ele falava, era com ela que ele partilhava aquilo por que vivia 
fora de si mesmo, ela era a nica amiga que ele alguma vez 
tivera. Fizeram amor apressadamente - no, ele fodeu-a, era tudo 
o que ele tinha dentro de si para dar. E depois ele teve de se 
vestir e ir embora; para comparecer perante o filho, ao 
pequeno-almoo, para se preparar com algum repouso para as 
decises de mais um dia. Se ele conseguisse dormir. Mas depois 
comea uma viagem na minha cabea, para pr a minha mente a 
trabalhar. A consolao que em tempos ele encontrava em palavras 
bonitas tinha-se tornado irrisria.
Porque  que ele tinha sido abordado naquela noite?
Como  que ele alguma vez podia ter imaginado que algum iria 
retirar um significado daquela visita inesperada e insultuosa?
Mas de facto tinham-lhe feito essa observao: porqu tu?
Dito levianamente. Ele no podia acreditar na implicao bvia, 
no pronunciada: o que  que tu tens que te fez parecer uma 
possibilidade? Deve ter havido qualquer coisa, porqu outra 
razo? O irrepreensvel camarada, o popular Sonny... afinal no 
tinha as mos assim to limpas? Ningum - por vezes nem sequer 
aqueles que repetiam estas coisas, de boca em boca - sabia a sua 
origem; se provinham da malcia oculta dentro deles mesmos, 
misturada com a lama da incerteza e da desconfiana que o 
descontentamento criara; ou se eram discretamente lanadas pelo 
inimigo - que definitivamente j no era apenas o governo, a 
polcia, o exrcito, mas tambm os dissidentes; e talvez estes 
ltimos fossem aliados?
Porqu ele?
Como  que foi possvel aquelas pessoas terem tido a presuno de 
se dirigirem a ele? O que  que os fez pensar que podiam? Agora 
j no era uma simples questo de lhes mostrar a porta da rua. A 
ideia de lhes ter aberto de todo a porta enchia-o de consternada 
repulsa. A ideia de que os seus camaradas de priso podiam 
esperar que ele fizesse a si mesmo uma tal pergunta compensava-o 
de certo modo.
- H pessoas por cuja lealdade eu teria apostado a minha vida, 
mas quem no acaba com esta histria, no levantava objeces... 
conseguem dar ouvidos a isto? - tinha de arranjar tempo para 
falar com Hannah, precisava de falar com Hannah.
- Filhos da me. - O sangue aflorou s faces dela, brilhantes 
lgrimas azuis apareceram nos seus olhos, ela estava corada de 
raiva.
Ele abanava a cabea perante a inutilidade.
- Eu era capaz de apostar a minha cabea por eles, eles nunca... 
eles so o melhor...
- No, eu refiro-me aos outros, no vs, eles querem pr-nos uns 
contra os outros. Querem que desconfiemos uns dos outros, que 
criemos problemas entre ns. Temos de acabar com isso.
- Afinal no tens as mos assim to limpas.
- Tens de repetir isso, Sonny?
- Acho que sim. Mas para mim... ter de admitir que tais coisas
so possveis entre ns.
Ela interrogava-se se os seus afagos o humilhariam; se ele 
precisaria de guardar todos os seus recursos para se sentir 
intacto, inacessvel  ternura bem como  agresso. Apesar disso, 
pegou-lhe na mo e sentiu os ossos um por um.
- Ningum que seja realmente importante pode duvidar da tua 
integridade por um momento. Sabes disso.
Ele debateu esse problema com a direco. Discutiram como seria 
melhor tratar dessa questo e escolheram um mtodo que revelava a 
sua inquestionvel confiana nele e o valor que lhe reconheciam. 
Durante um tempo mantiveram-no ao seu lado nas discusses mais 
importantes e declaravam-no como co-responsvel das decises 
crticas, mesmo quando estas eram tomadas sem ele. Ele ignorou a 
sua ferida em funo da sua fervorosa devoo, do desejo de ver a 
unidade restaurada, objectivo cuja inteireza fora reposta.
Tambm tenho a minha namoradinha, inha no por ela ser 
fisicamente pequena - embora o seja,  mais ou menos da mesma 
altura da minha me - mas no sentido em que o diminutivo  
frequentemente utilizado. Ela no  importante - no sou dado a 
grandes amores. Ela  uma coisinha bastante simptica, gosta 
muito de mim e eu dela. Durmo com ela em casa dela, no sof da 
sala quando os pais dela no esto, ou s vezes num quarto que 
uma amiga dela
lhe empresta.
Tal como o paizinho. A minha vida sexual no tem casa.
 uma experincia doce e fcil que ela leva muito a srio. Ela  
inteligente (no se preocupem, no andaria com uma rapariga sem 
instruo...) e vamos ao cinema e ao teatro progressista que me 
educaram a apreciar quando temos dinheiro. O salrio dela de 
operadora de computador seria suficiente para nos sustentar num 
pequeno

170 - 171

apartamento, apesar de eu ainda ser estudante e apenas ganhar por 
trabalhos em part-time, e ela no pra de sugerir isso. Depois 
podemos dormir a noite toda juntos, diz ela, inocentemente 
assustada Mas eu no posso deixar a minha me sozinha, e porque a 
minha me conta comigo para ficar l com ele quando ela est 
fora, no posso deix-lo.
A namoradinha tem orgulho de ser a namorada de algum da nossa 
famlia. Eu sei que ela diz a toda a gente que eu sou o filho do 
famoso Sonny; os pais dela confiam em mim como ela porque ficam 
impressionados pelos elevados padres morais de uma famlia que 
vive para os outros; tm um medo de morte de participarem eles 
prprios em lutas pela libertao, pertencem ao grupo de pessoas 
que vem Sonny como uma espcie de heri e suponho que sempre 
assim ser; embora eu note ultimamente que entre os seus pares 
ele parece ter menos importncia do que tinha. Os tipos 
importantes do movimento j no aparecem tantas vezes para 
conversas privadas. Tenho a impresso de que ele est a ser 
afastado, no sei porqu, e de qualquer modo ele tambm no ia 
falar disso comigo. Ele  selectivo; no  o tipo de segredo que 
lhe d jeito partilhar comigo. Suponho que na poltica como em 
tudo o resto: temos os nossos dias de glria, e depois acabou,  
a vez de outro. E isso, tambm, no  algo que ele aceite bem.
Vejo que a minha me fica agradada com a namoradinha. Eu no 
durmo com ela em nossa casa mesmo quando h oportunidade, a minha 
me em Lusaka e ele na cama no cho naquele ninho de amor, mas 
trouxe-a c a casa para tomar ch. Sabia que a minha me ia 
gostar;  assim que as coisas costumavam ser, deviam ser, para 
ela. E ela estava exactamente como era dantes; voltou a pr meias 
de vidro e sapatos de salto alto.
- Oh, a tua me  linda.
A minha mida ficou encantada.
- Era. Quando ainda tinha o cabelo comprido.
As duas fmeas chegaram imediatamente a um acordo tcito. A 
namoradinha percebe instintivamente que a minha me gostava de me 
ver - pelo menos um dos filhos - assente com uma vida domstica 
convencional, nas redondezas. E que se dane a libertao, eh! 
Viver nos espaos intermdios que em tempos tinham sido 
suficientemente bons para ela e para o marido, quando eram novos; 
e estes so mais amplos, mais confortveis,

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agora, j no o gueto de Benoni-filho-da-mgoa, mas ocupao 
ilegal de uma casa numa zona branca, cinemas abertos a todos. 
Suficientemente bom para mim, o sempre-em-casa, a decepo (para 
ele) e o menino da mam (para ela). Ela, tambm, tem um papel 
para mim: o domstico Will mantm o fogo do lar aceso enquanto os 
nobres Sonny e Baby defendem a liberdade do povo.
Eu disse-lhe quando trouxe os resultados do meu primeiro ano - s 
distines:
- Para que  que estou a fazer isto? Quem  que vai dar emprego a 
um licenciado de uma escola comercial numa revoluo?
E ri-me. Por isso ela achou que era uma piada.
-  maravilhoso que tenhas tido to bons resultados, Will.
- Ah, sim, o meu pai vai ficar orgulhoso de mim.
Ela ficou a olhar para mim, desarmada por momentos, os seus olhos 
ento baixaram-se rapidamente, uma dbil contraco na plpebra 
esquerda. Eu no devia ter dito aquilo; foi o mais perto que 
alguma vez chegmos de - de qu? Tra-lo? No sei que sentido  
que faz este acordo, mas eu vejo que ela continua a querer 
respeit-lo, embora a alegria de ter um neto, as visitas  Baby - 
uma espcie de vida prpria - a tenham de certo modo obrigado a 
render-se quilo que deve sentir em relao ao marido.
Mas eu estava a falar a srio; farto.
- Porque  que hei-de continuar a viver aqui como se fosse 
correcto deixarmo-nos ficar no nosso cantinho. (Eu no disse com 
uma simptica namoradinha.)
Ela estava a olhar para os meus lbios como se no pudesse 
acreditar no que saa deles. O seu medo fazia-a encolher-se e 
envelhecer, tal como o prazer no lanche com uma nora em 
perspectiva a tinha suavizado jovialmente.
- Vamos precisar de gente qualificada. Os guerrilheiros no vo 
ganhar a guerra econmica.
Onde  que a minha me aprende aquele tipo de gria? Com ele, sem 
dvida; ou apanha-a juntamente com a fala de beb nas suas 
visitas a Lusaka. No  o seu tipo de frase. Ela e eu no 
comunicamos assim.
- Tu tens valor, Will.
Eu sei o que ela est a dizer: no vs. No me deixes. No nos 
deixes. Ela no me deixar lutar. Pelo meu povo. Pela minha 
liberdade.

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Nunca pensei que houvesse manha na minha me mas acho que ela  
uma mulher, afinal, uma espcie de irm da loira do meu pai j 
que ele gostou das duas. E as circunstncias despertaram nela a 
habilidade, assim como se modificou noutros sentidos. Talvez para 
me mostrar como depende de mim, ela tem-me pedido ultimamente que 
a leve de carro (vendi a mota e comprei um simptico carrinho 
japons em segunda mo porque os pais da rapariga no a deixavam 
montar agarrada s minhas costas). Ela vai encontrar-se com uma 
amiga ou uma das pacientes do mdico convidou-a a visit-la - 
como reparei, ela tornou-se mais independente do meu pai,  sua 
maneira. Deixo-a num centro comercial ou na esquina de uma rua 
onde eu possa fazer uma inverso de marcha. Ela diz que j est 
muito perto do seu destino, que no vale a pena ir mesmo at  
entrada. Portanto ela no impe a sua dependncia em excesso;  
cuidadosamente calculada. Ela no precisa que eu a v buscar - h 
um autocarro, ou a amiga vai lev-la de carro, garante ela. Pobre 
mulher, recebi a mensagem. Uma vez o meu caminho ficou bloqueado 
por um camio precisamente quando eu ia virar a esquina, sem ser 
visto observei-a a subir a rua no do lado que ela tinha dito que 
ia, mas, contornando a esquina oposta, numa direco diferente. 
Talvez se tenha enganado na morada; mas tambm me passou pela 
cabea que todas aquelas sadas eram uma pattica mentira, ela 
no tinha amiga nenhuma, nenhuma visita combinada, ela s queria 
mostrar-me que no pode viver com ele
sem mim.
Nem todos os perfumes da Arbia.
Porqu ele?
A pergunta voltava vezes sem conta, um cido a queimar o peito de 
Sonny. No era exactamente a mesma pergunta. Nova, diferente, 
agora. No como se ele tivesse sido o nico. Vrios camaradas 
foram visitados nessa noite, ou noutra noite qualquer. Ele sabia, 
porque tinha discutido o facto com eles, em particular antes de 
levarem o assunto ao executivo. Mas a suspeita, que tivera de ser 
dissipada por uma exposio da direco, tinha sido posta em 
circulao contra ele, apenas. Porqu ele? Porque  que aquilo 
havia de encontrar substncia, alguma confirmao no esprito dos 
camaradas? No havia indicao de que isto pudesse acontecer em 
relao aos outros que tinham sido contactados pelos dissidentes.

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No inspira confiana. Que sombra tinha sido projectada, de onde? 
Por trs dele, em volta dele; girava tudo na sua cabea e 
queimava naquele stio dentro do peito. Nem sequer a suave mo 
rolia de Hannah sobre ele podia apazigu-lo.
Hannah. Eles sabiam de Hannah. Eles sabiam o que se passava havia 
muito tempo j, desde a priso - eles eram homens, alguns deles 
amantes de mulheres -, o que significa que aproveitavam as 
oportunidades quando estas se apresentavam. Mas ele no era um 
amante de mulheres, nesse sentido convencionado - um 
fim-de-semana ou uma noite quando uma mulher nos olha de uma 
certa maneira noutra cidade, e voltamos para casa e esquecemo-nos 
dela. Revolucionrios, activistas, so no fundo homens e 
mulheres; apenas humanos. Tais encontros marginais no tm nada a 
ver com a dedicao e confiana.
Mas Sonny nunca tinha sido esse tipo de homem. No havia no seu 
cadastro flirts lisonjeiros nem pecadillos de virilidade de uma 
noite para ignorar. Ele vivia, em intrincado equilbrio, uma vida 
dupla aparentemente permanente. Com seriedade; ele conseguira-a e 
evidentemente no ia renunciar a ela. Eles sabiam como Aila era 
uma boa esposa para um revolucionrio. E todos eles sabiam quem 
era a amante. til. Ela no tinha medo da polcia nem das 
prises, do perigo por associao. Era um deles, de certo modo. 
Mas apenas de certo modo; no directamente no movimento, 
certamente no aceitvel como membro para deliberaes, decises 
e tcticas, e por conseguinte - mais importante - no sujeita a 
disciplina. Ele sabia disso. Sonny, que tinha sido o mais 
disciplinado dos homens, sabia isso acerca dela, por mais perto 
que lhe permitisse chegar do movimento. E chegar perto dele era 
chegar perto do movimento. Ele sabia que era responsvel por 
isso; e claro que tinha conscincia de que eles o sabiam.
Comeou a distinguir uma sombra projectada de Hannah. Da sua 
necessidade de Hannah. Ele no tinha contado aos seus parceiros - 
que tinham manifestado a confiana que punham nele - sobre o 
homem que tinha encontrado a dormir na varanda dela, o homem que 
ela enviara com uma senha ntima que ele no podia recusar-se a 
reconhecer, que ele alimentara e albergara - sim! - sem saber 
quem era ou o que andava a fazer, alguma manobra aventureirista, 
provavelmente, com a qual Hannah tinha sido levada a colaborar.


175


E eles sabiam disso; era essa a explicao. Ele tinha-se entregUe 
a uma aco - uma espcie de misso que o seu movimento no tinha 
autorizado, sobre a qual no tinha sido informado. Alguns
- os dissidentes - sabiam, e era por isso que pensaram ser 
possvel contact-lo. E outros sabiam disso, tal como sabiam que 
o contacto dos dissidentes tinha tido lugar.
Ento porque no uma vida tripla? Se um homem com a sua antiga e 
comprovada integridade podia esconder informao do movimento a 
que era devida uma dedicao total, a lealdade era o acto de f, 
ele podia ser igualmente vulnervel - aberto, como uma ferida -  
dissidncia.
 melhor ser vil do que considerado vil, quando no o sendo se  
acusado de o ser.
Ele odiava que lhe viessem  cabea estas citaes, um velho 
hbito pedante; inteis, inteis para ele. Na insignificante e 
pacata vida de um professor, os aforismos resumiam to 
agradavelmente perigos que nunca teriam de ser vividos. No h 
elegncia na realidade - a angstia da calnia e da auto-denncia 
difceis de desemaranhar.
Foi reintegrado. Sim. Mas que esse termo tenha tido de ser usado 
em relao a Sonny! Nada para ser provado ou desmentido contra 
ele, nenhuma acusao, uma sombra. Contudo fora reintegrado, como 
os outros tinham sido, o grupo dissidente, como se ele estivesse 
na mesma categoria. Se calhar mais ningum seno ele prprio via 
a questo deste modo. A direco mantinha uma mo a proteg-lo; 
isso era suficiente. Ao passo que com os dissidentes houve um 
acordo. Ele esteve presente em reunies secretas onde os termos a 
serem propostos em nome da unidade eram discutidos. Mas ele no 
contribuiu nada. Ele, que sempre tivera opinies to claras e 
influentes, inclinado para a frente apoiado nas mos, os olhos 
pareciam reunir e sintetizar os elementos de uma deciso difusa 
entre vozes e motivos, antes de ele tomar a palavra, ele no 
estava interessado no regateio que dominava as negociaes com 
os dissidentes. O seu camarada na presidncia da mesa dirigia-se 
a ele, de vez em quando, com um olhar, tirando os culos para 
fazer com que o espao de uma pausa parecesse ser para esse 
trivial objectivo. Um velho amigo. Tinham feito exerccio fsico 
juntos no ptio de uma priso. Sempre que sentia o mpeto de 
intervir com uma opinio, um impulso de raiva irracional 
assoberbava-o, mas essa questo, felizmente,

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tinha acabado. Ningum queria ouvir acusaes, agora. Ele, ele; 
desde quando era ele obcecado consigo mesmo. Mas a culpa era 
deles, dos seus camaradas sentados onde as suas vidas e s vezes 
a morte estavam nas mos uns dos outros neste espao de um 
armazm abandonado, apainelado de madeira at ao nvel dos olhos; 
de acordo com a ideia confusa segundo a qual os locais de 
reunio, independentemente da diversidade dos seus objectivos, 
eram gabinetes de homens de negcios e salas de conselho. O 
refrigerador de gua vazio estava como o tanque de peixes mal 
cuidado no quintal de Benoni quando Will e Baby deixaram os 
animais de estimao morrer... a raiva foi controlada, a sua 
ateno divagava: ele, ele. Suspendam-nos j, estava algum a 
dizer, eles no podem chegar e sentar-se aqui connosco!
- Deixem-nos voltar para as bases, p... O que  que eles julgam. 
- Um pequeno homem preto com as marcas da varola dos pobres e as 
cicatrizes de murros dos carcereiros cuspiu o fsforo do canto da 
boca.
- A maior parte deles so militantes de base, portanto?
- No, no, s trs. Os outros dois so membros do executivo.
- Camarada presidente da mesa... Camarada presidente... posso 
s...
- Caleb  o nico que estamos a ver. O outro no participa numa 
reunio h meses.
- Est numa misso!
Houve risos e comentrios privados:
- Que tipo de gente andamos a mandar por a? Ouviste isto?
- Numa misso... anda por a a fazer reivindicaes... estou-te a 
dizer...
- Faz afirmaes supostamente vindas de ns.
Tiveram a sua pausa para aliviar a tenso e depois foram chamados 
 ordem:
- Isto no  um circo, camaradas.
Um deles com quem se podia contar sempre para dominar o auditrio 
como se estivesse a olhar num espelho o seu bonito rosto redondo, 
ele mesmo a sua prpria apreciativa audincia, iniciou um 
discurso preparado.
- Camaradas... estamos a enfrentar uma grave crise cujas 
derradeiras consequncias no podemos prever... as foras de 
aco democrtica esto ameaadas por dentro... este cavalo de 
Tria poder ser posto em estbulo...

177


pergunto-vos... um desafio.... ser muito diferente do que 
sucedeu com o camio que parecia transportar inocentemente a sua 
carga de bebidas frescas, que atraiu os nossos filhos para a rua 
e deu aos fascistas que estavam escondidos com as suas armas 
atrs das grades de garrafas uma oportunidade para abaterem os 
nossos filhos... Ser que temos de ter cuidado com as nossas 
palavras e esticar o nosso pescoo para as facas de potenciais 
traidores aqui neste local onde nos reunimos para nos entregarmos 
de alma e corao  luta... ser que temos de nos sentar com 
Judas entre ns... eu digo, e atrevo-me a falar em nome das 
massas, que sacrificam o seu po em aces de greve, que se 
arriscam a ficar sem um tecto nos boicotes  renda, dos nossos 
camaradas trabalhadores que suam e trabalham duramente na 
escurido das minas... vamos expulsar estes traidores da 
confiana do povo, da unidade que  a nossa fora, deixem-nos 
fazer o que eles quiserem, mas no podemos comprometer a luta que 
 sagrada para ns.
Inspido, inspido. Sonny no tinha conscincia de que estava a 
abanar a cabea lentamente de um lado para o outro, discordando 
da retrica e melodrama desta actuao de um homem to corajoso 
quanto vaidoso - como explicar que algum que tinha aguentado sem 
ceder dezassete meses na priso pudesse falar daquela maneira; 
que uma tal convico fosse expressa deste modo empolado, 
associado nos ouvidos de toda a gente a mero palavreado. Ele 
acreditava que os dissidentes deviam ser expulsos; que era 
prefervel uma ciso do que um cisma interno. Mas agora ele era 
invadido de averso pela ideia de associar essa deciso a um 
estilo bombstico. Agarrava-se desesperadamente  verdade num 
estilo simples, palavras simples; ele no falou.
Mas algum tinha de o fazer. Um movimento no pode ser dirigido 
por enfastiada absteno. Ele devia saber disso. A direco que o 
tinha protegido (de nada!, de uma sombra!) e que o exibiu ao seu 
lado j tinha chegado em particular a um acordo que seria 
acolhido pela maioria.
- Camaradas - o porta-voz escolhido olhou  volta em silncio 
para todos eles e passou os dedos pelo contorno do maxilar 
durante um momento enquanto concentrava a ateno.
- Eu proponho, no maior interesse da unidade combinada com a 
segurana do movimento, que no expulsemos publicamente estes 
homens do executivo. Suspendemo-los, com o seu acordo - licena 
para se ausentarem -,

178


at o executivo ser automaticamente dissolvido no nosso 
Congresso. No assistiro a mais reunies, no voltaro a 
apresentar-se para falar no nosso interesse, em nenhuma 
qualidade. No daro entrevistas  imprensa. Sabemos que eles 
concordaro com isto... esta histria toda deixar de ser um 
acontecimento.
Toda a gente esperava que mais algum falasse.
- Continuaro a ser membros, os militantes de base tambm?
- Sim. Nada de cises. Esto a ser reeducados, se algum se der 
ao trabalho de perguntar.
O orador atirou a cabea para trs e assumiu um perfil herico.
- Camaradas, eu sujeito-me  maioria.
Sonny saiu com os seus companheiros, os chefes. Uma mo 
agarrou-lhe no cotovelo.
-  a nica maneira de resolver isto, Sonny.
- Sabes o que eu penso.
Hannah estava  espera que ele chegasse e lhe contasse. Ele 
dirigiu-se para o chal, estacionou na rua, abriu caminho atravs 
dos arbustos onde voavam tordos de peito malhado, assobiando,  
sua frente. Involuntariamente as suas mos esticaram-se para os 
apanhar. Havia um monte de pontas de cigarro ao lado dela, ele 
sentiu o fumo da ansiedade secando a boca dela. Ele disse-lhe 
qual tinha sido a deciso e depois voltou atrs no seu relato 
para descrever como tinha corrido a reunio, contando todos os 
passos, parafraseando at com um ligeiro exagero, para grande 
divertimento dela, o discurso que na altura o tinha embaraado. 
Ela conhecia, como ele, as verdadeiras qualidades daquele homem - 
o que  que importava, a pompa, apesar da sua sbita nsia de que 
o discurso fosse diferente -, nada  simples numa vida e num pas 
onde o conflito mina toda a coerncia pessoal. Tinham conversado 
muitas vezes sobre isso. Com particular referncia a Baby -  sua 
Baby. A sua frivolidade, a forma como ela manipulava atravs do 
charme, e aquele objectivo a vir subitamente (quem sabia?)  
superfcie nela - o mais forte objectivo na sociedade humana, 
mudar o mundo.
Mudar o mundo. Outra vez a ostentar as palavras. Ele debruou-se 
sobre o cinzeiro cheio e despejou-o para o jardim.

179


- J chega. Acabou-se.
Ela afastou o mao de cigarros.
- Prometo. Enquanto aqui estiveres. - Depois de uma pausa: - ... 
portanto est tudo bem. Decerto modo. Est tudo outra vez na 
mesma.
- Na mesma no.
Ele tentou responder ao sorriso dela mas esboou um estranho 
sorriso largo, que no o abandonou sob a contradio daquelas 
escuras sobrancelhas espessas concentradas sobre uns olhos 
intensamente negros.
- Podes comer comigo?
Ele no podia, tinha prometido a Aila deixar-lhe o carro nessa 
noite - um convite que ele tinha conseguido arranjar, trabalho 
burocrtico para fazer. Por isso saiu cedo, e aquela era a sua 
segunda chegada a casa. Aila no esperava qualquer relatrio 
dele, graas a Deus. Estava atrasado - mas ela estava acostumada 
a isso. Pegou nas chaves do carro sem qualquer atitude crtica e 
despachou-se a sair, cheirando a perfume. O rapaz tinha sado, 
tinha encontrado uma namorada finalmente. Sonny podia ir para a 
cama em branco, se no em paz.
ligeiramente alarmada. Excitou-a como um novo sentido estimulado, 
o contacto de algo diferente de um amante. Ela desfrutou aquela 
oferta como se isso fosse o princpio e o fim da questo; no 
pensou nela como uma deciso a tomar - estava longe de considerar 
sequer o assunto. Mas sentiu que no era altura para contar o que 
quer que fosse a Sonny; o que quer que fosse de inesperado. Ele 
tinha acabado de ser confrontado com um conflito que no podia 
imaginar que alguma vez acontecesse. No era o momento de 
presente-lo com nada a no ser ela mesma tal como tinha existido 
para ele desde que o visitara na priso. Nem sequer com o prazer, 
segundo a perspectiva dela, de ter algo de que se orgulhar, nela. 
Sonny era o seu mais longnquo horizonte. Seria necessrio outro 
tipo de coragem, que ela julgava no possuir, para a fazer 
aceitar sem constrangimento aquela perspectiva; para ver que, tal 
mudana, no era o fim do mundo.
Hannah no sabia que o seu amante era av - e se ao menos ele 
tivesse percebido isto, que nada teria mudado se ela soubesse: 
com a sua mulher e filhos crescidos essa novidade teria 
pertencido quela dimenso da sua personalidade que, sem que ela 
tivesse a qualquer lugar, enriquecia a parte dele que ela 
possua. Desde o princpio, quando ela o viu na priso e visitou 
a sua casa, que tinha ficado fascinada pelo quadro de vida de 
Sonny, semi-apaixonada pela famlia assim como pelos seus 
companheiros polticos.
Havia uma coisa que ela no lhe tinha dito, tambm. O Alto 
Comissariado das Naes Unidas para os Refugiados queria que ela 
aceitasse um cargo de alto nvel. Ela no tinha concorrido para 
ele - nunca pensaria em mudar de emprego enquanto tivesse a sorte 
de ter um que lhe permitia ficar junto dele. Um dos observadores 
da Comisso Internacional de Juristas que a tinha conhecido em 
grupos de discusso no julgamento de Sonny e em outros 
julgamentos aparentemente tinha recomendado que ela fosse 
contactada. Ela sentiu-se gratificada com esta inesperada 
considerao por ela, surpreendida e ligeiramente alarmada.

180


Excitou-a como um novo sentido estimulado, o contacto de algo 
diferente de um amante. Ela desfrutou aquela oferta como se isso 
fosse o princpio e o fim da questo; no pensou nela como uma 
deciso a tomar - estava longe de considerar sequer o assunto. 
Mas sentiu que no era altura para contar o que quer que fosse a 
Sonny; o que quer que fosse de inesperado. Ele tinha acabado de 
ser confrontado com um conflito que no podia imaginar que alguma 
vez acontecesse. No era o momento de presente-lo com nada a no 
ser ela mesma tal como tinha existido para ele desde que o 
visitara na priso. Nem sequer com o prazer, segundo a 
perspectiva dela, de ter algo de que se orgulhar, nela. Sonny era 
o seu mais longnquo horizonte. Seria necessrio outro tipo de 
coragem, que ela julgava no possuir, para a fazer aceitar sem 
constrangimento aquela perspectiva; para ver que, tal mudana, 
no era o fim do mundo.

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Ultimamente, por duas vezes, quando estava sozinho em casa, o 
telefone tocou e, quando atendi, quem quer que estava do outro 
lado da linha desligou. Pergunto-me se ele vai ser preso outra 
vez: a Segurana a controlar para descobrir se ele est a viver 
em casa. Achei que era melhor avis-lo; mas ele fez um sorriso 
cptico - No te preocupes filho. J no vem tantas vezes para 
casa com aquela corrente de - era isso, exactamente - vigor, 
excitao, impudicamente, dificilmente escondendo de ns quando 
esteve com ela, os lbios inchados e aquele cabelo preto 
encaracolado penteado para trs para tornar inocente o 
despentear-se naquela cama que acabara de deixar; nem vem com 
aquele gnero de corrente sangunea acelerada que costumvamos 
sentir nele por razes diferentes, quando tinha estado a fazer um 
dos seus discursos e a desafiar a polcia. Talvez ele e a amante 
tenham tido uma briga. Se calhar  ela quem telefona, na 
esperana de que ele esteja sozinho em casa e seja ele a atender. 
Mas sou eu o homem que  mais provvel encontrar-se em casa no 
meu quarto porque dei incio a um projecto - chamemos-lhe assim - 
que precisa de isolamento. Descobri uma utilidade para o estado, 
comprometido e abandonado, em que ele me mergulhou quando se 
afastou to calmamente com a sua loira depois de uma tarde no 
cinema.
Na semana passada houve mais dois telefonemas, e desta vez, aps 
um silncio sussurrante (podia significar longa distncia), 
algum pediu para falar com a minha me. Um homem. O que ele 
disse no foi o nome dela mas a dona da casa. Da segunda vez - 
fiquei irritado por ter sido interrompido na minha linha de 
pensamento - perguntei se era um lanamento comercial, venda 
directa (uma matria do currculo do meu curso da escola 
comercial). A voz disse que no, pediu desculpa educadamente, mas 
desligou

183


quando eu pensei que era melhor ser tambm educado e perguntar se 
queria deixar recado. No! No  possvel que agora a minha me 
tambm - que a minha me tenha um amante algures. Mas dou comigo 
a rir, primeiro com embarao e depois porque  to engraado - a 
piada est em mim e agora posso rir alto de mim prprio. O 
palhao est realmente a fazer gracinhas. A nossa famlia num 
cenrio completamente diferente: um dos enlatados que os nossos 
canais de televiso estatal compram  Amrica, onde cada membro 
da famlia anda a enganar o outro, descaradamente. A minha me e 
eu s vezes vmo-los na cozinha enquanto ela faz o jantar - a ele 
custa-lhe, depois do Shakespeare com que costumava 
privilegiar-nos, ver-nos aos risinhos com aquela porcaria.
A minha pobre me com a sua feia cabea rapada e a sua corajosa 
prova de ter uma vida prpria, a tricotar roupas de beb e a 
tentar fazer amigos novos entre os pacientes do patro. J sou 
suficientemente adulto, agora, para quase desejar que fosse 
verdade. Eu compreendo a segurana que  possvel encontrar num 
estranho para quem se  alguma coisa, algum fora do tringulo - 
pai, me, filho; Sonny, Aila, Will - desta casa.
No se convocava um congresso h dois anos devido a restries 
impostas pelo governo ao movimento. Quando este foi realizado 
clandestinamente o conselho executivo foi dissolvido tal como 
tinha ficado estabelecido.
Depois o antigo executivo foi reeleito em bloco, por unanimidade. 
Os dois que tinham pertencido  cabala dos dissidentes no tinham 
sido afastados; estavam ali nos seus lugares, um manifestando o 
seu apreo, como era devido, ao som dos aplausos, o outro com a 
boca modestamente descada e os olhos baixos. Este perdo deve 
ter sido decidido pela direco, os parceiros de Sonny, porque h 
maneiras de evitar estas coisas - obstruir uma candidatura 
atravs do apoio oficial a outros candidatos. At os movimentos 
democrticos tm de trabalhar assim, pelos objectivos da luta. 
Sonny andava metido na poltica de libertao h tempo suficiente 
para ter usado meios destes, ele prprio, uma srie de vezes.
Portanto aqueles visitantes nocturnos tinham sido disciplinados, 
postos na linha - e tinham tido de pagar um preo por isso.
184


No ouvira mais nada acerca disso. Ali estavam sentados, seus 
camaradas como os outros. Exactamente como antes. Mas quando o 
conselho executivo elegeu entre eles os que ficavam com os 
cargos, Sonny no manteve a sua posio-chave. Isso estava 
planeado tambm; ele percebeu isso nos olhos do lder que o tinha 
segurado pelo cotovelo e dito,  a nica maneira de resolver 
isto, Sonny: um olhar disfarado por uma cabea ligeiramente 
empertigada de modo a que o olhar fosse de raspo, um rpido 
sinal de que Sonny devia recuar perante uma nomeao mais forte - 
pelo bem da luta. No podia haver qualquer dvida no esprito de 
Sonny de que os seus parceiros, os seus camaradas de luta, 
pusessem a luta acima de todas e quaisquer outras consideraes. 
Tal como ele prprio. Apesar do que tinha acontecido. Por isso 
deve haver uma boa razo; eles devem estar certos ao 
atriburem-lhe uma responsabilidade sonante, mas menor, em lugar 
das que tinha cumprido - generosamente. A sua vida 
pertencia-lhes. O que ele tinha deixado para trs - abandonara 
uma carreira que amava, desistira da formao intelectual de uma 
gerao futura pela reputao irreal (aprender a praguejar de 
cor) de um demagogo popular de plataforma, deixara o acolhedor 
crculo familiar pela existncia sob vigilncia, a cela da 
priso; desmembrara - sim, e de bom grado, pela luta ele voltaria 
a faz-lo - toda a sua estrutura emocional de modo que ficou 
indefeso, qualquer pessoa podia penetrar nele, qualquer pessoa 
podia apoderar-se dele.
Se ele era responsvel pela luta, ento a luta era responsvel 
por ele, pelo Sonny tornado Sonny. Ele no tinha existncia sem 
ela. E estavam a fazer-lhe isto dentro das paredes de tijolo 
arroxeado, sobre o cho de cimento vermelho, sob o telhado de 
folha que estalava com a dilatao do calor, de um seminrio 
religioso na savana; exactamente o mesmo cheiro e sensao dos 
edifcios do departamento de educao onde o professor recebera 
ordens triviais de inspectores e onde recebera a sua demisso 
oficial por ter acompanhado crianas a marchar para fora do 
humilde e submisso lugar que lhes fora atribudo pela sociedade o 
signo CARPE DIEM.
Sonny no tinha de que se queixar. Era um princpio, cuja 
aplicao a outros camaradas ele prprio tinha aprovado sempre 
que se justificava, que o culto da personalidade devia ser 
evitado. Se Um cargo vai ser bem preenchido, no interessa quem o 
preenche; a mudana  uma coisa boa, o movimento tem de crescer 
constantemente,

185


ningum devia permanecer no mesmo cargo durante demasiado tempo. 
Deve vir sangue novo dos quadros jovens Ele prprio tinha usado 
esta linguagem. Compreendia, tambm - embora isso no lhe 
permitisse jamais apagar da sua cabea aquela sesso no tribunal 
-, que nunca saberia por que razo o vento j no soprava a seu 
favor. S podia continuar a imaginar as coisas que se diziam nas 
suas costas. E estas s podiam explicar-se a partir de suspeitas 
que ele achava possvel terem a seu respeito. Coisas que tinham 
sido esquecidas ou eliminadas, afastadas por ele quando era 
transportado e jubilosamente sacudido no pico da onda. Pensou em 
todas as crticas que tinha feito ou com que tinha concordado a 
respeito de outros. Corre a fama de que Sonny  demasiado 
intelectual. Sonny pensa demais. Sonny faz demasiadas perguntas. 
O estilo de oratria de Sonny est a ficar demasiado 
previsvel... desactualizado. Sonny no  um cobarde, no, 
ningum poderia alguma vez dizer que ele no arriscaria a prpria 
vida, mas... Sonny tem ligaes afectivas, ligaes afectivas no 
combinam com revoluo, ele prprio o tinha afirmado. A posio 
de Sonny em relao  violncia no est nada de acordo com 
poltica. E lembram-se, daquela vez... a histria da cabala... E 
daquela outra vez, antes, a purificao das sepulturas... o seu 
grandioso discurso, e depois...
Quando ele debateu o problema com os nicos indivduos que podia, 
os seus camaradas mais ntimos, se eles sabiam as respostas no 
lhe disseram. No disseram a verdade; portanto isso deve 
significar que a verdade destruiria a amizade, que ele nunca lhes 
perdoaria.
- As coisas so assim, Sonny,  uma pena... certas pessoas - um 
abano de cabea -, ate!,(1) no se pode confiar nelas, so 
demasiado ambiciosas e tu s demasiado directo... percebes o que 
eu quero dizer? Tu no fazes manobras, no  o teu estilo, p. 
Hoje tu, amanh eu, quem sabe o que pode acontecer... temos s 
que nos manter nisto, pela luta.
Quando debateu o problema com Hannah, com quem, desde a primeira 
descoberta desta possibilidade entre eles, todas as questes 
polticas tinham sido analisadas, ela no foi capaz de usar essa 
faculdade - desta vez no,


*1. Tique de linguagem caracterstico do discurso oral. Em 
africnder no original. (N. da T.)


186


para isto no. Tudo o que conseguiu fazer foi confort-lo, 
tocar-lhe e envolv-lo, as suas coxas macias abraando 
pesadamente o corpo dele, os seus braos  volta do pescoo dele, 
as mos enfiadas no seu cabelo, como se ela estivesse a junt-lo 
e a reconstru-lo de novo. Na devida altura ele foi-se sentindo 
envergonhado de estar a ser mimado, ele era o amante dela, e no 
nenhuma vtima para ser socorrida. Ele tornou claro que aquilo 
no estava de acordo com a disciplina de activistas; f-lo 
deixando de falar do que tinha acontecido pondo isso para trs 
das costas como qualquer fase na luta por que tinham passado e 
continuou de boa vontade a fazer o trabalho no movimento que 
agora lhe tinha sido atribudo. Tomou-a nos braos como o homem 
dela, que no precisava de consolo; e assim, aquilo invadiu-o 
secretamente. Ele no conseguia resistir-lhe, embora no o 
desejasse. O que ele queria dela era o que ningum podia 
devolver-lhe; a sua autoconfiana.
Quando ela se viu no espelho embaciado da casa de banho, viu a 
imagem da representante regional para a frica do Alto 
Comissariado das Naes Unidas para os Refugiados, ali, naquele 
familiar rosto redondo. (Ela no podia deixar de fumar, nem mesmo 
para lhe agradar, porque engordaria.) Hannah nunca gostara da 
prpria cara. No era vaidosa; e esta era uma das qualidades, 
que, paradoxalmente, tinha atrado Sonny para ela. Uma recompensa 
inesperada. Ela teria concordado com Will, o filho de Sonny, que 
o seu tipo de beleza era demasiado carnudo e rosado - embora a 
sua comparao com o animal que ele invocava para a insultar a 
tivesse magoado cruelmente. Particularmente vindo dele.
Ela via tantas vezes a representante regional para os refugiados 
que teve de dizer a Sonny. Ela teria de lhe dizer, de qualquer 
modo, agora. O Alto Comissariado queria uma resposta.
Ela no sabia se havia de lhe dizer antes ou depois de fazerem 
amor. Cada vez que ela ouvia os passos dele aproximarem-se sobre 
o cimento estalado da varanda do chal era tomada por uma 
agitao de indeciso, e punha-se a andar de um lado para o outro 
na diviso nica para escapar  necessidade. Parecia a Hannah 
haver uma diferena terrivelmente importante: antes ou depois. 
Uma questo de honestidade, preciosa entre eles. Nunca se tinham 
seduzido um ao outro. Aquilo que era conhecido como ardis 
femininos e decepes masculinas

187


eram a negao da igualdade, uma tica da imensa luta pela 
liberdade humana a que eles pertenciam. Se ela puxasse o assunto 
depois de fazerem amor, poderia parecer calculado para o apanhar 
num estado de esprito de ternura, como Sanso de cabelo cortado, 
incapacitado de oferecer resistncia. Se ela lhe dissesse antes, 
o acto de amor (o acordo deles feito na carne) pareceria uma 
tentativa de o distrair de algo em que era seu direito fazer com 
que ela se concentrasse. Contudo foi no fim, quando ele estava 
naquele estado desarmante, tendo o amor expulsado o medo ou a 
tranquilizante droga do sexo enevoado o acto de julgar, que ela 
lhe disse. Ela tinha posto uma mo de fora para tactear o mao de 
tabaco no cho e ele tirou o seu brao de debaixo da cabea dela 
para impedir a mo. Ela sorriu com os olhos ainda fechados e em 
vez disso enroscou a mo no suado recanto de plos do sovaco 
dele. Ele deu-lhe um beijo infantil na testa. Ela amava-o tanto 
que podia ter-lhe dito qualquer coisa: vamos morrer, um dia irs 
para a priso outra vez, vou-me embora - no havia qualquer 
consequncia nas palavras faladas.
-Aconteceu uma coisa extraordinria. Ofereceram-me um emprego.
Ele respondeu com voz sonolenta.
- Aquele do conselho de igreja? De certeza que podes ficar com 
ele se quiseres...
- No.  mesmo uma coisa em que nem consigo acreditar. Ele fez 
uma leve presso de encorajamento, o seu brao e peito
pressionando contra a cova onde a sua mo estava encaixada.
- Naes Unidas. O Alto Comissariado para os Refugiados. - E 
ento ela disse tudo: - De facto eles ofereceram-me um lugar ao 
nvel de director,  s um lugar abaixo de adjunto do 
secretrio-geral.
Ele parecia no querer mexer-se, no querer acordar 
completamente.
Ela pensou por um momento que ele ia adormecer outra vez e no se 
lembraria do que ela tinha dito. Deixa-o dormir, deixa-o 
adormecer.
- Quando  que soubeste disso?
- H pouco tempo. No levei a srio.
- Que tipo de lugar. Onde.
- Bem, o verdadeiro nome  representante regional para frica
do Alto Comissariado. Com base em Addis Abeba. Mas a trabalhar em 
todo o lado, claro.
- Sim,  um continente enorme Hannah... e com muitas
guerras.
Sonny soltou-se suavemente dela e sentou-se.
- A que propsito  que isso surgiu? Como  que eles souberam
de ti?
- Aparentemente foi uma recomendao da Comisso Internacional de 
Juristas. Eu no fazia ideia.
Ele assentiu devagar; estava a friccionar os braos nus, cruzados 
sobre o peito.
- Addis... Eritreia, Sudo, Lbano. Deus sabe onde, aparecem 
campos novos todos os dias, novas populaes nmadas sem casa.
- Moambique. -Acrescentou ela, pondo-se mais perto, ao alcance 
dele.
Ele virou-se e fixou os olhos nela, ela mantinha-se completamente 
imvel sob o seu abrigo de cabelo loiro, uma madeixa isolada 
suada de fazerem amor cada sobre a face. Mas Sonny limitou-se a 
sorrir, o sorriso que se prolongava e se transformava naquele seu 
doloroso esgar, que ele no era capaz de dissipar.
- Uma oportunidade maravilhosa, minha Hannah. Uma honra teres 
sido escolhida.
- Convidada.
- No; escolhida.
- Acabei por abandonar a ideia. Ainda nem sequer respondi... 
escreveram-me outra vez. Atravs de mensageiro.
- Claro. Querem-te. Altamente recomendada.
- Deita-te, no posso falar com as tuas costas... por favor.
Ele mergulhou ao lado dela. Estavam estendidos como duas figuras 
humanas numa sepultura, comemorando uma vida de dedicao a dois. 
Ela pegou-lhe na mo.
- No sei o que hei-de dizer-lhes. Quero dizer, o que  que eu 
posso fazer... eu sou... eu tenho o meu trabalho aqui.
- Eles sabem disso, no sabem? Eles sabem como tu s boa neste 
tipo de trabalho;  por isso. Eles sabem que s capaz de algo... 
mais... maior... mais importante.
- Nada  mais importante do que o que est a acontecer aqui. Para 
mim.
- No sabes o que hs-de dizer-lhes.

188 - 189


- No. No sei. Simplesmente no sei.
- Tu pensaste nisso.
- Sim, de certa maneira. No pensei efectivamente... no parece 
ser algo que eu possa aceitar.
- Mas pensaste nisso.
- No que poderia significar, sim.
Ele tinha-lhe arrancado aquela afirmao, estava a obrig-la a 
encarar o que no tinha encarado, o que no tinha querido 
encarar.
No queria fazer-lhe a pergunta imbecil, o que  que tu pensas? 
Ela saiu da cama e foi descala at  cozinha, com a familiar 
vista dos malmequeres de Van Gogh, para fazer caf. Ela sups que 
ele tinha de ir embora, dentro em pouco; ele tinha sempre de ir 
embora. Ela no voltou para a sala enquanto a gua estava a 
aquecer; deixou-o ali sozinho, s Deus sabia o que ele estava a 
pensar - mas ela sabia o que ele estava a pensar, e no queria 
v-lo. Ela apanhou as folhas secas do vaso de orgos que 
cresciam no parapeito da janela. Ouviu-se o rudo do autoclismo a 
descarregar; ele tinha ido  casa de banho e ela achou isso 
tranquilizante - a vida continuava humildemente com as pequenas 
exigncias do corpo.
Ela trouxe duas canecas de caf. Ele tinha voltado para a cama.
- Quem me dera que eles nunca me tivessem pedido.
Fui eu outra vez quem abriu a porta.
De facto eu j os tinha ouvido antes de eles baterem. Acordei e 
soube imediatamente quem vinha l com o ranger do porto e os 
passos subindo o caminho de cimento que ele fez para a minha me 
para ns no trazermos lama para a varanda.  como se houvesse 
uma programao no meu crebro como um despertador num 
rdio-relgio.
Levantei-me e sem sequer acender a luz atravessei o corredor e 
destranquei a porta com um gesto floreado.
- Ele no est.
Entre trs silhuetas distingui uma mancha plida e dois espaos 
escuros - um oficial branco, e os outros da nossa raa. Um deles 
apontou a sua lanterna para a minha cara:
- Dis net die seun, p.(1)


*1.  apenas o filho. Em africnder no original. (N. da T.)


190


- Querem entrar e procurar? O meu pai no est. No sei onde 
est, por isso no adianta perguntar.
Um deles carregou no interruptor da luz da varanda, a escurido 
afastou-se deles - o oficial em uniforme e os outros dois com uma 
espcie de resistncia, usando calas de ganga e tnis para 
parecerem frequentadores de discoteca em vez de chuis. O branco 
era novo mas tinha dentes falsos, vi eu quando ele sorriu perante 
o meu desaforo, para mostrar que estava habituado  falta de 
reverente temor que se espera das famlias de homens como o meu 
pai. Ele falava em africnder.
- Mas sabes onde est a tua me, ah, vai chamar a tua me. E ele 
pronunciou o nome completo, de solteira e casada.
O meu corao comeou a bater como uma manada de animais 
selvagens no meu peito.
- Ela tambm no sabe.
O branco repetiu os nomes da minha me.
Eu tinha de acreditar que eles no acreditavam em mim, queriam-na 
s para a interrogar acerca dele, a confuso galopante sob as 
minhas costelas dava livre curso a impulsos infantis como 
fechar-lhes a porta na cara, gritar para ela, ajuda-me, salva-me. 
A mim? A ele? Eles no tinham vindo por Sonny, vieram por ela. 
Nas minhas costas ouvi-a aproximar-se vinda do seu quarto e podia 
v-la antes de a ver, o roupo florido com a sua brilhante trana 
preta cada pelas costas.
Empurrou-me para passar por mim exactamente como ela . Um curto 
roupo turco e uma grosseira capa de cabelo banalizado por 
produtos qumicos, duas linhas esticas do nariz at  boca que 
modificaram o seu sorriso. Ela respondeu aos seus apelidos, o de 
famlia que tinha antes de se casar com ele e o que recebera 
juntamente com tudo o resto que provinha dele. Comecei a gritar e 
ela fez-me sinal para me calar, apertando o meu ombro e fazendo 
sinais com a mo na direco da boca como se eu s conseguisse 
perceber os gestos com que ela tinha comunicado comigo muito 
antes de eu conseguir compreender a fala. Eu segui-a para o hall 
da entrada onde - meu Deus, o que  que ela estava a fazer, ela 
estava a tirar do armrio das arrumaes o saco de viagem que 
costumava manter preparado para o meu pai, levou-o para o quarto 
e comeou a pr l dentro o creme das mos, a escova do cabelo, 
os Kleenex eu gritei, por fim, por fim: Aquele filho da me! 
Aquele filho da me, o que  que ele fez desta vez!

191


O que que ele fez para te mandar para a priso! Eu mato-o! 
Estou-te a dizer, quando ele voltar a entrar por aquela porta da 
cozinha eu mato-o!
Ela estava a abanar a cabea, a abanar a cabea calmamente na 
minha direco enquanto fazia a mala, parecia que ela estava 
prestes a ir de viagem para visitar a Baby e o neto. Virou-se 
para mim, suplicante, modesta.
- Will... tenho de me vestir...
S Deus sabe o que lhe vo fazer; mas um filho no pode olhar 
para a nudez da me.
Depois de eles a levarem enfiei um par de calas e sa a correr 
da casa que derramava luz e guiei com a mxima velocidade que um 
carro em segunda mo j gasto pode dar, na direco do tal chal. 
Os ces da casa principal seguiram-me saltando e rosnando atravs 
da relva enquanto eu arrancava ramos aos arbustos e atirava-lhes. 
Eu estava descalo e eles atiraram-se aos meus tornozelos quando 
corri at  varanda. Agora  a minha vez de bater  porta. Atirei 
para trs a porta de rede e bati na de madeira com ambos os 
punhos. No chamei pelo meu pai; Sonny, gritei, Sonny. Sonny. 
Sonny. Sonny. No estava l ningum. Continuei a bater  porta e 
fiquei repugnado por ver os meus punhos, o meu rosto molhado. 
Pela segunda vez, primeiro quando adolescente com voz esganiada, 
agora homem, eu chorei.
Acenderam-se luzes na casa principal e ouviram-se vozes por cima 
da barulheira dos ces a rosnar e a ladrar. Fugi apavorado 
atravs da zona mais densa e mais escura do jardim, vislumbrei a 
claridade de um viveiro de peixes, um negro intruso perseguido 
por um proprietrio, tentei subir a vedao, ca, tentei uma 
segunda vez e, quando a minha cabea provavelmente ficou contra o 
cu, uma bala passou por mim.
Eu ia mat-lo naquela noite.
Fui eu quem abriu a porta aos carcereiros dela. Fui eu quem podia 
ter morrido.

192


Era o fim-de-semana da reconciliao.
Sonny e a sua amante loira voltaram  estncia de rondveis no 
meio das laranjeiras em flor. Para estarem fora, uma vez mais, 
para passarem noites inteiras juntos; era uma pausa a que se 
agarraram para fugirem ao que estava a pression-los, a cair 
sobre eles na intemporalidade daquela diviso nica. Ideia de 
Hannah - plano de Hannah; mal ela percebeu que ele sabia que ela 
ia ser a representante regional do Alto Comissariado das Naes 
Unidas para o enorme continente africano, tudo se tornou equvoco 
entre eles, a ela, a culpa, o medo e o remorso ensinavam-lhe 
artimanhas para se salvar da dor dele: ela no podia ir, no 
podia; mas apesar disso sabia que iria. Convenceu-o a arranjar um 
pretexto para se ausentar de casa durante dois dias. Reunies 
urgentes a nvel nacional noutra zona do pas? Ele tinha 
conseguido sempre, de algum modo, planear estas viagens de 
maneira a que a sua famlia acreditasse que ele estava com os 
seus camaradas, e que os camaradas acreditassem que ele tinha 
alguma obrigao domstica inevitvel merecendo um fim-de-semana 
livre. Tinham conseguido sempre escapar. E enquanto pronunciava 
esta frase vulgar, ela ouviu nos seus prprios ouvidos o nico 
engano de qualquer encontro sexual vulgar; no para eles. E o 
sempre podia ser interpretado como referindo-se indirectamente 
ao facto de ultimamente - ao contrrio de sempre - no poder 
ser tomado como garantido que ele fosse includo em discusses 
importantes a nvel nacional.
Onde  que haviam de ir?
- Rustenburgo?
Ela sugeriu isto como se ao mesmo tempo abandonasse logo a 
possibilidade. Era onde eles tinham experimentado

193


a mais intensa felicidade; mas era tambm o stio de onde ele 
tinha voltado para casa para descobrir que a filha se tinha 
tentado matar.
Olharam um para o outro penetrantemente, embaraados. Ambos, cada 
um pelas suas razes, estavam tentados a voltar ao stio onde o 
perfume das flores de laranjeira tinha sido como oxignio.
Ela tornou isso possvel mediante um tipo de racionalizao que 
exclua a possibilidade de haver qualquer factor emocional que 
pudesse faz-lo recear voltar quele stio.
-  perto. - Como se os longos passeios de carro que eles tinham 
dado no fossem uma forma particularmente ntima de estarem 
juntos, viajando dentro de um espao restrito, sem quaisquer 
outros laos a prend-los.
Assim Sonny disse as mentiras necessrias. A Aila, que no podia 
ter imaginado que ele lhe mentisse. Aos seus camaradas, que 
raramente tinham urgente necessidade dele, agora, e que era muito 
improvvel tentarem contact-lo em casa. Aila garantiu-lhe que 
Will lhe emprestava o carro para os seus planos de fim-de-semana. 
Ele agarrou na pasta e saiu. Ela tinha-o beijado na face; ele ps 
a mo nesse stio como se tivesse feito um golpe feito ao 
barbear-se, enquanto ia de carro buscar Hannah.
Uma onda de alegria invadiu Sonny e Hannah durante a viagem. 
Estava um dia esplndido com o brilho da chuvada da ltima noite 
sobre a erva da savana e as enormes grutas brilhantes formadas 
pelas rvores de mogno sob as quais iam passando  medida que 
desciam para uma altitude subtropical. Ela dava-lhe alperces 
secos e uma vez ele fingiu dar uma dentada nos dedos dela. 
Lembrava-se, ao atravessarem uma passagem de nvel, que uma vez 
tinha trazido um grupo de midos para acamparem naquela rea.
- Conta-me. - O velho desejo de ter conhecido o zeloso professor 
veio  superfcie, pronto a ganhar vida dentro dela.
- Que desastre. Houve uma tromba de gua, reuni-os todos junto a 
esta vedao esperando poder met-los num comboio. Ficmos ali 
durante horas debaixo de uma chuva torrencial e quando veio um 
comboio era para brancos e o maquinista no nos deixou entrar. - 
Ele riu-se da sua prpria figura. - Os midos ficaram ensopados 
como focas. Acharam uma grande aventura.
- Bem, pelo menos isso no aconteceria agora.
No, os comboios neste percurso j no eram segregados e j no 
havia nenhuma lei que impedisse um homem da raa dele

194


e uma mulher da raa dela de partilharem uma cama. A mulher da 
recepo tinha sido instruda para fazer os convidados 
sentirem-se bem-vindos, com atendimento pessoal.
- No estiveram j connosco antes?
Ele estava a assinar o registo com o apelido do av dela, o 
pseudnimo deles como casal.
- No.
-  engraado... mas h tanta gente que c volta vezes sem 
conta...
Sim, nenhuma lei contra um casal deste tipo, agora, mas por 
tradio a mistura continua a ser algo chocante, ainda que essa 
estranheza tenha de ser disfarada por razes profissionais.
- No.
Ele sentia os olhos de Hannah nas suas costas enquanto escrevia a 
data no registo; sentiu vergonha (e a injustia de sentir 
vergonha, como se isso pudesse ser interpretado como uma desculpa 
por ser quem era) em nome dos dois por esta mentira. Apenas por 
esta mentira.
Ela queria dizer-lhe para pedir o bungalow onde j tinham estado 
mas no pde faz-lo pelo facto de ter negado que j l tivesse 
estado. O que lhes foi atribudo era praticamente igual; ela 
afastou os cortinados e abriu as janelas para deixar sair o 
cheiro do insecticida.
- Foi esta coisa que te fez ter dificuldade em respirar a meio da 
noite.
Ele no deixou escapar a oportunidade da referncia.
- At foi bom. Levantmo-nos e fomos dar um passeio tal como 
estvamos, as estrelas j estavam baixas e estava to agradvel e 
fresco.
O que  que ele ia fazer com que ela dissesse: amo-te Sonny, 
amo-te tanto - mas ela  como Aila, agora, no consegue diz-lo. 
Ele deitou-se na cama e fechou um olho, o seu sinal de que ia 
dormir um sono.
- Anda. No sejas preguioso. Anda nadar comigo.
Empurravam-se e perseguiram-se debaixo de gua, e era impossvel 
no rirem. Mais tarde estenderam-se sobre a cama amigavelmente 
com o calor da tarde l fora, ele a ler e ela com os 
auscultadores do seu mini-gravador (o teu diadema; chamava-lhe 
ele) enterrado no cabelo hmido e puxado para trs como gavinhas 
de videira  volta dos dedos dele que giravam distraidamente. De 
vez em quando,

195


sem falar, ela tirava de repente os auscultadores e encostava um 
ao ouvido dele, fechando os olhos e cerrando a sua boca macia, 
arrebatada pelo que estava a ouvir.
- O que ?
- Concerto para bandolins, Vivaldi. Msica de gotas de chuva, 
esse andamento lento.
Ela aninhou-se novamente com os seus auscultadores. Mas quando 
ele pousou sobre o peito o dossier aberto, com os papis, notas e 
discursos que estava a ler e ela viu que ele queria conversar, 
deixou cair os auscultadores como um colar por baixo do queixo.
- Isto preocupa-me cada vez mais - deixou cair as costas da mo 
sobre o dossier. - Estes jovens parecem continuar na mesma, 
tericos  moda antiga, os velhos lugares-comuns, enquanto o 
mundo socialista (o nosso modelo), o verdadeiro mundo socialista 
mudou tanto. A as pessoas lutaram e morreram para se livrarem da 
maior parte das estruturas que os jovens camaradas continuam a 
pretender implantar depois da libertao. Ns defendemos o 
princpio de que o povo  que deve conduzir o processo... certo, 
e foram as massas na Europa de Leste que deitaram abaixo os 
regimes que supostamente deviam ser conduzidos por elas!  a 
escolha e o desejo do povo! Como  que podemos no reconhecer 
isso? No confiar neles? Queremos realmente realizar polticas 
que perpetuaram a misria e a pobreza, como provam estas 
rebelies? Quando aqueles que viveram com elas esto a torn-las 
obsoletas?
- Ests a falar dos desempregados, os simpatizantes, a gerao 
dos boicotes s escolas, dos que continuam a ir aos comcios...? 
E devemos-lhes tanto que... Bem, sim,  verdade, h tambm uns 
quantos brancos, os estalinistas fossilizados.
- No, no. Mesmo entre ns... Vira o disco e toca o mesmo. E 
claro que continua a ser o que melhor resulta com as multides. 
No  inocentemente que o usamos... particularmente com a 
juventude e os trabalhadores. Ainda  o que lhes parece a 
resposta s suas frustraes. A secular terra prometida. O que 
eles querem ouvir. Por isso... E ainda h aqui colegas que, 
quando esto a falar de devolver a terra ao povo, se referem a 
uma espcie de colectivos forados. No lhes interessa que estes 
tenham sido abandonados em toda a parte porque no funcionam, as 
pessoas no funcionam produtivamente nessa estrutura. Isto tem 
sido provado ao longo de setenta duros anos! Achas que no 
significa nada? E os outros abanam

196


a cabea porque as directivas constitucionais modernizam a Carta 
da Liberdade (ns andmos para a frente trinta e cinco anos desde 
a Praa da Liberdade, por amor de Deus), mas troam do direito de 
venda porque h nisso reconhecimento da propriedade privada 
juntamente com redistribuio de terras, uma economia mista com 
nacionalizao. Por isso sentem-se ultrajados pelo facto de 
qualquer pessoa poder ser autorizada a possuir uma casa de 
famlia. Continuam a acreditar que a democracia do nosso povo 
ser capaz atravs de sabe Deus que milagre, diz-me l!, de 
arranjar subrbios estatais ajardinados para os trabalhadores, 
quando nenhum outro regime conseguiu ser bem sucedido nisso, nem 
um, quando foi esse o grande falhano do socialismo que ns 
devamos ter a coragem de admitir se queremos viver como 
socialistas do sculo vinte e um. Porque  o que ns j devamos 
ser. O pensamento do sculo vinte  o passado. Acabou. Viva, viva 
o socialismo! Qual deles? Qual deles estamos ns a proclamar? O 
morto? Vamos tirar o melhor dele e continuar. Tem de ser. Ser 
que eles no vem, nunca vero? Os soviticos, toda a Europa de 
Leste, at a China, h uma nova avaliao, sim,  o que ressalta 
das rebelies, no , Hannah,  disso que realmente se trata, 
suficientemente cientfica, na anlise da prova concreta!,  toda 
uma nova compreenso das nossas necessidades humanas e de como 
tentar realiz-las. E no  o que faz o mundo capitalista 
esfregar as mos, no  o que eles pensam. No esto a tomar 
conta de ns. No se trata de revisionismo - mas aqui temos a 
velha acusao j muito gasta. Ela agitou-se ao lado dele.
- Mudar a maneira de pensar deles... outra vez. No sei... no 
foi assim h tanto tempo que vocs aprenderam a mudar a ideia de 
que eram impotentes contra os brancos. A velha esquerda f-lo, 
por Deus! Graas a Deus. Foi precisamente a velha esquerda. Agora 
h novas realidades para serem aceites... Vai ser duro para 
muitos. Significa a perda de absolutos, percebes o que quero 
dizer? Eu sou neta de um missionrio... Faz as pessoas 
sentirem-se inseguras. Podemos encher-nos de coragem para 
fazermos o que tem de ser feito para nos livrarmos das velhas 
estruturas que nos oprimem se pudermos acreditar que h um 
paraso. Morre-se pela liberdade apenas em funo do equivalente 
poltico de uma vida eterna que h-de vir, tal como foi prometida 
na antiga doutrina socialista, e no por um compromisso ou uma 
economia mista, gente com dinheiro (brancos, e burgueses pretos!)

197


que continuem a possuir a terra de que os brancos conquistadores 
se apoderaram!  assim que parecer!
- Mas a doutrina est a ser reformulada!  essa a questo! As 
pessoas esto dispostas a morrer por isso. Temos de acordar e ver 
isso, se se pretende alimentao, habitao e educao para o 
nosso povo em liberdade! Se se pretende dar s geraes de um 
povo desenraizado e de refugiados um stio para viver em vez de 
um stio de onde fugir.
Pronto.
A referncia pairou entre eles como nome de um morto recente 
mencionado por falta de tacto perante a famlia. Devia ter 
cortado a lngua, diz o ofensor, pura formalidade, porque a 
referncia ao que se perdeu  algo a que aqueles a que diz 
respeito tero de se habituar, de qualquer modo.
Hannah falou rapidamente.
- Isto est a ser acompanhado pelos quadros?
- No como devia ser. No. No h interesse pelo que est a 
passar-se no exterior. Excepto nas cpulas, na direco, claro. 
Aqui e l fora as negociaes prosseguem na base de que o mundo 
mudou. Mas ns guardamos isso para ns mesmos. Ningum quer falar 
nisso excepto quando afecta a atitude dos nossos aliados em 
relao  nossa luta. Uma vez terminada a guerra fria, 
consideraro eles os nossos inimigos, aqui, como inimigos deles? 
No h um verdadeiro debate aberto sobre o que significam as 
grandes mudanas no exterior para o nosso pensamento ideolgico. 
Nada! Temos medo de falar sobre isso por recearmos que enfraquea 
o nosso controlo sobre o povo. Por recearmos que se no pudermos 
oferecer o velho paraso socialista em troca deste inferno 
capitalista, seremos considerados traidores para com os nossos 
irmos!
Ela procurou a mo dele como uma boa amiga: ela tinha querido, 
no tinha?, nunca perder a amizade deles por qualquer outra forma 
de intimidade, e ele garantira que isso nunca aconteceria. s a 
nica amiga que alguma vez tive. Se a opinio dele no contava 
para aquilo que devia, por alguma razo desconhecida, por 
inrcia, isso era algo que no lhe fazia justia. Ele que era um 
bom homem.

- Este pas esteve sempre na vanguarda do desenvolvimento 
industrial e tecnolgico, se analisarmos a sua histria, e na 
retaguarda das ideias, cultura poltica. Liberalismo britnico 
sempre vacilante com a sua forma de racismo, muito depois de ter 
sido ultrapassada
pelo nacionalismo ber com a sua forma de racismo, o poder branco 
aguentando-se muito depois de ter sido derrotado no resto do 
mundo. Deus queira que no nos agarremos a algo que teve o seu 
tempo quando chegarmos ao poder. Se o velho socialismo est a 
morrer, admitamo-lo e certifiquemo-nos de que podemos encontrar a 
nossa libertao na nova esquerda que est a chegar.
- Tens a certeza disso? O que est a chegar tambm comea a 
parecer-se bastante com o regresso do velho nacionalismo.
Um bom homem; o paradoxo dela era que aquilo que admirava nele 
era um confiante idealismo que ela prpria - que se considerava 
um ser inferior - punha em questo.
Ele sentiu a picada do cepticismo dela.
- To certo como tu e eu estarmos neste quarto. No podes fazer 
aquilo em que no acreditas. Se no acreditamos, o que existe...
Falar de mudana era um perigo para o fim-de-semana entre as 
laranjeiras em flor. Era exactamente a isso que Hannah obedecia: 
a necessidade de mudana. Como  que a mudana viria, para ela, 
se continuasse no chal, convenientemente prxima para as visitas 
de Sonny? Como  que uma tal relao amorosa - nascida, tornada 
inevitvel, pela lei da vida, entre um homem e uma mulher - 
obedecia  outra lei da vida: continuar em frente? Ele nunca 
deixaria Aila; ela nunca poderia realmente querer que ele 
deixasse Aila, e Will e a filha que era uma activista como ele, 
para atravessar a fronteira. Ele deixaria de ser Sonny se o 
fizesse. Ele teria sempre de sair da cama para voltar para casa; 
haveria sempre uma olhada a um relgio para interromper as longas 
conversas, como esta, o limite de um fim-de-semana ocasional, que 
as mentiras podiam permitir-lhes passar juntos. As mentiras 
tinham alastrado. Ele sabia que ela mentia por omisso quando lhe 
escondia, sob lacnicas referncias prticas ao seu futuro cargo, 
a excitao que crescia dentro dela perante a ideia de percorrer 
o vasto continente africano. As importantes responsabilidades que 
ela teria, a sala das visitas da priso onde se tinha sentado por 
trs da barreira (uma caritide loura existindo apenas como 
cabea e ombros) abria-se perante ela para lhe dar acesso ao 
poder de ordenar a vida - abrigo e alimentao - para milhares de 
esfomeados, milhares de milhares, o mundo produz uma interminvel 
riqueza de refugiados. As personalidades importantes que ela 
conheceria, os crculos de influncia internacionais em que ela 
se moveria; os homens que ocupariam o lugar reservado para o amor 
neste modo de vida,

198 - 199


como em todos os outros - uma lei da vida que ele tinha aprendido 
com ela.
Caminharam de mos dadas sob as rvores coloridas por laranjas, 
as plidas esferas de limes e as brilhantes naartjies(1) numa 
visita ao stio onde tinham sido felizes. A variedade de citrinos 
ali cultivados floresciam e amadureciam ao mesmo tempo, por vezes 
no mesmo ramo; juntamente com o perfume das flores sentia-se o 
cheiro ftido da fruta em decomposio, cada e assediada por 
moscas. Era esmagada debaixo dos ps e ela ficou parada sobre uma 
perna, agarrando-se ao ombro dele para se equilibrar, enquanto 
raspava o sapato contra um tronco. Ele tomou a cabea dela nas 
mos e comeou a beij-la cruelmente, enfiou dedos tensos debaixo 
da roupa dela naquele stio onde as pessoas podiam apanh-los, 
como qualquer bbedo grosseiro que engatasse uma mulher durante 
uma festa. Ela teve de se debater para que ele parasse de se 
enrolar nela, ali e naquela altura. Mas quando voltaram ao 
rondvel, ela, com a cabea apoiada no brao dele, olhando ambos 
para a espessa cobertura de colmo disposta metodicamente, 
formando um dossel acima deles, ele foi de novo o terno Sonny. E 
fez amor com Hannah. Ele fez amor com ela, naquele nico 
fim-de-semana, fez amor com ela, de modo que ela nunca pudesse 
esquecer isso, nunca partisse; sentindo necessidade de Sonny.


*1. Tangerinas. Em africnder no original. (N. da T.)


200


Quando ele voltou no tinha qualquer inteno de o matar. Fomos 
juntos ao advogado e depois com o advogado a John Vorster Square 
para descobrir onde  que eles a mantinham presa. A polcia no 
nos queria dizer.
Depois de a terem levado voltaram no domingo de manh e 
revistaram a casa, a garagem e o quarto no quintal que deve ter 
sido o quarto da criada quando aqui viviam brancos. Era a nossa 
arrecadao. Havia cadeiras de jardim a precisar de lona nova e 
utenslios de jardinagem, a velha bicicleta de Baby e um 
triturador avariado. Havia um cogumelo de madeira que eu me 
lembrava de a minha me costumar utilizar para passajar as nossas 
meias. Havia uma caixa com livros de estudo, alguns cortes de 
tecido, e enroladas no tecido havia trs granadas de mo, duas 
minas magnticas e duas minas de terra. O tecido era o que 
sobrara das cortinas do meu quarto que ela tinha feito quando nos 
mudmos para c. As granadas de mo pareciam pequenos ananases de 
metal, reconheci-as dos cartazes colocados nas estaes dos 
correios para alertar as pessoas para a presena na cidade branca 
de armas que as podiam matar. Tambm reconheci as minas 
magnticas tubulares. Os outros dois objectos pareciam filtros de 
ar do motor de um pequeno carro. No os teria reconhecido pelo 
que
realmente eram.
Eu tinha seguido a revista de todas as nossas coisas dentro da 
casa com uma raiva sorridente, desfrutando da intil e repugnante 
investigao que no encontrou nada, como eu sabia que 
aconteceria. O meu pai  demasiado experiente para deixar ficar 
sequer um pedao de papel comprometedor aqui na nossa prpria 
casa. Eu disse, agora que j tiraram tudo do stio, importam-se 
de sair e deixar-me arrumar isto tudo - mas os parvos andavam 
pela casa como ces que

201


sabem que h um osso enterrado algures e comearam a revistar o 
quintal. Levantaram o capoto meu carro. Despejaram o caixote do 
lixo. E depois no meio dos livros de estudo e dos pedaos de 
tecido que sobraram das cortinas encontraram o que sabiam que 
estava algures para ser encontrado.
Ele e eu organizmos tudo juntos. Na cozinha engolindo ch e po 
para nos mantermos de p, no carro indo de esquadra em esquadra, 
determinados em descobrir onde  que eles a tinham presa. Ele no 
tinha dvidas de que era por sua causa. Um plano para o apanhar. 
Andavam atrs dele e no conseguiam arranjar uma nova acusao, 
por isso vieram buscar a mulher, esperando que preocupado com ela 
ele se revelasse, fizesse qualquer coisa que denunciasse um 
verdadeiro envolvimento com uma actividade como a que eles tinham 
praticado com ela. Eles tinham colocado os explosivos e depois 
tinham voltado para os encontrar.
- Mas para qu porem a casa toda de pernas para o ar primeiro.
- Porque tu estavas l, Will.
Perante a chamada de ateno para a sua ausncia, a face dele 
estremeceu, quase senti pena dele, embora, onde diabo  que ele 
estava... no estava sequer onde ele sabe que eu posso 
encontr-lo, quando aquilo aconteceu.
Ele insistia em que eles tinham colocado o material quando vieram 
busc-la; mas eu abri a porta, vi-os sair com ela, ningum se 
aproximou da arrecadao.
- Devem ter voltado depois de teres ido dormir outra vez. No 
ouviste nada?
Estava a interrogar-me intensamente - acho que ele julga que pode 
obter algum testemunho meu que possa utilizar em favor dela; ele 
est acostumado a achar-me til. Mas foi ele quem, mais uma vez, 
no estava l.
Por isso fiquei a olhar para ele.
- Fui  sua procura.
- Ah. Estou a ver.
O seu rosto fechou-se, na defensiva, num arqutipo - o seu grande 
nariz esculpido e dominador, os lbios cor de malva, curvados 
numa forte linha escura. Refugiou-se num antigo gesto de 
professor, a bater na secretria com o polegar.
- Deixei tudo aberto, as luzes ficaram acesas. Se algum viesse 
teria pensado que ia ser visto.
Nenhuma censura pelo meu descuido; a custo!
Mas se no podamos ser pai e filho de nenhuma outra maneira, 
tnhamos um nico objectivo na nossa determinao em tirar a 
minha me da priso. Uma nova conspirao. E ele foi corajoso, 
claro - sempre admirei a coragem dele -, porque se mostrava 
constantemente em lugares e situaes onde eles podiam ter 
decidido apanh-lo. Fazem isto frequentemente quando familiares 
de um detido ou de um prisioneiro acusado so atrados a 
esquadras da polcia pela presena de um dos seus mantido preso 
algures atrs daquelas paredes. Eu seguramente no estava em 
perigo, um membro da famlia limpo, como a minha me.
- Eles at lhe deram um passaporte, sem mais nem menos.
Ele explicou que estava, infelizmente, fora a tratar de questes 
urgentes (o advogado sabia que isso s podia significar os 
assuntos do movimento) quando Aila foi presa, mas ele assumia 
toda a responsabilidade pelo que quer que aquela mulher inocente 
pudesse ser
acusada.
- Eles que me prendam. Estou disposto a aceitar todas as 
acusaes desde que a libertem. Esta histria toda  uma loucura. 
Aila! No pode fazer qualquer coisa, conseguir que eles a 
libertem e me tomem como refm em troca por ela? Estou a falar a 
srio.
Eu ouvia e sabia que ele estava a ser sincero. Mas o advogado 
estendeu as pernas em frente da sua cadeira e mordeu o lbio 
inferior.
- Sonny, est a falar a srio de uma  loucura, portanto. Voc 
sabe que no se pode fazer acordos desses com eles. Pelo amor de 
Deus... voc no  nenhum novato... Voc j sabe o suficiente.  
o velho processo; assim que eles a acusem comeamos a trabalhar 
pela cauo, farei presso para que o pedido seja deferido o mais 
rapidamente possvel.
Eu no o deixava ir sozinho s esquadras quando andvamos  
procura dela. No sei porque  que pensei que isso lhe daria 
alguma proteco; mas sabia o que ela me pediria para fazer, 
mesmo quando ela no mo podia dizer. Levmos comida e roupa 
lavada. Ele sabe do que  que se precisa na cadeia. Sabe tambm 
como falar com a polcia; aparentemente, mal eles se apercebem de 
que estivemos presos e conseguimos sair sem ficar com medo deles 
independentemente do que nos fizeram, pode-se falar com eles e 
eles no conseguem recusar uma resposta to facilmente como s 
outras pessoas que no conhecem as prises, terreno familiar para 
ambos, carcereiros e encarcerados.

202 - 203

Onde o advogado no teve xito em encontrar o paradeiro da minha 
me, teve o meu pai, agindo sob a informao confidencial, que eu 
suponho dada pela organizao de apoio aos detidos. A minha me 
no estava em Diepkloof, como pensvamos que estivesse e onde ele 
tinha discutido com o comandante que se tinha recusado a aceitar 
a muda de roupa dela. Tinham-na levado para uma priso em alguma 
dorp(1) Eu levei-o de carro at l. No nos deixaram v-la mas 
aceitaram a comida e as roupas.
- E agora?
Eu estava  espera que ele dissesse para regressarmos porque ele 
parecia desorientado; sentou-se ao meu lado com os ombros 
curvados como se pudesse dar um salto e bater  porta como eu j 
tinha feito - as portas da priso.
- O stio  melhor do que Sun City.(2) Tem melhores condies. 
Mas eu no sou um cadastrado. Ela est na priso,  tudo o que
sei.
Os tipos importantes - a direco - voltaram c a casa outra vez, 
do mesmo modo que as pessoas que ficaram demasiado ocupadas ou 
importantes para os velhos amigos, chegam para manifestar a sua 
solidariedade. Ele fecha-se com eles; eu suponho que h algo a 
ganhar a partir da experincia deles com os meios de Segurana. 
Mas se lhe acontecer alguma coisa  culpa dele. Ele sabe disso, 
cada vez que me apanha a olhar para ele. A namoradinha que se 
ligou a mim rebentou em lgrimas quando eu lhe contei o que tinha 
acontecido e ela ofereceu-se para vir cuidar de ns. Mas no  
da conta de ningum - excepto minha e dele. Comemos juntos e 
revimos os pormenores daquela noite e tudo o que fosse importante 
e pudssemos recordar. Eu contei-lhe dos telefonemas; nenhum 
deles forneceu qualquer pista. Um dos camaradas dele sugere que 
algum falou sob interrogatrio - mas sobre o qu? Tinha de haver 
alguma coisa para denunciar se algum falou. O meu pai disse, 
outra vez, quando estvamos sozinhos, o que o advogado tinha 
recusado por ser um disparate vindo de um homem com a sua 
experincia e inteligncia. Ele levou isso mais longe.
- E se eu entrasse no gabinete do comandante e lhes dissesse


*1. Cidade. Em africnder no original. (N. da T.)
2. Sun City, na realidade uma estncia turstica,  o nome dado 
pelos presos polticos  priso Diepkloof, perto de Joanesburgo.


204


que fui eu que escondi as coisas no quintal, que as minas 
magnticas e as granadas de mo so minhas?
Nenhum homem - nenhum marido - podia fazer mais, mesmo que 
tivesse amado a minha me. No sei qual  a explicao. Se ela 
fosse um dos seus camaradas - talvez eles tivessem de fazer este 
tipo de coisas se um indivduo fosse mais valioso para o 
movimento do que outro. Seria mais provvel. Mas neste caso... a 
minha me!
Se bem que a ame assim tanto, apesar disso sai de casa algumas 
noites para ir ter com aquela mulher. Anda de um lado para o 
outro na cozinha, sem destino, de costas curvadas para mim. 
Diz-me da porta, no venho tarde, ou pra, sem saber como dizer o 
que realmente quer dizer, ou seja, que eu saberei onde 
encontr-lo se houver alguma novidade, para me garantir que  a 
que estar, desta vez.
Sai parecendo que vai para a forca.
O que  que ele faria se viesse para casa e a encontrasse aqui, 
subitamente em liberdade?
Antes de o meu pai poder ir  polcia declarar que era o 
proprietrio dos explosivos escondidos no nosso quintal, 
mostraram ao nosso advogado a declarao assinada em que a minha 
me admitia que tinha autorizado que a arrecadao fosse 
utilizada para guardar as coisas de certas pessoas por algumas 
noites.
Foi a minha me quem tinha falado sob interrogatrio.
Sei porque o fez. Era para ter a certeza de que nem o marido nem 
eu seramos responsabilizados. Ela tinha insistido que no sabia 
o nome ou nomes de quem ia buscar as coisas; e recusou-se a 
revelar o nome ou nomes de quem lhe tinha confiado as coisas, 
ou a dizer por que razo tinha cooperado.
Ela tinha sido instruda sobre como lidar com interrogatrios. O 
punho cerrado do meu pai, como que aturdido, os joelhos afastados 
e a cabea mergulhada para a frente do seu corpo vergado. O 
advogado ficou embaraado e alarmado. Sentia-se vencido enquanto 
ia enchendo um copo de gua; no podia oferec-lo a um homem que 
tinha j sido detido e preso, um veterano do desafio a 
carcereiros de todo o gnero. O meu pai levantou os olhos olhando 
em volta, querendo saber de algum lado - de mim, porque eu estava 
l, eu estava sempre l, em casa, o menino dela, o menino da 
mam,

205


como tinha acontecido? Quando? Onde  que a minha me tinha 
aprendido estas coisas? Como, sem que ele tivesse dado por isso, 
teria ela adquirido conhecimentos que no eram para ela? E o que 
 que ela sabia? Quem  que ela conhecia cujos nomes no podia 
revelar? O que  que Aila andou a fazer, todos aqueles meses, sem 
ele?
Eu no estava espantado; eu estava fascinado. Isso no durou - 
ela foi acusada, o caso apresentava algumas dificuldades, o 
advogado admitia - mas (eu tambm tenho os meus momentos loucos) 
eu sentia um alvio subir algures dentro de mim, libertando raios 
de luz. Ela estava na priso e estava livre, livre dele, livre de 
mim.
Que disparate.
Ela estava ali fechada. Ela que nos tinha mantido junto de si, 
evitando que as nossas roupas tocassem as paredes dos corredores 
da priso quando nos tinha levado em crianas para ver o meu pai 
entre os seus carcereiros do outro lado de uma divisria de vidro 
sujo.
Foi Hannah quem descobriu onde Aila estava presa. Os contactos de 
Hannah. Foi Hannah quem recebeu um bilhete do marido de Aila 
entregue s escondidas. Hannah j tinha ajudado antes esta 
famlia em apuros. Muitas famlias. Ela tinha visitado o pai e 
marido na priso. O bilhete era um minsculo pedao de papel 
muito bem dobrado - Sonny sabia como estas coisas tinham de ser 
passadas coladas ao fundo de um prato de alumnio  hora da 
refeio ou debaixo da palmilha de um sapato. Hannah no leu o 
bilhete antes de o passar para ser entregue. Um bilhete veio para 
trs escrito com a letra de Aila. O bocado de papel era o rtulo 
arrancado de um frasco de aspirinas. Tinha quatro palavras. No 
contactem Baby. Esperem.
Sonny no contou ao filho dos bilhetes para evitar que ele 
fizesse perguntas. Hannah era, afinal de contas, uma camarada. 
Sempre tinha sido, desde o princpio; a causa era a amante, a 
amante a causa.
A preocupao de Hannah com Aila era um conforto; e no devia 
ser. Parecia-lhe que agora ela se deitava a seu lado como se na 
sua capacidade profissional, porque tinha ido v-lo quando estava 
detido, um entre outros que a persistncia dela na devoo  
causa lhe permitia visitar, e a quem, como a ele, escrevia cartas 
para elevar o moral. Ele no foi ter com ela para falar. Ele no 
conseguia falar
com Hannah como precisava - sobre como tinha permitido que aquilo 
acontecesse, como Baby e aquele marido que ele nunca tinha visto 
tinham recrutado uma mulher como Aila, pobre Aila entre toda a 
gente, como a tinham exposto ao perigo, utilizado Aila - e tudo 
nas suas costas. Ele tinha deixado aquilo acontecer, no tinha 
visto, no tinha sido informado (s vezes no acreditava que o 
rapaz no tivesse sabido, no soubesse) por causa desta mulher 
que tinha nos braos. Ela sabia disso e portanto no podiam falar 
sobre o assunto. Era algo que nenhum dos dois alguma vez podia 
ter previsto que acontecesse, ela com o seu respeito romntico 
pela famlia dele, ele confiante de que a sua capacidade para 
viver integralmente, ganha atravs dela, nunca adaptada  
mesquinha insignificncia de uma pequena cidade de subrbio, um 
gueto do outro lado da savana, lhe permitia realizar tudo aquilo 
que o seu nascimento, pas e temperamento exigiam - dedicao  
libertao, sustento da famlia e paixo privada. Ela era a nica 
hiptese. A fonte de xtase e razo de ser do seu orgulho. 
Continuava a ser, quando fazia amor com ele. Aila estava na 
priso, esta mulher ia partir porque o bem comum exterior a si 
mesmos exigia isso. Porm quando ele mergulhou no calor deles os 
dois, quando os nervos da sua lngua passaram sobre o invisvel 
interior da pele dela, a textura diferente tipo pele de galinha 
das suas ndegas, quando o seu peso estava, sobre a pele do peito 
dele, cegos e sufocados eles moviam-se em conjunto, curvados  
roda um do outro como criaturas mticas fixas num medalho do 
Zodaco.
Um sinal.
- Vou poder voltar algumas vezes.
 tu erva?,
 tu erva?, que s to bela e exalas to doce odor, que a razo 
di em ti. Tivesses tu nunca nascido.
Eles iam v-la. Pai e filho foram com o advogado ao tribunal para 
o ouvirem defender o pedido de liberdade sob cauo. Sonny 
conhecia o procedimento: Aila seria apresentada para serem feitas 
as acusaes formais, o caso seria adiado para uma data 
posterior. Eles iriam v-la; ia materializar-se a partir de todas 
as suposies, conversas e receios daqueles dias desde o seu 
desaparecimento-Aila na sua nova metamorfose. Descrente, Sonny, 
que tambm tinha sido ele prprio trazido das celas que ficavam 
atrs dos tribunais,

206 - 207


no sabia como preparar-se para esta apario. Sem se aperceber 
disso, tinha-se vestido da mesma maneira que se vestira quando 
tinha sido ele a ser levado para o banco dos rus.
A audincia no foi no enorme bloco cinzento do tribunal da 
cidade branca no distrito da outra grande autoridade, a sede da 
corporao de minas, onde j tinha ocorrido uma exploso do tipo 
da que podia ser causada pelos objectos embrulhados em retalhos 
de tecido de cortina. O tribunal atribudo ficava do outro lado 
da savana, no Soweto. Viajaram no carro com ar condicionado do 
advogado, fechado como um sino de mergulhador ao barulho de 
conversas e  multido de rostos das carrinhas que passavam muito 
perto e depressa, e dos enormes veculos de transporte a abanar 
que iam e vinham, atravessando para as zonas industriais saindo 
da auto-estrada. No meio, um aglomerado de estacas verdes, restos 
de leitos de canavial, dividia-se sob as rabanadas de vento 
produzidas pelo trfego. O advogado mudava cassetes na consola do 
tablier e no houve conversa. Will ia sentado no banco de trs, 
atrs da cabea do pai.
Na pisada savana onde uma rea do Soweto se confundia com outra, 
os tribunais constituam um quadrado e o seu nico acesso era por 
um alpendre corrido ao longo dos quatro lados de dentro; tijolo 
vermelho e arbustos, reminiscncias do antigo estilo colonial, 
quando os fortes de conquista se tornaram osis administrativos, 
traados em ptios geomtricos e canteiros de flores que marcaram 
a diferena entre a graciosidade do invasor e a rude existncia 
das suas vtimas. O advogado deixou imediatamente pai e filho, 
entre gente como eles; andando ao acaso, parados, encostados aos 
pilares, formando grupos junto s portas de onde se afastavam 
para abrir caminho para os empurres propositados dos oficiais do 
tribunal. Esperando. Todos, como eles,  espera de ver um rosto 
que tinha sido obliterado por uniformes, veculos blindados e 
portas fechadas onde partir os punhos.
Eles eram os eleitores de Sonny. Ele tinha ensinado os filhos 
deles, tinha-os ensinado a exigirem os seus direitos, ele prprio 
tinha desaparecido para a priso por eles. Mas nunca antes tinha 
vindo, como eles, esperar humildemente por algum da sua prpria 
carne e sangue apanhado num incompreensvel desastre. (No 
estavam a carne e o sangue dela misturados com os dele para 
sempre no corpo do filho, atrelado ao lado dele.) Estas mulheres
velhas dando fungadelas atravs das suas narinas, mes de 
assassinos, estas mulheres jovens, pintadas e vestidas para 
recordar o assaltante de carros dos desejos que elas provocavam, 
aquelas outras, cansadas encostadas  parede, enfaixadas com 
bebs debaixo de mantas, e aqueles homens velhos encolhidos 
dentro de fatos largos usados - no importava se estavam  espera 
para ver um criminoso de delito comum ou, como ele, para lhe ser 
apresentado, em habeas corpus, um preso poltico (Aila! Naquele 
papel!). Ele era um deles, agora, de um modo que ele no 
conhecia. Assistir aos julgamentos dos camaradas no o preparava 
para isto; ali a solidariedade de objectivos tornava cada 
presena num desafio ao processo legal. Mas imaginar as canes 
de liberdade e as salvas pela pobre Aila!
O advogado tinha ido tratar das formalidades e descobrir em que 
sala do tribunal ela apareceria. Foi uma longa espera e a 
princpio pai e o filho caminharam vezes sem conta ao longo dos 
quatro lados do alpendre, como fazem as pessoas enquanto esperam 
ser chamadas a qualquer momento.
- Porque  que ele no volta?
O pai falava, o filho sabia, apenas para quebrar o silncio entre 
eles no seu isolamento entre as vozes de outras pessoas; ele no 
tinha de responder.
- Ao menos vinha dizer-nos a razo da demora.
- Quer que eu v ver se o consigo encontrar?
- No vale a pena, Will.
O filho saltou do alpendre. A sombra de um dos lados do edifcio 
dividia o quadrngulo em sombra e sol e ele estendeu-se sobre a 
relva entre as pessoas que estavam ali  procura de calor. Era 
uma espcie de estranho piquenique, onde a pacincia substitua a 
descontraco do feriado. Algumas pessoas deixavam o enclave e 
voltavam com bolos e laranjas, latas de Coca-Cola e maos de 
tabaco novos. Crianas brincavam e lutavam s escondidas. Como 
eles, ps a mo em concha debaixo de uma torneira e bebeu. Com a 
despreocupao da rotina, um empregado de botas e fato-macaco 
regulamentares do governo, cantando um hino em Sotho, desenrolou 
uma mangueira e transformou os canteiros de flores em poas de 
gua.
Sonny de p acima do filho, deu-lhe um pequeno toque com a
ponta do sapato.

208 - 209


- Isso no est hmido? - sorrindo vagamente. - Queres comer 
alguma coisa?
Nenhum dos dois queria ser o ausente quando chegasse o 
inimaginvel momento e ela fosse levada ao tribunal. O pai parou, 
com um gesto na direco do sol, voltou para trs para o 
alpendre. Talvez pensasse que o filho tinha adormecido; de rosto 
virado para o cu, de olhos fechados. Mas ps-se de p e saltou 
por cima das pessoas que estavam na relva antes de o pai lhe 
fazer sinal ao ver o advogado girando os ombros atravs da 
multido no alpendre.
- At que enfim!, o requerimento est marcado para as duas da 
tarde. A polcia concordou com a cauo mas o procurador pblico 
insiste em contestar... Eu conheo o tipo... um grande ego...  
absurdo, mas  isto. E neste momento no h nenhuma sala do 
tribunal livre para esta manh. Tenho de ir ao escritrio e 
voltar, h assuntos urgentes que tenho de tratar. Mas no 
percamos tempo com perguntas, venham comigo e no digam nada. 
Will, leva a minha mala. s o meu assistente. Venham.
Dizendo qualquer coisa em voz baixa ele empurrou-os  sua frente 
atravs de um corredor at um caminho rodeado por uma rede de
arame.
- Fiquem por aqui. No liguem a ningum. Apontem para mim se vos 
perguntarem o que esto a fazer aqui.
Ele dirigiu-se com passadas largas para o balco comprido na sala 
onde desembocava o caminho, usando de novo o seu fsico para 
furar atravs da confuso de polcias e outras pessoas que 
disputavam a ateno dos oficiais de justia. Ao lado de pai e 
filho um pesado sapateado de botas da polcia estalava 
rapidamente para cima e para baixo. Para onde quer que se 
desviassem, ficavam no caminho de algum. Trocas de palavras e 
ordens na lngua prpria dos negros e no africnder dos oficiais 
de justia brancos circulavam na pressa e impersonalidade de 
indivduos dependentes, cada um com a sua ponta da autoridade, de 
uma hierarquia de comando. A confuso fsica tornava difcil para 
o pai e para o filho passarem despercebidos; ambos se deixavam 
bater como se fossem obstculos inanimados que algum empregado de 
limpeza ou operrio tivesse deixado ali cado, enquanto o que 
eles estavam a testemunhar atravs da rede de arame e da entrada 
da porta, era uma consciencializao intensamente penetrante que 
s eles podiam receber,

210



porque Aila lhes pertencia. Porque Aila lhes pertencia, tudo o 
que eles viam acontecer s outras vtimas que estavam a ser 
escoltadas atravs do ptio vindas de alguma cela ou carro 
celular fora do alcance da vista podia estar a acontecer, fora do 
alcance da vista, a ela. O prprio Sonny tinha sido levado 
naquele passo de trote, de algemas, para ser registado na 
antessala do tribunal. Ele tinha visto homens destroados e 
chorosos arrastados por guardas, esmurrados, onde eles se 
dobravam em dois, para os fazer opstaanjou blik-sem,(1) por 
valentes brancos ou abanados e insultados por valentes pretos, 
ele sabia que era comum a viso de um homem descalo preso com 
correntes nos tornozelos arrastando os ps como um horror que se 
levanta do passado da escravatura para a memria dos computadores 
e para o brilho intenso da luz da antessala. Mas Aila, Aila, Aila 
no tinha nada a ver com aquilo! Aila com as elegantes e 
perfumadas roupas que ela prpria fazia, o colar de prolas  
volta do pescoo, os seus braos encostados ao corpo num gesto 
verdadeiro e subconsciente de se afastar das paredes que o tinham 
encarcerado - isso tinha sido o mximo que Aila tinha estado, 
alguma vez devia estar, em contacto com tudo isto. E o rapaz - o 
que  que deve significar ser o rapaz, que no sabia nada 
daquilo, um jovem no particularmente msculo, demasiado 
protegido pela me de modo que apesar da sua inteligncia e das 
suas leituras (sim, admitamo-lo, encorajado a isso pelo seu pai) 
conhece apenas em segunda mo a horrvel, brutal tentao do 
poder de um ser sobre outro, s lhe mostraram a beleza e a 
nobreza de lhe resistir, o pai a sorrir calmamente ao seu filho 
adolescente que trouxeram para lhe fazer uma visita na priso. O 
pai podia fazer agora o que no tinha podido fazer atravs da 
barreira de vidro, naquela altura: Sonny ps uma mo no ombro de 
Will. Para o confortar. Para com ele serem
um s.
O advogado agitava fortemente os braos  frente do sargento ao
balco, mostrando a sua toga preta.
- Eu sou o advogado dela, no pode recusar-me autorizao para 
conferenciar com a minha cliente! Exijo falar com o oficial 
responsvel - fez um rpido gesto autoritrio com a cabea na 
direco da porta, mandando vir o pai e o filho ter consigo. - A 
minha pasta. Traz-me os meus papis.


*1. Levanta-te, meu patife. Em africnder no original. (N. da T.)

211


Um polcia de barriga redonda bloqueou o caminho. Mas Sonny, como 
um viajante que comea a falar na lngua estrangeira que no 
esqueceu, ps-se a discutir com ele aduladoramente no idioma 
africnder de priso. Will avanou de lado no meio da confuso e 
colocou-se junto do advogado. O advogado fez sinal a Sonny para 
continuar a falar e, de facto, o polcia desviou a ateno dele 
para o grito urgente de algum para que tratasse de outra coisa 
qualquer. Sob a arenga de ameaas de fazer participao do 
pessoal ao secretrio judicial, ao procurador pblico e ao juiz, 
j ningum questionava o direito dos acompanhantes do advogado de 
puderem estar presentes.
- Dez minutos, no mais. - O oficial responsvel mantinha o seu 
amor-prprio com esta rigorosa ordem.
O advogado no deu sinais de aceitar a condio nem explicaes 
ao pai e ao filho; seguiram-no at uma pequena cabina dividida em 
compartimentos na extremidade da antessala, com pessoas a 
atravessarem-se  frente deles, e por trs do vidro martelado 
viam-se as cores deformadas de outras cabeas em movimento. O 
advogado abriu a porta.
Ela estava ali de p sorrindo para os cumprimentar, o marido, o 
filho e o advogado. A guarda afastou-se, o polcia sentado a uma 
secretria mal era uma presena em contraste com a presena de 
Aila. Trazia um dos seus casacos feitos por ela e l estavam os 
tranquilizantes toques da sua maquilhagem (o pacto de 
amor-prprio feito com Sonny, intacto, graas a Deus) mas para l 
da beleza familiar havia uma vvida estranheza. Ousadamente 
revelada. Era como se uma experincia cuidadosamente escolhida 
tivesse captado nela, como faz um pintor com o seu assunto, o que 
ela era, o que ela tinha para ser descoberto. Em Lusaka, em 
segredo, na priso - sabe-se l onde - ela apresentara a sua face 
oculta. Eles tiveram de a reconhecer.

212


Esta mulher abraou-os ardentemente a todos  vez - Sonny, o 
advogado e depois, claro, aquele que ela nunca tinha deixado fora 
do seu enlace, o seu filho.
Will, pe uma gravata.
Deus Abenoe frica.
Eu, Kaiser Chiefs.
Fixei os olhos na parte de trs da cabea dele naquela viagem de 
carro e tudo dentro de mim se fechou. No pensei em nada, no 
pensei nela, s tinha conscincia do que era exterior a mim. Os 
autocolantes nas carrinhas que aquele advogado cowboy perseguia e 
ultrapassava. DiSting e Os Genuines a tocar no gravador. O 
espesso plo da pele de carneiro que tapava o assento a esconder 
a minha mo. Fica tudo completo,  volta de um vcuo, sempre que 
eu quero.
Quando eu vi o homem a esconder a cabea entre os cotovelos 
enquanto um polcia lhe batia, e tudo dentro de mim se abriu, se 
soltou -, o enclausurado medo por ela, por mim mesmo, medo da 
vida - o meu pai ps a mo no meu ombro. Ele sabia. Uma mo 
desceu sobre o meu ombro. Para exigir algo de mim; para com ele 
sermos um s. E depois de ela ter chegado a mim, guardando-me 
para o fim como costumava fazer - um segredo entre ns - quando 
vinha dar-nos um beijo de boas-noites,  Baby e a mim, eu vi-a a 
reparar - sim,  essa a melhor palavra - tomando nota: o meu 
peso, a suavidade  volta do meu queixo e o cinto descado abaixo 
do princpio da barriga. Ningum na nossa famlia tinha carne 
para desperdiar. No era isto que ela queria que eu fosse. Mas 
por outro lado, Baby fez dela aquilo que queria que ela fosse.
Eu no sabia o que lhe dizer. Eu sei que ele viu que tudo o que 
tinha preparado estava errado. Pior do que isso: ela no 
precisava disso. Eu podia ter-lhe dito. Podia ter-lhe dito um 
monte de coisas em que ele no reparou, sempre demasiado 
preocupado noutro stio para poder reparar, coisas que eu 
compreendia, agora; as visitas a amigos do trabalho que ele 
aceitava com agrado por o libertarem de responsabilidade

213


pelo seu abandono, a frequncia das viagens dela atravs da 
fronteira - bem, ele j tinha percebido que no eram feitas para 
ir mimar o neto, mas estava enganado na sua aviltante convico 
(tpico!, claro que s a sua loira tem inteligncia e coragem 
para ser uma camarada de armas) de que ela era manipulada, 
enganada por Baby e aquele marido. Ele deve ter visto, no momento 
em que a porta se abriu e ela ali estava. Ele deve ter visto que 
ela no era inocente; epteto que, ouvira-o eu dizer, significa 
negar responsabilidade em relao ao nosso povo.
Ele deve ter visto como ela era. Ela beijou-o como uma jovem
- nunca imaginei que a minha me pudesse ser assim, suponho que 
agora que est do outro lado, ela sabe como  no poder tocar
- mas ela no precisava de consolo, no havia medos para ele 
tirar nem lgrimas para secar. Um advogado  mais do que um 
marido e um filho quando se est nas mos daqueles que insultam e 
agridem um homem que esconde a cabea. Eu percebi isso. O 
advogado, que tinha status aqui entre os guardas e polcias, era 
ele o poder, era ele o nico com quem ela estava. Houve uma 
rpida troca de perguntas e respostas entre eles, o -vontade de 
duas pessoas que ganharam confiana numa questo de 
sobrevivncia; ele era o nico que a tinha visto enquanto esteve 
detida, o nico que sabia alguma coisa sobre ela tal como ela era 
agora. Ela no teve tempo nem se lembrou de nos perguntar como  
que as coisas corriam l em casa. O meu pai fez vrias tentativas 
e conseguiu murmurar-lhe em particular:
- Esta histria toda  de loucos, no te preocupes Aila, ningum 
vai acreditar.
Ele referia-se a qualquer acusao feita contra ela. Ela olhou 
para o advogado, depois para mim. As suas macias sobrancelhas 
escuras juntaram-se numa ruga acima da suavidade do seu demorado 
olhar, a expresso que faz sempre que h alguma coisa que no 
compreende e que no pode ser explicada. Tocou a mo do meu pai.
-  a minha vez, agora. Ela e o advogado riram-se.
s duas da tarde, na sala de audincias B, Aila foi acusada de 
quatro ofensas  Lei de Segurana Interna. Penso nela como Aila 
desde esse dia em que a vi aparecer em tribunal, em que ouvi o 
seu nome pronunciado para a identificar. As acusaes incluam 
terrorismo e prossecuo dos objectivos de uma organizao 
proibida. Aila foi
acusada de pertencer a uma coisa chamada Maquinaria de 
Implementao do Transval, responsvel por actos de terrorismo na 
regio, e ligada a um alto comando chamado Amos Sebokeng. 
Alegaram que ela agiu como correio entre Umkhonto weSizne(1) nos 
pases vizinhos e uma clula na zona de Joanesburgo, que 
participou em reunies onde eram planeadas misses para colocao 
de explosivos e que escondeu armas terroristas na propriedade 
arrendada onde residia ilegalmente.
Veio para casa connosco. O advogado apresentou com eloquncia 
todas as razes por que a minha me - essa esposa e dona de casa 
exemplar cuja natureza reservada e virtudes enquanto funcionria 
conscienciosa eram atestadas pelo mdico altamente respeitado 
para quem trabalhava h anos - devia obter a cauo. As objeces 
do procurador pblico foram rejeitadas e foram pagos dez mil 
rands; o advogado tinha o cheque em branco do doutor Jasood 
pronto, do mesmo modo que as ligaduras do mdico tinham estado 
prontas, na ausncia do meu pai, para ligar os pulsos cortados de 
Baby.
Eu vivi com Aila durante todo o tempo que ele, o meu pai, andou a 
viver a sua vida secreta, e nunca ouvi falar desta Maquinaria 
nem deste nome de cdigo para um alto comando: a vida secreta que 
ela andara a viver. Eu tenho sido a cobertura de ambos. Bate 
certo! Ela nem sequer precisava de me fazer confidncias; o 
silncio que ela manteve, para minha proteco, fez de mim seu 
cmplice, tal como tenho sido dele.
Aila feliz para poder lutar.
Ningum melhor do que Sonny sabia que  sempre bom deixar os 
guardas e os polcias verem-nos rir.  difcil para eles no ter 
algum respeito por algum que consegue rir enquanto est nas suas 
mos. Mas onde  que ela aprendeu isso, a saber como conduzir-se, 
como falar com o advogado, a assumir uma expresso que no 
denuncia nada - nem sequer a um antigo preso poltico que por 
acaso tambm era seu marido. Sabedoria de priso. Aila com a 
sabedoria de priso. A sua Aila; para si prprio reivindicou-a 
como sua. Para si prprio ignorou


*1. Expresso que significa lana da Nao, utilizada nos 
comcios do ANC. Em africnder no original. (N. da T.)

214 - 215


a fenda de anos que tinha aberto entre eles e pensava nos dois 
como Aila-e-Sonny, que juntos tinham aprendido a viver para quem 
nada era resolvido, decidido, tratado sem ser partilhado na 
pequena casa nos arredores de Benoni.
Agora, quando chegava, Hannah mandava-o sentar-se para tomar o 
pequeno-almoo, ou ento oferecia-lhe um copo de vinho. Estavam 
novamente nos lugares que ocupavam naquele primeiro dia no caf, 
antes de tudo ter comeado, de regresso ao mesmo ponto em que 
tudo podia nunca ter acontecido - tudo estava a ser reescrito.
- Como est Aila? Est em estado de choque?
- Est em casa. Concederam-lhe cauo. Dez mil.
O rosto rosado aveludado de Hannah contraiu-se dolorosamente. Ele 
e ela sabiam que uma cauo alta significava a confiana da 
acusao de que as incriminaes seriam confirmadas.
- O que  suposto ela ter feito?
- A Lei de Segurana Interna. Misses, uma clula, correio. Sim, 
aquelas viagens a Lusaka que o deixavam livre para passar
noites inteiras neste quarto, naquela cama, para trs deles 
agora.
- E a descoberta da arrecadao,  claro.
Pairou o silncio. De sbito, o azul dos olhos de Hannah 
intensificou-se assim como as suas lgrimas. Quer Aila fosse uma 
revolucionria ou no, tivesse aderido  luta - e quem  que no 
se alegraria com a sua opo se tivesse? - ou tivesse sido 
ingenuamente levada pela filha a cometer actos que no 
compreendia, ou fosse uma vtima de acusaes forjadas e 
armadilhas preparadas pela Polcia de Segurana, a calada e bela 
esposa, com o tecido de cortinado que tinha cosido, usado agora 
para embrulhar granadas de mo e minas, fora trada, trada.
Sonny estava espantado; como um intruso. Hannah chorava. As 
lgrimas corriam devagar pelas suas faces largas e ela no 
desviou o rosto dele nem tapou a cara por decncia com as suas 
mos. Ela no tinha o direito de chorar por Aila!
- Pelo amor de Deus, Hannah.
Mas as lgrimas brotavam e seguiam o seu caminho sobre os 
contornos daquele rosto querido. Ela tentou falar, no conseguia 
controlar os msculos da garganta, dilatados como a garganta de 
um pssaro. Terrvel, terrvel, ela conseguiu deitar para fora, 
repetidas vezes, abanando a cabea de modo que as lgrimas 
cassem. Algumas caram nas mos dele.

216


Ele levantou-se e por cima da mesa apertou-a nos seus braos, 
agarraram-se um ao outro com uma desajeitada precipitao, 
chocando contra as chvenas e o aucareiro.
Quando se deitaram naquela mesma cama no cho, perto da terra 
como tinham gostado de estar, acordados, a corrente de sangue 
fluindo por detrs das plpebras fechadas estava a afast-los, as 
guas vermelhas do ser alargando-se entre eles. Ela no falou mas 
de certeza que ele podia ouvir: isto no voltar a acontecer.
Sonny sentiu de modo extremo que algo estava deslocado. O 
precipitado abrao por cima da mesa pertencia ao encontro na 
cabina da antessala do tribunal.
Pergunto-me quando  que ela se foi embora. No prestei muita 
ateno na altura; suponho que os sinais estavam l mas passaram 
por outra coisa qualquer. A casa, a nossa vida, estava centrada 
em Aila; se ele estava em casa agora, em que outro stio  que 
poderia estar? Aila tinha de se apresentar  polcia duas vezes 
por dia. Poderia ele deixar outra pessoa qualquer lev-la? 
Qualquer pessoa faria o mesmo por um camarada: p-lo em primeiro 
lugar,  frente dos desejos pessoais, em qualquer situao 
difcil.
No era s a vida da nossa casa que estava centrada em Aila, 
agora ela suscitava a ateno da direco. Os camaradas do meu 
pai comearam novamente a ser visitas frequentes - para a verem, 
para lhe garantirem o seu apoio. Teve de se planear a sua defesa 
no Supremo Tribunal, de onde viria o dinheiro, que advogado seria 
melhor para este caso. Uma mulher em julgamento - havia a questo 
de saber perante que tipo de juiz ela compareceria, um misgino 
castigador ou um capaz de ser positivamente influenciado pela 
distino, pela maturidade e beleza, e como  que a defesa 
poderia tirar o melhor partido de tal possibilidade. A Federao 
das mulheres trouxe bolos e o Congresso da Unio de Sindicatos 
mandou flores.
Foi atravs destes visitantes do movimento de libertao que eu 
soube que ela se tinha ido embora - a amante do meu pai. Por puro 
acaso. Algum de Cape Town observou na sala da nossa casa, 
ignorando qualquer relao entre ela e o marido de Aila, que a 
Amnistia Internacional e outros grupos preocupados com a priso 
por motivos polticos deviam receber mais pormenores acerca de 
Aila.

217


- No devamos esperar pelo incio do julgamento. Devamos dar a 
conhecer s pessoas no estrangeiro o que est por detrs de tudo 
isto, dizer-lhes que tipo de mulher temos aqui, em Aila... Eu 
digo-vos quem  a melhor pessoa para fazer isso, Hannah Plowman, 
ela  formidvel.
E algum interrompeu:
- Mas ela j c no est, p. Arranjou um excelente emprego nas 
Naes Unidas, no Alto-Comissariado para os Refugiados, algures 
no Norte de frica.
Ento ele era o bom marido, o bom camarada, porque aquela mulher 
se tinha ido embora. Ele andava alternadamente activo e atencioso 
- o companheiro de Aila, o colaborador de Aila, Aila, agora a 
herona - e sombrio, sentado sozinho  mesa da cozinha a altas 
horas da noite, no por a minha me poder ir para a priso 
durante dez anos (chateei os advogados para me darem uma 
estimativa) mas sim porque tinha acabado a cama grande no cho, 
despudoradamente visvel quando se entrava, o quarto de uma 
prostituta.
A marca de Aila deixada em mim era terrvel: a namoradinha com 
quem durmo tratava-me como um invlido, quando os meus colegas da 
escola me viam, viam os ttulos nos jornais: Granadas DE MO EM 
GARAGEM DONA DE CASA VIVENDO ILEGALMENTE NUM SUBRBIO BRANCO 
ACUSADA DE ABRIGAR ESCONDERIJO TERRORISTA. A acusao contra a 
minha me sob o nome de Aila tinha-me dado um momento de pausa. 
Eu tinha parado de pensar na amante dele, e nele; a observao do 
estranho subitamente lembrou-me.
E agora tambm eu fiz uma coisa vergonhosa. No consegui resistir 
ao impulso. No sei porqu; fui outra vez ao chal. O que  que 
eu pensava que ia l ver? Talvez eu s quisesse ter a certeza, a 
certeza.
Talvez eu no conseguisse acreditar; ele, ela e eu estivemos 
ligados durante tanto tempo. O porto lateral estava aferrolhado. 
Saltei por cima. Os ces da casa principal no ouviram nada, no 
apareceram. Subi as escadas do alpendre como se lhe fosse 
anunciar a minha prpria presena. Fiquei em frente da porta de 
rede bamba, mas no lhe toquei porque me lembrava que ela rangia. 
Uma caixa de carto que tinha tido garrafas de vinho estava cada 
no meio de folhas mortas, contendo duas listas telefnicas 
inchadas pela chuva. Uma janela estava partida e o vidro tinha 
cado para dentro da casa.
No havia cama. Um quadrado de suj idade na parede, por trs do 
stio onde ela tinha estado; lembrei-me de um quadro horrvel, 
que costumava l estar pendurado. Plantas de interior mortas por 
falta de gua. Duas almofadas rasgadas com o contedo espalhado 
num canto. Ouvia-se o murmurante silncio do abandono. Todos os 
movimentos e slabas que haviam soado ali, tudo o que ali tinha 
acontecido, apanhado numa confuso, redemoinhando sem sentido, 
partculas de p pairando entre as paredes, caindo delas. Foi 
isso que acabou.  isso o passado, p pairando no ar.
Pus a cabea l dentro. O cheiro de fumo. O cheiro dela. Ele 
vinha para casa a cheirar a fumo, no cheirava ao smen que lhe 
tinha dado. Aquela cama. Para parafrasear uma das famosas 
citaes do meu pai (a Bblia, desta vez?), aquela cama expirou.
A sensao por que esperamos no aparece no momento nem no stio 
em que a procuramos. No encontrei exorcismo naquele momento e 
naquele stio.
Aila empenhava-se conscienciosamente nas longas listas de 
perguntas que os advogados lhe tinham dado, enquanto preparavam a 
sua defesa, e no necessrio relatrio completo de tudo o que 
tinha pensado e feito e que conduziu s circunstncias da sua 
acusao. Ela escrevia notas  mo e batia-as  mquina pgina 
aps pgina. Ele sentava-se do outro lado da mesa como tinham 
feito quando ele era o professor a corrigir os exerccios dos 
alunos e ela andava a valorizar-se atravs de cursos por 
correspondncia. Mas agora quando ela levantava os olhos para lhe 
perguntar qualquer coisa, era em busca do conselho de um camarada 
mais experiente nas armadilhas da preparao para um julgamento. 
Ele reprimia um acesso de angstia e recusa que o invadia nesses 
momentos, e respondia-lhe; ela fazia um aceno de cabea em sinal 
de agradecimento e rabiscava qualquer coisa na margem da folha. A 
imagem dela atravessava as pginas do livro ou jornal, por trs 
do qual estava sentada, diante dele. Quanto mais ele esperava 
para falar menos oportunidades havia; a cada linha que ela 
escrevia, cada consulta com os advogados de defesa, cada visita 
dos seus camaradas de direco, mais absurda se tornava a 
realidade aceite, no s pelo Estado, mas pelos advogados, pelo 
movimento, tornando-a num facto: Aila, Aila uma revolucionria 
responsvel pelos seus actos.

218 - 219


A prepararem Aila para o que - ele sabia, ele sabia - s um 
revolucionrio com uma absoluta convico interior, que fez a 
opo, pode resistir.
E com a sensao de estar a esticar a ponta dos dedos para algo 
que estava a fugir do seu alcance, ele falou de repente quanto 
lhe estendeu uma chvena de ch que ele lhe trouxera para a 
ajudar na sua tarefa.
- O que  que te levou a faz-lo?
J era tarde; ela olhou em volta da sala para se certificar que 
estavam sozinhos, para ver se o rapaz, Will, l estava para lhe 
dar apoio ou crdito - ele estava muitas vezes presente, de 
auscultadores para que a msica que ouvia no a incomodasse.
Ela levou o seu tempo. Podia at ser que Aila no se sentisse na 
obrigao de responder; que, por fim, a censura que ela nunca 
fizera assumisse esta forma. Sonny teve um pressentimento 
passageiro; mas ela falou.
- Eu compreendi.
Ele ficou a olhar para ela; ela parecia estar prestes a 
transformar-se na sua antiga lacnica brandura.
- O que  que compreendeste que aqui no tinhas compreendido 
antes? Como  que Baby foi capaz - descaradamente! - de usar a 
me desta maneira? No posso acreditar... No posso perdoar-lhe. 
-Alarmado ele ouvia a sua voz enrouquecer. Se o esfncter das 
lgrimas cedesse, Aila saberia que no era por ela mas porque ele 
estava a rejeitar Baby. A filha dele.
- No h nada para perdoar. Ela no fez nada.
- Isso no  verdade. Est bem, ento foram as pessoas que 
conheceste atravs dela. Ela exps-te. Atravs dela. - {Eu 
expulsarei a minha filha por ti, era a mensagem implcita. Ests 
a ver, farei isso por ti.) - Claro que  excitante, importante, 
livre, l, imitando o modo como ns somos aqui. Ah, tenho a 
certeza. Os compromissos, essa insignificncia... eles foram 
embora,  uma guerra, no falar com os teus vizinhos brancos para 
marcar uma posio. Mas se querias mais, h muito que fazer aqui, 
podamos... ao menos... podamos ter discutido a questo.
- No sei se queria. Ele esperou.
-Aila. Agir, ou discutir a questo? Aparentemente pudestes 
discuti-la com Baby. Se dizes que no foi ela que te usou.
- Tinhas tanto orgulho dela. No fales mal dela agora. No 
estragues uma coisa a ti prprio.
Ele sentiu uma contraco dos msculos do abdmen numa emoo 
nova para ele, inevitvel, a nusea do remorso, que sempre se tem 
de sentir inteiramente sozinho; ele tinha estragado tantas 
coisas. Aila bebia o ch e ele via o olhar dela, sob pestanas 
espessas e escuras, mover-se ao longo de uma ou duas linhas do 
seu depoimento escrito, depois parou de ler como se naquele 
momento as palavras tivessem adquirido um significado errado. Ela 
olhou para ele e depois subitamente comeou a falar como algum 
que est a contar uma histria.
- Baby e ele levam a criana com eles para todo o lado, sabes. E 
ele ainda  to pequenino. Reunies, festas, nas festas ele fica 
acordado at  uma da manh. Da primeira vez, eu fiquei muito 
chocada, disse-lhes que estava errado, pobrezinho. Quero dizer, 
tu e eu... quando saamos enquanto os midos eram pequenos, vinha 
algum ficar com eles, estavam em casa nas suas prprias camas 
por volta das oito horas para terem uma boa noite de descanso. 
Mas uma vez quando eu cheguei, no me lembro se foi na quarta ou 
terceira visita, eles disseram-me que uma noite tinham levado o 
pequenino com eles a uma festa e quando voltaram a casa tinha 
sido bombardeada. Recordas-te daquele segundo raid sul-africano 
do outro lado da fronteira, Baby mandou-nos uma mensagem depois 
do bombardeamento, j numa casa segura, garantindo-nos que no 
tinha sido onde eles moravam? Bem, ela fez isso porque no queria 
que tu, ns, nos preocupssemos; e quando me contou, obrigou-me a 
prometer que no te contava. Mas foi a casa onde eles viviam. Se 
eles tivessem deixado a criana em casa com uma ama nessa noite, 
como algum como eu...
O isolamento  uma sensao, tal como o frio. Invadiu-o, 
comeando pelas mos e pelos ps at ao mago do seu ser. Se no 
lhe restava mais nada seno virar-se contra Baby, que tinha 
escapado  morte pela segunda vez sem ele saber, em que lugar, 
dentro de si mesmo,  que ele estava?
- Foi isso?
- Penso que sim.
-  difcil seguir-te, Aila. H tantas coisas que no dizes.
- Eu sei.
- Tu compreendeste.

220 - 221


- Sim.
- No podes explicar? Vingana? Se tens andado a receber uma 
educao poltica devias saber que isso no  uma motivao 
aceitvel na nossa luta. Alguma experincia mstica por que 
passaste, ou qu? Compreendeste o qu?
- A necessidade para aquilo que fiz.
Ela colocou as extremidades de cada mo, os dedos esticados e 
juntos, como uma moldura em ambos os lados das folhas do 
depoimento que estava  sua frente. E colocou-se a si prpria  
frente dele, para ser julgada por ele.
Se ele tinha sido o nico com o direito de a julgar. Como marido 
dela? Como camarada? A construo que ele tinha habilmente feito 
da sua vida era inabitvel, as suas categorias eram inteis, nada 
se adequava  necessidade dele. Necessidade de Hannah. A sua 
atraco por Hannah pertencia aos falsos lugar e ao tempo que 
eles - todos eles - ele, Aila, Hannah, viveram. Com Hannah havia 
a sexualidade do empenhamento; porque empenhamento implica 
perigo, e o cego instinto primrio  assegurar a sobrevivncia da 
espcie em circunstncias de perigo, mesmo quando o animal 
individual morre ou a planta chega ao fim do seu ciclo. Neste 
deslocamento anormal, a energia biolgica da sua vida, que 
pertencia  sua esposa e aos filhos que tinham gerado, foi 
desviada para a sua amante. Ele e Hannah no geraram nenhum 
filho; o movimento revolucionrio seria o seu descendente. A 
excitao do seu acasalamento era para isso.
Mas Aila era a revolucionria, agora.
Todos os dias, quando iam  esquadra para se apresentarem, a 
sinistra rotina vivida em conjunto parecia-lhe uma possibilidade 
de regresso  intimidade domstica que haviam tido em tempos. 
Teria sido um regresso muito estranho, mas de certeza que por 
baixo do que quer que inesperadamente tinha mudado as 
circunstncias entre eles ainda devia existir um vestgio do que 
no incio os tinha atrado um para o outro. Ele estava em casa, 
agora, como costumava estar em tempos. As outras circunstncias 
tornavam isso possvel: o chal estava abandonado; ele tinha sido 
de certa maneira liberto da sua elevada posio no movimento.
Fazia amor com Aila. Mas ele nunca tinha deixado de fazer amor
com Aila, como um dever, calculando os intervalos que no 
levantariam suspeitas de que ele estava a entregar-se a uma outra 
mulher. A diferena era que agora ele vinha para casa para ela, 
Aila, a sua mulher, a sua Aila. Ela no deu sinais de notar o 
regresso da paixo; cooperava bem - era esta a nica maneira em 
que ele conseguia descrever a situao a si mesmo. E ele sabia - 
agora com a sua maior experincia no que as mulheres podem sentir 
no amor - que ela fingia ter prazer. Ela estava a pensar noutra 
coisa qualquer; ou no conseguia parar de pensar, era isso, e se 
um homem no  capaz de apagar tudo, excepto a conscincia de 
xtase, numa mulher quando est dentro dela ele no  um homem. 
Por vezes, opondo-se a isso, forando-se, ele no era homem, saa 
dela abatido como carne morta. Ela no ficava embaraada por 
causa dele, ou por ele. Dava-lhe uma palmadinha na mo. - No faz 
mal.
No faz mal. Aila dizia aquilo e ele deitava-se ao lado dela com 
o corao a bater de ressentimento contra Hannah. Tinha ouvido 
fascinado as coisas que Hannah dizia; pareciam conversar a partir 
do centro da vida, aquilo que mais ningum que ele alguma vez 
tivesse conhecido tinha referido. Mas o centro da vida no era 
ali, com ela, o centro da vida era onde as banalidades so a 
fora dominante - a agitao dos nascimentos, casamentos, 
assuntos de famlia com os seus rituais de sobrevivncia de 
comida e vesturio, que estavam onde estava Aila. Por causa de 
Hannah, Aila tinha desaparecido. Acabado, aquele ser que era 
Aila. Hannah destruiu-o. Aila tinha desaparecido, contudo 
deitava-se ao seu lado, viva. Algo maior do que o ser salva o 
ser; tinha sido esse o credo que na juventude ele havia ensinado 
 sua tmida noiva. Ele ouvia Aila a respirar, ressonando de vez 
em quando, e cheirava o odor demasiado doce dos seus cremes para 
a pele, aquecido pela subida da temperatura do seu corpo 
adormecido - a montona familiaridade do casamento foge dali, em 
busca do amor clandestino louco e livre de hbitos - e ansiava 
implacavelmente; nada, no havia nada que estancasse a nsia de 
tudo aquilo de que ele tinha fugido.
Aila a camarada. A prova n 1 em tribunal consistia de um 
lana-rockets RPG-7, dois rockets RPG-7, trs granadas de mo 
RG-42, duas minas magnticas, duas minas de terra FM-57& uma tira 
de tecido estampado para cortinados. Tinha sido comprado no 
Oriental Plaza pela outra Aila, que fazia cortinados para o 
quarto do filho.

222 - 223

estava sentada entre agentes da polcia, de cabea erguida, 
composta, um sorriso e um sinal com as sobrancelhas para Sonny e 
Will na fila da frente da galeria do pblico. Sonny no conseguia 
exercer qualquer controlo racional sobre os seus sentimentos 
nesta fase da sua vida. A luz do dia - a luz do dia nas salas do 
tribunal e os passos da polcia, o amontoado de advogados e o 
arrastar dos ps ao levantar-se o tribunal quando o juiz se 
dirigiu para a sua bancada -. encadeava a sua disposio 
solitria, soturna. Mas pelo menos este era o seu lugar, o 
imutvel terreno de luta do outro lado da savana. Com uma picada 
de dor, o orgulho nesta mulher, Aila, irrompeu. Mal reparou na 
sbita agitao do rapaz. Will estava a sussurrar qualquer coisa 
ao ouvido do pai; Sonny sacudiu a cabea com irritao, 
concentrando-se no processo. O filho estava a tentar dizer-lhe 
que os lana-rockets e os rockets RPG-7 no estavam entre o que 
ele viu desembrulhado dos retalhos de cortina na arrecadao.
No h ar na minha vida. Os corredores a brilhar das esquadras da 
polcia e das prises tm sido os passeios a que me tm levado 
com as pessoas que amo. Uma vez quando eu era menino de escola um 
dos amigos brancos do meu pai convidou-me para passar um sbado 
com os filhos dele na quinta. Enkelbos,(1) era como se chamava; 
ainda me lembro da tabuleta no porto que um dos filhos saltou 
para ir abrir. Eles iam l todos os fins-de-semana. Tinham um 
barco de borracha a remos na barragem. Tinham bicicletas 
motorizadas e ns dvamos voltas com o motor roncando, levantando 
p que se misturava com o odor do plen das accias de troncos 
pretos que floresciam carregadas de amarelo; estvamos no fim de 
Julho e o Inverno estava a derreter-se no nosso rosto.
Preciso de ar. Outra vez os corredores a brilhar, a companhia dos 
polcias observando carrancudos os corpos dos estranhos nos 
bancos corridos da galeria do pblico, a ansiedade com que 
acompanhamos as expresses dos advogados, com que tentamos 
penetrar na distncia que o juiz, um homem dentro da sua toga 
vermelha, mantm entre si mesmo e tudo o que v e ouve. Gente 
abatida com problemas naqueles grandes espaos - quantas vezes me 
pus a olhar para cima para as ventoinhas no tecto, agitando o 
problema  roda e  roda onde no h plen para disseminar a 
renovao. Uma banalidade. Toda a minha vida, desde que deixmos 
a nossa antiga casa nos arredores da cidade mineira, tenho 
respirado a respirao morta destes lugares onde  suposto a vida 
e a liberdade serem protegidas pela lei.
Agora  a vez de Aila ali no centro da sala de audincias, e o 
meu pai sentado ao meu lado como ela costumava estar.


*1. Arbustos. Em africnder no original. (N. da T.)


225


Senti-me entorpecido, senti-me como se me deixasse cair de 
repente para cima do atarracado velho preto adormecido sentado do 
meu outro lado com as mos entrelaadas sobre a sua bengala. 
Vamos dormir juntos enquanto a justia ou a injustia  feita, 
baba,(1) ns no sabemos se o que eles vo decidir  justo ou 
injusto, no sabemos o que vai sair dos movimentos calculados da 
mo do juiz, tomando nota (de qu?), a troca de pastas de 
documentos dos advogados, o oficial de diligncias do tribunal 
despreza-nos e no se apercebe de que pode ser visto com o dedo 
no nariz, os operadores de computador passando os dedos pelos 
seus penteados fofos, os polcias rangendo os sapatos entrando e 
saindo sobre os calcanhares, abanando a cabea em sinal de 
obedincia para a tribuna do juiz como as pessoas que se benzem 
negligentemente quando saem da igreja.
O velhote ao meu lado comeou a respirar ruidosamente. Estou to 
condicionado a estes stios que fico automaticamente intimidado 
perante a sua autoridade, e dei-lhe uma cotovelada antes que um 
polcia viesse e o repreendesse. Fiz isto para o poupar a um 
susto mas ele ficou sobressaltado de qualquer modo, e o seu 
abrupto regresso  posio normal fez-me dar um salto, tambm. 
Foi como se eu tivesse adormecido durante um filme e desse comigo 
a reconhecer, no ponto em que a minha ateno voltou, uma cena 
que contradizia uma anterior que me vinha  cabea. As provas 
estavam a ser mostradas ao juiz pelo procurador pblico: as 
granadas de mo em forma de anans e as minas magnticas, as 
minas de terra, sim - mas ali estavam objectos que eu nunca tinha 
visto antes, coisas estranhas descritas como um lana-rockets e 
dois rockets RPG-7. No havia nenhum objecto como aqueles, nenhum 
lana- rockets ou rocket RPG-7 enrolado no tecido do meu 
cortinado na nossa arrecadao. Quase saltei do lugar e gritei 
para o juiz. Mas o meu condicionamento a prises e tribunais 
manteve-me sentado. Tentei sussurrar ao meu pai, mas ele sabe 
como comportar-se nestes stios quando queremos ganhar. Mandou-me 
calar. Eu estava sufocado, sufocava com o que sabia. Abri caminho 
entre a fila de pernas no banco corrido para sair. Era Pretria, 
agora, o Supremo Tribunal no Palcio da Justia, no o tribunal 
do Soweto para pretos; esse foi s para a primeira audincia. 
Sentei-me no imenso trio da entrada todo entre majestosos 
pilares com ps de lato polido, sob losangos de luz colorida que 
vinha dos vitrais;


*1. Velhinho. Avozinho. Em africnder no original. (N. da T.)


 226


as igrejas e os palcios de justia deles esto de certo modo 
misturados, eles vem uma autoridade divina nas suas leis. Toda a 
gente ao entrar tinha de passar por um detector de metais e 
submeter-se a ser revistado; apercebi-me de modo confuso que 
tinha uma arma apontada para mim - um mido preto, cuja famlia 
de mulheres estava sentada,  espera, ao p de mim, andava a 
correr por ali com uma espingarda automtica de brincar. Agora um 
polcia a guardar a porta da sala de audincias D estava a fingir 
que tinha sido atingido. As gargalhadas do mido subiam at ao 
tecto abobadado enquanto ele andava numa correria  volta deste 
novo companheiro de brincadeira; quando eu me sentei vi outra 
vez, vezes sem conta, as tiras de cortina desdobradas, contei 
aqueles objectos de aspecto insignificante um por um, as granadas 
de mo, as minas magnticas e as minas de terra que eu reconheci 
e ouvi a acusao identificar. Senti-me inchar, imensamente 
importante. No sei o que pensei; que tinha justia dentro de 
mim, que ela ia explodir no meio deles. As suas mentiras e 
vigarices, verneukery(1) a sua baixeza abandonariam Aila e 
libert-la-iam.
O meu pai veio  minha procura. No at o juiz fazer o intervalo 
do ch. Atravs das portas da sala de audincias D ouvi o grito 
opstaan(2) interrupo da sesso e a agitao de ps e roupas e 
vozes enquanto as pessoas caminhavam para a sada. Senti que ia 
sufocar. Levantei-me. Ests doente, disse ele. Ele parecia como 
se isso fosse a ltima coisa que podia suportar.
H muito tempo que no lhe tocava; agarrei-lhe os braos. - Os 
rockets no estavam l. Nem aquela coisa lanadora. Nunca l 
estiveram. Foram eles que a puseram, tal como haviam feito com as 
outras coisas antes. Estou a dizer-lhe que vi, e no estavam l. 
Ele acreditou imediatamente em mim mas claro que os advogados me 
interrogaram. Eu tinha a certeza? Estive na arrecadao o tempo 
todo durante a busca, naquela manh? No estaria eu num estado de 
agitao, excitao, raiva? Estava isso tudo e ainda mais 
acreditem-me, os meus dedos dos ps estavam enrolados, rgidos, 
tal como os dedos das mos cerrados e tinha os ombros to tensos 
que me doa o pescoo no dia seguinte como se tivesse torcido um 
msculo. Mas eu sei o que vi, sou capaz de jurar tantas vezes 
quantas o tribunal quiser.


*1. Tretas. Em africnder no original. (N. da T.)
2. De p. Em africnder no original. (N. da T.)


227


Desejei ter feito uma lista daquelas armas num bocado de papel e 
obrigado aqueles filhos da me a assinarem, naquele dia, naquele 
dia!
Quando os advogados acreditaram na minha fiabilidade e chegaram a 
uma satisfatria avaliao da minha capacidade para testemunhar 
sem ficar intimidado pela acusao, concordaram que o meu 
depoimento era uma prova importante. Ela punha em dvida toda a 
alegao de que Aila tinha escondido ou deixado esconder (sabem 
como eles pem as coisas) uma quantidade de armas na nossa 
arrecadao. No segundo depoimento ela tinha dito que percebera 
que o que ia ser arrumado na arrecadao era equipamento de 
escritrio fora de uso. Ela no tinha visto o que eles deixaram 
l entre as velharias de uma casa de famlia. Segundo o meu 
testemunho, se eles l tinham arrumado armas explosivas, no 
havia rockets RPG-7 entre elas.
O meu pai agitou-se de jbilo, estava com o sorriso e o olhar que 
tinha quando eu e Baby ramos midos e ele nos levantava no ar, 
os mesmos que tinha quando fomos v-lo na priso.
- Eles no s no conseguiro provar que ela sabia o que estava 
na arrecadao como tambm no ser possvel provarem que no 
foram eles que colocaram o material. No sem razovel dvida, no 
podero, uma vez que fique claro que foram eles que puseram l os 
rockets. A acusao ficar completamente desacreditada! Se a 
polcia mentiu em relao  acusao principal como  que pode 
haver caso? O juiz ter de anular tudo - h uma boa hiptese!
Ns estvamos no gabinete dos advogados para consulta. Eu estava 
no centro por esta nica vez. No era o conspirador de ningum, 
eu tinha encontrado o meu prprio ponto de referncia atravs da 
minha experincia. Os advogados no estavam to certos do 
resultado como o meu pai, mas eu tinha-me tornado o piv da sua 
defesa, a sua principal testemunha. Ouvi o -parte de um deles 
para o meu pai:
- Ele vai ter de estar duzentos por cento consciente de que no 
pode ser apanhado em hesitaes, nem sequer no tom de voz, em 
cada pormenor, por mais pequeno e irrelevante que possa parecer. 
Porque o Lombard vai jogar com o facto de que h um sentimento 
especial envolvido, um jovem mentir naturalmente se se trata de 
uma questo de famlia... afinal de contas  a sua me.
A minha me - Aila - ouvia tudo com a sua nova concentrao

228


e no olhava para mim. Achei estranho que ela no olhasse para 
mim. Era como se ela quisesse negar este novo lao de intimidade 
entre ns. Creio que comecei, nessa altura, a pensar (mas poderia 
eu ter sabido sempre?), comecei a pensar, to fundo dentro de mim 
mesmo que nunca ningum l chegar, que Aila sabia que estavam l 
aquelas coisas horrveis e mortais embrulhadas no tecido que no 
tinha utilizado quando costurou os meus cortinados. Ela sabia, e 
no queria que eu soubesse, eu, que sei tantas coisas sobre ela 
que os outros no sabem, que ele, o meu pai, no sabe. Depois de 
os homens terem falado bastante, os advogados a experimentarem as 
minhas respostas um no outro e no meu pai, Aila e eu 
levantmo-nos para sair, o advogado disse a Aila que era melhor 
ela e eu voltarmos l para discutirmos o assunto no dia seguinte. 
Aila emanava uma atmosfera tranquila; a conversa das despedidas 
parou. Era como se toda a gente achasse que ele tinha entrado sem 
reparar numa casa estranha, e fosse a dela; ela ficou ali parada.
- No quero que Will testemunhe.
Absurdo. De to chocado, um dos advogados riu-se; no podiam 
lev-la a srio: os advogados, o meu pai. Naturalmente a pobre 
mulher estava confusa, eles explicar-lhe-iam, ela mudaria de 
ideias, iriam convenc-la. No aconteceria nenhum mal ao rapaz. 
Nenhum mal. Uma mulher, afinal de contas, ela estava a pensar no 
filho.
O menino da mam! Senti um acesso de raiva dentro de mim; contra 
mim prprio, contra ela. Agora levantavam o tom de voz, falando 
todos ao mesmo tempo, sobre mim. A qualquer momento algum se 
lembraria de perguntar e o que  que vais ser quando fores
grande?
Eu ia a conduzir. Ela sentou-se ao meu lado e ele atrs dela. Ia 
a guiar de pressa, com os movimentos bruscos da minha m 
disposio, e nenhum deles me mandou ter cuidado. Finalmente 
senti-me responsvel por eles. Ele ia inclinado para a frente, 
para no ser excludo do que quer que eu e ela dissssemos. Mas 
no teria perdido nada se tivesse sido menos ansioso. Ns no 
falmos. O que eu lhe poderia dizer no seria dito na frente 
dele. Na periferia do meu raio de viso vi-o afagar o ombro dela 
deixando a sua mo pousada por um momento. Pobre Aila, pobre 
Aila. Estaria ele a querer dizer minha mulherzinha est tudo bem, 
ele era o forte, inteligente, lder de massas, marido dela, que 
apareceu finalmente para a dissuadir das suas ideias tontas?

229


Ela pediu-me para passar pela farmcia. Enquanto ela esteve na 
loja, ele mostrou-se inquieto.
- Vai correr tudo bem. Ela est perturbada.  um bocado demais 
para ela aguentar.  contra a sua natureza, Will.
Ela saiu da loja e sorriu para ns, franzindo os olhos com o sol, 
era como se estivesse  espera que lhe tirssemos uma fotografia. 
Ele sentiu-se encorajado a comear outra vez.
-  uma questo de verdade, Aila. No  sequer apenas uma questo 
pessoal, no te envolve apenas a ti. Will tem de dizer a verdade. 
Trata-se de uma oportunidade de desafiar o prprio sistema.
Eu tinha posto o motor a trabalhar mas deixei-o ir abaixo com um 
movimento brusco.
- Vamos deixar isso para quando chegarmos a casa. Ele ignorou-me; 
ainda era meu pai.
- Acredita-me, Aila, no movero nenhuma aco contra ele s por 
ser testemunha. No se trata de cumplicidade. Ningum vai prender 
o Will! No por causa disto; no por ele ser meu filho ou teu 
filho.  o dever de qualquer defesa convocar qualquer pessoa de 
que precisem. Sabes isso, no sabes? Mas eu no sou nenhum 
advogado, pois no, disposto a ganhar o meu caso a todo o 
custo... Ele  meu filho. Ele  meu filho, tambm. Eu ia p-lo em 
perigo? Acredita em mim. Eu ia mentir-te?
E ns no o provocamos. Imaginem! Nenhum de ns os dois desata s 
gargalhadas quando ele tem a lata de fazer essa pergunta. Nenhum 
de ns afirma, sim, sim, e sim outra vez. Estar, ento, tudo 
esquecido, apagado, seremos os trs sobreviventes do seu navio, 
sob o seu comando para construir um novo abrigo para um sonho de 
famlia a que ele quer regressar?
Inclinei a cabea para olhar para ela de esguelha. Tinha lambido 
o dedo indicador e estava a esfregar uma marca nas costas da 
outra mo. Apanhou-me a olhar para ela, deixou cair a mo e virou 
a cabea. Quando percebeu que tinha repelido o meu olhar, falou 
para o meu pai e para mim.
- Chega. Chega.
No sei como  que ele entendeu isto, mas eu ouvi o que ela 
estava a dizer. O meu pai o famoso Sonny, Baby a revolucionria 
no exlio, Aila a cmplice do Umkhonto weSiztue: eles so o 
sacrifcio da nossa famlia pelo povo, no precisam de mim, quem 
 que precisa de algum como eu? Eles  que so os heris.

230

Nada a fazia mudar de ideias. A equipa da defesa fez um apelo ao 
experiente activista que era tambm a pessoa mais prxima dela - 
o marido -, que tinha de ser ele a faz-la ver a razo e o bom 
senso. Atravs da influncia de todos os anos que tinham vivido 
juntos; embora os advogados no o tivessem dito: atravs do amor.
Chega, disse ela. Chega: j chegava o que ela tinha de suportar 
sem ter o rapaz envolvido. Isso era horrivelmente desagradvel 
para ela. Assustava-a. Ela no tinha medo de servir de correio 
para a cruel, desavergonhada Baby, em Lusaka, nem de ser 
suficientemente corajosa para fazer sabe Deus o qu mais, mas 
tinha medo disto. Era o filho deles; mas era tacitamente aceite, 
h muito tempo, que Will era o filho dela, e apesar de Sonny, 
como o rei Lear, ter perdido a sua, a sua Baby - Best thou hads 
not been born, than not I'have pleased me better -,(1) Aila 
continuava a reclamar uma terna e calada prioridade nas questes 
relacionadas com o rapaz.
Atravs do amor. Sonny podia argumentar com a razo e o bom senso 
- nada melhor que isso -, dispunha da simplicidade do professor 
que havia sido o mentor dela, e da sabedoria do veterano da luta. 
Amor. s vezes ele pensava que a maneira de o fazer era 
contar-lhe tudo, confessar Hannah, cada noite que ele tinha 
passado no cho do chal, os fins-de-semana entre as laranjeiras 
em flor, at o prazer perverso (como podia a inocente Aila 
entender isso; que horrvel se pudesse) que ele tinha ao v-la, 
Aila, a sua mulher, e Hannah reunidas no mesmo espao. Mas isso 
significava dizer a Aila, tambm, como tinha mantido Will a par, 
como tudo tinha comeado quando ele tinha deparado com Will ainda 
estudante no dia em que levara a sua loura a sair, ao cinema. 
Como  que Aila lhe perdoaria isso? Que amor  que podia 
convenc-la, depois?
Mas talvez Aila lhe pudesse dizer porque  que tudo aquilo lhe 
tinha acontecido? Se ele confessasse tudo, expusesse tudo, no 
guardasse nada para si, desistisse para sempre de tudo o que lhe 
pertencera na sua necessidade de Hannah. Oh, Hannah. Oh, 
professor desafiado pelas expresses de paixo que no 
compreendia quando as lia na casinha em filho-da-mgoa. Oh, 
Hannah. Beat at this gate that let thyfolly in.(2)


*1. Citao de O Rei Lear, de Shakespeare. Era prefervel no 
teres nascido, do que teres merecido o meu desagrado. (N. da T.)
2. Citao de Shakespeare. Bate a este porto que loucamente te 
deixe entrar. (N. da T.)


231


Ela no deve pensar que pode contar para sempre com o mido que 
costumava adormecer acariciando os lbios com a ponta da sua 
longa trana negra. A trana foi cortada, ela est tosquiada, eu 
sou um homem. Atiro-me s mulheres como o meu pai.
Consegui tir-la de casa para longe dele. Ela foi dar um passeio 
comigo. Eu queria apanhar ar. No havia muito por onde passear. 
Trs quarteires abaixo e chegvamos  loja de bebidas,  loja de 
comida pronta e  loja grande a que o dono portugus chama o seu 
supermercado, trs quarteires no outro sentido e chegvamos  
Igreja da Reforma Holandesa onde os nossos vizinhos brancos rezam 
ao domingo ao seu Deus que no admite pessoas como ns em sua 
casa. Passamos pelas casas desses vizinhos; mudaram vrias vezes 
desde que o meu pai nos mudou provocadoramente para este subrbio 
insignificante que nos parecia to grandioso depois de morarmos 
na nossa casa na savana. Houve mais gente da nossa que se mudou 
para c como ns fizemos, alguns dos brancos foram-se embora por 
causa disso e foram substitudos por brancos mais pobres que no 
tm dinheiro para viver em mais lado nenhum. A maior parte da 
nossa gente  como ns ramos - arranjaram as casas que ocupam -, 
pinturas, alpendres cobertos de telha, bonita porta da entrada. 
Os brancos tm as carcaas de carros velhos nos espaos que  
suposto serem jardins, e pem cartes onde os vidros das janelas 
esto partidos.
Os vizinhos que costumavam cumprimentar-nos (a minha me era uma 
verdadeira senhora) pareciam no nos ver quando passvamos; 
olhavam para outro lado. Talvez fossem vizinhos diferentes, nunca 
prestei muita ateno, todos iguais para mim. Ou tinham visto os 
ttulos dos jornais e as fotografias de Aila, que vivia entre 
eles, a mesma mulher que parecia uma senhora, de tal modo que a 
cumprimentavam tal como se ela fosse branca.
Aila acompanhava o meu passo ao meu lado.
- Me. No podes decidir por mim.
- Esta histria toda  um assunto meu. Os advogados no podem 
defender-me da maneira que quiserem.  meu direito instru-los, 
no ?
- No  isso que eu quero dizer. Tens de ouvir o que eu quero 
dizer, tu julgas que sabes como  que as coisas devem ser para 
mim, mas no percebes...
- Percebo, percebo. No te quero metido nisto. No quero a tua 
vida decidida pela minha. s tu que no percebes, Will.

232


Tropecei numa pedra, ela esperou por mim. Eu disse por fim em
voz alta:
- Aila.
Os olhos negros dela brilharam e contraram-se, franziu a boca de 
um modo estranho e com assombro, mas afectuosamente. Ela ps a 
mo, apenas por um momento, sobre o meu brao.
- Porque  que tenho de dizer isto outra vez? Porque  que tenho 
de ser eu o excludo, o nico deixado para trs, deixado de fora, 
porque  que todos, tu, ele, a Baby, toda a gente, partem do 
princpio de que eu no tenho nenhum papel na luta. Porque  que 
est adquirido que sou eu quem vive a pretensa vida normal que 
vocs todos rejeitaram, sou eu quem vai ser feliz na periferia do 
mundo do homem branco dos grandes negcios, dinheiro, que vou 
todo satisfeito empregar-me dentro de um ano ou dois numa grande 
firma ou numa multinacional se ficar aqui alguma de sobra, que 
vou receber emprstimos para construir uma casa to boa como as 
deles onde eles disserem que posso guiar um carro da companhia, 
casar com uma rapariga suficientemente apresentvel segundo os 
seus padres para o jantar anual, gerar filhos a quem poderei 
mandar para uma escola particular que recebe crianas como as 
nossas, porqu? Porque  que est decidido que isso  para mim? 
Quem  que decidiu? O que  que h de errado comigo? Porqu eu? 
Terei alguma marca de nascena ou qualquer coisa que diga que  
assim que
eu tenho de ser?
Os ombros dela estavam cados em sinal de esgotamento mas eu no 
parei. Depois de tanto tempo, eu no podia parar.
-  como uma maldio,  suposto eu aceitar isto como o meu 
destino. E agora tu, tu, quando posso solidarizar-me convosco, 
quando posso enfrent-los em tribunal e chamar-lhes mentirosos, 
mentirosos, a esses bandidos que entraram na nossa casa - e fui 
eu que os deixei entrar, fui eu quem deixei todo o tipo de 
destruio entrar na nossa casa, eu estou sempre l,  mo, o 
Will vai fazer isso, um bom nome,(1) ele vai fazer isso, agora tu 
dizes, basta. Basta! No h lugar para mim na luta, para mudar as 
nossas vidas. Eu sou preciso em casa. Eu sou a casa. Basta! Estou 
farto!
Ela estava a tremer como se eu estivesse a agredi-la; eu estava a 
agredi-la e parei apenas para respirar.


*1. Aluso  forma verbal inglesa will. (N. da T.)


233


- No posso faz-lo. Ento tens de arranjar outra maneira. No 
atravs de mim. No posso separar-me de ti, Will.
- O que  que eu tenho de to especial? Ento eu sou o teu 
suporte, algo de que tu e ele no querem verdadeiramente 
desistir? Nem mesmo pela revoluo? O smbolo que tu no queres 
realmente, no fundo de ti, no queres destruir? Serei eu o teu 
refm, a tua nostalgia de classe mdia pelas coisas bonitas? Tu 
no queres verdadeiramente ver as tuas cortinas s flores serem 
usadas para uma finalidade mais nobre do que enfeitar o quarto na 
casa construda para um branco.
Continumos a andar num silncio terrvel durante algum tempo. O 
meu corao estava a bater com a excitao da minha crueldade.
- Acho que no  isso. No vai ser assim. Emiti um som de 
rejeio.
Ela no tinha sada, embora no o tenha dito. No tinha maneira 
de me impedir de dizer a verdade por minha iniciativa. Descemos 
em silncio a rua onde morvamos. A partir de uma certa distncia 
pudemos ver qualquer coisa pendurada no nosso porto; no 
crepsculo parecia uma camisola preta, talvez tivesse sido 
encontrada na rua e colocada ali para o seu dono a levar. Era um 
gato morto e atado, ao pescoo torcido havia um bocado de carto 
com letras vermelhas: PUTA COMUNISTA PRETA FORA DAQUI. Aila 
tentava desesperadamente desatar o gato. Eu dizia: Est morto, 
me, no adianta, est morto. Deixa-o. Vamos para dentro. Eu 
trato disso depois.
Por alguma razo os nossos braos envolveram-nos um ao outro, 
juntos, subimos calmamente o caminho de cimento e fechmos a 
porta da frente atrs de ns. Era tudo o que quem quer que 
estivesse a espreitar para a nossa casa teria a satisfao de 
ver.



De onde vinha a obstinao de Aila? Teimosia, antes. Isso tambm 
no fazia parte da sua natureza; antes.
Sonny tinha de definir para si prprio o que  que queria dizer 
com antes. Sim, havia um espao em branco na sua cronologia da 
vida dela; ele sabia pouco das mudanas pelas quais, julgava ele, 
era responsvel. Ele tinha notado que ela tinha cortado o cabelo, 
era tudo - caprichos de mulher. Significou pouco para ele na 
altura.
Tentou manter a calma e restringir-se  razo; submeteu-se  
autocrtica como um homem inteligente, que tinha libertado a sua 
mente atravs da luta. Devia. Tem de haver mtodo. Ele sabia que 
estava a ter dificuldade em aceitar Aila como uma camarada. Tinha 
de se livrar conscientemente da imagem desgastada que tinha de 
Aila. Conscientemente; era esse o problema.
Talvez se (como ele tinha lido, h muito, que os educadores 
jesutas diziam) o carcter fica formado, para toda a vida, nos 
primeiros trs anos da existncia humana, a imagem do parceiro 
amado permanece firme, apreendida nos primeiros anos de uma 
relao. A razo dizia-lhe que se ele conseguisse aceitar Aila 
como uma camarada igual a qualquer outra, e como sua mulher, 
talvez pudessem reviver e aprofundar a antiga vida de Sonny e 
Aila juntos. Seria a vida deles, mesmo que ela tivesse de ficar 
presa, e ele podia ser preso, outra vez, em qualquer altura. Ele 
sabia que para conseguir isto havia certas condies. Aila tinha 
de ser reintegrada como sua esposa. J tinha feito isso. Tambm 
sabia que era necessrio perdoar-se a si prprio bem como ser 
perdoado por Aila - a culpa  comodista e
improdutiva.
Sonny perdoava-se a si prprio; mas isso era ftil. Aila nunca o 
tinha censurado, por isso no havia nada para ela perdoar.

235


E nada no comportamento dela reconhecia que algum a no ser ela 
mesma era responsvel por isso. Mesmo o mal que ele lhe tinha 
feito no era uma queixa dela; ele via isso. Talvez ele se 
sentisse lisonjeado por Aila ter precisado de sofrer o amor dele 
por outra mulher para mudar. Talvez no tivesse nada a ver com 
isso, com ele. Talvez ela se tivesse libertado tal como ele, 
atravs da luta poltica. Ele nunca seria capaz de lhe perguntar; 
a questo da sua amante era irrelevante, agora.
Os advogados compreenderam tacitamente que era intil depender de 
Sonny para influenciar Aila. As consultas, em que ele 
participava, estavam a tornar-se cada vez mais difceis. A defesa 
solicitou e foi-lhe concedida uma prorrogao da deteno 
preventiva para preparao de novas provas. Foi a Sonny que o 
advogado snior se dirigiu em privado, como um mdico que informa 
um familiar, no o paciente, sobre um diagnstico terminal, 
anunciando-lhe que ia retirar-se do caso. Sonny implorou-lhe que 
reconsiderasse; Aila, quando lhe disseram, limitou-se a fazer que 
sim com a cabea em silncio e a aclarar a garganta, no deu 
sinais de querer mudar a deciso do homem. Embora o advogado 
tivesse perdido a pacincia com ela, e ficado furioso, nos seus 
ltimos encontros, ela agradeceu-lhe por tudo o que ele tinha 
feito e - coisa estranha em Aila! - quando ele lhe apertou a mo 
beijou-o de repente na face.

Tera-feira, catorze de Junho.
Foi a tarde em que eu cheguei a casa e o meu pai estava sozinho. 
Estava de p junto ao telefone como se tivesse acabado de o usar 
ou estivesse  espera que tocasse. Cinco horas, a hora em que 
eles, diariamente iam  esquadra para a segunda apresentao, uma 
das rotinas que dita o nosso tipo de vida. Eu estava to treinado 
e disciplinado nela que at me sentia ansioso por eles chegarem 
atrasados.
- Ainda no foram?
- No. - Ficou ali parado.
- Ela foi sozinha?
- No a vi.
- Ela tinha de ir  cidade? - cidade significava o consultrio 
dos advogados.
- Telefonei. No est l.
- Ah, deve estar a chegar.

236


Foram as mos dele que me alarmaram.
- O carro est na garagem.
Reparei nas mos dele; os polegares esfregando a superfcie 
interior dos dedos no inconsciente movimento trmulo daqueles 
homens velhos cujo sistema nervoso est a deteriorar-se.
- Ento deve ter sado com algum. O pai no estava c?
- O Ben deu-me boleia, havia uma reunio, por isso deixei-lhe o 
carro. Ele trouxe-me h uma hora.
- Deve haver um recado. Vou ver  cozinha.
- J vi.
Espermos por ela. O frio do Inverno subindo do cho e a passagem 
das janelas a uma escurido vtrea estilhaada pelas luzes da 
rua, marcavam o passar do tempo embora ele e eu evitssemos ser 
apanhados, um pelo outro, a olhar para o relgio. Desde que a 
durao do tempo que tinha passado no fosse medida podamos 
acreditar que ela voltaria em breve.
- No devias telefonar para a esquadra a dar uma desculpa 
qualquer, que ela est doente ou qualquer coisa assim?
Ele olhou para mim como se o que eu tinha acabado de dizer 
tivesse o efeito de o fazer admitir aquilo que ele estava a 
evitar. Respirou profundamente.
- Isso  a ltima coisa que devemos fazer.
- No vejo porque no. Eles retiram a cauo se ela no se 
apresentar, no ? Podemos pedir uma declarao ao Jasood a dizer 
que ela estava doente.
- Uma desculpa...  um sinal. Alerta-os.
- Para qu?
O pai  que sabe. Tarde, tarde  noite, tarde nas nossas vidas, e 
ela no vai voltar, por qualquer razo ele sabe que ela no vai 
voltar - que direito  que ele pensa que tem de me esconder 
alguma
coisa?
Apetecia-me gritar-lhe que ficasse com as mos quietas.
- Sabe o que lhe aconteceu. Onde  que ela est? Diga-me.
- No sei, Will, estou-te a dizer que no sei onde ela est. Pura 
e simplesmente no sei.
Ah, sim. Quanto menos se souber, melhor;  assim que nos 
protegemos uns aos outros, eu j devia saber isso, sab-lo-ia se 
fosse um deles. Ele estava a dizer-me a verdade.
Fomos para a cama, ele e eu. Ele deixou a porta do quarto aberta 
e eu tambm deixei a minha,

237



no sei para qu. Deitmo-nos afastados na escurido seguindo 
passagens imaginrias de Aila atravs da noite, colocando-a onde 
ela devia estar - os dois, tenho a certeza. Deixei-me dormir j 
de madrugada porque sou novo mas suponho que ele no pregou olho.
Uma jovem veio de manh cedo. Tinha os lbios e as unhas pintados 
de lils e calava botas brancas de plstico, uma rapariga 
vivaa, empregada de uma pequena fbrica de vesturio a caminho 
do trabalho. Qualquer informador que estivesse a observar a casa 
teria pensado que ela era uma das namoradas do filho, ela parecia 
exactamente o tipo de rapariga por quem eles julgam que os filhos 
das pessoas da nossa raa se sentiriam atrados. As suas unhas 
compridas e as pulseiras faziam barulho enquanto ela procurava s 
apalpadelas o bilhete que trazia na mala e que entregou ao meu 
pai. No meio do esforo e tenso daqueles momentos havia um 
incongruente -parte, nos meus sentimentos; orgulho no facto do 
empenhamento no adivinhado do nosso povo na luta, escondido sob 
esta aparncia vulgar.
Os brancos no sabem o que esto a ver quando olham para ns; 
para ela, para as pretas do campo tricotando camisolas para 
vender nas ruas da cidade branca, para os condutores pretos de 
carrinhas que invadiam as ruas, para os mineiros com as suas 
t-shirts a dizer NUM; para a minha irm, Baby, para Aila, a minha 
me. Eu quero dizer-lhes.
O bilhete era de um dos camaradas do meu pai da direco. 
Pedia-lhe para ir a uma certa casa. Eu fiquei, para estar em casa 
quando a polcia chegasse  procura dela. Claro; fui eu que lhes 
abri a porta. Mas ela no estava l. Em tempos, a minha me tinha 
ido embora para no voltar. Agora Aila foi embora e no voltar 
at tudo aqui estar mudado, ela no ser julgada pelas leis que 
os brancos fizeram para ns, no viver do outro lado da savana 
num gueto nem ser uma inquilina ilegal numa rua de brancos como 
esta, onde os vizinhos brancos saram para observar - as mulheres 
de braos cruzados sobre os peitos, os lbios metidos para dentro 
numa impudica expectativa, os homens carrancudos com as mos 
cadas - uma carrinha da polcia estacionada junto do porto 
desta casa e a polcia com as suas armas e ces no alpendre.
A direco achou melhor no envolver Sonny na deciso de que Aila 
devia infringir a cauo e abandonar o pas. Havia a 
possibilidade de, mal o desaparecimento dela fosse descoberto, 
ele ser detido de novo, para interrogatrio. Desta forma, pelo 
menos no se podia provar que ele tinha facilitado a fuga da 
mulher. Ento ela no precisou dele, nem para isso. Ele disse ao 
filho que a direco tinha decidido que ela partisse porque o 
caso contra ela era muito grave e no decurso do depoimento 
informao importante acerca do movimento poderia ser revelada. 
Havia informadores infiltrados no movimento, que se tornariam 
testemunhas do Estado sob proteco. Aila tinha desempenhado as 
suas misses de modo louvvel, mas agora o seu disfarce tinha 
cado. O nome dela seria honrado, a partir de agora, no movimento 
dentro e fora do pas - onde ela ainda podia ser activa. O doutor 
Jasood encarou a perda do seu dinheiro como uma contribuio para 
a luta. Quando Sonny foi com o filho Will agradecer ao antigo 
patro de Aila, ele continuou a escrever um relatrio qualquer 
sobre um paciente enquanto falava.
- Ela para ns vale mais do que dez mil rands. Deus a abenoe.
Houve notcias de Aila algum tempo depois. Chegaram-nos atravs 
de uma terceira pessoa, provavelmente algum como ela tinha sido, 
que podia atravessar inocentemente as fronteiras. Sonny pediu um 
passaporte para poder ter a possibilidade de a visitar um dia; de 
ir ver a Baby e o neto. Mas o passaporte foi recusado, o que no 
era para admirar, embora um dos seus camaradas tenha observado:
- No vejo porque  que ele no havia de ter boas hipteses de 
conseguir um passaporte, agora.
Este comentrio ficou com ele muito depois de se ter resignado  
decepo em relao ao passaporte. Era o eco da aceitao geral 
de que os informadores dos arquivos da polcia descobririam que 
ele j no contava como particularmente representativo do perigo 
do movimento para eles.  o inimigo - a polcia, os ministros da 
lei, da ordem e da justia - que decide quem so os lderes do 
povo;  o grau de ateno, perseguio e hostilizao que 
recebemos que fazem de ns Sonny. Sob os estados de emergncia 
no pas, os comcios pblicos onde os seus discursos tinham tido 
tanto sucesso estavam proibidos. A imprensa, receando aces 
judiciais e suspenses, tinha oportunidade de noticiar apenas as 
palavras de lderes to destacados, to conhecidos no mundo 
exterior

238 - 239


que o governo hesitava em agir quando estes lderes desafiavam a 
lei. Sonny um investigador secreto, til para escrever 
depoimentos que eram publicados ou pronunciados sob o nome dos 
venerveis, ou para aperfeioar o vocabulrio das personalidades 
eminentes a fim de lhes conferir mais peso. Mais uma vez, como j 
tinha feito uma vez, num momento em que a antiga camaradagem, a 
intimidade especial da vida clandestina, parecia tornar possvel 
uma resposta, ele embaraou os outros com a pergunta directa: J 
no sou de confiana?. E houve tais negaes, tais protestos - o 
que  que ele estava a pensar? O que  que se tinha metido na 
cabea?
Mas eles estavam a pensar - tinham pensado, o que se meteu na 
cabea dele, na vida dele, afastava-o do objectivo, do nico 
objectivo que interessava no tempo em que eles no podiam passar 
sem ele - que o que se tinha metido na cabea dele era a 
preocupao com uma mulher. No h lugar para uma segunda 
obsesso na vida de um revolucionrio. Mas ele nunca tinha 
negligenciado a causa, por causa dela! Ela tinha sido abraada, 
em conjunto com a causa, ela tinha relacionado a sua virilidade, 
o seu poder sexual como homem, com a causa! Ela tinha posto 
empenhamento no bater do corao. Ele sentia-se invadido de 
angstia perante esta negao dela (dentro de si mesmo); perante 
esta injustia para consigo mesmo.
E ento de novo, na sua depresso, a ausncia de Sonny e Aila, os 
seus sentimentos deram uma reviravolta violenta; deu consigo a 
pensar - insensatamente - que se a lei tambm lhe tivesse 
proibido Hannah, se essa lei nazi que imaginou de um modo 
repugnante a pureza da raa branca ainda estivesse em vigor, 
ele nunca se teria arriscado. Por Hannah. No podia t-lo feito. 
Porque a necessidade de Hannah, correndo o risco de ir para a 
priso por essa mulher branca, teria posto em perigo a sua nica 
liberdade, a nica liberdade dos da sua raa, a liberdade de ir 
para a priso vezes sem conta, se preciso fosse, pela luta. S 
pela luta. Nada mais valia a pena, era reconhecido, nada. Aquela 
lei imoral t-lo-ia salvo.
Fora do alvo e perigo do desejo.
E ento teve medo de si prprio, ao chegar a uma conjectura to 
perversa. Se ela se revelasse de algum modo no seu rosto, se 
algum pressentisse de algum modo a vergonha a passar pela sua 
cabea, um daqueles que o interrogavam, teria troado dele, cheio 
de satisfao, um dos seus camaradas teria ficado espantado.
Passou os cinquenta e dois. O dia no foi festejado de nenhuma 
forma. O filho no se lembrou do dia dos anos,

240


mas, uns dias depois, chegou um postal. Trazia colada a 
fotografia de uma criana sorridente com um gorro com orelhas de 
Rato Mickey. Afectuosas saudaes (a frmula do postal) e escrito 
 mo, beijos e assinaturas - Baby, Aila e o marido que ele nunca 
tinha conhecido.
Uma mar afastando-se do litoral, a pouco e pouco, mergulhando no 
oceano do tempo. Eles afastam-se, um a um, os amantes, os braos 
dos filhos agarrando-se a ns, a memria do tempo em que a vida 
era impensvel sem eles. Cinquenta e dois. E enquanto ele andava 
ainda triunfante na sua vitalidade e virilidade, aparentemente 
no afectado pelos seus quarenta e poucos anos, o seu declnio 
estava j a processar-se... As suas gengivas (o dentista insistia 
em que era um processo a longo prazo) j estavam a retroceder, a 
prstata (Jasood dizia que talvez tivesse de ser operado) estava 
a ficar aumentada. Perto da terra e feliz para lutar como se 
tinha sentido, a idade estava l, a trabalhar nele.
Porm, aquilo que tinha sido um ideal poltico estava agora a 
realizar-se na sua vida quotidiana em circunstncias que ele 
nunca procurara. A viver com o filho numa casa esvaziada da sua 
vida - dois homens silenciosos, incapazes de aguentar isso -, ele 
foi privado de qualquer obrigao, de qualquer preocupao, 
entregue  causa apenas. E liberto, at, pela ausncia de 
ambio, do fascnio de ser o Sonny das multides, que talvez 
em certa altura tenha turvado a pureza do empenhamento que tinha 
nascido no professor, continuou a trabalhar para a causa, agora, 
todos os dias e metade da noite sempre que precisavam dele. Ele 
vivia como tantos outros da sua raa cujas famlias esto 
fragmentadas na dispora do exlio, com nomes de cdigo, 
actividade secreta, pessoas para quem um verdadeiro lar e 
relaes afectivas so coisas para os outros que ho-de vir.
No houve mais cartas do Alto-Comissariado para Refugiados das 
Naes Unidas. Chegavam telefonemas ocasionais com a voz de Aila, 
ilusoriamente perto do seu ouvido; muito longe, em pases que ela 
no nomeava. Alguns minutos depois ele passava o auscultador 
quele por quem ela esperava; embora j no a tivesse junto do 
seu ouvido, ficando ao lado, ele conseguia ouvir a voz de Aila 
elevar-se pela excitao de estar a falar com o seu filho.
Quando tudo estava esquecido, ele sonhou com ela: Hannah. Um 
sonho curto, brilhante, preciso como uma gravura. Saindo da 
profunda escurido do seu sono, ela sacudiu cada um dos ps como 
um gato,

241


como sempre tinha feito, espalhando pingos de gua enquanto saa 
do banho.
O sonho acordou-o. No conseguiu voltar a adormecer. Por trs das 
suas plpebras fechadas aparecia subitamente e desaparecia uma 
sequncia quebrada de homens com faixas brancas atadas sobre as 
suas caras segurando archotes, homens montados a cavalo levando a 
bandeira com o emblema da sustica, a figura deformada que mais 
uma vez era brandida pelo mesmo objectivo. Extremistas brancos 
estavam a agrupar-se a esse sinal; os pretos que se tinham mudado 
para bairros brancos estavam a sofrer ameaas e vandalismo em 
nome desse sinal. E medo, medo.
Um rudo electrnico soando no silncio: podia ouvir o rudo do 
processador de texto de Will a imprimir. Pelo menos o rapaz 
parecia ter-se tornado bastante estudioso, embora a administrao 
no fosse exactamente o ramo da economia que ele prprio teria 
escolhido para o seu filho. O rapaz trabalhava at tarde noite 
aps noite no que quer que estava a fazer, desde que comprara o 
processador de texto com dinheiro economizado com trabalhos em 
part-time que ele prprio arranjara. No era possvel levantar-se 
e ir ter com o rapaz, dizer-lhe, no consigo dormir, fala comigo. 
Mas o silncio no era o mesmo silncio que havia durante o dia, 
entre eles. Will estava ali, eles ainda estavam juntos.

Embora tivessem recusado a Sonny um passaporte para o caridoso 
objectivo de visitar a mulher e a filha, outros havia que 
atravessavam a fronteira com finalidades declaradamente 
polticas. Industriais brancos, homens da igreja, acadmicos, 
liberais e advogados: eram pessoas pertencentes a estruturas 
profissionais e sociais dentro da lei, mesmo que agora estivessem 
a forar a confiana oficial ao tentarem passar-lhe por cima. A 
maior parte nunca tinha tido, nem procurado, qualquer contacto 
com o movimento de libertao dentro do pas. O instinto de uma 
classe dominante que a levava a procurar no exterior algo da sua 
prpria raa sob uma pele diferente e uma retrica diferente, 
ignorava as oportunidades de fazer o mesmo no seu prprio pas e 
em vez disso levava-os a irem ao estrangeiro para se encontrarem 
com os lderes do movimento no exlio. Pois o temido futuro 
parecia existir j, l, fora do pas. Talvez um pouco da esperada 
recompensa tivesse sido j alcanada, por antecipao, antes de 
chegar c dentro.
Alguns vinham num estado eufrico. Os lderes exilados usavam 
fatos de passeio e no fatos de faxina tipo Castro, podiam ter 
conversas banais acompanhadas de vinho. Naturalmente aquelas 
pessoas no eram mesmo revolucionrias? E at os russos, que os 
tinham armado durante todos estes anos, revelaram estar abertos  
ideia de um jantar em Pretria - no fim tem-se a certeza de que 
nenhum acordo ser to difcil, to improvvel, to turvado pelo 
gs lacrimogneo, to perfurado pelos ferimentos das espingardas, 
to atormentado pela exploso de minas de terra e bombas de 
gasolina, pela preparao de prises que duram toda a vida, a 
documentao de noites de interrogatrio, pelo barulho de camies 
mudando milhares de pessoas das suas casas - nenhum acordo que, 
no fim, no possa ser encerrado no decurso de um almoo de 
negcios.

243


E entretanto, deixe-se que a polcia e a tropa negoceiem, de um 
modo mais eficaz, com os grevistas e os manifestantes, com os 
eloquentes agitadores, pretos e brancos, dentro do pas. E se no 
o conseguirem, h porm outra maneira de negociar: nunca apanhar 
aqueles que eliminam os agitadores, matando por trs de rostos 
tapados e disparando de carros em andamento.
Ao mesmo tempo que enviados dos brancos andavam para c e para 
l, alguns talvez secretamente instrudos pelo governo, vrios 
dos colegas de Sonny obtinham documentos restritos a certos 
destinos e vlidos para perodos curtos. Algum pragmtico de 
Pretria deve ter calculado que isto podia suavizar a dureza das 
sanes do Congresso Americano contra o pas. No havia lgica - 
para ningum estranho ao Departamento do Interior - na 
discriminao praticada em relao aos presos polticos. Um ou 
dois podiam voar para Lusaka ou Londres logo aps terem sido 
libertados depois de um perodo de deteno; os pedidos de 
outros, como Sonny, eram recusados repetidamente. De qualquer 
modo, ele tinha desistido, por enquanto. Responsvel pelos 
assuntos relacionados com a crise na educao dos negros, andava 
demasiado ocupado para se ausentar. E havia cada vez mais 
acontecimentos perturbadores para o preocupar; alguns na zona 
onde ele prprio vivia. Numa casa foram atirados tijolos  janela 
de um quarto; na fachada de uma outra havia manchas de tinta. O 
graffiti deixava o seu rasto viscoso como o do caracol. Numa rua 
muito prxima da casa de Sonny, um casal tinha acabado de se 
mudar e estava a arrumar os mveis quando um grupo de homens e 
mulheres brancos invadiu a casa e lhes ordenou que se fossem 
embora. Um deles gritou para o marido:
- Isto  um subrbio branco organizado em reas e somos bastantes 
para vos fazer sair daqui para fora. Mesmo que tenha sido criada 
uma rea de instalao livre, ns no vamos aceitar qualquer tipo 
de Lei Kak(1) aqui, desde j vos avisamos.
A mulher disse que ia chamar a polcia; o grupo riu-se e 
afastou-se. No admira que se tenham rido; a polcia disse ao 
casal que eles estavam a ocupar a casa ilegalmente: no havia 
base para fundamentar uma queixa.
No meio destas preocupaes um dos lderes chamou Sonny  parte 
numa reunio secreta e informou-o de que ele fazia parte 

*1. .De porcaria. Em africnder no original. (N. da T.)


144



de um pequeno grupo chamado para consultas em Lusaka. Os 
documentos para viajar tinham sido obtidos para todos os seis 
camaradas. Embora nada tivesse sido dito, ele percebeu que a 
direco do exterior deve ter deixado claro que ele tinha de 
fazer parte do grupo: um reconhecimento acima de qualquer dvida 
a respeito dele, incluindo a sua prpria dvida a respeito de si 
mesmo.
Havia uma diferena entre abandonar o trabalho por uma visita de 
famlia e receber ordem para ir integrado numa misso do 
movimento. Havia uma diferena entre sair do avio diante de 
Aila, diante de Baby, como aquele que foi excludo, deixado para 
trs, apresentando-se apenas como marido e pai, e chegar 
integrado num grupo oficial, sendo conduzido dali para se 
encontrar com a direco do mais alto nvel na hospitaleira 
residncia presidencial do presidente Kaunda. No armrio onde ele 
foi procurar uma mala, deparou com o velho saco de viagem que 
Aila costumava ter preparado para ele no caso de ser detido. No 
havia nada adequado para esta viagem. Foi ao Oriental Plaza, onde 
ela tinha escolhido o tecido dos cortinados, e comprou, 
aconselhado pelo dono da loja que tambm era camarada, um saco 
com fecho de correr, com correia de pr ao ombro, bolsas e um 
cadeado com segredo.
Quando voltou da viagem, Will estava  espera dele no aeroporto. 
Will! Will, na orla da multido das chegadas internacionais que 
empurravam para a frente, beijando avs e amantes, fazendo 
exclamaes sobre bebs, bloqueando o caminho de outros 
passageiros que avanavam timidamente atrs dos seus carrinhos. 
Ele sentiu o rosto abrir-se no mesmo sorriso orgulhoso, tonto e 
feliz com que todos os passageiros chegavam a casa; algum deve 
ter informado Will de que o seu pai ia voltar naquele dia e 
quela hora. Will
tinha vindo!
Ficaram  frente um do outro como se estivessem prestes a 
abraar-se. Sonny dizia qualquer coisa, com a sua mo livre j a 
tactear o bolso de dentro  procura das fotografias. Claro que 
ele no podia falar ali e naquela altura acerca do encontro com a 
direco no exlio; tinha de limitar-se a assuntos de famlia.
- Esto em grande forma, j vais ver, havias de ouvir o teu 
sobrinho a cantar, antes sequer de conseguir falar! Baby est 
desejosa que tu apareas, trago-te uma carta enorme dela.
Will tirou-lhe o saco do ombro e foi andando  frente, para o 
parque de estacionamento.

245


- EAila?
Sonny pareceu magoado pela interrupo.
- Conto-te mais tarde. Ela est na Sucia. Perdi-a por um dia. S 
um dia... - Ele instalou-se no banco ao lado do condutor e fechou 
a porta. - Vamos para casa, meu rapaz!
O filho ps a chave na ignio e depois voltou a cabea de forma 
a que o olhar dele no escapasse a nenhum dos dois.
- Fizeram isto ontem. Queimaram tudo.
Eu estava a trabalhar aos sbados num cinema, a conferir os 
bilhetes  entrada, fui para casa depois da sesso da primeira 
matine. Aquela rua  sempre mais movimentada aos sbados do que 
nos outros dias; ningum trabalha aos fins-de-semana e os midos 
no tm escola. E os africnderes e a nossa gente que mora l - 
toda a gente a tratar dos jardins ou a lavar os carros, os midos 
a fazerem acrobacias com as suas pranchas de skate e nas 
bicicletas, as visitas dos africnderes a beber cerveja nos 
alpendres, a nossa galeria de tias e primos a conversarem dentro 
de casa.
No vem muita gente  casa onde ele e eu dormimos. A Baby e os 
amigos j no do risinhos nem bebem coca-cola sentados nos 
degraus. As baratas tm a cozinha por sua conta, onde os acepipes 
eram preparados. As roseiras conseguiram sobreviver, apesar de 
ningum as regar. A maior parte do tempo a casa parece estar 
fechada. Mas naquele dia o pequeno espao entre o porto e o 
alpendre estava cheio de gente e uma multido, que ia engrossando 
 medida que os homens deixavam as pequenas reparaes de 
bicicletas e carros e as mulheres se juntavam a eles, e os 
rapazes dirigiam as pranchas de skate para a atraco, enchendo 
toda a largura da rua. Eu s conseguia ver as costas dos cartes 
presos a cabos ou agarrados pelas mos com os braos levantados, 
erguidos sobre as nossas cabeas. Algum estava a discursar em 
africnder mas no tinha altifalante e eu no conseguia perceber 
nada para alm da agitada aprovao da multido, um horrvel 
rumor de prazer, estranho, um som humano que eu nunca ouvira 
antes, atravessado pelos guinchos de crianas que brincavam por 
entre as pernas dos adultos. Todos brancos. No sei se os nossos 
prprios vizinhos brancos estavam entre eles ou no, a expresso 
do rosto deles desfigurava-os a todos de um modo idntico. 
Apercebo-me confusamente de que alguns da nossa raa estavam ali, 
na periferia,

246


houve uma briga, algum foi esmurrado: havia outros da nossa raa 
sob cujos olhos eu passei enquanto eles ficaram, completamente 
imveis, atrs da cobertura dos alpendres, do outro lado da rua. 
Continuei a andar e penetrei na multido, girando os ombros para 
um lado e para o outro, para abrir caminho, dizendo - eu ouvia-me 
a mim prprio! - Com licena, com licena, deixem-me passar- de 
um modo idiota, sempre o jovem bem-educado, como a minha me nos 
ensinou. Osplacards viraram-se e agitaram-se na minha direco. 
NOSSA CASA BRANCA VO PARA A VOSSA RESERVA COMUNISTAS + PRETOS = 
FIM DA NOSSA CIVILIZAO RUA LONGE DOS BRANCOS. Havia um desenho 
grosseiro que se reconhecia como pretendendo ser ele: os olhos 
grandes e escuros, as narinas arqueadas. Estava atravessado com 
riscas vermelhas grossas. Forcei o meu caminho at  porta da 
frente e levantei as minhas mos, com as palmas para fora, os 
dedos esticados abertos empurrando aquelas caras de onde vinham 
berros e gritos na minha direco como tijolos e pedras, 
empurrando-os para longe deste lar onde ele tinha dito que nos 
proporcionaria um stio decente para viver. O homem que 
discursava estava a andar, saltando para cima e para baixo, meias 
verdes descadas sobre uns sapatos de corredor, tatuagens nas 
grossas e tensas barrigas das pernas vermelhas e nos 
protuberantes e vermelhos ombros nus uma t-shirt sem mangas, uma 
enorme cara vermelha inchada com plos louros eriados e suor, 
lgrimas de raiva - no sei.
- Wat maak jy hier? Wat maak jy hier?(1) - Rugiram eles para mim, 
em coro, como se fosse um cntico.
O que  que eu estava ali a fazer. Sim, o que  que eu estava ali 
a fazer. Mas eu gritei:
- Esta  a casa do meu pai.
E antes de eles poderem decidir o que fazer comigo mergulhei 
outra vez no meio deles e forcei caminho para fora dali. Alguns 
polcias tinham chegado por fim (o oscilante cabo de uma antena, 
numa carrinha, ali ao fundo). Fui puxado dali, salvo por um 
daqueles a quem abri a porta quando vieram fazer uma busca a 
minha casa, para o prender, para levar a minha me. Eles 
dispersaram a multido mas no prenderam ningum nem apreenderam 
os placares; e nesse sbado  noite, enquanto eu dormia na cama 
da minha actual namorada,


*1. O que ests aqui a fazer? Em africnder no original. (N. da 
T.)


247


algum voltou e atirou uma bomba de gasolina para dentro da casa, 
que ardeu at aos alicerces.
Eu estava contente por v-la desaparecer.
O cheiro a fumo.
Quando fui com ele v-la, era um monte de tijolos e madeira 
preta, ainda a deitar fumo. Alguns dos nossos que se aventuravam 
a sair para olhar, ficaram atrs de ns, como que em sinal de 
respeito num funeral. Uma criana balouava-se naquele pelicano 
de gesso - esmagado - que tinha sido um legado do anterior dono 
da propriedade, um branco. Os polcias pretos, enviados depois 
dos bombeiros, para guardar o local enquanto no houvesse sinais 
de investigao oficial, tentaram impedir-nos de entrar naquilo 
que restava das paredes mas ficaram hesitantes quanto ao seu 
dever, quando ele lhe disse que a casa era dele.
Eu segui-o atravs de estilhaos de vidro e montes de madeira 
ensopados em gua, trepando por metal contorcido e derretido, 
inclinando-me com ele por baixo da estante com tecto de chumbo 
que estava suspensa do nico suporte que tinha ficado. O teu 
quarto, disse ele, queixando-se por mim, a minha vida, contra a 
destruio, certificando-se de que eu no me esqueceria. Mas no 
tinha sobrado coisa alguma.
O que tinha sido a cozinha, a sala de estar, os quartos de 
dormir, estava tudo virado do avesso, misturado num nico assalto 
final, de fogo e gua, a ltima das invases que arrastaram e 
destruram as nossas vidas naquela casa, levada a cabo por mos 
hostis. Ele comeou a dar pontaps no cascalho e a sujar os dedos 
afastando restos molhados como se houvesse corpos para encontrar 
e salvar. A respirao dele estava ruidosa e acelerada, de raiva 
ou perto das lgrimas; ou ambas as coisas. Doentes, doentes, eles 
so doentes. Ele no parava de repetir, para mim, apenas o 
observador e no o cmplice da sua emoo. Ns samos e a nossa 
gente que se atrevera a sair ainda estava ali, a olhar.
Os olhos deles estavam fixos nele. O medo invadia-os. Eu percebi 
o que era - eles esperavam que ele tivesse trazido qualquer coisa 
do que estava destrudo. Qualquer coisa para eles. Ele ficou de 
mos abertas,

248


cadas e sujas  frente deles, passou a mo pela testa, num gesto 
de cansao que deixou nela uma mancha de sujidade. E sorriu. Ele 
sorriu e todo o seu rosto produziu um sofrido esgar de dor e 
reafirmao, ameaa e resistncia, marcado em cada vinco da sua 
pele, em cada trao, algo que o rosto humano s era capaz de 
transmitir sob o efeito de alguma inimaginvel exigncia 
interior. Era muito estranho, o que ele lhes trazia.
E depois  claro que a velha retrica aproveitou a oportunidade.
- Ns no podemos ser queimados - disse ele -, ns somos aquele 
pssaro, vocs sabem, chamado Fnix, que volta sempre a 
levantar-se das cinzas. A priso no nos afasta. As bombas de 
gasolina no se livraro de ns. Esta rua, este pas inteiro  
nosso para ns vivermos. O fogo no me deter. E no vos deter a 
vocs.
Flocos de cinza de papel giravam, flutuavam  nossa volta - 
camas, roupa - os livros dele?
O cheiro a fumo, era aquele o cheiro dela.
O cheiro da destruio, daquilo que foi consumido, que ele foi o 
primeiro a trazer para aquela casa.

250


 uma velha histria - a nossa. A do meu pai e a minha. Amor, 
amor/dio so as experincias mais comuns e universais. Mas no 
h duas iguais, cada uma  uma impresso digital da vida.  esse 
o milagre que faz a literatura e que a liga  prpria criao no 
sentido biolgico.
Na nossa histria, como em todas as histrias, inventei aquilo 
que no presenciei eu prprio. Por vezes - bem vejo - disse 
coisas em termos que no teria sido capaz de utilizar, de que no 
teria tido conscincia, na altura em que estavam a acontecer: a 
liberdade que  dada pelo distanciamento. s vezes consigo ouvir 
a minha voz irromper, os meus juzos, as minhas opinies 
sobrepondo-se s que supostamente pertencem a outras pessoas. Vou 
ter que ter cuidado com isso da prxima vez. Por vezes a memria 
abriu-me um alapo e empurrou-me outra vez para a experincia 
como se a estivesse a viver de novo no preciso estado de esprito 
em que eu me encontrava quando a vivi, por isso contei-a assim, 
no presente, com o vocabulrio de que dispunha para me exprimir, 
na altura. E assim aprendi o que ele no me ensinou, que a 
gramtica  um sistema para dominar o tempo. Escrever ele foi, 
ele , ele ser  agarrar o passado, o presente e o futuro. 
Completos, no nos escapando mais.
A histria toda, a histria toda.
I'have that within that passeth show.
Imaginei, a partir da decepo deles, da frustrao da minha 
ausncia, da dor de os conhecer demasiado bem, aquilo que os 
outros estariam a fazer, a dizer e a sentir nos hiatos do que eu 
testemunhei. Todos os pormenores sobre Sonny e as suas mulheres? 
- ah, esses tirei-os das mulheres que conheci. Sonny j no  o 
homem que era.

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Algum me disse isso: os camaradas dele pensam que  por Aila ter 
partido. Mas eu sou novo e chegou o meu tempo, com as mulheres. 
Chegou o meu tempo com a poltica. Eu fui excludo disso, no 
lhes convinha que eu tivesse qualquer papel l dentro, mas eu vou 
ser quem h-de registar um dia o que ele e a minha me / Aila e a 
Baby e os outros fizeram, como era realmente viver uma vida 
determinada pela luta para ser livre, tal como os dias dos 
habitantes do deserto so determinados pela luta contra a sede e 
os dias dos que vivem no meio da neve e do gelo pela luta contra 
a paralisao provocada pelo frio.  isto o que a luta realmente 
, no um slogan de comcio repetido como um refro publicitrio.
Ele foi preso outra vez. Eu acordo antes do nascer do dia, 
ultimamente, e sinto a presena dele l, fechado. Como se 
estivesse a respirar no quarto ao lado na casa destruda pelo 
fogo. Enviei-lhe isto mas no sei se lho daro. No  
Shakespeare; bem, de qualquer modo...

4 da manh.
Um pssaro chilreando a sua cano da manh
Tojo de manta de priso sujo contra os lbios
Pssaro l fora
H muito tempo apanhmo-lo
Arammos o pequeno esqueleto para que fosse pssaro de novo
Pssaro
Vem, eu seguro-te na concha das minhas mos
Afagarei as tuas penas macias
Abrirei as grades dos meus dedos e deixar-te-ei
Partir
Atravs dos espaos das grades de ferro
Voa!
Vem, amante, camarada, amigo, criana, pssaro
Vem
Eu atraio-te com as minhas migalhas, olha -
Pombo
Com um raminho de oliveira no bico
Arremete atravs das grades, parte o pescoo
Contra paredes de pedra.

252


O que ele fez - o meu pai -, fez de mim um escritor. Tenho de lhe 
agradecer por isso? Porque  que no pude ser outra coisa 
qualquer?
Eu sou um escritor e este  o meu primeiro livro - que no posso 
publicar nunca.



Nota Biobibliogrfica


Nadine Gordimer nasceu em Springs (frica do Sul), em 1923. 
Romancista e escritora de contos, galardoada com o Prmio Nobel 
em 1991, Gordimer  conhecida tambm pela sua activa oposio ao 
apartheid. De ascendncia lituana e inglesa,  criada no seio de 
uma famlia judaica da classe mdia. Aos quinze anos, publica o 
seu primeiro conto. Estuda na Universidade de Witwatersrand, em 
Joanesburgo, e faz parte dos movimentos liberais dos anos 
quarenta e cinquenta. Os seus primeiros livros so colectneas de 
contos. Neles analisa as tenses raciais vividas quotidianamente 
no pas. The Soft Voices of the Serpent surge em 1952 e, uns anos 
depois, publica Six Feet of the Country (1956), Friday's 
Footprint (1960), vencedor do prmio WH. Smith and Son em 1961, e 
Not For Publications (1960). Os seus romances estiveram proibidos 
na frica do Sul durante muitos anos, em virtude das opinies 
polticas expostas nas suas obras desagradarem ao regime de 
segregao racial vigente. Um Mundo de Estranhos (1958), Occasion 
For hoving (1963) e O Fim dos Anos Burgueses (1966) reflectem 
estas preocupaes. O Conservador (1974) recebeu o Prmio Booker 
nesse ano. Mais tarde, escreveria Numa Segunda-Feira de Certeza 
(1976), A Filha de Burger (1979), A Gente de July (1981), A 
Histria de Meu Filho (1990) e Ningum Me Seguir (1994). 
Actualmente,  vice-presidente do PEN Club Internacional e membro 
do Congresso de Escritores de frica do Sul.


Data da Digitalizao


Amadora, Fevereiro de 2004
